quarta-feira, maio 11, 2011

El Pasatempo - Uma árvore genealógica que todos os nossos economistas e políticos que nos governam deveriam conhecer

Em Betanzos, uma povoação galega, sede de concelho e situada perto d'A Corunha, onde para além de um centro histórico simpático, existe ainda um parque temático conhecido como El Pasatempo que é único no seu género.

Trata-se de um "parque enciclopédico", construído no final do século XIX/início do século XX por 2 irmãos, os García Naveira, beneméritos nascidos em Betanzos que, após fazerem fortuna no estrangeiro, regressaram à sua terra Natal onde decidiram contribuir para o bem-estar dos seus conterrâneos, construindo escolas, obras de assistência social e este parque, no qual incluíram alusões às maravilhas que encontraram nas suas viagens à volta do Mundo, isto para além de várias lições sobre os aspectos do quotidiano.

Entre as referências à pirâmide de Quéops, ao canal do Panamá ou ainda a reconstituição de uma gruta, com estalactites e estalagmites, é possível encontrar esta curiosa árvore genealógica do Capital:

Vendo associados ao Capital, termos como "constancia", "ahorro", "firmeza", "honor", "economia", "trabajo", "orden", "prevision", "entendimento", "voluntad", "caracter" e "rectitud", leva-nos a colocar a questão: Serão os nossos governantes demasiado evoluídos ou estes irmãos García Naveira é que eram mesmo do século passado?

sexta-feira, maio 06, 2011

Pelos Pirinéus VI - Incursão às Spoulgas de Bouan, contra manadas de vacas francesas

Último dia: De Norrat às Spoulgas de Bouan

Já há alguns anos, desde que pela primeira vez visitei a região e li alguma coisa sobre o património e a história da mesma, que queria visitar as Spoulgas de Bouan. As spoulgas, da deturpação em língua occitana do latim spelunca, significando gruta ou caverna, são grutas que foram fortificadas durante a Idade Média, para controlar o território com fortificações de baixo custo, comparativamente ao custo de construção de castelos. A sua utilização situa-se entre o século XII e o século XIII.

As da aldeia de Bouan, no vale do Ariége, rio que dá o nome a este departamento francês, são as que se encontram em melhor estado de conservação no país, e graças aos maciços calcários que ladeiam o vale, permitiam o controlo da histórica via comercial que ligava a região da Catalunha à região de Toulouse.

Assim, o percurso escolhido partia da aldeia aldeia de Norrat, na comuna de Miglos, famosa pelo seu castelo, passando pelo Col de Larnat, a 1194m de altitude. Ao contrário das anteriores, a maior subida viria a ser feita no regresso.

Fonte: Geoportail. A azul, os percursos alternativos / atalhos.


O início do percurso, na aldeia de Norrat:


O cenário era mais uma vez lindíssimo, já que o trilho subia por uma densa floresta. Contudo, a partir de certa altura, certos... indícios no trilho e um inconfundível... aroma, deixavam adivinhar que ia em breve ter um encontro com algumas criaturas comuns pelas redondezas.

E eis que elas apareceram! Uma manada de 2 ou 3 dezenas de vacas a pastarem em pleno trilho! De repente senti-me um intruso quando todas elas pararam de pastar e ficaram a olhar-me fixamente. Confesso, e não querendo fazer qualquer analogia pejorativa mas tão somente comparando sentimentos, que já não me sentia tão inconveniente e tão intruso desde que há uns anos atrás entrei num café em Salamanca e descobri que todo ele estava preenchido por senhoras idosas vestindo casacos de pele, sendo que muitas delas pararam de conversar e bebericar para me olharem fixamente. Eis aqui três bonitos exemplares que se encontravam mais a descoberto (não falo das senhoras de Salamanca mas sim das vacas do trilho entre Norrat e Bouan):

Assim, por uma questão de precaução motivada até pelo meu desconhecimento em termos de temperamento de gado bovino de além Pirinéus, optei por continuar pelo caminho florestal que ali ao lado fazia uma curva, embora me prolongasse um pouco o caminho. O insólito voltou a manifestar-se mais à frente na forma de um sinal de perigo a alertar-me para a aproximação de uma passagem canadiana.


... que mais não é que uma grelha colocada no chão para impedir o trânsito de gado numa abertura da cerca. O canadiano é de facto um indivíduo que consegue ter boas ideias. O pior foi mesmo o aroma de natureza morta de origem intestinal bovina que por ali se fazia sentir ...


Ultrapassada a zona que deveria estar interditada por ameaça à saúde pública, para além da passagem canadiana, não tardou muito para que chegasse finalmente à passagem de Larnat. Pausa para respirar, beber água e fotografar.


Um olhar para trás, para o vale do Vicdessos...

... e para a frente para o Vale do rio Ariège que, para a direita, leva a Pas de la Casa, em Andorra. O meu destino era mesmo chegar ao fundo do vale, a Bouan, depois de passar pela pequena aldeia de Larnat a meia encosta.


Bouan é uma aldeia muito pacata onde abundam duas coisas: o verde e a água. O silêncio é apenas quebrado na parte mais baixa da povoação pelo som abafado do trânsito que circula na RN20, que se estende paralelamente ao rio.


Chegando finalmente junto à base do maciço calcário no qual se encontram as Spoulgas , fui obrigado a enveredar por (mais) uma passagem anti-gado para ter acesso ao trilho, algo mal conservado, que me levaria às grutas.

... não sem antes ceder passagem a mais uma manada que, pelos vistos se sentiu incomodada pela minha presença e decidiu ir dedicar-se ao pasto em zona mais afastada.

Para minha surpresa, após enveredar pelo trilho, dei de caras com um bezerro que havia ficado para trás e me encarava, provavelmente com a mesma inquietação que me apoquentou quando olhei para a direita e vi aquela que seria provavelmente a mãe do dito bicho, correndo na minha direcção, vinda do prado. Após um primeiro pensamento que foi "Ainda bem que trouxe pensos rápidos!", decidi que seria mais produtivo e saudável tentar convencer o bezerro a poupar trabalho à mãe e consegui, após algum esforço, que ele encontrasse uma saída do trilho que o levasse também ao prado. Finalmente juntos, bezerro e mãe decidiram ignorar-me e juntar-se ao resto da manada... para meu alívio.

Com caminho livre, prossegui em frente e, cerca de 15 minutos depois cheguei finalmente aos primeiros vestígios de fortificação. Uma entrada que deveria integrar-se numa primeira muralha que provavelmente cercaria as Spoulgas.

Mais à frente, na parede rochosa, era possível distinguir arranques e derrubes de muralhas. Fica a ideia de que as grutas seria apenas a parte mais recuada de um sistema defensivo relativamente importante.

A algumas dezenas de metros, finalmente cheguei à Spoulga mais importante. Originalmente teria dois muros defensivos, o primeiro, altíssimo, do qual ainda se vêem vestígios à esquerda e que fecharia a base, e um outro que se encontra em excelente estado de conservação, com os merlões (o nome dos elementos do "recorte" que vemos no topo das muralhas) ainda bem visíveis.

A ocasião era boa demais para desperdiçar a oportunidade de praticar geocaching, visto que nesta Spoulga se encontra uma geocache. Sabendo, pelas pistas que esta se encontrava numa plataforma junto à muralha superior, foi necessário entrar na gruta e depois trepar por uma passagem de cerca de 5 metros até à plataforma. Ultrapassadas as vertigens, a busca terminou com sucesso e com o meu primeiro registo numa geocache francesa!

terça-feira, abril 19, 2011

Pelos Pirinéus IV - Caminhada até ao circo de Bassies

2° Dia: Vicdessos - Bassiès

Esta caminhada consistiu o maior desafio das férias e embora a distância fosse de cerca de uma dúzia de quilómetros, houve ali 2 ou 3 deles que me pareceram 150! Contudo, valeu bem a pena pois o circo glaciar de Bassiès, um vale situado a cerca de 1.600m de altitude, largo, cavado pela deslocação de um glaciar ao longo de milhares de anos, é simplesmente assombroso.

A primeira parte da caminhada decorreu pelo vale do Vicdessos, passando pela povoação de Auzat, outrora local de um importante centro de produção de alumínio que constituia o motor económico do vale. Aliás, a história da produção de alumínio neste vale remonta ao início do século XIX tendo terminado em 2003 com o encerramento da fábrica que deixou cerca de duas centenas de pessoas no desemprego. É interessante ver que após esse encerramento, bastantes habitantes estabeleceram negócios por conta própria e o espaço da fábrica foi reconvertido para criar um parque desportivo, articulando-se com uma nova estratégia de negócios local fortemente voltada para o turismo. Inclusive, uma das naves da fábrica foi preservada, sendo reconvertida num espaço de pavilhões/armazéns para os novos negócios locais.

Quanto à povoação de Auzat, situada na confluência de 2 vales e atravessada por um curso de água, é uma localidade simpática e calma, que convida a um passeio pelas suas ruas.

Saíndo de Auzat, o percurso foi feito por uma pequena estrada até à base de partida do trilho que leva a Bassiès, uma espécie de área de serviço com estacionamento, espaço de merendas e painéis com todas as informações e recomendações necessárias para realização do percurso. (Entre várias recomendações, das quais faziam parte, por exemplo, "Não faça este percurso sozinho" e "Leve um telemóvel", consegui cumprir a que dizia "Use calçado adequado" e ainda "Não se esqueça de levar água").


O início do "off-road" faz-se por um pequeno trilho que leva a uma pequena ponte de madeira que atravessa o ribeiro de Vicdessos.


A partir da ponte, o percurso inicia uma subida pelo meio da floresta. Recordo-me vagamente que nesta altura fiquei surpreendido pela reduzida inclinação da subida. O pior estava para vir... logo a seguir à primeira curva.

Mais à frente, um cruzamento de trilhos coincide com um curso de água criado pelo degelo em cotas superiores.

Pelo caminho fiquei com a sensação que a fauna local se resumia a lagartixas. Sem exagero, devo ter visto / ouvido mais de 2 centenas destes pequenos répteis, para além de alguns lagartos verdes de cabeça azul, uma serpente e várias rãs que encontrei em cotas mais elevadas e que, aparentemente, já tinham aderido com grande entusiasmo à Primavera. Num momento de paragem, quem se deixou fotografar mais facilmente foi mesmo esta mariposa:

Se de um lado tinha uma mariposa que se dava à pose fotográfica, já do outro lado a vista era líndissima, com a barragem de Soulcem a surgir entre a Ponta de Prata (2654m) à direita e o Pico de Malcaras (pico visível de 2792m) à esquerda.

Já no cimo desta subida, quando a água do cantil começava a escassear, encontrei esta fantástica fonte com uma água geladíssima, que me fez lembrar a fonte Paulo Luís de Martins na Serra da Estrela. Recarregadas as baterias, e o cantil, a caminhada prosseguiu.

Subitamente, à saída da floresta (toda ela de faias) a paisagem mudou radicalmente, passando do verde ao cizento do granito. À esquerda vê-se a passagem para o Circo de Bassiès, do qual chega o curso de água que se vê à direita.
Finalmente, a chegada ao Circo de Bassiès, cuja entrada se faz por esta simpática ponte de pedra.

Sim! Eu estive lá!
Vista da entrada do Circo com a Lagoa d'Escales em primeiro plano.

Nesta zona alta do vale, abundam os Orris, construções de pedra seca (sem ligante como argamassa ou cimento) que serviram de abrigo aos pastores que outrora por aqui abundavam. Há zonas onde os Orris chegam a formar verdadeiras pequenas aldeias.

Um pouco mais à frente, surge a Lagoa Maior de Bassiès. Neste ponto, a paisagem e o silêncio criam uma combinação fantástica.

Quando o trilho sobe um pouco, tem-se outra perspectiva da Lagoa Maior. À direita avista-se já a curva do Circo onde se localiza o Refúgio de Bassiès.


Mais à frente encontrei outro Orri, este bem camuflado sob a vegetação, com o pormenor de à frente deste ser possível ainda distinguir um perímetro onde ficaria guardado o gado (em primeiro plano). Foi por esta altura que me cruzei com as últimas pessoas que encontraria até ao meu regresso à estrada na base da montanha. Para abrilhantar este encontro, no preciso momento em que as pessoas me apareceram à frente, a neve sob os meus pés cedeu subitamente e fiquei enterrado até aos joelhos. Levantei-me rapidamente (creio que terei simulado sacudir a caspa dos ombros em total desprezo) e cumprimentei-os tentando manter ao máximo uma postura de dignidade.

Finalmente, algumas horas após a partida de Vicdessos, cheguei finalmente à vista do objectivo: o refúgio de Bassiès. Este refúgio oferece, a partir de Maio e até ao início dos primeiros nevões, dormida e serviço de refeições a quem queira aqui pernoitar para fazer uma pausa nas caminhadas. Algo em que vale a pena pensar para uma próxima vinda a esta zona. Para já, só as estruturas de apoio exteriores e a zona de abrigo de Inverno (para quem queira passar a noite ali ao abrigo dos elementos) estão disponíveis.

O Circo de Bassiès continua até ao Pico Vermelho de Bassiès (2676m) ponto que será interessante visitar numa próxima ocasião. Na ocasião o momento foi dedicado a recuperar forças e a um reforço de alimentação.

Um pouco por todo o lado, abundam os pequenos narcisos que pintam a paisagem de amarelo.

A ideia original era prosseguir em direcção a esta elevação (mais uma subida a pique) para descer na outra vertente, para o outro vale que confluía para a localidade de Auzat. Contudo, a presença de neve na passagem, a hora, e o facto de já não estar propriamente com as forças todas, levaram-me a optar pelo regresso pelo mesmo caminho.
No final da jornada, ficou o registo de um local fantástico ao qual voltarei sem dúvida no futuro integrado numa caminhada de 2 ou 3 dias. O dia seguinte foi dedicado ao repouso para, na última caminhada, conseguir estar em forma para cumprir finalmente um objectivo com alguns anos: ir às Spoulgas de Bouan.

Pelos Pirinéus III - Caminhada pelo Vale do Vicdessos

1° dia: Vicdessos - Dolmen de Sem - Minas de ferro de Rancié - Cataratas do Caraoucou - Arconac.

Ora bem, apos assentar arraiais por Vicdessos e tendo alguns percursos de caminhada em mente, o primeiro dia foi dedicado a uma pequena caminhada que serviu para desentorpecer as pernas e para preparar o dia seguinte, esse sim marcado para uma caminhada mais a sério.

Escolhi a subida até ao dolmen e à aldeia de Sem decidindo depois o percurso de regresso. Acabei por fazê-lo num percurso junto às cataratas do Caraoucou e valeu bem a pena.


Primeiro, uma subida ao monte do calvario, no centro da povoaçao de Vicdessos, para admirar a vista.


O dolmen de Sem situa-se numa saliencia da encosta do Pico do Risoul, uma impressionante parede rochosa (ver mapa em cima) na qual foi construida uma Via Ferrata, um percurso aventura, feito com cabos de aço, cordas e pontes que desafiam as vertigens dos participantes.


Apos um pequeno trajecto pela estrada, surge o inicio do caminho pedestre.



Apos algum esforço, finalmente o dolmen à vista!


Na verdade, este monumento megalitico é de origem natural e foi concebido pelo glaciar que outrora percorria este vale e aqui depositou estas rochas.


A paisagem que daqui se avista é fabulosa, sendo possivel avistar Vicdessos, Auzat e, um pouco à esquerda, a plataforma onde se encontram as ruinas do castelo de Montreal de Sos. Para la das ruinas avistam-se os montes que seriam percorridos no dia seguinte.


Daqui se avista também a aldeia de Sem, pitoresca aldeia com uma milenar historia mineira que atingiu o seu auge com as minas de ferro de Rancié, em parte visiveis no flanco do monte que domina a aldeia. Curiosamente, os habitantes desta aldeia conseguiram ainda na Idade Média obter os direitos de exploraçao e comercializaçao do minério de ferro, direitos que so chegariam ao fim no inicio do século XX, com o fecho das minas.


Para NE, avista-se o castelo de Miglos, aquele pontinho branco na confluencia das duas montanhas que formam o vale.


Até Sem, o caminho nao esconde os sinais de uma Primavera que este ano chegou anormalmente mais cedo.



Ja na aldeia pode encontrar-se o monumento de homenagem aos mineiros. Cada familia (homens, mulheres e crianças) trabalhava nas minas e vendia, a comerciantes que aqui chegavam com mulas, o produto do seu trabalho diario. Contudo nao era facil obter a profissao de mineiro. So o podia ser quem pertencesse a uma familia de mineiros ou casasse com um membro de uma familia de mineiros. Este monumento aproveita a entrada da galeria mais tardia da mina.





O unico moinho de Sem ainda de pé.


... e o inicio do caminho de regresso ao fundo do vale, seguindo o antigo trilho de comércio do minério de ferro.


Um ultimo vestigio das minas: os restos de um vagonete de transporte de minério no espaço à entrada da galeria mais a jusante no vale, no local onde se processavam as transacçoes comerciais.


O inicio das cataratas que se prolongam por varias dezenas de metros.


Ja no fundo do vale, cruza-se a estrada em direcçao à aldeia de Arconac. A velocidade é bastante limitada mas aqui eu também ja nao tinha muita energia.




Finalmente, o regresso a Vicdessos.

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