quinta-feira, agosto 12, 2010

Férias 2010, Parte 9 – O Forte Hackenberg, obra-prima da Linha Maginot

Após o trauma imenso da I Guerra Mundial, que custou à França 1,4 milhões de mortos, mais de 250 mil desaparecidos, para além de ter deixado mais de 3 milhões de hectares impróprios para a agricultura e ter resultado em mais de 800.000 edifícios destruídos, o governo francês idealizou uma linha defensiva que fosse capaz de travar qualquer ataque futuro vindo da Alemanha.

Essa linha defensiva empreendida a partir de 1930, era formada por uma série de fortes subterrâneos fortemente armados, campos de minhas, fossos e outras barreiras, e estendia-se do Canal da Mancha até ao Mediterrâneo, tendo sido baptizada com o nome do Ministro da Guerra em 1930: André Maginot.

O dispositivo era mais impressionante na fronteira com a Alemanha e com a Itália, sendo mais frágil na fronteira com a Suiça, Luxemburgo e Bélgica, falando-se até de duas Linhas Maginot: a mais conhecida a Norte da Suiça, e a “Petite Ligne Maginot” na fronteira com a Itália.

Durante a II Guerra Mundial contudo, os alemães, sabendo que não podiam investir directamente a Linha Maginot, tiveram uma ideia genial: contornar a Linha pelas Ardenas. Apesar de tudo, não se pode dizer que a Linha Maginot não serviu de nada pois, apesar de apenas se ter iniciado o combate na zona de Hackenberg, por exemplo, dois dias após a queda de Paris, os soldados franceses não se renderam e continuaram a combater até depois do Armistício, tendo sido necessário ao novo governo de França enviar oficiais em pessoa aos fortes para dar ordem de rendição.

Contrariamente a todas as tradições militares, segundo as quais os soldados das guarnições que não era derrotadas podiam regressar livres ao seu país, os soldados destes fortes foram feitos prisioneiros pelos alemães que ocuparam os fortes.

4 anos mais tarde, seria a vez dos Aliados experimentarem a resistência da Linha Maginot agora defendida pelos alemães.

 

O Forte Hackenberg

Situado no monte com o mesmo nome, junto à aldeia de Veckring perto de Thionville, o Forte Hackenberg era o maior forte da Linha Maginot, estendendo-se por 12km de túneis a uma profundidade variável de entre 30 a 90m sob a terra, sendo formado por uma couraça de betão armado que, em algumas zonas tidas como mais expostas, tinha uma espessura de 3,5m.

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Vista sobre o monte Hackenberg, que é a mesma coisa que dizer, sobre o Forte Hackenberg.

 

Foi construído para servir de referência na defesa da região, estendendo-se em cerca de 10km de galerias subterrâneas que interligam 19 blocos de combate diferentes. No seu interior, podia albergar até 1.000 soldados, dispondo de dormitórios, cozinhas, refeitórios, cafetaria, geradores eléctricos, solários, salas de comunicações e um armazém com capacidade para 38.000 toneladas de munições.

Tinha duas entradas: uma para munições e outra para a tripulação (e não guarnição) sendo que, na sua máxima capacidade, podia resistir, sem qualquer reforço ou ligação com o exterior, até dois meses.

 

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Entrada das munições guarnecida com metralhadoras e canhões anti-tanque. Na fachada é visível a antena de rádio.

 

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Entrada das munições com chicane protegida por metralhadoras.

 

No seu interior as deslocações de homens e materiais eram feitas a pé ou consoante as distâncias ou o peso, através de um comboio eléctrico para não viciar a atmosfera. Aliás, o forte, para além de ter filtros nas entradas de ar, tinha uma atmosfera com pressão superior à do exterior para impedir ataques de gás.

Durante a Ocupação, o Hackenberg foi parcialmente desarmado pelos alemães, tendo o equipamento sido retirado para guarnecer o Muro do Atlântico. Também para aqui foi transferida uma fábrica alemã para ficar a salvo dos bombardeamentos dos Aliados.

 

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Galeria onde a locomotiva diesel que trazia as munições do armazém exterior situado no vale, era trocada por uma locomotiva eléctrica.

 

A visita ao Hackenberg, que dura 2h a 2h30 e a uma temperatura de 12º (que frio!), começa pela entrada do depósito de munições, passando-se pelas cozinhas, aquartelamentos, fábrica de electricidade e outras instalações de vivência diária. O forte era de tal dimensão que os tripulantes de um posto de combate podiam não conhecer os tripulantes de outro posto situado noutra extremidade do forte.

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Geradores eléctricos do Hackenberg ainda em funcionamento

 

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Um dos vários depósitos de água com capacidade para 54.000 litros

 

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Um pormenor do sistema anti-incêndios. De forma coerente, é explicado que, em caso de incêndio, a primeira coisa a fazer é gritar “Fogo!”. Faz sentido. Em termos de protecção anti-fogo também as galerias do depósito de munições estavam viradas para o exterior para desviar uma eventual explosão para o exterior enquanto uma porta de quase 50cm de espessura de betão revestida a aço, fechava automaticamente em 6 segundos para selar o forte em caso de incêndio no depósito de munições.

 

Um dos aspectos que saltam à vista é a forma como o interior do forte foi musealizado, tendo sido dotado de manequins devidamente fardados e equipados e tendo sido refeitas as salas de acordo com o seu aspecto da época.

Ponto culminante da musealização é o museu de armamento com centenas de peças tanto da 1ª como da 2ª Guerra Mundial.

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Posto de comunicações que, para além de encarregue de manter o forte em ligação com o exterior, também coordenava os postos de observação com os postos de combate de modo a regular o tiro das dezenas de peças do forte

 

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O Museu de armamento

 

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Indispensável no forte era hospital (medicina externa, dentária, bloco operatório, R-X,…) devidamente equipado. Escolhi esta imagem pela dignidade apresentada pelo manequim que, mesmo em ceroulas, ostenta ainda a boina do seu fardamento.

 

A visita prossegue depois no comboio eléctrico até ao Posto de Combate nº9 percorrendo durante alguns minutos as galerias frias e húmidas do Hackenberg. Aqui, sente-se ainda mais o frio devido à corrente de ar. Confirmam-se também as palavras do guia segundo o qual este comboio é um digno exemplar de TGV, isto é, Train à Grande Vibration (Comboio de Grande Vibração).

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O comboio de transporte, agora de turistas, em funcionamento. Em 1940, foi este mesmo percurso que o Rei George VI de Inglaterra realizou na sua visita ao forte.

 

Já no posto de combate nº 9, é possível ver em operação uma das torres de artilharia eclipsantes, restaurada e reparada, capaz de debitar até 15 tiros por minuto de obuses de 135mm. Situada num nível acima dos túneis inferiores, era acessível através de uma escada em caracol ou de um elevador.

 

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A torre eclipsante vista do interior do posto de combate. A sua operação envolvia quase uma dezena de homens. As munições chegavam por monta-cargas a partir do subterrâneo do nível inferior e, depois de disparadas, os seus invólucros desciam novamente para o subterrâneo através de um sistema de escorrega em parafuso.

 

Depois da torre eclipsante, a visita prossegue para a casamata de artilharia com 3 canhões pivotantes de obuses de 135mm que, no exterior são protegidos por um fosso. O conjunto é impressionante. Ao todo, na sua máxima capacidade de operação, o Hackenberg conseguia disparar 4 toneladas de obuses por minuto!

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O guia demonstrando o funcionamento do canhão pivotante de 135mm. À direita é possível ver o mostrador eléctrico que indicava as referências de tiro directamente a partir do posto de comando, um pouco à maneira das instruções de marcha dos navios do século passado. À esquerda, vê-se a alavanca de extremidade amarela do lançador de granadas destinado a atingir inimigos que conseguissem alcançar o fosso que protege a casamata.

 

A visita prossegue depois para o exterior, sobre o posto de combate nº 9, de onde se avista a planície a Este do forte. Numa curta caminhada retemperadora, especialmente em termos térmicos, os visitantes circulam do Posto de Combate 9 para o Posto de Combate 8 que foi o ponto forte da resistência alemã ao avanço dos Aliados em 1944. A partir daí o percurso volta a ser subterrâneo.

 

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Vista da parte superior do Posto de Combate 7 a partir do Posto de Combate 9. A planície é ilusória pois, a poucos metros, existe um muro abrupto.

 

Ainda sobre o Posto de Combate 9 é possível ver a parte superior da torre eclipsante em operação, capaz de efectuar disparos com um alcance de 12km a 360º.

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Severamente danificado pelos combates de 1944, a casamata de canhões de 135mm do Posto de Combate 8, ainda deixa perceber a violência do bombardeamento a que foi sujeita pelos soldados do General Patton que, a muito custo e graças a informações de oficiais franceses, conseguiram colocar um canhão em boa posição para deixar a casamata fora de combate. Beneficiaram ainda do facto de esta estar virada para França, facto que levou a que tivesse sido construída com metade da espessura das casamatas do lado Oriental.

 

O Hackenberg viria a ser reocupado e reactivado durante a Guerra Fria, destinando-se a servir de bastião contra um eventual avanço Soviético. Nunca viria contudo a ser totalmente rearmado, até por uma questão de orçamento, tornando-se inútil após o desenvolvimento do programa nuclear francês, que se tornou um elemento estratégico dissuasor por excelência.

Progressivamente arruinado, viria a ser cedido a uma associação de habitantes locais voluntários, a AMIFORT, que se encarregou das reparações necessárias e da musealização do forte. Actualmente guiam os visitantes durante as visitas e efectuam todos os trabalhos de manutenção necessários para que a memória do outrora orgulhoso e inexpugnável Forte Hackenberg, assim como dos soldados que o guarneciam, não caia no esquecimento.

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A visita ao Hackenberg foi sem dúvida um dos momentos altos das duas semanas de férias!

A visitar: AMIFORT: Ouvrage A19 Hackenberg

quarta-feira, agosto 11, 2010

Férias 2010, parte 8 – Como fazer de uma fortaleza uma atracção turística de referência

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A Cidadela de Besançon é uma das 12 fortalezas francesas reformuladas por Vauban, engenheiro militar de eleição de Luís XIV, que actualmente estão classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade.

Situada numa posição estratégica invulgar – numa forte elevação que ao mesmo tempo é um istmo num círculo quase perfeito do trajecto do rio Doubs, o Monte Saint-Étienne, constituiu durante 4 séculos o ferrolho da defesa da cidade de Besançon, sendo ainda coadjuvado por 2 fortes menores construídos nos montes adjacentes, na outra margem do rio.

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A cidade começou a ser fortificada por Vauban em 1668, aquando da primeira conquista da região pelos franceses. Devolvida à coroa espanhola, seria definitivamente anexada pela França, tornando-se Besançon uma importante praça de fronteira. Foram necessários 30 anos para construir não só a Cidadela, que se estende por 11 hectares e chegando a possuir muros de 20m de altura e 6m de espessura, mas também todo o conjunto de fortificações da cidade.

Albergando guarnições e inclusive uma escola de cadetes, viria durante o séc. XIX e até 1947 a servir de prisão do estado. Os últimos combates a que assistiu ocorreram em 1944 quando os americanos a conquistaram aos Nazis. Foram estes últimos, aliás, que marcaram os últimos episódios sombrios da história da Cidadela quando se serviram do forte para aprisionar e torturar cidadãos e resistentes, tendo aqui executado cerca de uma centena de pessoas por fuzilamento.

Um memorial, cujo elemento em destaque são os 4 postes de fuzilamento, situado junto ao poço fortificado, evoca a recordação das vítimas da barbárie.

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Tendo sido adquirida ao exército pela cidade em 1959, depressa se formularam planos para fazer desta fortaleza algo mais que um um conjunto arquitectónico militar de referência, procurando fazer dela um sítio turístico de referência.

Actualmente, é possível passar um dia inteiro dentro da Cidadela, encontrando aí 4 museus permanentes, para além de exposições temporárias, assim como alguns estabelecimentos de restauração, sendo que um deles me fica na memória devido a um infeliz incidente envolvendo queijo... Isto sem contar com o circuito das muralhas que, em muitos troços, é de cortar a respiração.

 

Assim, é possível visitar:

O Museu da Resistência e da Deportação

Museu que, ao longo de 20 salas, nos evoca a ascensão do nazismo na Alemanha e os horrores que se lhe seguiram. Evoca ainda a realidade vivida em França durante a Ocupação e os horrores da Deportação. Algumas das salas são verdadeiramente chocantes, não sendo recomendáveis a crianças ou pessoas impressionáveis.

Garanto que se trata de uma visita difícil de esquecer.

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Museum

Agrega o Museu da Evolução e História Natural para além de:

Jardim Zoológico

Com inúmeros exemplares do Mundo Animal, desde tigres e leões até espécies mais comuns da fauna local, sendo ainda possível visitar o espaço da “Pequena Quinta” onde se caminha entre coelhos, galinhas, cabras, entre outros. Aliás, relativamente aos caprinos, é interessante verificar que algumas andam à solta pelas muralhas mostrando que, se problemas têm, as vertigens não são certamente um deles.

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Aquário

Com diversos tanques contendo espécies sobretudo do grande rio Ródano, nas suas várias etapas, para além de tanques exteriores onde, especialmente para delícia dos mais novos, os visitantes são encorajados a acariciar os peixes que não se mostram minimamente incomodados com isso.

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Insectário

Aqui encontra-se uma miríade de insectos, dos mais comuns aos mais exóticos.

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Noctário

Um espaço curioso onde, ao entrar, o visitante entra num fuso horário completamente diferente, mergulhado na penumbra e em silêncio (cortado apesar de tudo por alguns gritos histéricos de visitantes), podendo observar roedores de hábitos nocturnos. Tudo isto em diferentes cenários, desde as quintas, passando pelas cozinhas e pelos esgotos, por exemplo.
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Para aprender algo mais sobre as tradições da região da Franche-Comté, é indispensável uma visita ao Musée Comtois, onde todos os aspectos da vida rural dos seus habitantes são referidos, desde os utensílios ao trabalho, passando pela religião e pela alimentação.

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Não se pode esquecer também a exposição do Espaço Vauban que evoca a obra deste génio militar, cujos serviços eram inestimáveis quer na construção de fortificações, quer em operações de cerco, tendo inclusive realizado e publicado alguns estudos sobre esta matéria.

O lado menos conhecido de Vauban era a sua faceta social e reformadora que levou, por exemplo, a que fosse proscrito na fase final da sua vida pelo próprio Luís XIV, por ter publicado uma obra na qual denunciava a injustiça social que eram os impostos sobre produtos de primeira necessidade, sugerindo ainda a criação de um imposto na forma de um dízimo ao qual estariam sujeitos todos os escalões sociais, desde o povo à Coroa.

Para terminar, fica uma foto obtida numa exposição temporária dedicada a… caixões! Contudo, não se tratam de caixões “normais” mas de invulgares invólucros em uso no Gana e no Reino Unido que evocam aquilo que os defuntos foram em vida ou, simplesmente, que tenham sido escolhidos antecipadamente pelos seus ocupantes.

Eis portanto uma fotografia mostrando um caixão em forma de Mercedes Benz, outro em forma de aeronave das linhas aéreas do Gana (será ironia do moribundo conhecendo-se a fiabilidade das transportadoras africanas?) e, last but not the least, um singularíssimo caixão em forma de saca-rolhas que cumpriu a sua missão. Destinar-se-ia a um produtor de vinho ou a um singular apreciador? Fica a dúvida.

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A ver:

Site Oficial da Cidadela
As Fortificações de Vauban

terça-feira, agosto 10, 2010

Intermezzo - I'm killing for McNuggets

Tem andado a correr Mundo o vídeo registado por uma câmara de videovigilância de um estabelecimento McDonalds nos EUA no qual uma mulher decide manifestar, com aquilo que se pode descrever como sendo alguma exuberância, a sua discordância contra o facto de os funcionários se recusarem a servir-lhe Chicken McNuggets, alegando que os mesmos só poderiam ser servidos em horário de almoço e que ainda se encontravam em horário de pequeno-almoço.

Diga-se em abono da verdade, e não sendo eu um cliente habitual deste tipo de estabelecimentos, que é irritante a profusão de preciosismos que encontramos no modus operandi das cadeias de fast food. Ao fim e ao cabo, o que estava em causa era simplesmente ir ao congelador buscar 6 pedacinhos de frango triturado e panado e colocá-los na frigideira durante poucos minutos mas não... Naquilo que se assemelha à imposição de uma espécie de Ramadão Avícola, os cidadãos não podem, mesmo que essa seja a sua vontade, consumir frango fora do horário estabelecido por alguém que ninguém sabe quem é e que, vai na volta, pode até nem gostar de frango.

Depois admiram-se quando há gente que, tendo certamente onde estar e inúmeros afazeres à espera, se aborrece ao ver ser-lhe negado um dos poucos momentos prazerosos da sua jornada laboral.



Vendo bem as coisas, os funcionários até acabaram por ter sorte pois a senhora em causa, para além de possuir uma interessante dinâmica física, embora com um preocupante défice de flexibilidade (lá está... fast food), fazia parte dos 9,9% de cidadãos estado-unidenses que não possuem armas de fogo.

Imaginem, por exemplo, que lhes tinha calhado na rifa um indivíduo como o interpretado por Michael Douglas no filme "Um dia de raiva", realizado por Joel Schumacher em 1993. No mínimo teríamos tido a oportunidade de assistir a uma cena como esta:



É curioso ver como, por vezes, a realidade consegue imitar a ficção. Seja como for, creio que, a partir de hoje, a McDonalds vai ter mais cuidado ao empregar slogans como o célebre "I'm dying for a Big Mac" sobretudo quando da sua clientela fazem parte pessoas que quase são capazes de matar por uma dose de Chicken McNuggets.

Férias 2010, parte 7 – Sabemos que estamos numa aldeia francesa quando…

No centro da povoação se encontra uma igreja com uma torre de campanário que, qual impressão digital, difere de aldeia para aldeia.

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Algures na povoação existe um monumento aos “filhos da terra” que morreram nos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial e ao qual, por uma questão de poupança, foram incluídas adendas na forma de placas ou inscrições adicionais para incluir também o nome daqueles que morreram durante a 2ª Guerra Mundial.

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Algures na povoação ainda é possível identificar um lavadouro comunitário que, em melhor ou pior estado e embora já não seja utilizado, se encontra decorado com flores que, vá-se lá saber porquê, ninguém se lembrou de colher para levar para casa ou, simplesmente, de as vandalizar.

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segunda-feira, agosto 09, 2010

Férias 2010, Parte 6 – Besançon, o Laço

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Atravessada pelo rio Doubs, Besançon é uma cidade que aprendi a apreciar e que, sempre que possível, merece uma visita. A sua geografia particular faz com que o centro histórico se encontre quase completamente rodeada pelo rio numa forma que lembra um laço. É aliás esse nome, “La Boucle” pelo qual esta zona interior é conhecida. No pequeno “istmo” de terra que resistiu ao rio, situa-se uma elevação coroada por uma imponente fortaleza.

Esta configuração geográfica, aliás, fez de Besançon um local estratégico de domínio da região ao qual nem Júlio César ficou indiferente algumas décadas antes da nossa era, tendo esta antiga povoação gaulesa sido rebaptizada de Vesontio.

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Um pouco à descarada, durante a nossa caminhada pelo perímetro da “Boucle”, entrámos em alguns locais menos evidentes nos quais foi possível descobrir alguns interessantes pormenores arquitectónicos como este:

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Em direcção ao monte que domina a “Boucle” de Besançon, passamos pela Praça Victor Hugo onde, numa das casas dessa praça e muito convenientemente, nasceu o célebre escritor, isto em aparente depreciação de uma dupla de personagens célebres que numa casa ao lado também vieram ao Mundo: os irmãos Lumière.

Subindo um pouco, encontra-se um jardim arqueológico “à inglesa” segundo as informações dos painéis ali existentes. Trata-se de um conjunto de ruínas de construções romanas dispostas em semi-círculo e que foram reconstruídas de tal forma que me traz à memória a minha sui generis criatividade na manipulação e assemblagem de peças de Lego nos primeiros anos da minha vida. Fica a foto do que está menos mal:

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A dois passos do “jardim arqueológico à inglesa” e passando sob a “Porta Negra”, na verdade um arco de triunfo romano que actualmente está em processo de limpeza e restauro, situa-se a Catedral de Saint-Jean, com a torre de campanário tão típica desta região da Franche-Comté. No seu interior encontra-se o túmulo de Ferry Carondelet ao qual já aqui apontámos o dedo… ou vice-versa.

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Na paisagem o que salta à vista é contudo a imponente fortaleza de Vauban que aqui irá merecer um artigo muito em breve pela sua fantástica posição e estado de conservação e também pelo facto de ser um exemplo do aproveitamento de um monumento histórico para outros fins turísticos, sem com isso perder a sua identidade.

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O percurso passou depois sob o monte sobre o qual assenta a fortaleza, num túnel reservado a peões, ciclistas e… barcos.

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De regresso ao ponto de partida, houve ainda tempo para passar junto a uma das construções mais antigas e características da cidade, situada junto a uma das ex-portas da cidade, na fachada da qual se percebe a fúria anti-monárquica da Revolução Francesa, que levou ao martelamento das armas reais, e ainda uma inscrição de regulamentação de trânsito: “É proibido trotar”.

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Foto aérea: BESANÇON.FR

sábado, julho 31, 2010

Férias 2010, Parte 5 - As Salinas Reais de Arc-et-Senans

As Salinas Reais de Arc-et-Senans, classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade, são o que resta de uma actividade industrial que aqui teve o seu expoente máximo nos séculos XVIII e XIX: a exploração do sal.

A concepção deste edifício em 1773 deve-se ao génio de Claude-Nicholas Ledoux, um arquitecto então com 37 anos, extremamente revolucionário para a época que chegou a ser o favorito do rei. Baseou-se no seu projecto utópico de "Cidade Ideal", uma cidade industrial onde, no centro, ficaria a casa do director, ladeando esta ficariam os edifícios de produção e, dispostos em círculo, os edifícios residenciais dos trabalhadores, com um espaço para os seus quintais. Idealmente, na periferia, situar-se-iam os edifícios para os diversos serviços de que uma cidade precisa mas, neste caso e por falta de verbas, apenas conseguiu implementar o que actualmente é visível.



O Sal era extraído de uma fonte salina, situada a 23km dali na localidade de Salins-les-Bains, actualmente uma vila famosa pelas suas termas. A água era aí aquecida para aumentar o grau de concentração de sal e injectada num sistema de canalização feito de troncos de árvore ocos que faziam chegar a salmoura a Arc-et-Senans.

A salmoura era depois aquecida em grandes recipientes metálicos para evaporar o resto da água e o sal era depois retirado e ensacado ou, como era comum, moldado em "pães de sal". Esta indústria era extremamente proveitosa para o estado devido à famosa "gabelle", um imposto sobre o sal extremamente impopular e injusto que levou inclusive a várias revoltas sociais.

As Salinas acabariam por fechar portas em 1895 devido à concorrência de fontes mais rentáveis de exploração de sal, tendo sido abandonadas. Acabaram em ruínas, pelo tempo mas também devido a um incêndio e a um relâmpago que destruíram a casa do director.


Na década de 1930 começou a ser restaurada mas acabaria por ser usada como campo de internamento para refugiados da Guerra Civil espanhola e, mais tarde, foi ocupada pelas tropas francesas e depois pelas alemãs, durante a II Guerra Mundial.

Classificadas como património Mundial em 1982, as Salinas acabariam por se tornar um Centro Cultural, sendo hoje visitáveis. Possuem várias exposições permanentes (a casa Ledoux e o museu do Sal,...) e temporárias (actualmente sobre o pintor Courbet e o projecto Solar Impulse)

É ainda palco de diversos eventos musicais e teatrais.

O espaço das hortas é actualmente usado para instalação temporária de jardins, fruto da criatividade de diversos arquitectos paisagistas.

Jardim, "As proezas de Gargantua"


Jardim "de Outra Parte"


Jardim de Alice


Jardim Zen


Foto aérea das Salinas: Nuit-Bleue

quinta-feira, julho 29, 2010

Férias 2010, Parte 3 - O arcebispo defunto pouco católico

Num passeio pedestre pela cidade de Besançon, cidade que será alvo de dois artigos a lançar em breve, fomos parar à Catedral de Saint-Jean. Lá dentro, encontrámos um cenário todo ele muito interessante mas, na retina e dos vários que por lá se encontravam, retivemos um túmulo em particular.

Tratava-se, vim a saber depois, do túmulo de Ferry Carondelet, arcebispo de Besançon epessoa influente junto do Papa Júlio II e da corte imperial austríaca nos séculos XV e XVI.


Em primeiro lugar, o que saltou à vista foi o estilo peculiar de um conceito inovador em termos de arquitectura tumular: o túmulo beliche. Assim, na "cama" de cima (aquela cama que toda a gente quer mas que só os fisicamente mais persuasivos conseguem), encontramos Ferry Carondelet, confortavelmente refastelado e, quiçá até, com um certo ar de aborrecimento como se estivesse algo enfadado pela demora da chegada do Dia do Juízo Final.

Por baixo, encontra-se uma figura masculina semi-desnudada, que não consegui identificar. Parece tratar-se de Jesus Cristo mas sem qualquer certezas. Num puro exercício de suposição, arrisco-me a dizer que, o seu estado de inércia, aparentemente inconsciente, poderá ter resultado da refrega ocorrida durante a disputa dos lugares no túmulo-beliche.

Contudo, um pormenor que mais me surpreendeu foi o que se encontra retratado no instantâneo que se segue...


A sua interpretação fica ao critério da imaginação de cada um...

terça-feira, julho 27, 2010

Férias 2010, Parte 2 - Pela beleza do Périgord Noir

O dia começou cedo em Montignac, com a despedida do hotel onde ficámos alojados, o "Le P'tit Monde". Trata-se de um hotel pequeno e acolhedor, limpo e asseado, onde o principal problema poderá ser apenas o facto de se encontrar numa das ruas principais da localidade e os vidros duplos não abafarem tudo. Apesar de tudo, para quem não se deita cedo, esta pode ser uma boa opção de alojamento... desde que não se enganem na porta de entrada.

Depois de um renovado pedido de desculpas (pelo menos esta parte do vocabulário foi bastante praticada), verificámos que a proprietária não só já estava bem disposta como, ainda por cima, se dava ao luxo de fazer comentários jocosos elogiando a sua destreza e rapidez ao dizer que "havia sido mais rápida que um bombeiro pois, em poucos minutos, havia saltado da cama, vestido a roupa e feito um brushing antes de descer".


O Hotel "Le P'tit Monde"

A etapa que se seguiu era uma aspiração de longa data (desde pelo menos os anos 1980) a partir do momento em que li um artigo sobre a sua descoberta. Saímos pois em direcção à Gruta de Lascaux (Mais propriamente Lascaux II. Adiante explicarei porquê)!

Obra-prima da arte rupestre parietal, o local foi descoberto em 1940 por um grupo de jovens que caminhava pela floresta com o seu cão. Este, ao entrar num buraco, ficou preso nalgumas raízes pelo que teve de ser libertado pelo seu dono com a ajuda dos amigos. Ao cavar, estes verificaram que as pedras começavam a cair e produziam um som de eco. Sabendo de antemão, por ser uma descoberta frequente na zona, que se poderia tratar de uma gruta, voltaram mais tarde munidos de lanternas e desceram ao longo da pequena abertura até uma enorme sala. Caminhando com os olhos no chão, só vários metros depois decidiram apontar o foco das lanternas para o tecto e, acto contínuo, depararam-se com um desfilar assombroso de touros, cavalos e veados desenhados a três cores.

A bilheteira de Lascaux II

Conhecida a descoberta, aqui afluíram vários especialistas para estudar as pinturas e gravuras (aos milhares) que se espalhavam pelas várias galerias da gruta. Feitos os estudos preliminares necessários, decidiu-se preparar a gruta para a abrir ao público, algo que viria a suceder em 1948.

Sendo proibido fotografar o interior da Gruta de Lascaux II, aqui fica uma foto da National Geographic para terem uma ideia do fantástico cenário que se encontra no seu interior.


Infelizmente, o seu sucesso viria a ser o seu maior inimigo e, em 1960, as pinturas começaram a mostrar os primeiros sinais de degradação, devido à exposição ao ar com elevado teor de oxigénio que a abertura da entrada e o sistema de renovação atmosférica provocaram e também devido ao aumento de temperatura e humidade provocado pela presença em massa de visitantes.

Para salvar as gravuras foi necessário fechar de novo a gruta em 1963 mas depressa se começou a projectar uma forma de permitir que as gravuras fossem visitadas pelo público.

A solução acabou por ser a construção de um fac-simile a 200 metros da original, que reproduzisse na perfeição o ambiente e as pinturas da gruta original. Este fac-simile, Lascaux II, acabaria por abrir ao público em 1982, 11 anos depois de ter sido começado. Nele foram reproduzidas apenas duas salas, a grande Sala dos Touros e o Divertículo Axial (um nome mais pomposo para a sala onde a gruta se divide em dois corredores). Ainda assim, aqui estão representados 90% das pinturas de Lascaux.

Entrada das visitas para Lascaux II

A visita começa por duas antecâmaras musealizadas, nas quais é explicado o contexto da gruta e da sua descoberta, assim como as técnicas que foram empregues há 17.000 anos atrás para a realização das pinturas e gravuras. Passa-se depois à visita do espaço onde a gruta foi recriada ao mais ínfimo pormenor.

Ao longo da visita, num ambiente completamente irreal, um guia vai explicando todos os pormenores e descrevendo todas as cenas. É impossível sair de Lascaux sem mudar a nossa forma de encarar os nossos antepassados do Paleolítico Superior. É simplesmente fabuloso!

A saída das visitas. No solo percebe-se parte da imagem que a planta do sítio desenha e que poderá ser visto do ar: um enorme touro (Vê-se um de dois cornos representados por metal, a cabeça representada pelo cimento do piso e das escadas e, na esquerda, a extremidade do focinho representada por secções de troncos de árvore).

Caso tenham curiosidade em saber mais, não percam a visita virtual de Lascaux, clicando aqui.


Antes de partir, houve ainda tempo para um curto regresso a Montignac, para dar uma volta à luz do dia pela povoação. As impressões da véspera não foram defraudadas e Montignac é realmente uma povoação muito interessante, destacando-se no meio do casario antigo o seu castelo e a igreja.



Nas ruas ainda se encontravam as decorações de uma das mais importante festas de celebração da cultura Occitana, difundida no Sul de França, onde se situa a Nação Occitana (embora a língua occitana, a Língua de Oc, não seja ensinada nas escolas). Esta festa, a Félibrée, realiza-se desde 1913 e esta foi apenas a 4ª vez que foi realizada em Montignac, razão pela qual a população se esmerou com afinco na organização e nas decorações.




Partir sabendo tudo o que haveria ainda para ver na região do Périgord e tendo visto apenas Montignac e Lascaux foi como passar o dedo pela cobertura de um enorme e apetitoso bolo de chocolate e, logo a seguir ter de fugir porque, apesar de termos a fome acirrada por uma gulodice extrema, o pasteleiro ter surgido a correr na nossa direcção com as suas más intenções expressas no rolo da massa que brandia na sua mão direita. Infelizmente teve de ser pois um compromisso nos esperava a quase 600km dali.

Ainda assim, houve ainda tempo para nos deliciarmos, a poucos quilómetros dali, com a paisagem da cidade de Terrasson, caracterizada pela sua persistente ponte medieval.



Depois de um café tomado deliciosamente e em perfeita tranquilidade numa esplanada junto ao espelho de água ainda do Rio Vézère, houve tempo para subir até à dominante abadia, através de uma escadaria de acesso às muralhas. A vista e o casario impressionaram, tal como a abundância e o excelente estado de jardins existentes no centro histórico.





Junto à abadia, fomos surpreendidos por um simpático transeunte que, apesar de estar já em nítida idade adulta, transportava consigo de forma despudorada e com evidente empatia, um ursinho de peluche de estimação.


Fizemo-nos depois novamente à estrada em direcção à região da Franche-Comté embora com a imagem persistente do bolo de chocolate no nosso espírito...

(Continua)

Foto de Lascaux: National Geographic
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