Mais do que pela relva seca, mais do que pelos jornalistas aliviados do seu equipamento, mais do que pelas madeixas do Fábio Coentrão, este Campeonato do Mundo de Futebol será para sempre recordado pelo infame som das vuvuzelas.
Como se não bastasse o irritante "Puééééééé!" que emana dos televisores e se entranha no cérebro dos espectadores durante as transmissões televisivas dos jogos, um certa empresa petrolífera nacional decidiu rivalizar com uma sua congénere britânica, em termos de catástrofes poluentes, e começou a distribuir os ditos instrumentos de tortura nos seus postos de abastecimento.
Ora, quando parecia que nada poderia travar este vil tormento, um tão oportuno quanto genial cidadão de origem alemã de nome Clemence Schlieweis, irrompeu do anonimato para alegadamente, qual Prometeu dos tempos modernos, agraciar a humanidade com aquilo que se pode chamar de "Silenciador de Vuvuzelas" para as transmissões televisivas dos jogos.
Teoricamente, o princípio é simples: gerar um som de amplitude idêntica mas inverso ao das vuvuzelas e reproduzi-lo junto às colunas do televisor. O resultado é um jogo em tudo idêntico ao normal... mas sem aquele irritante som que coloca todos os outros como sons de fundo.
O único senão é que esta solução apenas se aplica às transmissões televisivas e não aos vizinhos e transeuntes que encontram no acto de bufar na vuvuzela uma aparente fonte de prazer. Nestes casos continua a ser mais eficaz o uso de sal ou chumbo em forma de projéctil.
A solução já está disponível na web ao preço módico de 3 euros. Será que vai ultrapassar o volume de negócios das vuvuzelas que, actualmente, constitui uma indústria de 6,45 milhões de dólares?
Na Sexta-feira à noite, um pouco por acaso, acabámos por ir ao cinema. Entre o "Príncipe da Pérsia", o "Sexo e a Cidade 2", "Ex-Mulher Procura-se" e "um Funeral à Chuva", de forma quase natural, a escolha acabou por recair neste último. Para além de haver pouco interesse nos outros, havia ainda, desde há muito, uma enorme curiosidade em ver este filme. Não me levem a mal se disser que foi uma estreia para mim ver um filme português no cinema mas sucede que não sou propriamente o tipo de pessoa que acha que ver a peitaça da Soraia Chaves justifica um bilhete de cinema. Está bem que é uma peitaça bem cuidada mas, daí até pagar para a ver, vai uma grande distância.
Quanto ao Funeral à Chuva, foi sem dúvida uma bela surpresa, começando no interesse que este despertou visto que a sala estava cheia e até alguns "ubianos" fizeram questão de ir assistir envergando o traje académico. A história do filme é tão simples quanto envolvente: um grupo de amigos de faculdade volta a encontrar-se, 10 anos mais tarde, na Covilhã, cidade onde estudaram, por ocasião do funeral de um outro amigo, o João. Procurando eternizar o momento, começam a recordar os seus tempos de estudante na cidade-neve embarcando ao mesmo tempo numa jornada de redescoberta, isto enquanto vão deixando cair as máscaras que a sociedade lentamente lhes foi impondo.
Um dos grandes trunfos do filme é a forma fácil como consegue fazer os espectadores alternar entre sentimentos, sendo capaz tanto de provocar enormes gargalhadas como de comover a plateia, tudo isto enquanto vai despertando um profundo sentimento de saudosismo da saudável loucura dos tempos estudantis.
O facto do João ser o morto mais saudável que já tive a oportunidade de ver no grande ecrã acaba por ser um pormenor de somenos importância. O que fica é um filme muito bem conseguido que, enquanto nos leva numa viagem de revisitação de sentimentos e de lugares, promove ao mesmo tempo uma importante reflexão sobre o real valor da amizade e, também, sobre a forma como as pessoas que vamos conhecendo são capazes de marcar a nossa vida sem que disso nos apercebamos.
Parabéns a todos os que participaram e contribuíram para a realização deste filme e, para quem ainda não viu, há que dizer: F###-##! C######! Vão ver o filme!
Ultimamente, ao procurar fazer a actualização do meu aparelho de GPS andorrano já com vista às próximas férias, tenho descoberto alguns pormenores interessantes acerca do mesmo, tendo já conseguido fazer dele um leitor de filmes avi e mpg, por exemplo.
Entretanto, aproveitei também para... "personalizar" alguns dos seus aspectos. Cá entre nós, este ecrã intermédio de espera de sintonização do aparelho com os satélites tem agora muito mais piada do que o insípido ecrã que a Becker tinha originalmente implementado. Tem ou não tem?
Em profundo espírito de solidariedade para com todos aqueles bravos que, sensibilizados pelo discurso do nosso Presidente da República, abdicaram hoje, em prol da produtividade nacional, do exercício dessa infame figura institucionalizada que é a "ponte", partilho aqui um momento de boa disposição para alívio humorístico e entretenimento dos leitores.
Trata-se de um sketch dos incomparáveis Monty Python no qual se conta a história de uma das mais letais armas de guerra jamais desenvolvidas e mais tarde banida por uma sessão especial da Convenção de Genebra: a piada mais engraçada do Mundo.
Advertem-se todos os leitores germanófonos para os perigos do visionamento deste sketch. Podem insistir em vê-lo, é claro, mas o Blog do Katano não se responsabiliza por qualquer dano pessoal daí decorrente.
PS - O meu alemão está ultimamente algo ferrugento pelo que o significado da piada me escapa mas pelo nível de riso presumo que seja algo como -"Oh Sócrates, tu vais aumentar os impostos?" -"Claro que não! O país está a melhorar a olhos vistos!".
Tem início já amanhã a Festa da Cereja na aldeia de Alcongosta, em plena encosta da Serra da Gardunha e centro privilegiado de produção da famosa cereja do Fundão.
Até Domingo, a aldeia irá encher-se de vida, sendo palco de concertos e animação de rua. Os mais de 25.000 visitantes esperados poderão apreciar uma enorme variedade de produtos à base da cereja nas 60 tasquinhas distribuídas pelas ruas da aldeia, este ano organizadas por cores.
Num fim-de-semana para muitos prolongado, não há desculpa para faltar a esta festa até porque, ainda por cima, disponibilizamos um mapa da localização da aldeia para se orientarem:
Ontem, Segunda-feira 7 de Junho de 2010 - um dia que viverá na infâmia - duas senhoras resolveram casar, por intermédio do Registo Civil, sob o olhar atento de um país em estado de choque, habituado que estava a uma vivência recta e em observância dos ditames da mais pura e casta moral.
Enquanto tomava café, a minha atenção desviou-se do ecrã da televisão, onde o evento estava a ser transmitido, e centrou-se nos indivíduos que, com o músculo pancips encostado ao balcão, observavam siderados o acontecimento e a desfaçatez daquelas moças com idade para ter juízo e que, em vez de mostrarem um ar grave próprio de quem é responsável pelas grandes tragédias da humanidade, aparentavam pelo contrário um inexplicável estado de felicidade.
O gesto de abanar a cabeça em clara reprovação, acompanhado pela frase "Olha-me para aquele espectáculo...", precedida, como mandam as regras, por uma expressão tirada do mais puro vernáculo popular, não deixavam dúvidas. Aqueles indivíduos faziam parte do grosso da população cuja existência estava a partir daquele momento irremediavelmente conspurcada e despojada de motivos que justificassem a sua continuidade, restando-lhes apenas o aguardar da concretização do anunciado pelo Apóstolo João, o Evangelista.
Quanto a mim, consumado que está o casamento entre estas duas senhoras, ainda não descortinei qualquer sinal do início do Apocalipse mas garanto que continuarei atento. Já vi filmes suficientes para saber que, isto do fim do Mundo, acontece quando menos esperamos.
Durante a recente caminhada ao Cabeço das Fráguas, captei este peculiar instantâneo acerca do qual lanço aqui um desafio. Alguém quer sugerir um título para esta foto? Ideias não devem faltar...
Sendo seu grande admirador, foi com grande tristeza que tive ontem conhecimento da morte de João Aguiar, vencido por um cancro aos 66 anos.
Aguiar era um grande defensor da cultura portuguesa sendo, em contraponto, um profundo crítico da facilidade com que a população portuguesa tem tendência a assimilar tudo o que é estrangeirismo em detrimento daquilo que "é nosso".
Magoava-o o desrespeito pela escrita da Língua Portuguesa, progressivamente conspurcada por corpos estranhos e cada vez menos praticada com correcção. Aliás, como disse Alice Vieira, grande amiga de Aguiar, este era uma pessoa extremamente calma e a única coisa que o irritava era os erros de português.
Com publicação em Espanha, França, Itália, Alemanha e Bulgária, Aguiar deixa atrás de si um apreciável rol de obras destacando-se na ficção histórica, através da qual procurou retratar com rigor a realidade da Antiguidade no espaço territorial do Portugal actual. O seu último livro, "O Priorado do Cifrão", é, por outro lado, uma crítica mordaz e irónica aos "best sellers" instantâneos e aos seus sucedâneos, numa alusão clara ao "Código Da Vinci".
Com o seu desaparecimento, a cultura portuguesa fica mais pobre e, ao mesmo tempo, perde um dos seus mais acérrimos defensores.
Lembram-se de quando, num artigo anterior, referi a informação suigeneris contida na página da Wikipédia dedicada às vuvuzelas? Desde então as posições acerca destes particularmente irritantes instrumentos produtos de ruído parecem extremado e as actualizações dessa página têm-se sucedido de forma bastante animada.
Se há 2 ou 3 dias atrás a informação contida na página era bastante depreciativa, quer para as vuvuzelas, quer para a Galp, a informação hoje apresentada revela um claro cunho de marketing, como se alguém da própria petrolífera se tivesse sentado diante de um computador e inserido essa informação. Teorias da conspiração, eu sei.
Curioso episódio em que se vê envolvida esta empresa que, não contente por ir aos bolsos dos automobilistas, parece agora estar também apostada em atentar contra os tímpanos da população em geral.
Como previsto, o dia de ontem foi dedicado a uma caminhada até ao Cabeço das Fráguas, no limite entre o Concelho da Guarda e o Concelho de Sabugal, concretizando finalmente um regresso já muito ansiado a esse fantástico local.
A vertente escolhida para abordar o monte foi a vertente Oeste, não necessariamente fácil como a vertente Norte, caracterizando-se por uma forte pendente que, aliada ao Sol e ao calor que se faziam sentir, tornou o percurso algo difícil.
Têm por isso a minha simpatia os que, apesar de numa primeira instância se mostraram interessados em participar, terem depois mudado de ideias perante o percurso.
Benespera
Antes de iniciarmos a caminhada, houve tempo para uma pequena paragem na aldeia de Benespera. Agora subjugada pela A23, a aldeia vive na expectativa do regresso da ligação ferroviária que, até há algum tempo atrás, já só se fazia por automotora, tendo em conta o estado em que se encontrava a linha férrea.
Fica a memória romântica do actual apeadeiro a partir do qual se tem uma vista muito interessante sobre a aldeia, apesar do “corte” da A23 na paisagem.
Digna de registo é a impressionante ponte ferroviária sobranceira à aldeia, que ainda ostenta a data da sua construção: 1890.
O Cabeço das Fráguas
Com 1015 m de altitude, o Cabeço das Fráguas é um enorme bloco granítico que se avista a quilómetros de distância, destacando-se pela sua forma imponente. Não há caminhos para o topo, pelo que o acesso é algo difícil, embora na vertente Norte a inclinação seja mais suave.
Não tem vegetação a não ser vegetação rasteira e arbustiva o que dificulta ainda mais a subida, nesta altura do ano, pela ausência de sombra.
No entanto, todas as dificuldades da subida se esfumam perante a vista que se alcança ao chegar ao topo, sendo possível observar o território que se estende da Serra da Estrela até à raia espanhola.
Vídeo panorâmico Clique e arraste para ver a paisagem a 360º
Para visualizar, é necessário ter o Apple Quicktime. Infelizmente parece só funcionar em Internet Explorer.
Ao longe, a Serra da Gardunha, a Maúnça e a Estrela, sendo ainda possível avistar Belmonte e, mais atrás, a Covilhã.
Para Sudeste, o Sabugal e a Serra da Malcata.
Um olhar sobre a raia em direcção a Espanha
O monte faz bem jus ao seu nome. O granito está omnipresente em caos de blocos que a natureza esculpiu aqui e ali em formas curiosas. Aqui tudo se viu. Desde um coelho, até um pinguim passando por um dos robôs maléficos do Exército Dourado do filme Hellboy 2. A criatividade na interpretação terá sido ajudada sem dúvida pela incidência solar.
O Castro e o Santuário
Mais que pela paisagem que do seu topo se avista, o Cabeço das Fráguas é conhecido pelos vestígios arqueológicos que nele se encontram.
No seu cume, encontram-se vestígios de ocupação humana do século VIII a.C. até ao século I d.C., altura em que o povoado que aqui existia terá sido abandonado.
Derrube de construções no interior do perímetro muralhado.
No centro deste povoado, com uma linha de muralhas exteriores e uma mais interior, situava-se um importante santuário ao qual deveriam afluir ciclicamente os habitantes da região.
A actividade religiosa desse santuário está aliás atestada por uma inscrição muito peculiar, gravada numa laje, a “Laje da Moura”, junto a um conjunto de construções, posta à luz do dia pelos trabalhos arqueológicos, que poderiam pertencer ao templo.
Aspecto dos trabalhos arqueológicos. As estruturas descobertas, divisões circulares e rectangulares de várias épocas, foram protegidas com geotêxtil para impedir a sua degradação durante o período invernal.
Esta inscrição evoca o sacrifício de vários animais a diferentes deuses, de diferentes hierarquias, sendo o seu interesse ainda maior pelo facto de conter a língua que se convencionou chamar de lusitana, escrita em caracteres latinos.
Assim, aos deuses Trebopala, Labbo, Iccona Loiminna, Trebarune e Reva foram consagrados respectivamente uma ovelha, um porco, uma ovelha prenha, uma ovelha “de qualidade” e um touro.
É curiosa a similaridade de termos desta língua pré-romana com o nosso actual português, “TAVROM” para Touro e “PORCOM” para Porco.
Já depois de termos deixado o Cabeço para trás, devidamente dotados de uma nova coloração ao estilo “lagosta”, impôs-se uma visita ao Museu da Guarda para visitar a exposição, que hoje termina, dedicada aos resultados das investigações e aos achados no Cabeço das Fráguas.
No centro da sala encontrava-se a reprodução da laje com a inscrição, feita através de levantamento por sistema laser.
Não podia acabar sem o insólito do costume…
Estando no Cabeço das Fráguas, aproveitámos para nos dedicarmos ao Geocaching, tendo encontrado a cache local em questão de minutos.
A caixa continha vários objectos, o logbook e um panfleto que contava a história do local e continha uma descrição da inscrição rupestre, algo digno de aplauso visto que traz valor acrescentado à visita.
O pior foi quando, ao abrir o panfleto, verificámos que este estava ilustrado com uma fotografia bem sugestiva do Cabeço das Fráguas… que havia sido tirada por mim numa das minhas visitas anteriores. Exactamente esta foto.
Embora não tenham tido a delicadeza de mencionar a autoria da foto, pelo menos há que louvar o bom gosto de quem elaborou o panfleto.