sábado, maio 03, 2008

Caminhada na Gardunha

A Gardunha exerce um fascínio muito particular, difícil de descrever. Cheia de contrastes, cheia de recantos ainda por descobrir, é capaz de oferecer cenários belíssimos e diversificados a quem se aventurar pelos seus trilhos que nos levam das suas cercanias xistosas até ao seu coração de granito. Transpondo as palavras que José Luciano Ruiz, poeta espanhol: "É uma rocha egoísta pois não te dá nada, tira-te tudo. Alimenta-se do assombro da gente".

Sendo assim, e porque a minha minhotinha mais-que-tudo também partilha do gosto pelas caminhadas e exploração, o 25 de Abril foi dedicado à Gardunha numa caminhada que teve uma extensão de pouco mais de 20km e que terminou já em noite cerrada.

Partindo de Alcongosta, centro de produção da "cereja do Fundão", subimos pela calçada antiga (a que muitos chamam romana) que ligava primitivamente Fundão a Alpedrinha e Castelo Novo, flectindo depois no sentido da encosta do maciço central da Gardunha, passando sobre Alpedrinha, a "Sintra da Beira". Junto a uma velha casa em ruínas (200 ou 300 anos?) parámos para apreciar a paisagem e retemperar energias.

Em seguida, passando por várias quintas abandonadas, começámos a descida para o anfiteatro natural que é a confluência de linhas de água que formam o vale onde se situa Castelo Novo, uma das aldeias históricas de Portugal. Pelo caminho, encontrámos um simpático pastor (sim, aqui também ainda há pastores) que nos acompanhou durante parte do percurso, brindando-nos com relatos de como era a região há uns anos atrás e descrevendo o seu modo de vida actual. Deixando o nosso efémero companheiro para trás, não sem antes prometer que, caso voltássemos a passar por ali um dia, o visitaríamos, continuámos a descida para Castelo Novo onde chegámos atravessando um troço "remendado" da calçada e uma pequena ponte de betão.Após uma pausa para o lanche à sombra da Igreja e com vista para o castelo, não pudemos deixar de estranhar as obras de "requalificação" que estão a ser feitas na antiga fortaleza. Realmente há uma certa tendência para misturar metal e pedra mas o "mono" ferrugento que agora guarda a entrada do castelo parece um tanto ou quanto despropositado.

Continuámos até à praça da Antiga Casa da Câmara e da Cadeia, onde enchemos o cantil e bebemos a maravilhosa água do Chafariz de D. João V. Após uma pausa retemperadora, contemplando o desfilar de visitantes e as pessoas que chegam ao chafariz com o porta malas do carro cheio de garrafões de plástico prontos a serem enchidos da água que nos saciou a sede, percorremos a aldeia embora o tempo disponível não fosse muito.

Iniciada a subida para a elevação oposta à por onde tínhamos chegado, passando junto à fábrica das Água do Alardo, o caminho revelou-se sinuoso. Uma placa sinalizadora indicando que se está a chegar a Castelo Novo não engana. Aquele caminho de terra batida foi em tempos uma estrada importante.

Decidimos então fazer um corta-mato atacando uma subida mais íngreme, chegando a outra quinta abandonada para depois vencermos os antigos socalcos de cultivo bordejados por duas linhas de água. Extremamente difícil mas precioso na poupança de tempo. Pouco depois, chegávamos à Casa do Guarda onde reabastecemos o cantil e mais uma vez matámos a sede, isto com uma fantástica vista sobre Castelo Novo e as planuras que se estendem até Penha Garcia, passando pelo inselbergue onde se localiza Monsanto. Apertando o passo, atacámos a última subida antes da crista da Gardunha, chegando à Penha, um local de mitos e lendas, uns mais fantasiosos que outros, onde os vestígios de um castro se misturam com as ruínas de uma capela medieval, tudo isto apimentado com as histórias sobre avistamentos de OVNIS, visões quiçá potenciadas pelo saturação do sangue com certos derivados de produtos naturais.

Subir os degraus escavados na rocha até à extremidade da Penha vale bem a pena! No topo, instalámo-nos para a última refeição do percurso reforçada com a reconfortante sensação de um café ainda quentinho. Em tom de brincadeira, lá se trauteou um trecho da música que servia de fundo a um inesquecível anúncio publicitário a uma marca de café. O Sol não esperava e era por isso necessário começar a descer enquanto houvesse alguma luz pelo que, com muita pena, lá tivemos de nos fazer ao caminho.


Chegámos finalmente a Alcongosta, após uma visão das luzes que povoam a Cova da Beira à noite e que se estendem do Fundão até à Covilhã, aninhada no sopé da Serra da Estrela.
Valeu a pena!

quinta-feira, maio 01, 2008

Tradições

Um dos meus planos para o mês de Agosto prevê a montagem de uma exposição que recrie toda a memória cultural e etnográfica de uma aldeia muito especial para mim. Tenho como objectivo fazer uma recolha de fotografias e testemunhos aos quais vou juntar toda a documentação que tenho em minha posse e que inclui toda a correspondência da escola local desde os anos 1930 até ao seu encerramento, para além da recriação virtual do primeiro posto escolar da aldeia.

Ainda estou na génese do trabalho e já é fascinante aquilo que começo a descobrir.

Tome-se o exemplo desta foto, tirada algures pelos anos 1950, que retrata uma tradição anual que marca de certa forma, à luz dos costumes de então, a passagem dos rapazes por uma importante fase de vida e que aqui são fotografados segurando pandeiretas com fitas. Alguém arrisca uma hipótese? Alguém tem conhecimento de tradições semelhantes?

Enigma - II

Conclusão do artigo de 24 de Abril último.

Esta carta encontrava-se no sótão de uma antiga casa senhorial em Vicdessos, província francesa de Ariége nos Pirinéus, dentro de uma de várias caixas de charutos, e foi-me apresentada em Agosto último. Por vários elementos encontrados juntamente com a carta dentro das caixas (artigos, recortes, notas manuscritas), é possível datá-la de princípios do Séc XX ou finais do Séc XIX. Para além da carta, dentro das várias caixas encontravam-se vários fósseis e vários instrumentos e lascas de sílex dos quais os meus anfitriões tiveram a amabilidade de me oferecer alguns.

Do texto da carta consegui obter a seguinte tradução:

"Zamerza, 28/11 (1909?)

Caro Senhor

Envio-lhe por este mesmo correio alguns fósseis de ostrea villei. O senhor doutor disse-me que o célebre Coquant (Henri Coquant, geólogo francês do Séc XIX, ndk) lhe tinha dado um nome que não foi mantido. Seja como for são raros e encontrei-os nos pântanos "romianos"(?) na parte superior, sob as rochas laminadas de calcário local.

Encontrei também muitas ostrea (...) na base deste mesmo local, no meio encontrei várias conchas de uma espécie de mexilhão (envio-os igualmente. Dei-me conta de que o Damien possui apenas um fóssil de (...). Na minha próxima visita (...) (à terra do destinatário) levar-lhe-ei algumas pedras.

Está satisfeito com o meu último envio de vermiculitas(?) com vestígios(?) de peixe?

Queira aceitar as minhas mais sinceras saudações.

Assinatura ilegível"



Ao que parece, alguém que viveu na casa ou o antepassado de alguém que aqui habitou, era um apaixonado por paleontologia e arqueologia, como o atesta o documento e os diversos fósseis e instrumentos. Do que me permiti trazer, fazem parte os seguintes exemplares:

Fósseis de ouriços do mar pentaradiados de proveniência desconhecida. Embora estes seres existam desde o Ordovício (488 milhões de anos atrás), estes exemplares em causa poderão datar do Jurássico (200 milhões de anos atrás) ou Cretáceo (cerca de 100 milhões de anos atrás).



Uma lâmina, uma ponta de seta e dois núcleos de sílex (pedaços de onde se extraíam fragmentos para criar instrumentos). Estes vestígios deverão ter cerca de 10.000 a 15.000 anos atrás. Deverão ter sido encontrados no norte de Àfrica (Tunísia) de acordo com outros vestígios da caixa devidamente identificados.

Agradecimentos a Elodie Amorim pela ajuda prestada na tradução do texto

terça-feira, abril 29, 2008

Comentários do Katano

Saudações caríssimos leitores assíduos!

Como os mais atentos poderão constatar, há uma alteração no sistema de comentários.

Esta alteração prende-se com a vontade de tornar o sistema de comentários mais versátil e personalizável, de modo a criar um blog cada vez mais interessante para todos os que, dia após dia, contribuem para engrossar o número de visitas e visitantes (obrigado, obrigado, obrigado!).

Contudo, como sabemos da atenta observação à acção do nosso indómito governo, as reformas acarretam sacrifícios, embora no caso deste blog a coisa fique ela-por-ela e por isso, esta alteração levou a que TODOS os comentários anteriores tenham ficado inacessíveis ao público, facto que lamento profundamente mas que era inultrapassável :(.

A todos as minhas desculpas e renovados agradecimentos. Espero continuar a contar com vocês todos!

Aquele abraço!

segunda-feira, abril 28, 2008

Grande convívio Taska Force & República do Katano - Carrapichana 2008 - Adenda

Excelente posta, camarada, mas permite-me uma adenda... A falta de nevoeiro permitiu ainda uma visita à mítica povoação da Sobreda, onde tivemos a oportunidade de rever a D. Conceição (aka Mãe do Davidzinho) e apreciar os pequenos prazeres da vida, tais como, saborear umas minis à porta da sua superfície comercial, ao som de histórias tradicionais, contadas pelos simpáticos e afáveis habitantes, e de onde saliento as histórias da terceira perna de um dos participantes do sarau.

Para encerrar a jornada com chave de ouro, fomos ainda brindados com um excelente jantar, preparado pela D. Conceição, composto por diversas iguarias. Babem-se com as entradas:

Uuuiiiii….

Fico à espera da próxima no Fundão ou em Viana do Castelo…

Finalmente, quero deixar aqui uma homenagem ao meu caríssimo amigo David Ca tano:

25 de Abril sempre!!

...fascismo nunca mais.

Grande convívio Taska Force & República do Katano - Carrapichana 2008

Decorreu em grande pompa e circunstância o primeiro grande convívio Taska Force & República do Katano do ano civil de 2008 que, desta vez, decorreu na Carrapichana, concelho de Celorico da Beira e cuja grande novidade foi a presença da representante minhota do Blog do Katano, conhecida em certos círculos como "Kataninha" (Vidal dixit), embora a estrela maior tenha sido sem dúvida o pequeno Tomás.


O certame teve início no famoso restaurante "Escorropicha Ana", restaurante que acaba por constituir um completo mistério. Se é verdade que já sabemos o que significa "Escorropichar" (do verbo Escorropichar, sinónimo de encher o copo até precisar de ser sorvido para não derramar), ainda desconhecemos quem é a Ana (a do restaurante) e porque é que o restaurante é famoso e o que leva a que, ao fim de semana, só haja lugar mediante reserva.


Poderão eventualmente rotular este vosso devoto autor de crítico descontrolado mas confesso que me faz confusão ver 1,5 dose de medalhões de vitela consistir numa telha na qual se dispõem migas de couve pouco maiores que 1 punho, acompanhadas por 3 medalhões e 4 batatas assadas de volumetria pouco superior à de testículos de um qualquer mamífero de porte pouco inferior ao de um canídeo.


Safaram-se no entanto os buffets de entradas e de sobremesa embora com os primeiros tenha havido o lapso de se terem facturado 8 em vez de 5.


No que diz respeito ao convívio, após uma fase de actualização noticiosa mútua, tivemos a oportunidade de assistir a um workshop de mecânica e montagem de veículos monolugares não motorizados, cortesia do Visconde, que durou cerca de 15 minutos, após o que se seguiu um verdadeiro regabofe tertuliano de temática diversa.


No final da refeição, que atrasou um pouco devido à indecisão do Vidal perante a panóplia de aguardentes, a gerência brindou-nos com uma factura capaz de rivalizar com a Dívida Externa, e que obrigou a uma certa engenharia financeira para divisão dos custos.



A etapa seguinte foi a aldeia histórica de Linhares onde a visita ao Castelo foi realizada apenas pela comitiva do Blog do Katano, enquanto os restantes participantes do certame se dedicaram à degustação das bebidas típicas locais, a saber, cerveja Sagres e Super Bock nas suas variantes média e mini.



No final, para satisfação geral (ou não), a situação metereológica era favorável às viagens de regresso, (salientando-se a ausência de nevoeiro que poderia dificultar a ligação a Àgueda) pelo que o regresso da comitiva Do Katano se fez pelo maciço central da Serra da Estrela.

Aguarda-se com ansiedade a realização do próximo certame que poderá ocorrer no Fundão... ou então em Viana do Castelo... ou mesmo noutro local qualquer.




PS 1 - Vidal, quero fotos para acrescentar a este post e não quero esperar 2 anos se faz favor.


PS 2 - Caríssimos, eis, no instantâneo abaixo, o aspecto de um crepe havaiano da autoria deste vosso humilde camarada (o instantâneo e o crepe).



quinta-feira, abril 24, 2008

Enigma

Carta fechada, com o endereço do destinatário escrito no exterior, dispensando assim o uso de envelope


Um manuscrito descoberto no sótão de uma casa histórica


O que é que um manuscrito de finais do Séc XIX / início do Séc XX, fósseis e utensílios de há cerca de 10.000 anos atrás podem ter em comum?

quarta-feira, abril 23, 2008

Uma recordação eterna

Na última segunda-feira dia 14 de Abril morreu parte de mim, parte da minha vida.

Ao fim e ao cabo, parte de nós se esvai quando desaparece alguém que teve um papel fundamental em quem somos e povoa algumas das melhores memórias que, teimosamente resistem ao desfilar dos anos.

Dessas recordações guardo o sentimento de alguém que não esgotou o seu amor nos filhos que teve e que em todas as ocasiões não deixou nunca de me fazer sentir como se eu também fosse um, em tempos idos suportando por vezes em tom de uma impaciência efémera e depressa desvanecida, as irreverentes traquinices cúmplices de dois miúdos que sabiam ser irrequietos. A minha infância foi feliz no que lhe era permitido e ela está presente em muitos momentos.

Depois... o afastamento. Como são incompreensíveis e fúteis os motivos que muitas vezes levam as pessoas a quebrar os laços fraternos e a afastar o que nunca deveria ser afastado...! Mas assim foi durante 3 longos anos.

Finalmente, tendo finalmente um carro com que podia vencer a distância, revoltei-me contra o estado das coisas e fui visitá-la finalmente. Recordo-me da emoção que senti ao subir as escadas, o frenesim que tolhia o meu interior, até que, numa imagem que nunca esquecerei, a vi sentada à porta de casa. Pareceu-me subitamente envelhecida e frágil como se numa fracção de segundo 3 anos tivessem sido retirados ao tempo e a tivesse visto pela última vez no dia anterior.

Cumprimentei-a mas ela não reconheceu. Até que algumas palavras bastaram para reavivar todas as recordações e ela abraçou-me chorando convulsivamente. Como eu queria agora ter prolongado aquele abraço, ter também chorado por 3 anos perdidos...

Dessa tarde de domingo guardo ainda a conversa que se desfiou como que querendo condensar em si tudo o que era desconhecido e precisava de ser partilhado, as fotografias que uma após a outra ela me ia mostrando enquadradas por um sorriso de felicidade, e finalmente, a satisfação imensa, quase transcendental, que me acompanhou no regresso a casa.

É esta a imagem que sempre guardarei de ti, a expressão do carinho e do amor que sempre me soubeste dar fossem quais fossem as circunstâncias e é neste momento que gostaria de acreditar que realmente há algo mais para lá do que é material e que, nesse sítio onde eu queria tanto que estivesses, continuas a sorrir com a ternura de sempre e que tens orgulho em mim.

Obrigado tia. Adoro-te.

segunda-feira, abril 14, 2008

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...