sexta-feira, outubro 26, 2007

No estrangeiro é que é...! II

Para além do nível de civismo e de observância das regras instituídas, há outro pormenor importante que nos afasta do pelotão da frente: o nosso nível tecnológico.


Embora o nosso primeiro ministro (espero não ter problemas por ter referido esta ilustre personagem) tenha feito do afamado Choque Tecnológico uma das bandeiras do programa governamental, é certo que ainda há muito para fazer até conseguirmos alcançar um patamar tecnológico que se coadune com o nível global que se verifica nos restantes países europeus.


Aproveito para aqui partilhar uma fotografia que tirei a um verdadeiro veículo de Classe A (que não era Mercedes) esperando transmitir aos caríssimos leitores o mesmo assombro que tomou conta de mim perante tal bólide.



No estrangeiro é que é...!

Muitas vezes ouvimos, ou nós próprios proferimos, diversos lamentos sobre o quanto o nosso país está pouco evoluído quando comparado com os seus parceiros europeus. Pois bem, no último Verão procurei tirar essa história a limpo e investiguei um pouco.


Uma das conclusões a que cheguei foi que, ao contrário do que se faz por cá, por exemplo em Espanha o povo cumpre as regras!



Digo isto com convicção plena uma vez que nesta rua de Calatayud (Aragão), não vi ninguém a jogar futebol, a subir telhados e nem a jogar futebol nos telhados.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Questão de comprimento de patas


Como acontece de duas em duas semanas, parte da família Caetano (e aspirante) deslocou-se no último Sábado ao Pavilhão Desportivo do Fundão para assistir a mais um jogo do campeonato nacional da 1ª Divisão de Futsal. Desta vez, a gloriosa ADF recebia o Sassoeiros, equipa que na primeira jornada havia infligido uma derrota ao Sporting.

Nas bancadas a emoção era enorme, em particular no sector onde nos instalámos uma vez que, como descobrimos após os primeiros lances discutíveis (ou não), estávamos junto aos lugares onde se encontravam os agregados familiares dos jogadores, tanto ascendentes como descendentes. Isso foi ainda mais nítido quando o grande Couto, provavelmente um dos melhores jogadores do campeonato, arrancou de forma fulgurante pela esquerda ainda no meio campo da ADF e marcou um golo de belo efeito, na altura o 3-0.

Foi nesse momento que o proprietário da inevitável e incansável buzina que se encontrava duas filas mais abaixo se levantou para festejar os golos, não se coibindo de se virar para trás encarando o público com um sorriso de orelha a orelha como quem diz "Viram? Viram? Fui eu quem fez aquele jogador!"

Contudo, o que mais me chamou a atenção foi um senhor de porte e perímetro de cintura apreciáveis que, na fila de trás, assistia ao jogo com os seus dois filhotes.

A dada altura, quando um jogador do Sassoeiros, com altura superior à altura acumulada dos seus restantes companheiros, cortou um lance de ataque da ADF, o espectador em questão não conseguiu conter o comentário cliché: "Porra! O gajo tem patas compridas!".

Quase de imediato, a sua filhota que pelos vistos achou enorme piada ao inusitado comentário reagiu, e o diálogo que se seguiu foi basicamente o seguinte:

Pikena - "hi hi hi Ele tem patas compridas!" (alegria infantil indisfarçável)

Paizão - "Então?! O que é isso?! Olha as pessoas! Não é patas que se diz! Diz-se "pernas"!" (indignação genuína justificada talvez por um súbito sintoma de Alzheimer)

Pikena - "... Não se diz "patas"! Diz-se "pernas"" (confusão infantil indisfarçável)

Paizão - "Ah bom! Vamos la ver essa educação!" (indignação que se justifica pelo perdurar de um súbito sintoma de Alzheimer)

Porque isto da educação no desporto é bonito!

PS - O Fundão venceu o Sassoeiros por 7-3 chegando a estar a vencer por 6-1. Sô Paulo Fernandes, se precisar de alguma dica, é favor ligar para o número de telefone disponível no site da ADF e pedir para falar com o Mister José Luís!

sexta-feira, outubro 12, 2007

Canonização dos Pastorinhos suspensa por falta de... provas científicas


Foi esta a notícia avançada pelo Telejornal dando conta da suspensão do processo de canonização dos pastorinhos.

Ao que parece, o Vaticano não terá ficado suficientemente convencido com a cura milagrosa de um crente que deixou de padecer de diabetes apenas por estar a assistir através da TV à cerimónia da beatificação dos pastorinhos.

Segundo o jornalista, o Vaticano iria suspender o processo até conseguir provas científicas (sic)dos milagres dos pastorinhos.
Ora, ouvir isto teve para mim o mesmo efeito que teria uma notícia a anunciar que o Sr Ratzinger iria dar uma palestra sobre a importância das teorias evolucionistas, palestra essa dada em latim, com certeza.

Mas e que método científico é usado para determinar a autenticidade de um milagre. Pelo que percebi, o milagre fica provado quando não se encontrar qualquer causa para o que quer que tenha acontecido. Se não conseguirem descobrir nada então é porque é milagre.

Esperemos então pelos resultados desta investigação que promete fazer do Sr Grissom e da sua pandilha, um bando de putos traquinas com a mania que vão ser cientistas quando crescerem.

Os episódios de CSI Fátima seguem dentro de momentos.

terça-feira, outubro 02, 2007

Por terras dos Francos IX (cont)

Só para terem uma ideia da violência do bombardeamento a que foi sujeito o Forte de Douaumont durante Verdun...

Vista aérea do Forte de Douaumont antes da Guerra


Vista aérea do Forte de Douaumont em finais de 1916

Imagens retiradas de www.archivaria.de e www.wikipedia.org

sexta-feira, setembro 28, 2007

Por terras dos Francos IX (cont.)

MEMÓRIAS DE VERDUN

O Forte de Douaumont


Como referi no artigo anterior sobre a batalha de Verdun, o Forte de Douaumont era o centro da cintura da região fortificada de Verdun. Ironicamente, acabaria por cair em mãos alemãs primeiro e em mãos francesas depois, sem combate.

Construído entre 1885 e 1913, o forte foi vítima da estratégia ofensiva do exército francês durante o primeiro ano da I Guerra Mundial, tendo sido desarmado e desguarnecido como tantos outros na região. Contudo, a inversão da situação acabou por trazer a frente de combate para a região de Verdun sem que tenha havido um re-equipamento do forte.

A 25 de Fevereiro de 1916, no início da ofensiva de Verdun, os alemães decidem atacar as posições francesas frente ao forte de Douaumont com o objectivo de trazerem as suas posições até pelo menos 600 metros do forte. Estranhando a falta de oposição local, os alemães conseguem chegar facilmente ao fosso do forte. O único sinal de vida é dos canhões de 175 milímetros do forte que disparam contra objectivos distantes. Entraram então dentro do forte fazendo prisioneiros os cerca de 60 franceses que se encontravam nas galerias (o forte tinha capacidade para uma guarnição de 800 homens).

Imediatamente os alemães fazem da fortaleza o pivot das suas posições na região e as sucessivas tentativas francesas de a reconquistar fracassam umas após as outras, isto apesar de em determinado momento os franceses terem mesmo conseguido ocupar posições por cima do forte mas que, por falta de reforços, tiveram de ser abandonadas.

A ocupação alemã do forte vai prolongar-se até Outubro, altura em que um regimento colonial marroquino consegue em definitivo tomar a fortaleza. Entretanto, será sempre submetido a um furioso bombardeamento da artilharia francesa e será talvez por isso que às 6 horas da manhã do dia 8 de Maio, uma explosão num depósito de lança-chamas matou de uma só vez cerca de 800 alemães, 679 dos quais ficaram sepultados no forte.

A própria retomada do forte pelo exército francês será feita em circunstâncias particulares pois, fruto de um incêndio no interior das galerias, a guarnição está extremamente debilitada e rende-se sem combate.


Bandeira francesa hasteada sobre o Forte de Douaumont
Torreão eclipsante de canhões de 175''. O conjunto do canhão e sistema de ascensor da torre pesava 36 toneladas e era manobrado por 3 soldados
Indícios da explosão de um obus de pequeno calibre sobre uma torre de metralhadora


Chicane no interior do forte.


As latrinas da guarnição. Em tempo de combate (balde) e em tempo de paz (no solo)


Dormitórios dos soldados

Alojamentos de oficial

Parede construída para selar a galeria destruída pela explosão do lança-chamas e onde estão sepultados 679 alemães

quinta-feira, setembro 27, 2007

Por terras dos Francos IX

Em Verdun, o solo ainda mostra as cicatrizes dos violentos combates de 1916




VERDUN - Capital Mundial da Paz

Em plena I Guerra Mundial, vivia-se em 1916 uma situação de impasse na Frente Ocidental. Após uma primeira fase em que os alemães conseguiram colocar o exército francês em retirada e chegaram mesmo a bombardear os subúrbios de Paris, o avanço alemão viu-se barrado na batalha do Marne.

Da Alsácia ao Canal da Mancha, forma-se uma frente de batalha estática em que a cada ataque de uma das partes se sucede um contra-ataque do adversário sem quaisquer resultados práticos de uma parte ou de outra. É a Guerra de Posições no seu auge.

Consciente de que os franceses e ingleses planeiam um ataque em larga escala no Somme, o comandante do exército alemão, o General von Falkenhain decide antecipar-se e ferir de morte o exército francês com um golpe decisivo. Depois de algumas hipóteses é escolhida a zona de Verdun, a cerca de 300km a sul do Somme, um "espinho" na linha da frente. 

Verdun é um local que faz parte da mitologia nacional francesa, como Guimarães faz parte da mitologia nacional Portugal pois foi aí que os netos de Carlos Magno assinaram no Séc. IX o tratado que deu origem à França (e também à Alemanha).

O plano de Falkenhain é simples: lançar um ataque total sobre a região fortificada de Verdun para aí atrair e aniquilar o exército francês. Falkenhain apoia-se no facto de a alemanha possuir maiores reservas humanas para se sobrepor ao exército francês e ao, mesmo tempo, planeia com isto desferir um golpe moral fortíssimo na moral da França para levar a à capitulação.

A 21 de Fevereiro um intenso bombardeamento de 1.200 peças de artilharia sobre uma frente de 10km assinala o início do combate, largando sobre as posições francesas 2 milhões de obuses apenas nos dois primeiros dias! Em seguida a infantaria avança sobre as devastadas trincheiras francesas não esperando qualquer resistência da parte dos seus defensores. Contudo a realidade é diferente. Os pequenos grupos sobreviventes do exército francês que ficaram isolados decidem resistir a todo o custo conseguindo com isso travar o avanço alemão o suficiente para permitir a reorganização da defesa da região fortificada de Verdun.

O General Pétain é encarregue da defesa de Verdun e lança a frase da ordem: "Eles não passarão!". Com bastante inteligência, redistribui os recursos pela linha da frente ao mesmo tempo que a estrada que liga Bar-le-Duc a Verdun, a única estrada ainda segura, é usada para trazer reforços e abastecimentos. Denominada "Via Sagrada", por ela chegam a Verdun 50.000 homens e 90.000 toneladas de equipamento por semana em camiões que passam a cada 14 segundos a uma velocidade 40 km/h.


Ainda assim, o forte de Douaumont, considerado o ponto central de toda a região fortificada frente a Verdun cai sem combate em mãos alemãs e mais tarde, a segunda fortaleza mais importante, o forte de Vaux, rende-se também após uma resistência heróica. Os alemães conseguem chegar a dada altura a 3km de Verdun e é anunciada a queda do forte de Souville, ultimo ferrolho antes de Verdun. No entanto o anúncio é prematuro pois a guarnição de Souville não se rende e continua a combater dentro das galerias da fortaleza resistindo até que um contra-ataque consegue libertar o forte.


Ao mesmo tempo, a partir de Junho de 1916, os aliados conseguem afectar recursos suficientes para desencadear o ataque no Somme obrigando os alemães a transportarem para aí várias divisões que combatem em Verdun. Este momento marca a viragem em Verdun pois os alemães ficam em definitivo na defensiva.


Daí até Novembro, os franceses conseguem reconquistar praticamente todo o terreno perdido no início da batalha, reconquistando inclusive os fortes de Douaumont e Vaux mais uma vez sem combate.


No final, tudo volta à primeira forma e em Novembro termina a batalha. Balanço final: 350.000 mortos do lado francês e 320.000 mortos do lado alemão.

quarta-feira, setembro 26, 2007

A Honra de Almaceda


Ontem, a propósito de um pastel de nata que havia ficado solitário no seu prato perante 6 pessoas com evidente vontade de o comer (mas que se entregaram ao típico altruísmo hipócrita do "Fiquem vocês com ele!" quando na verdade, se ninguém estivesse a ver, se apropriariam dele em completa sofreguidão), lembrei-me de uma história que a minha falecida avó paterna me contou. Foi provavelmente num daqueles serões à lareira onde os meus avós me contavam aquelas histórias que misturavam a tradição, o sobrenatural e a história da região ingredientes que faziam as minhas delícias.


Dizia então a minha avó que, ali para os lados da aldeia de Almaceda, decorria uma boda e na refeição que reuniu os convivas após a cerimónia de casamento, foram servidas sardinhas.


A dada altura, sobrava apenas uma sardinha no prato, perante o olhar guloso e silêncio cúmplice dos convidados que, por uma questão de decoro, não se atreviam a pegar nela.


Subitamente, não se sabe se por obra de alguém ou por intervenção divina, alguém apagou as luzes da sala e foi então que, nesse preciso momento, foram encontrados no prato da sardinha sete mãos e um pé.


"E esta meu filho, é a honra de Almaceda", concluíu a minha avó com um esboço de sorriso trocista.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Por terras dos Francos VIII


Desde que estamos aqui, a nossa antiga vida ruiu, sem que tenhamos contribuído para tal. Temos tentado, mais de uma vez, procurar a razão e a explicação, mas não o temos conseguido de modo satisfatório. Precisamente para nós, que temos 20 anos, tudo está particularmente anuviado: para Kropp, Muller, Leer e eu, para todos nós a quem Kantorek chama mocidade de ferro.

Os soldados mais velhos estão solidamente ligados ao passado. Possuem uma base, famílias, filhos, profissões e interesses já bastantes fortes para que a guerra não seja capaz de os destruir. Mas nós, com os nossos 20 anos, só temos os nossos pais e, alguns, uma amiguinha. Não é grande coisa.

Na nossa idade a autoridade dos pais está reduzida ao mínimo e as mulheres ainda não nos dominam. Fora disto não havia em nossas casas mais coisa alguma: um pouco de sonho extravagante, algumas fantasias e a escola. A nossa vida não ia mais além. E de tudo isto nada resta.

O Kantorek diria que nós nos encontrávamos precisamente no limiar da existência. É assim, efectivamente. Não tínhamos ainda criado raízes. A guerra, como um rio, levou-nos na sua corrente. Para os outros, de mais idade, ela não passa de um intervalo. Podem pensar em alguma coisa fora dela. Mas nós fomos apanhados por ela e ignoramos como isto acabará. O que sabemos simplesmente, neste momento, é que nos tornamos nuns brutos de uma forma estranha e dolorosa, ainda que muitas vezes não possamos já sentir a tristeza.

Erich Maria Remarque in “A Oeste nada de novo”, Europa-América 1929

Erich Remarque serviu no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial tendo sido ferido por 5 vezes e tendo sido reenviado outras tantas para a frente de combate. No final da guerra, impressionado pelos horrores vividos nas trincheiras, escreveu um livro no qual conta a história de um soldado alemão que vê morrer os seus valores, o seu modo de vida e finalmente os seus camaradas, acabando ele próprio por morrer.

Na sua obra, retrata o absurdo da Guerra e o estado de espírito dos soldados que tinham pura consciência de estar a combater numa luta que não era a deles.

O título da obra é extraído de um célebre e telegráfico comunicado de situação de combate na Frente Ocidental (segundo a perspectiva alemã) e é um paradigma da guerra das trincheiras: "Nada de novo na Frente Ocidental."
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