Faço hoje aqui um post mais sério para prestar a minha homenagem a uma grande pessoa que hoje foi a enterrar na vila de Silvares, a Senhora Maria de Nazaré Pereira.
Mulher de uma fibra invulgar e de uma alegria interior imensa, Maria de Nazaré era uma pessoa que vivia para a comunidade e para os que a rodeavam sem pedir nada em troca.
No entanto, a sua vida foi muito ingrata e se situações há em que podemos dizer que há pessoas que tudo merecem e nada têm esta é sem dúvida uma delas.
Tendo casado ainda nova, Maria de Nazaré conheceu a alegria de ser mãe, facto esse que acabou por ser um terrível castigo pois perderia o seu primeiro filho quando este tinha 9 anos.
Iria mais tarde para Angola onde se estabeleceu, com o marido, numa quinta adquirida graças ao dinheiro obtido com a venda de todas as propriedades que detinham em Silvares. O marido era então director de uma mina de carvão (ou diamantes, as versões diferem) e a vida parecia sorrir com o nascimento também de uma filha.
É então que rebenta a Guerra do Ultramar e, no auge do conflito, a família vê-se obrigada a fugir durante a noite para salvar a vida, deixando todas as posses para trás. A acompanhar Maria de Nazaré, entretanto grávida de gémeos, e o seu marido e filha, ia um jovem angolano que fora criado desde tenra idade como se fosse um filho do casal.
Conseguem atingir Luanda, para embarcarem de volta a Portugal, mas a pressão e o nervosismo são demais para quem tinha um coração fraco e o marido de Maria de Nazaré sofre um enfarte ficando em risco de vida. Maria de Nazaré sofre também ela as consequências ao sofrer um aborto espontâneo, perdendo assim os seus futuros 2 filhos.
Tendo de ser evacuados de emergência, são reencaminhados para um avião que transporta apenas passageiros que necessitam de cuidados de saúde. O jovem filho adoptivo, por não ser filho do casal, não é autorizado a embarcar e, numa cena que recordará e lamentará para o resto da vida, Maria Nazaré é forçada a abandoná-lo. A visão do rapaz em choro de desespero, procurando saltar a barreira que o separa do avião que transporta a família que o havia adoptado é algo que a atormentará para sempre.
Quanto sofrimento pode uma pessoa suportar? Haverá um limite? Para Maria de Nazaré parece não haver e a perda da filha, então com 5 anos, alguns dias após chegar a Lisboa é mais um duro golpe.
Sem nada a não ser a roupa que transportavam, o casal consegue depois uma pequena loja na Covilhã onde passam a vender tecido, obtido nas sobras das fábricas que então prosperavam na cidade. Acabariam por conseguir o suficiente para abrirem alguns anos depois uma loja em Silvares, mudando-se para lá.
Maria Nazaré acaba por ficar viúva, permanecendo nessa condição durante vários anos, anos esses em que se dedicou á família, cuidando dos sobrinhos e dando tudo de si.
Finalmente acaba por casar novamente, uma atitude que, à luz dos cânones sociais de então é tida como imperdoável. Ela acabará por sofrer uma certa discriminação social mas nunca perdendo a dignidade e mantendo sempre uma postura de total dedicação aos seus sobrinhos e aos do falecido marido.
Após a morte do 2º marido, Maria de Nazaré passa a viver exclusivamente para os que a rodeiam, tornando-se um membro fundamental da comunidade e daquilo que passa a ser a luz dos seus olhos: o rancho folclórico de Silvares.
Recordo as ocasiões em que entrava no café dos meus pais e onde nunca, mas nunca, aceitou algo que fosse oferecido. Dizia ela que os meus pais precisavam mais do dinheiro que ela pois tinham filhos para criar e ela não tinha ninguém a quem o dar.
Sempre que tinha oportunidade perguntava pelo seu Benfica, uma paixão herdada do seu primeiro marido, nunca deixando de pagar as quotas de sócio até ao fim.
Noutra ocasião, a minha mãe que, sempre que podia, a visitava, elogiou um quadro que esta tinha na parede da sala, uma das poucas recordações que guardava do seu segundo marido. Em acto contínuo, Maria de Nazaré decide oferecê-lo à minha mãe, tendo sido muito difícil demovê-la de tal acto.
Com emoção recordo uma ocasião em que lhe ofereci uma foto em que estava trajada a rigor com o traje do Rancho, segurando o seu inseparável e tão característico adufe. Se lhe tivesse oferecido um tesouro de riqueza incalculável a sua reacção não teria sido mais emotiva.
Durante a última semana, a minha mãe decidiu visitá-la e encontrou-a bastante enfraquecida e em sofrimento sentada à porta de casa. Não se tendo queixado, só quando a minha mãe lhe perguntou se estava bem ela revelou o estado de saúde em que se encontrava, após o que a minha mãe imediatamente se ofereceu para a levar ao hospital.
Como sempre recusou, alegando que a minha mãe tinha as suas próprias preocupações e que eram as suas irmãs, afinal as suas herdeiras quem tinha o dever de lhe prestar assistência. Tranquilizou a minha mãe dizendo-lhe que já havia dito a um dos seus sobrinhos, que se encontrava muito mal e que em breve chegariam para a levarem ao hospital.
Vendo que não a conseguia demover, a minha mãe despediu-se dela, dizendo-lhe que se precisasse de alguma coisa que lhe telefonasse e que em breve viria visitá-la de novo para saber do seu estado de saúde.
A resposta foi glacial: "Oh minha filha, mas eu já não te vou voltar a ver..."
Maria de Nazaré faleceu no passado domingo, tendo sido encontrada por uma funcionária do Centro de Dia, que procurava saber como estava, pouco antes do seu último suspiro.
Contudo, o povo não esquece, e a massa humana que hoje esteve presente para lhe prestar uma ultima homenagem mostrou que dificilmente a memória de quem ela foi se apagará. A emoção no rosto dos membros do rancho folclórico que se mantiveram numa simbólica guarda de honra ao caixão diz tudo.
Com ela apagou-se uma luz invulgar, um altruísmo único, inimitável, algo que nunca conheci antes e que dificilmente voltarei a conhecer. Enquanto lhe segurava a mão fria, fiz-lhe a ela e a mim próprio uma promessa: os meus filhos saberão que existiu uma mulher única chamada Maria de Nazaré Pereira.
Adeus tia. Que possas encontrar agora finalmente a paz. Obrigado por teres sido um exemplo para o Mundo.
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