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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Depois da Vida - Verdade ou Mentira?

Não, Júlia Pinheiro já não apresenta o programa apesar de ser dona de uma voz que, por si só, era capaz de acordar os mortos.

Peguem numa plateia expectante e em convidados famosos, coloquem-nos num cenário à média luz preenchido por uma música de fundo inquietante e no qual são invocados os espíritos dos falecidos para comunicar com os presentes, através da voz da médium inglesa Anne Germain. Eis os ingredientes do programa televisivo “Depois da Vida”, transmitido pela TVI às Sextas-feiras à noite.

Há dias, após expressar a minha estranheza pelo facto de todos os espíritos invocados saberem falar inglês, deixando-me na dúvida se, querendo tirar um curso de inglês, seria mais eficaz e económico inscrever-me no Wall Street Institute ou simplesmente falecer, lançaram-me o desafio de assistir ao programa. Assim o fiz e do que vi, tirei daí as minhas ilações, partindo do pressuposto que tanto os convidados como a plateia não tinham qualquer associação com a produção do programa, algo que não seria inédito neste tipo de formato.

Essencialmente, o “Depois da Vida” não passa de mais um programa, tão típico da TV portuguesa mas especialmente da TVI, onde os sentimentos humanos são vendidos como mercadoria, perante a sofreguidão dos telespectadores, sejam quais forem as proporções de voyeurismo e crença na sua motivação para assistir, muitas vezes resumindo-se a mera curiosidade mórbida.

Aquilo que Anne Germain faz, é simplesmente por em prática a sua tremenda capacidade de observação, associada a uma grande expressão dramática, para, baseando-se em informações que à partida já detém sobre as pessoas com quem fala, criar a ideia de que está a comunicar com espíritos. Melhor que tudo, leva as pessoas a acreditar que as informações que está a revelar são informações precisas e do foro íntimo quando na verdade são de conhecimento público.

Aí reside a tal capacidade de expressão dramática que, confesso, admiro na suposta médium. Por outro lado ela também consegue direccionar o seu discurso em função das reacções que vai obtendo das pessoas com quem fala, revelando a tal extraordinária capacidade de observação.

Vejamos por exemplo o caso específico de José Augusto Sá, um dos convidados do último programa, e responsável pela associação que pretende perpetuar a memória das vítimas do desastre ferroviário de Alcafache (11/9/1985).

No seu papel de intermediária entre Augusto Sá e o “mundo espiritual”, Anne Germain refere a presença de inúmeros espíritos, destacando-se 4 em particular que a médium revela serem respectivamente o pai, a mãe, a madrasta e a irmã do convidado.

Em que se apoia o seu discurso? Em relatos superficiais, dizendo o que as pessoas querem ouvir, e em afirmações cujo único propósito é comover o convidado para criar um duplo efeito: por um lado retirar-lhe presença de espírito e, por outro lado, criar um impacto mais forte nas pessoas que assistem. Dizer algo como “Sei que tiveste de te tornar adulto muito cedo” a alguém que perdeu a mãe aos 9 anos ou ainda “Sabemos que estaremos sempre no teu coração” a alguém que sente saudades dos seus familiares chegados que faleceram, não pode ser aplicado a praticamente toda a gente nas mesmas circunstâncias?

A mente humana tem esta incrível propensão a pegar em generalidades e em criar padrões particulares onde depois as vai encaixar, um pouco como acontece na leitura do horóscopo. Esse efeito cresce exponencialmente se lhe juntarmos o ingrediente mágico: a crença.

Sejamos francos… a imprensa cor-de-rosa e o Google são uma tremenda fonte de dados que dispensam os espíritos quando se trata de prestar informações. Eu próprio demorei apenas 2 minutos a encontrar a informação necessária para sustentar esta “entrevista” aqui, aqui e aqui.

terça-feira, outubro 02, 2007

Por terras dos Francos IX (cont)

Só para terem uma ideia da violência do bombardeamento a que foi sujeito o Forte de Douaumont durante Verdun...

Vista aérea do Forte de Douaumont antes da Guerra


Vista aérea do Forte de Douaumont em finais de 1916

Imagens retiradas de www.archivaria.de e www.wikipedia.org

sexta-feira, setembro 28, 2007

Por terras dos Francos IX (cont.)

MEMÓRIAS DE VERDUN

O Forte de Douaumont


Como referi no artigo anterior sobre a batalha de Verdun, o Forte de Douaumont era o centro da cintura da região fortificada de Verdun. Ironicamente, acabaria por cair em mãos alemãs primeiro e em mãos francesas depois, sem combate.

Construído entre 1885 e 1913, o forte foi vítima da estratégia ofensiva do exército francês durante o primeiro ano da I Guerra Mundial, tendo sido desarmado e desguarnecido como tantos outros na região. Contudo, a inversão da situação acabou por trazer a frente de combate para a região de Verdun sem que tenha havido um re-equipamento do forte.

A 25 de Fevereiro de 1916, no início da ofensiva de Verdun, os alemães decidem atacar as posições francesas frente ao forte de Douaumont com o objectivo de trazerem as suas posições até pelo menos 600 metros do forte. Estranhando a falta de oposição local, os alemães conseguem chegar facilmente ao fosso do forte. O único sinal de vida é dos canhões de 175 milímetros do forte que disparam contra objectivos distantes. Entraram então dentro do forte fazendo prisioneiros os cerca de 60 franceses que se encontravam nas galerias (o forte tinha capacidade para uma guarnição de 800 homens).

Imediatamente os alemães fazem da fortaleza o pivot das suas posições na região e as sucessivas tentativas francesas de a reconquistar fracassam umas após as outras, isto apesar de em determinado momento os franceses terem mesmo conseguido ocupar posições por cima do forte mas que, por falta de reforços, tiveram de ser abandonadas.

A ocupação alemã do forte vai prolongar-se até Outubro, altura em que um regimento colonial marroquino consegue em definitivo tomar a fortaleza. Entretanto, será sempre submetido a um furioso bombardeamento da artilharia francesa e será talvez por isso que às 6 horas da manhã do dia 8 de Maio, uma explosão num depósito de lança-chamas matou de uma só vez cerca de 800 alemães, 679 dos quais ficaram sepultados no forte.

A própria retomada do forte pelo exército francês será feita em circunstâncias particulares pois, fruto de um incêndio no interior das galerias, a guarnição está extremamente debilitada e rende-se sem combate.


Bandeira francesa hasteada sobre o Forte de Douaumont
Torreão eclipsante de canhões de 175''. O conjunto do canhão e sistema de ascensor da torre pesava 36 toneladas e era manobrado por 3 soldados
Indícios da explosão de um obus de pequeno calibre sobre uma torre de metralhadora


Chicane no interior do forte.


As latrinas da guarnição. Em tempo de combate (balde) e em tempo de paz (no solo)


Dormitórios dos soldados

Alojamentos de oficial

Parede construída para selar a galeria destruída pela explosão do lança-chamas e onde estão sepultados 679 alemães

quinta-feira, setembro 27, 2007

Por terras dos Francos IX

Em Verdun, o solo ainda mostra as cicatrizes dos violentos combates de 1916




VERDUN - Capital Mundial da Paz

Em plena I Guerra Mundial, vivia-se em 1916 uma situação de impasse na Frente Ocidental. Após uma primeira fase em que os alemães conseguiram colocar o exército francês em retirada e chegaram mesmo a bombardear os subúrbios de Paris, o avanço alemão viu-se barrado na batalha do Marne.

Da Alsácia ao Canal da Mancha, forma-se uma frente de batalha estática em que a cada ataque de uma das partes se sucede um contra-ataque do adversário sem quaisquer resultados práticos de uma parte ou de outra. É a Guerra de Posições no seu auge.

Consciente de que os franceses e ingleses planeiam um ataque em larga escala no Somme, o comandante do exército alemão, o General von Falkenhain decide antecipar-se e ferir de morte o exército francês com um golpe decisivo. Depois de algumas hipóteses é escolhida a zona de Verdun, a cerca de 300km a sul do Somme, um "espinho" na linha da frente. 

Verdun é um local que faz parte da mitologia nacional francesa, como Guimarães faz parte da mitologia nacional Portugal pois foi aí que os netos de Carlos Magno assinaram no Séc. IX o tratado que deu origem à França (e também à Alemanha).

O plano de Falkenhain é simples: lançar um ataque total sobre a região fortificada de Verdun para aí atrair e aniquilar o exército francês. Falkenhain apoia-se no facto de a alemanha possuir maiores reservas humanas para se sobrepor ao exército francês e ao, mesmo tempo, planeia com isto desferir um golpe moral fortíssimo na moral da França para levar a à capitulação.

A 21 de Fevereiro um intenso bombardeamento de 1.200 peças de artilharia sobre uma frente de 10km assinala o início do combate, largando sobre as posições francesas 2 milhões de obuses apenas nos dois primeiros dias! Em seguida a infantaria avança sobre as devastadas trincheiras francesas não esperando qualquer resistência da parte dos seus defensores. Contudo a realidade é diferente. Os pequenos grupos sobreviventes do exército francês que ficaram isolados decidem resistir a todo o custo conseguindo com isso travar o avanço alemão o suficiente para permitir a reorganização da defesa da região fortificada de Verdun.

O General Pétain é encarregue da defesa de Verdun e lança a frase da ordem: "Eles não passarão!". Com bastante inteligência, redistribui os recursos pela linha da frente ao mesmo tempo que a estrada que liga Bar-le-Duc a Verdun, a única estrada ainda segura, é usada para trazer reforços e abastecimentos. Denominada "Via Sagrada", por ela chegam a Verdun 50.000 homens e 90.000 toneladas de equipamento por semana em camiões que passam a cada 14 segundos a uma velocidade 40 km/h.


Ainda assim, o forte de Douaumont, considerado o ponto central de toda a região fortificada frente a Verdun cai sem combate em mãos alemãs e mais tarde, a segunda fortaleza mais importante, o forte de Vaux, rende-se também após uma resistência heróica. Os alemães conseguem chegar a dada altura a 3km de Verdun e é anunciada a queda do forte de Souville, ultimo ferrolho antes de Verdun. No entanto o anúncio é prematuro pois a guarnição de Souville não se rende e continua a combater dentro das galerias da fortaleza resistindo até que um contra-ataque consegue libertar o forte.


Ao mesmo tempo, a partir de Junho de 1916, os aliados conseguem afectar recursos suficientes para desencadear o ataque no Somme obrigando os alemães a transportarem para aí várias divisões que combatem em Verdun. Este momento marca a viragem em Verdun pois os alemães ficam em definitivo na defensiva.


Daí até Novembro, os franceses conseguem reconquistar praticamente todo o terreno perdido no início da batalha, reconquistando inclusive os fortes de Douaumont e Vaux mais uma vez sem combate.


No final, tudo volta à primeira forma e em Novembro termina a batalha. Balanço final: 350.000 mortos do lado francês e 320.000 mortos do lado alemão.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Por terras dos Francos VIII


Desde que estamos aqui, a nossa antiga vida ruiu, sem que tenhamos contribuído para tal. Temos tentado, mais de uma vez, procurar a razão e a explicação, mas não o temos conseguido de modo satisfatório. Precisamente para nós, que temos 20 anos, tudo está particularmente anuviado: para Kropp, Muller, Leer e eu, para todos nós a quem Kantorek chama mocidade de ferro.

Os soldados mais velhos estão solidamente ligados ao passado. Possuem uma base, famílias, filhos, profissões e interesses já bastantes fortes para que a guerra não seja capaz de os destruir. Mas nós, com os nossos 20 anos, só temos os nossos pais e, alguns, uma amiguinha. Não é grande coisa.

Na nossa idade a autoridade dos pais está reduzida ao mínimo e as mulheres ainda não nos dominam. Fora disto não havia em nossas casas mais coisa alguma: um pouco de sonho extravagante, algumas fantasias e a escola. A nossa vida não ia mais além. E de tudo isto nada resta.

O Kantorek diria que nós nos encontrávamos precisamente no limiar da existência. É assim, efectivamente. Não tínhamos ainda criado raízes. A guerra, como um rio, levou-nos na sua corrente. Para os outros, de mais idade, ela não passa de um intervalo. Podem pensar em alguma coisa fora dela. Mas nós fomos apanhados por ela e ignoramos como isto acabará. O que sabemos simplesmente, neste momento, é que nos tornamos nuns brutos de uma forma estranha e dolorosa, ainda que muitas vezes não possamos já sentir a tristeza.

Erich Maria Remarque in “A Oeste nada de novo”, Europa-América 1929

Erich Remarque serviu no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial tendo sido ferido por 5 vezes e tendo sido reenviado outras tantas para a frente de combate. No final da guerra, impressionado pelos horrores vividos nas trincheiras, escreveu um livro no qual conta a história de um soldado alemão que vê morrer os seus valores, o seu modo de vida e finalmente os seus camaradas, acabando ele próprio por morrer.

Na sua obra, retrata o absurdo da Guerra e o estado de espírito dos soldados que tinham pura consciência de estar a combater numa luta que não era a deles.

O título da obra é extraído de um célebre e telegráfico comunicado de situação de combate na Frente Ocidental (segundo a perspectiva alemã) e é um paradigma da guerra das trincheiras: "Nada de novo na Frente Ocidental."

segunda-feira, setembro 17, 2007

Por terras dos Francos VII


Destroços do que foi outrora a fortificação de Thiaumont que, durante os 10 meses da Batalha de Verdun, mudou de mãos cerca de 20 vezes.



"Aqui, é preciso vencer ou morrer". Temos a impressão de sermos tropas sacrificadas para retardar o melhor possível o avanço do inimigo e para permitir aos nossos de se reorganizarem sobre a linha das fortalezas, algo que deveria estar feito já há muito tempo. Durante o resto da noite, instalamo-nos como podemos mas não é fácil, os abrigos são insuficientes. Tentamos entrar em contacto com as tropas que deveriam estar à nossa direita e à nossa esquerda. Não há ninguém ou então estão demasiado afastadas. Todos têm o coração tão apertado que ninguém pensa sequer em comer.

Há já dois dias que não apanhamos com grande coisa, caem apenas alguns 77 sobre a nossa posição o que é espantoso pois os alemães devem ter esta colina bem demarcada. Finalmente o dia ergue-se. Observamos o terreno à nossa frente: tudo parece calmo na planície que conseguimos perceber até bastante longe, apenas algumas patrulhas ou homens isolados. Dizem-nos para nos escondermos o melhor possível pois os aviões inimigos circulam nos céus e arriscamo-nos a levar com os obuses que nos caem em cima e que lhes são destinados. É preciso também não nos fazermos detectar.

A manhã passa suficientemente tranquila, não somos bombardeados de forma alguma até que, por volta das 11 horas, a fuzilaria rebenta à nossa esquerda. Conseguimos ouvi-la mas, ao mesmo tempo, um sargento surge gritando: "Toda a gente para fora, vêm aí os Boches!".


Testemunho de Léon Vuillermoz, cabo do 23º Regimento de Infantaria, destacado para a aldeia de Vaux no momento do ataque alemão à região fortificada de Verdun

domingo, setembro 09, 2007

Por terras dos Francos VI

A meteorologia

Um exemplar único de um bovídeo anfíbio, animal muito raro observável apenas em circunstâncias muito particulares


O rio Loue na sua passagem por Quingey com um nível de água 1,5m mais alto que o habitual para esta época. Acabaria por estabilizar de forma a permitir um percurso de 12km em canoa.



A meteorologia é um tema incontornável de qualquer descrição de férias sendo que a presença de um Sol abrasador durante as mesmas um factor indispensável de sucesso.

Se há coisa que me irrita são aquelas pessoas, com um bronzeado que as aproxima - e de que maneira - das suas raízes africanas e que contam as suas aventuras na piscina do hotel ou na praia sob um Sol tórrido.

Há dois reparos que se impõem: primeiro eu tenho olhos na cara e consigo perceber que aquele bronzeado não foi de certeza por estarem demasiado próximos do microondas. A minha astúcia permite-me deduzir rapidamente que tal se deve a uma exposição solar prolongada, embora claro haja sempre a hipótese de recorrer aos solários. Em segundo lugar, basta tomar como referência qualquer operário de construção civil para ver que estes corajosos e coloridos veraneantes não passam de meros amadores e, mais pertinente ainda, estes operários são pagos para se bronzearem! Não andam é para aí a dizer "Oh <turpilóquio>, fui para uma <turpilóquio> de uma obra ali para o Algarve e estava cá uma torra! Mas olha que havia lá gajas bem boas! ". Aparentemente motivo de orgulho é dizer "Fui para a praia, mantive um comportamento digno de um vegetal e fiquei assim bronzeado! Não é espectacular?".

Bom, tudo isto para dizer que bronzear-me nas férias não será para mim um objectivo primordial e que o mais comum, dado o tipo de actividades a que gosto de me dedicar, será obter um bronzeado "estilo camionista".

Contudo, também gosto que as minhas férias coincidam com condições metereológicas favoráveis o suficiente para percursos de exploração e visita. Ora acontece que nestas férias, sobretudo no Norte de França, as minhas férias tiveram tudo menos isso!


A minha chegada ao Franco-Condado foi o prenúncio do que estava para vir pois aconteceu por volta das 23h sob um temporal tremendo. Ao mesmo tempo, soube que parques de campismo estavam a ser evacuados (só de uma vez evacuaram 300 campistas) devido a inundações, inundações essas que motivaram também o corte de diversas estradas e provocaram avultados prejuízos desde o Franco Condado até à Suiça.

Felizmente a coisa acabaria por estabilizar o suficiente para que pudesse fazer diversos percursos e actividades muito simpáticos. Ao menos isso!

quinta-feira, setembro 06, 2007

Por terras dos Francos V

As ruínas romanas de Villards d'Heria

Este impressionante conjunto de ruínas da época romana situa-se no departamento do Jura, junto a Saint Claude e a uma distância relativamente curta da Suiça.

Trata-se de um complexo religioso e centro de peregrinações construído no Séc I, com ocupação até ao Séc II, dedicado a uma divindade aquática local. Actualmente conhece-se as estruturas que formavam o centro religioso do local: um templo, um complexo termal, um hospital para assistência aos peregrinos. No entanto, a poucos minutos daqui e junto a um lago no cimo de um monte, foram também descobertos dois templos, um dedicado a Marte e o outro a Belona.

Aqui a água é um elemento fundamental e o motivo para a construção destas estruturas pois, para além do riacho que aqui passa (o templo foi mesmo construído sobre ele), existem várias nascentes de água que provêm do lago mais acima. A estrutura geológica particular do local fazia com que o débito de água fosse muito irregular podendo mesmo parar e recomeçar algumas vezes durante o dia. Este facto fazia com que, à luz da superstição e crendice da época, se acreditasse que neste local morava uma divindade.
Por outro lado, os romanos pretendiam impressionar o a tribo local dos Sequanos e assim, para além da própria construção do templo, regularizaram o curso do riacho através da construção de muros nas margens e canalização das restantes nascentes.




A plataforma sobre a qual assentava a cela do templo

Uma das piscinas do complexo termal. Entre a escadaria ainda subsiste o revestimento em chumbo para purificar a água e proteger a pedra do desgaste

O tanque sagrado situava-se num pátio em frente à cela do templo e actualmente encontra-se num subterrâneo de captação de água para a localidade de Villards d'Heria

segunda-feira, agosto 20, 2007

Por terras dos Francos IV

PONTAIX



A aldeia de Pontaix, com o seu casario junto ao rio Drome, o seu castelo medieval em ruinas (destruído por explosão durante os conflitos religiosos do Séc XIV) e o seu templo protestante outrora igreja, fica situada numa regiao de altas escarpas calcarias junto ao planalto do Vercors que encerra uma tragica historia de um massacre dos Resistentes pelas forças mecanizadas alemãs durante a II Guerra Mundial.



Em Pontaix fiquei alojado numa simpatica vivenda junto ao rio e o meu anfitriao teve a amabilidade de me fazer visitar as caves onde fabrica a sua "Clairette de Die", oferecendo-me depois um conjunto de 18 garrafas. Malta, preparem-se para as jantaradas!

O processo de fabricacao deste vinho espumante obedece a varias etapas. Em primeiro lugar, o vinho e engarrafado ainda sem ter completado a sua fermentacao, sendo as garrafas fechadas com uma carica e ficando em repouso durante 4 meses. O CO2 libertado durante a fermentacao fica assim aprisionado sendo o gas que forma as "bolhinhas" que se libertam quando abrimos a garrafa para consumo. Por outro lado, nem todo o acucar e transformado em alcool o que da ao vinho o seu teor adocicado.

4 meses depois, as garrafas sao abertas em ambiente controlado sob pressao para manterem o gas, e sao esvaziadas para se poder filtrar o vinho (que entretanto ganhou deposito) que passa por um filtro de fibras e argila. As garrafas sao entretanto lavadas e o vinho acaba por ser novamente engarrafado sendo fechado desta vez com as rolhas que nos sao familiares (tipo cogumelo) mas que, antes de serem colocadas nas garrafas, tem no seu todo exactamente o mesmo diametro. Isto ajuda a dar uma ideia da forca com que sao colocadas o que se torna necessario devido a pressao do gas contido no vinho.

DIE



A cidade de Die, a Colonia Dea Augusta Voncotorium romana, fica a poucos quilometros de Pontaix e e a capital do vinho espumante que tem o seu nome.

Aproveitei para dar um passeio pelo centro historico e tambem ao longo das muralhas que, durante pouco mais de 1km, nos fazem viajar desde a epoca romana ate ao Sec XV.

Relativamente ao sector romano das muralhas, foi interessante verificar que o enchimento dos muros contem frisos, fustes e capiteis de colunas o que permite algumas suposicoes relativamente ao contexto em que foram construidas.

Convem primeiro explicar que as muralhas eram construidas erguendo-se dois muros paralelos, de silhares de tamanho apreciavel, sendo esses muros separados por cerca de 2 metros (neste caso particular) e o espaco entre eles era depois preenchido com pedra irregular e argamassa.

Ora bem, se na epoca do auge da Pax Romana, as cidades nao tinham muralhas ou, no caso de terem, estas detinham um papel principalmente honorifico e nao tanto de defesa, as muralhas de Dea Augusta deixam adivinhar uma construcao apressada com tudo o que estava disponivel o que sugere a eminencia de uma ameaca. Barbaros? Guerra civil? Os ultimos anos do Imperio foram sem duvida conturbados.

Da epoca, podemos ainda encontrar a chamada porta de Saint Marcel, uma das entradas na cidade romana ladeada por duas torres circulares e na qual foi reaplicado um arco monumental municipal cheio de decoracoes.

CREST


Alguns dias depois iniciei a viagem para a minha proxima etapa, tendo aproveitado para, no trajecto e a relativa curta distancia de Pontaix, visitar a torre da vila de Crest.

Trata-se de uma soberba construcao que impressiona pela sua invulgar altura e trata-se do resultado da evolucao de uma fortificacao que, antes de ser castelo, comecou por ser uma torre isolada.

O monumento foi depois adaptado a prisao tendo funcionado assim ate ao Sec XIX, altura em que viria a ser abandonado. Os grafitis sobrepostos nas diversas celas sao o testemunho de muitos que aqui passaram e inclusive aqui morreram, sendo que alguns desses grafitis sao verdadeiras obras de arte.

Vale a pena subira ate ao alto da torre para admirar a vista que alcança até dezenas de quilometros em redor.

Depois de algumas horas aqui, continuei a viagem para norte ate a regiao do Franco Condado, Franch-Comte, onde me encontro desde entao.

A seguir: O Franco Condado, Verdun, Suica, Paris.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Por terras dos Francos III

A estadia nos Pirineus foi deliciosa na medida em que fiquei alojado numa antiga casa senhorial numa pequena vila situada na confluencia de 2 vales esculpidos por glaciares desde ha milhoes de anos.



Durante o habitual convivio de pos-jantar, os meus anfitrioes tinham-me reservado uma surpresa. Aparentemente, o ex-proprietario da casa por volta da viragem do Sec XIX para o Sec XX, era um entusiasta de arqueologia e paleontologia e acumulou varios fosseis e ferramentas pre-historicas vindas da Tunisia (segundo as cartas que acompanham os itens).

Quando a casa foi vendida aos actuais proprietarios estes descobriram no sotao esta coleccao guardada em caixas de charutos e de perfumes da epoca e continuaram a guarda-la para a expor um dia.



Sabendo do meu interesse pela materia, tiveram a incomparavel gentileza de me oferecer diversos desses itens a minha escolha entre raspadores, perfuradores e pontas de seta em silex.

Entretanto, entre um passeio pelas redondezas por trilhos, grutas com pinturas misteriosas e ruinas de castelos medievais, o tempo correu celere.


Foi com tristeza que dias depois me despedi para, as 7 da manha, prosseguir viagem ate a proxima etapa: a aldeia de Pontaix nos pre-Alpes com passagem por...

NIMES


A milenar cidade de Nimes (a Nemausus romana) forma um aglomerado urbano de apreciavel dimensao sendo uma cidade turisticamente muito procurada.

Nao fiquei mais que 3 horas, o tempo suficiente para dar um passeio pelo centro historico passando pela Casa Quadrada (um templo romano em perfeito estado de conservacao), a Arena (anfiteatro romano com 20.000 lugares), as portas duplas da cidade romana (dupla via central para os carros e quadrigas e portas laterais para peoes) e as pracetas que aqui e ali se encontram recheadas de monumentos, esplanadas e ocasionais performances musicais.

Trata-se de uma cidade de cultura e tradicoes bem visiveis e que sabe explorar com grande eficacia o seu patrimonio.

Finalmente, porque o calor assim o obrigava, houve ainda tempo para experimentar a excelente pastelaria francesa e uma refrescante bebida antes de seguir caminho ate Pontaix onde cheguei por volta das 20h.

PS - O facto de escrever estes artigos sem incluir fotografias nao e voluntario pois nao tenho neste momento meios de fazer a transferencia das fotografias que vou tirando para este Macintosh. Ficam prometidas para depois do meu regresso OU caso consiga acesso a um PC, para um dos proximos artigos.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Por terras dos Francos II

ESPANHA / ANDORRA

Nao foi facil atravessar Espanha pois sucessivamente descobria pontos de interesse que motivavam um desvio ou uma paragem. Desde um centro comercial ENORME perto de Madrid no qual parei para comprar fumados ate a incrivel cidade de Calatayud com as suas ruinas romanas, os seus 3 castelos e bairros arabes, cristaos e judeus diferenciados e a mais alta torre de estilo mudejar da Peninsula.

Sendo assim, por volta das 2 da manha, decidi dormir um pouco antes de entrar em Andorra e parei junto a uma pequena aldeia. Por volta das 4 da manha acordei e deparei com um individuo a observar atentamente os pneus da minha viatura e que desapareceu quando notou que eu tinha acordado e estava a olhar para ele. Decidi por isso mudar de sitio e parei alguns quilometros mais a frente no estacionamento de uma pequena vila onde, ai sim, dormi ate as 7 da manha, altura em que, apos um retemperador (ou nao) cafe local me pus a caminho.

Andorra por seu turno e por aquilo que vi, consiste em hoteis e lojas dispostas ao longo de um vale. A paisagem e sem duvida impressionante pois todo o casario se encontra no fundo de vales limitados pelas altas escarpas dos Pirineus.

Aproveitei para parar para encher o deposito com gasoleo a 0,82 Eur/litro e para adquirir um GPS com mapas dos paises da Europa Ocidental, leitor de MP3 e imagens, a 228 Eur, ou seja, cerca de 100 a 150 Eur mais barato que "ca fora".

Foi mais ou menos nesta altura que fui abordado por uma senhora de alguma idade que me tocou no ombro dizendo "David?!". Olhei com espanto e ao ver que nao a conhecia pensei que estivesse perante uma leitora da revista Hola!. No entanto, tao depressa como me interpelou, pediu desculpa e foi embora.

Atravessei entao o pais e entrei em Franca atravessando o tunel de Envalira.

domingo, agosto 12, 2007

Por terras dos Francos - I

Passados 10 dias desde a minha chegada a Franca posso dizer que o saldo tem sido tremendamente positivo pese embora o mau tempo que se fez sentir na regiao fronteira com a Suica (onde me encontro neste momento) que levou inclusive a evacuacao de varios parques de campismo e ao encerramento de varias estradas, o que em certa medida acaba por justificar o facto de ter trazido o Caetanomobile II.

Outro facto negativo que importa salientar sera sem duvida o facto de os teclados franceses serem AZERT e nao QWERTY . Por isso este texto, digitado num Macintosh de Mil Nove e nao sei quantos, sera escrito sem acentuacao e caracteres portugueses para nao perder muito tempo por um lado e por outro porque ha caracteres que nao consigo encontrar.

TOLEDO


Tendo entrado em Espanha pela fronteira junto a Penamacor, fiz de Toledo a primeira paragem da minha viagem. Que cidade magnifica! Monumental, bem tratada, trata-se de uma cidade com um misticismo muito particular que emana da historica concordia entre cristaos, judeus e muculmanos desde a sua sucessiva conquista por arabes e depois por cristaos. So apos 1492 esta harmonia (que teve obviamente os seus altos e baixos) foi quebrada.

O museu da cidade consegue transmitir este encantamento na sua exposicao "Chaves de Toledo" na qual procura explicar os factores que levaram ao nascimento da cidade. A exposicao comeca curiosamente pela exibicao das chaves da cidade e pela lista dos nomes das personalidades a quem foram entregues. Desta lista constam os nomes de Mario Soares e Jorge Sampaio.

Depois estao expostas varias chaves pertencentes a judeus expulsos em 1492 que, julgando que um dia voltariam, trancaram as suas casas e levaram consigo as chaves. Muitas dessas chaves ficaram sempre em posse familiar e foram sendo passadas de geracao em geracao. Diz uma lenda local que, seculos depois, um descedente dos judeus expulsos voltou a Toledo com a sua chave e, tendo encontrado a casa dos seus antepassados, introduziu a chave na fechadura e, extraordinariamente, esta abriu a porta.

No geral a exposicao fala da rocha, da agua, das religioes, explicando a importancia e o contributo de todos os factores que deram origem a Toledo.

A minha visita a Toledo terminou com uma subida as torres da Igreja dos Jesuitas para dai admirar toda a cidade num panorama inesquecivel.

A titulo de interludio comico devo referir o pequeno episodio com um casal de portugueses a hora de almoco no restaurante onde me encontrava.

O simpatico, pouco discreto e visivelmente apaixonado casal sentou-se na mesa do lado e, como nao percebiam muito de espanhol, olharam para o menu, olharam novamente e voltaram a olhar mas como pouco conseguiam perceber, resolveram perguntar directamente a empregrada se tinham pratos de carne de porco. Eis resumidamente como o dialogo decorreu:

Ela - Perdon. Tem carne de cochonilho?

Empregada - Que?

Ela - C-o-c-h-o-n-i-l-h-o

Empregada - Que?

Ele - "Oink oink!"

Empregada (visivelmente confusa) - hmmmm no!

Ela - Entonces tem o que?

Empregada - Tenemos pollo (galinha), cerdo (porco),...

Ela para Ele - Olha olha eles servem pratos de veado.
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