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sexta-feira, julho 20, 2018

Como identificar falsas notícias


A comunicação social é hoje bem diferente daquilo que era há alguns anos, sobretudo pelo sucesso alcançado pelas redes sociais, de que o Facebook é um dos melhores exemplos. As redes de partilha de informação deixaram de se apoiar exclusivamente nos mass media clássicos (imprensa, rádio e televisão) e passaram a ter nas redes sociais um pilar importantíssimo. A informação propaga-se hoje a um ritmo elevadíssimo e, no meio deste turbilhão com um nível competitivo inédito, os agentes noticiosos "oficiais" debatem-se com a necessidade diária de serem os primeiros a obter e divulgar as notícias. Em consequência:

  • O tempo dispendido para validar a credibilidade dos factos apresentados na notícia é menor

  • A deontologia é muitas vezes desconsiderada face à urgência de mostrar trabalho e garantir leitores/audiência

  • Há um efeito "cascata" em que se um agente noticioso publica uma notícia inédita, validada ou não, muitos outros vão atrás e reproduzem-na, partindo do princípio que foi validada na fonte

Esta precipitação é de tal monta que, por vezes, até artigos satíricos são partilhados como sendo verdadeiros. Lembram-se de quando a cadeia televisiva RT difundiu a notícia de como a Roménia tinha enviado ajuda para o Tahiti em vez do Haiti? [Ver aqui]




Por outro lado, nas redes sociais cada utilizador tornou-se um agente noticioso não oficial, partilhando publicações que vai encontrado no seu "feed" de informações, cronologia se preferirem. O problema é que a validação da sua fiabilidade é geralmente nula e reveste-se de várias particularidades:


  • Não há obrigação deontológica de validar a credibilidade dos factos

  • As partilhas são sempre influenciadas pelas convicções e preconceitos de cada um e são motivadas, ou seja, estamos pré-condicionados para tomar como credíveis todas as notícias que vão de encontro às nossas convicções e preconceitos. 

  • As partilhas são motivadas pela necessidade viciante de obter "Likes", no fundo, de se sentir importante no seio da "comunidade virtual"

  • O fascínio do sensacionalismo, a pressa em obter "Likes", e, por vezes, uma certa preguiça, fazem com que a partilha se faça de forma precipitada, apenas com base na leitura do título e poucas vezes se lê, como sempre deveria acontecer, o corpo da notícia

  • A partilha raramente avalia as motivações políticas ou sociais de quem publicou originalmente a notícia


Todo este conjunto de factores cria o eco-sistema ideal para o surgimento e proliferação de notícias falsas ou, "como se diz em americano", as Fake News. Esta é uma praga que infesta a sociedade de informação actualmente e frequentemente ultrapassam, em termos de alcance, a verdade dos factos. Por outro lado, quando se descobre que uma notícia é falsa, o alcance do seu desmentido é irrisório quando comparado com o alcance que a notícia atingiu inicialmente. Porquê? Porque, desprovido que é de sensacionalismo, a motivação para a partilha de um desmentido é muito menor.


Cada um é responsável por aquilo que partilha!

De facto, mesmo que não sejamos autores de uma determinada notícia falsa, o facto de a partilharmos torna-nos parcialmente responsáveis pela sua existência e pelas suas consequências, que em casos extremos podem ser trágicas. 

Um caso que ficou célebre foi o do Pizzagate, nos Estados Unidos no qual, devido a um boato que se tornou viral, um homem invadiu uma pizaria e disparou vários tiros porque acreditava que esta era o local de tráfico de crianças por pedófilos ligados ao partido democrático [Ver aqui].

No Brasil, um rumor que se tornou viral, levou ao linchamento de uma mulher que tinha sido transformada numa raptora e abusadora de crianças. [Ver aqui]

As falsas notícias que mais frequentemente vejo serem partilhadas têm a ver com:
  • conteúdos raciais
  • conteúdos religiosos
  • conteúdos políticos
  • teorias da conspiração

Os actos de vandalismo de um grupo de hooligans adeptos do Basileia (na Suíça) transformou-se em supostos actos de violência por parte de muçulmanos que queriam impor o respeito pelo Ramadão em Birmingham, no Reino Unido [imagem tirada daqui]

Quando vemos uma notícia que provoca em nós uma reacção emocional, o primeiro impulso será de a partilhar imediatamente. É precisamente nesse momento que devemos ter a capacidade de refrear esse impulso e de colocar a questão fundamental: "Será que isto é verdade?"


Como identificar notícias falsas?

Quando me deparo com uma notícia partilhada que chame de alguma forma a minha atenção pelo seu título e que levante algumas suspeitas, sigo sempre o mesmo método de avaliação:
  1. Abrir e ler a notícia. O título está em harmonia com o seu conteúdo? Cita fontes? Aproveitem também para verificar a data da publicação.

  2. Analisar o site em que está publicada. É um site fiável? Qual é o sentido geral das suas publicações (pode ser satírico, política ou religiosamente tendencioso, ...)?

  3. Fazer uma pesquisa pelas fontes citadas. Existem? São quem a notícia diz serem?

  4. Procurar a notícia noutras fontes de informação, nomeadamente em sites informativos credíveis, como canais de televisão ou jornais on-line. Se não encontrarmos a notícia em nenhum deles, será bastante suspeito.

  5. Partir do princípio que a notícia é falsa e pesquisar no Google como se assim fosse. Usando o exemplo dos hooligans suíços que atrás referi, o método que usei para descobrir que se tratava de fake news foi simplesmente o de fazer uma pesquisa no Google com os termos "Ramadan riot Birmingham fake" ("Ramadão tumulto Birmingham falso")
  6. Copiar uma frase da notícia suspeita e pesquisá-la, colocando-a entre aspas, no Google
  7. Suspeitar de todas as partilhas que sejam acompanhadas de frases como "Esta publicação está a ser censurada! Partilhem antes que o Youtube ou Facebook elimine este artigo outra vez!"

Claro que nem todas as partilhas são de artigos. Muitas vezes são fotografias acompanhadas de uma descrição e é mais difícil verificar a origem desta. 

O caso bem conhecido de uma imagem partilhada com falsa descrição. Tornou-se viral por representar supostamente o êxodo de europeus para África durante a II Guerra Mundial mas, na verdade, representa a fuga de dezenas de milhares de albaneses para Itália nos anos 1990. [Imagem tirada daqui]


Diferentes imagens com a mesma credibilidade:

Uma frase atribuída a Catarina Martins e publicada no Jornal Expresso que, pelos vistos, na semana em questão foi publicado... à Quarta-feira! Uma pesquisa no Expresso on-line não deixa dúvidas quanto à não-existência desta frase.


O cartão de Fernando da Silva Pais, director da Pide, foi transformado no "cartão de informador" de Cavaco Silva


Neste cartão de membro da FNLA, a identidade de Peter McAleese foi substituída pela de Manuel Alegre


No entanto também há formas de despistar a sua credibilidade, sendo a mais simples a de fazer uma pesquisa de imagens no Google
  1. Abrir a imagem num novo separador (Botão direito do rato - Abrir em novo separador) e copiar o endereço da imagem da barra de endereços do nosso navegador
     
  2. Fazer uma pesquisa de imagens no Google, pesquisando pelo endereço da imagem. O Google vai procurar imagens visualmente semelhantes e apresentar os sites onde elas se encontram. Se os factos da partilha forem falsos, será possível encontrar na lista de resultados o seu contexto original ou o desmentido da falsa legenda.

É claro que haverá partilhas cuja veracidade será difícil de validar mesmo com todas estas etapas de verificação mas garanto que a grande maioria das falsas notícias será facilmente detectada desta forma. Dá algum trabalho mas vale a pena até porque, como referi atrás, cada um de nós é responsável por aquilo que partilha, tanto pela sua veracidade como pelas suas consequências.

Já agora, para terminar, gostava também de ter algum feedback vosso. Quais são as formas de verificação da veracidade das notícias que utilizam? Acham que esta lista é completa ou falta alguma coisa?



quarta-feira, maio 30, 2018

O "não" à Eutanásia e a legitimidade que nos assiste

A discussão durante os últimos dias foi intensa e ontem, finalmente, a proposta de despenalização da eutanásia, ou melhor, as 4 propostas foram a votos na Assembleia da República, sendo que a proposta do PS foi reprovada por apenas 5 votos. Este resultado acaba por ser surpreendente, especialmente tendo em conta a posição do Partido Comunista que votou contra.

Resultado da votação para cada proposta (o documento de cada proposta está disponível no link):

PAN (link) 102 a favor, 116 contra, 11 abstenções
PS (link) 110 a favor, 115 contra, 4 abstenções
BE (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções
PEV (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções

Dizem aqueles que eram contra a despenalização, que este resultado mostra que a sociedade portuguesa não quer a eutanásia. É uma completa falácia. A sociedade portuguesa está representada no parlamento por interposta pessoa e, nesta matéria em particular, aquilo a que se assistiu foi a uma expressão das convicções morais pessoais de cada deputado, quando lhes foi dada essa liberdade pelos seus partidos pois, de outro modo, valeu a vontade dos partidos. 

Para a sociedade portuguesa ser ouvida, esta questão deveria ter sido referendada mas, como li algures, “a sociedade portuguesa ainda não tem maturidade para discutir este tipo de questões”. Esclarecedor e contraditório. Portanto, 

Fiquei triste por este resultado pois assumo-me como sendo a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido, que são práticas diferentes com o mesmo objectivo de antecipar a morte. No entanto, também defendo que o Estado não se pode nunca demitir da sua função social e é da sua responsabilidade fazer com que o desespero e o sofrimento possam ser atenuados de tal forma que o recurso à antecipação da morte seja uma via o menos desejável possível. Isso passa por uma aposta clara no reforço dos cuidados paliativos, algo que até agora não tem acontecido. Aliás - suprema ironia! -, muitos dos que agora exigem o reforço nesta vertente de cuidados hospitalares, são os mesmos que, há uns tempos atrás, promoveram cortes drásticos no financiamento do nosso sistema de saúde. 

Há também muito para dizer sobre as campanhas e discussões que se desenrolaram até ao dia de ontem. Quer-me parecer que muita gente não percebeu exactamente o que estava em causa nem compreendeu o que era isto da eutanásia. Parecia haver pessoas convencidas de que, com a aprovação da eutanásia, se iria assistir ao abater sistemático de doentes pelo país fora ou, no mínimo, que esta iria passar a ser uma prática médica do quotidiano das unidades de saúde. 

Isto também terá sido promovido pelo tom e argumentos de certas campanhas que pareciam apostar claramente na propagação do medo e da desinformação em proveito daquilo que defendiam, o que aliás é uma prática recorrente. Frases como “A eutanásia mata!” acompanhada de uma imagem lúgubre e “Por favor não matem os velhinhos” no cartaz de uma das pessoas que ontem se manifestaram diante do Parlamento, são claros indicadores do nível de esclarecimento que foi promovido.


Exemplo de campanha falaciosa e de desonestidade intelectual. A mensagem que se procura passar é que a eutanásia pode vir a ser uma imposição que não depende da vontade expressa de cada um. Lutar contra a eutanásia torna-se pois uma luta pela própria sobrevivência. 


Houve até uma subtil campanha que traçou um paralelo entre esta eutanásia e o abate de animais em canis, como se estas realidades pudessem sequer ser comparáveis. 

Clamou-se pelo respeito pela vida, alegou-se que toda a vida é sagrada, que tirar vidas é errado. Desconsiderou-se algo que estava aqui em causa que era o direito a uma morte digna e o respeito por uma decisão pessoal que apenas diz respeito a quem a toma.

Tentemos colocar-nos na pele de alguém que, acamado e totalmente dependente, sofre de uma doença incurável e com sintomas que se traduzem num sofrimento contínuo que lhe condiciona totalmente toda e qualquer interacção com o mundo ao seu redor. Vai definhando aos poucos, nesta lenta agonia, sob o olhar da sua família que irá guardar esta visão como a última recordação do seu ente querido.

O desespero e o sofrimento, que nada consegue atenuar, são tais que o alívio da morte se afigura como a única solução viável para lhe pôr cobro. A pessoa não quer sofrer mais e não quer que a família partilhe do seu sofrimento. Pede para morrer, para partir com tranquilidade e com dignidade.

Que moralidade tenho eu, que nem tenho ideia do que ele sofre, para lhe vedar essa opção? Que legitimidade tenho eu para lhe dizer Não, meu caro. Eu acho que todas as vidas são sagradas e toda as vidas devem ser salvaguardadas por isso aguenta e continua a sofrer. A tua dignidade está salvaguardada pela recordação que os teus familiares têm de como tu eras antes de ficares nesse estado. Não gosto de te ver sofrer mas não tens outro remédio. Agora fica aí e aguenta-te enquanto eu vou lá para fora ver as montas, beber copos com os amigos e viver a minha vidinha tranquilamente. Ainda por cima não tenho de suportar a visão de ti nesse estado.

Outra pergunta que eu faço é se alguém se deu sequer ao trabalho de ler as propostas de lei ou se se limitaram a ler os títulos das notícias partilhadas com frases fortes nas redes sociais. O passado recente faz-me suspeitar que se tratou sobretudo do 2º caso.

Ora, o que as propostas de lei diziam é que a eutanásia teria de ser uma decisão do próprio e que essa decisão teria de ser consciente, isto é, teria de ser uma decisão actual, séria, livre e esclarecida:


Por outro lado, a aceitação do pedido teria de seguir um processo de avaliação clínica implicando o parecer de um médico orientar, de um especialista na doença de que padeceria o doente e no parecer de um especialista em psiquiatria. Se todos os pareceres fossem positivos, então o processo seguiria para uma Comissão de Verificação e Avaliação a quem caberia depois a decisão final.

Poderá haver ainda alterações a fazer mas este modelo, parece-me, impediria decisões e acções tomadas com demasiada ligeireza. Por outro lado, havendo já países em que a eutanásia é legal, é sempre possível analisar essas realidades de forma a avaliar e corrigir as suas fragilidades.

Para já, a eutanásia foi colocada na gaveta, provavelmente até às próximas eleições legislativas de 2019. O ardor do debate sobre este tema vai também diluir-se, assim como a vontade manifestada por inúmeros cidadãos e grupos políticos em reforçar o investimento em cuidados paliativos como alternativa moralmente correcta à eutanásia.

Por enquanto, resta aos doentes em sofrimento aguentar-se, à espera que lhes proporcionem uma solução que resolva o seu sofrimento, seja ela qual for.

sexta-feira, maio 25, 2018

Lendas da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018 

 Artigos anteriores:
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem



Falar do património humano da Serra da Gardunha implica necessariamente falar não apenas daquilo que é material mas de igual forma do imaterial. Neste último, enquadra-se um rico manancial de lendas e crenças que nos chegaram, transmitidas essencialmente por via oral. 

Imbuídas de uma profunda religiosidade, que se traduzia em diversos aspectos do seu dia-a-dia, as gentes da Gardunha acreditavam também na existência de diversos seres fantásticos cujos nomes, de tão repetidos ao redor das fogueiras por inúmeras gerações, acabaram por ser percebidos como uma parte banal da realidade que as rodeava, algo tão banal como os fraguedos e as árvores das encostas ao redor. 

Assim, pelos caminhos da Serra, os mesmos caminhos que as gentes trilhavam para irem de uma aldeia para a outra, caminhavam também o Diabo, a Boa-Hora e a Má-Hora e até bruxas, embora estas vivessem até despercebidas no seio das comunidades. Os cruzamentos de caminhos eram locais muito sensíveis pois eram frequentemente locais de “mau encontro”, havendo muitas vezes necessidade de os santificar com a presença de um cruzeiro, fosse ele de pedra ou madeira. 

Em praticamente todos os relatos que pudemos recolher, O Diabo ou Patilhas, como era familiarmente conhecido, é em geral um “pobre Diabo”. A sua obsessão por almas torna-o uma vítima fácil e recorrente da esperteza alheia. Tendo inventado o moinho, vê Deus apropriar-se da sua invenção ao passo que sendo o construtor da calçada que liga o santuário da Senhora da Orada à Portela, também conhecida como Cruz (lá está, num cruzamento), fica sem a alma que lhe fora prometida em troca da obra. Logo ali ao lado, embora já noutra serra, é também vítima da malícia de um sapateiro quando se encontrava no centro de um baile de bruxas, em plena Eira dos Três Termos. Apenas por uma vez a sua aparição tem consequências nefastas, ao deixar sem fala uma habitante da aldeia abandonada de Porto dos Asnos.

A Boa-Hora e a Má-Hora, por sua vez, são duas entidades enigmáticas que vagueiam silenciosas pelos caminhos. A primeira é, segundo as descrições, “branca, muito alta, como se fosse toda feita de algodão” em oposição à segunda que é “um vulto negro”. Nas entrevistas que efectuámos, algumas pessoas afirmaram a pés juntos ter visto estas duas figuras e também é conhecida a história de como, na aldeia de Casal da Serra, um homem foi perseguido até sua casa pela Má-Hora, não se tendo atrevido a sair durante vários dias. A Boa-Hora, personificação de venturas, surge no caminho como o aviso para as pessoas se porem a salvo já que, atrás de si, vem sempre a Má-Hora, a personificação do infortúnio que pode até significar a morte.

À semelhança do que já se faz noutros locais, no nosso país e não só, este manancial de lendas justifica bem a criação de roteiros temáticos, cujo valor paisagístico seja complementado com a partilha deste elementos etnográficos imateriais. Há desde logo um elemento que facilita a tarefa e que é o facto de, de forma geral, todas estas lendas estarem perfeitamente localizadas na geografia da Gardunha. Acreditamos também que é fundamental trabalhar-se no sentido de salvaguardar este acervo. Isso não passa por simplesmente plasmar os relatos em textos mas antes por registar o seu relato na primeira pessoa pelas pessoas que as viveram e ainda vivem de forma íntima, nas diferentes aldeias da Gardunha. Ainda há tempo para tal.

Para terminar, vale a pena fazer referência a uma lenda que implica seres que, hoje sim, são seres imaginários: os lobos da Gardunha. Trata-se da lenda do Penedo da Abelha e que conta a trágica história de um jovem soldado que, tendo saído da casa dos seus pais para ir visitar a sua namorada, nunca mais regressou. Conta-se que dias mais tarde apenas os seus pés terão sido encontrados, ainda dentro das botas.

Ora, foi no próprio Penedo da Abelha que, em 2004, identificámos uma inscrição para a qual o estimado Dr. Candeias da Silva avançou gentilmente uma proposta de leitura e datação. Nesta inscrição dos séculos XVI ou XVII, alguém procurou eternizar junto a uma cruz, o nome Afonso Vaz. Será esta a prova material do local de falecimento de um jovem soldado? 

Ler também: 

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Não, a lei que permite a entrada de animais em restaurantes não é o 1º sinal do fim do Mundo.

Imagem tirada daqui

"Após o ribombar das trombetas celestes, o chão irá fender-se derramando sobre a terra legiões de animais famintos e sarnosos que irão invadir os restaurantes, condenando à fome e à intromissão de pêlos, em partes insuspeitas e recônditas do corpo, todos os seres humanos aí presentes.

É desta forma que é encarada nas redes sociais, esse lugar de indignações instantâneas e seguidistas, quiçá com algum exagero da minha parte, a perspectiva da entrada em vigor da lei que irá permitir a entrada de animais de companhia em estabelecimentos de restauração

A receita é sempre a mesma: a aquisição de informação fica-se pela leitura do título de uma notícia, na maior parte das vezes já inquinada por uma certa dose sensacionalismo e falta de rigor, com vista a obter "cliques", e de pronto se faz a sua partilha, juntando-lhe uma série de palavras "robustas", plenas de indignação.

Nas redes sociais, parece que as pessoas perderam a capacidade de ter um certo nível de pensamento crítico e, pior ainda, parecem ter perdido a capacidade para debater assuntos com alguma urbanidade. Basta uma opinião contrária à de alguém para este último desfilar um rol de adjetivos pouco abonatórios dirigidos a quem ousou discordar. Os exemplos são mais que muitos e poderão ter a ver com a sensação de impunidade e protecção que é dada por estarem escondidos por um ecrã.

Depois, no que diz respeito às leis, há sempre um argumento de contraditório que teima em vir à superfície: “Tanta coisa tão importante para legislar e perdem tempo com estas coisas!”. Um bom exemplo disto é a onda indignação geral, com um certo teor de islamofobia, é certo, que se gerou perante inúmeras iniciativas de ajuda a refugiados, que fugiam à guerra na Síria. O argumento principal era que “em vez de se ajudarem os sem-abrigo, estamos a trazer estas pessoas para viverem às nossas custas!”. Então muito preocupadas com os sem-abrigo, seria interessante averiguar quantas destas pessoas se mexeram desde então para os ajudar ou até, sendo picuinhas, quantas delas desviam o olhar quando passam por eles na rua para evitar dar umas moeditas.

Também parece generalizada a ideia de que a Assembleia da República dedicou dias inteiros das suas sessões à aprovação desta lei o que não pode estar mais longe da verdade. Basta ir consultar a documentação disponível no site da Assembleia da República para perceber isso, em vez de nos ficarmos com os pacotes sintéticos de indignação instantânea do Facebook.

Caros concidadãos, se acham que há coisas mais importantes MEXAM-SE! Criem petições, aborreçam os deputados que elegeram para a Assembleia da República. Não fiquem sentadinhos à espera que as mudanças caiam do céu. A cidadania, não se esqueçam, não se esgota nas mesas de voto. É, pelo contrário, um exercício que deve praticado ao longo de um período de 4 anos. Mas adiante.


O que diz afinal a lei que foi aprovada?

Voltando ao tema de abertura, o que diz afinal a lei que foi aprovada na sequência de uma proposta do PAN? 

Não, também não é isto que vai acontecer:



e não, também não vai ser o apocalipse da invasão animal com a chegada dos 4 binómios cinotécnicos do apocalipse como está a ser pintado. 



Em termos gerais, deixa de proibir taxativamente a entrada de animais de companhia em espaços de restauração, excepção feita a cães-guia como até agora acontecia, conferindo aos proprietários a prerrogativa da escolha de permitirem ou não essa entrada.

Ainda assim:

- Essa permissão ou não será dada a conhecer mediante a afixação de um dístico na entrada dos estabelecimentos (como acontecia com a permissão ou não de fumadores). Na ausência do dístico assume-se que a entrada é permitida;

- Os proprietários podem definir um limite de animais dentro do estabelecimento;

- Os animais terão de estar presos com trela curta, não podendo circular livremente

- O proprietário pode definir uma área específica para a permanência de animais em vez de permitir a sua presença em todo o espaço


Percebido? Espalhem a palavra!

Ah! Já agora, senhores donos de animais, porque há regras de civismo que são de observância obrigatória, não tentem aproveitar-se desta lei alegando que agora ninguém pode proibir a entrada de animais. Também será conveniente que os cães estejam treinados para não terem comportamentos que incomodem as restantes pessoas e animais. As regras de civismo aplicam-se a todos embora em Portugal muitas vezes tenha tristemente de ser imposto por lei.


segunda-feira, abril 06, 2015

Toponímia invulgar na Cidade Invicta


Numa rua mais estreita, bem pertinho dos Aliados, é possível encontrar esta curiosa placa toponímica que evoca os notáveis feitos do nosso vice-primeiro-ministro. É impossível não admirar a paciência do autor anónimo, tanto na elaboração (os desenhos estão bem elaborados) como na colocação deste pequeno painel. 

segunda-feira, julho 21, 2014

E se isto vos aparecesse à frente?

Durante o último fim-de-semana, enquanto caminhava placidamente e admirava montras num centro comercial aqui bem perto, estaquei subitamente diante de um folheto promocional de uma empresa de informática e sistemas de segurança.



Em grande destaque, o folheto aconselhava-me de forma imperativa a proteguer os meus bens dos amigos do alheiro. Por um lado fiquei satisfeito porque sinceramente acho uma pena o verbo proteguer não ser mais usado pelas pessoas no dia-a-dia porque até é um verbo catita. Eu protego, tu protegues, ele protegue... É bonito! No entanto, também fiquei muito triste porque se estava a discriminar de forma completamente despudorada os amigos do alheiro. Acho muito mal e explico porquê.

O alheiro é um indivíduo que vende alhos para ganhar a vida e que merece à partida elevada consideração porque, bem vistas as coisas, para além de conviver com um cheiro que não é agradável e que o torna pouco atractivo até ao mais faminto dos vampiros, também deve ser constantemente vítima de piadas fáceis nas quais se emprega de forma algo criativa a palavra "alho". Admitamos, não deve ser fácil fazer amigos e se, ainda por cima, começamos a instalar por aí sistemas de alarme destinados a mantê-los ao largo, qual será a motivação para estabelecer relações de amizade com o senhor alheiro quando se sabe à partida que se vai ser discriminado por esta espécie de sapo verde tecnológico

Um pouco mais abaixo no folheto, encontrei ainda outra referência que me escandalizou: o "kit de desacopulador". Que diabos! O país enfrenta neste momento uma grave crise de natalidade, de tal magnitude que o Primeiro-Ministro já não sabe se há de mandar lixar com "f" os portugueses de forma gratuita ou se também os vai ter de subsidiar nessa actividade e o Presidente da República, que se calhar até já dobrou o cabo da andropausa,  até já pergunta em público o que é preciso fazer para que nasçam crianças, e há gente a ganhar dinheiro com dispositivos desacopuladores? Está bem que o dispositivo em causa tem apenas 7500 Gauss de força e, como tal, nunca conseguirá ser mais interessante que um pé-de-cabra ou um balde de água fria na tarefa de interromper cópulas mas está-se a passar aqui a mensagem errada, senhores.

Foi com tudo isto em mente que optei por desacopular dali para forma para me proteguer de ficar excessivamente indignado. Ele há com cada uma...!

terça-feira, julho 15, 2014

Quando o civismo também entra em défice...

...nada melhor que colocar a eloquência ao serviço da pedagogia, como é possível ver neste aviso manuscrito afixado numa parede algures na cidade do Fundão. Para além da ausência de erros ortográficos e não olhando à construção frásica, há um aspecto que merece ser destacado e que faz com que este aviso toque na mouche em relação aos seus destinatários: a culpa não é dos cães mas sim dos seus donos e da falta de civismo destes. 


quarta-feira, maio 28, 2014

Europeias 2014 - Da histórica derrota da AP à trágica vitória do PS

Se dúvidas houvesse, os cidadãos europeus deram uma prova cabal daquilo que sentem em relação à actual União Europeia, bem longe de ser a tal "Europa solidária" apregoada por muitos, incluindo o nosso primeiro-ministro.


Fartos uns de uma Europa que só lhes impõe austeridade, desiludidos outros com uma Europa que não é aquilo que lhes foi prometido, pelo Velho Continente fora os cidadãos fizeram aquilo que se faz quando se tem a cabeça quente: tiveram atitudes extremas mas também mostraram aquilo que é o poder do voto. Abalaram os alicerces da alternância partidária e enviaram uma mensagem bem forte: esta não é a Europa que se pretende e os habitués do palco político não se podem sentir seguros nos seus cadeirões pois há alternativas a considerar, mesmo que isso signifique trilhar um caminho muito perigoso. 



Contudo o sintoma mais evidente do desencanto e da descrença acabou por ser a elevadíssima abstenção, excepto nos países onde o voto é obrigatório. Sendo esta a forma de protesto (quando o é porque o comodismo disfarçado de protesto é também uma realidade), será a que menos incomoda os políticos-residentes do sistema. Fica bem lamentar a abstenção, é claro, mas desde que os militantes continuem a votar, tudo bem. 

Portugal alinhando orgulhosamente no top 10 da abstenção


No jogo da abstenção vs radicalização, em França deu-se o grande evento da noite. Não só a abstenção baixou em relação a 2009 como, ainda por cima, os eleitores optaram por dar a vitória à Frente Nacional, um partido extremista que soube capitalizar o profundo descontentamento dos franceses para com uma política governativa que é o oposto daquilo que lhes foi prometido por Hollande (parece familia?). Conhecidos pelas suas ideias cuja formulação não exige em geral a utilização de grande quantidade de neurónios, nesta campanha conseguiram superar todas as expectativas ao declararem em surdina que o problema da imigração pode ser resolvido pelo vírus Ébola.

 
*Traduzido do "Ebolês"


Este advento dos partidos com uma ideologia extremista abjecta fez soar os alarmes por toda a Europa e fez tremer os alicerces das instituições europeias na nova capital Bruxelas-Berlim. Servirá para os eurocratas e donos dos grandes interesses económicos reverem a sua escala de prioridades ou será este o primeiro sinal do fim da União?


Por cá, fez-se o elogio do ridículo

Por cá, como não podia deixar de ser, a noite foi de vitórias retumbantes e de derrotas inconsequentes, pelo menos na boca dos actores da noite. 

Uma amizade que promete dar que falar, sobretudo à luz da "histórica vitória do PS"

O PS congratulou-se pela sua grande vitória e sobretudo pela derrota histórica da direita, apesar de ter sido uma vitória de que nenhum militante socialista se pode orgulhar. É certo que a dita Aliança Portugal perdeu mais de meio milhão de votos em relação a 2009, considerando em conjunto os resultados dos dois partidos nessas eleições. Contudo, o PS não fez melhor que ganhar cerca de 90.000 votos, salientando o evidente: os portugueses não consideram o PS como alternativa e nem o PS se comportou como tal desde que foi substituído no poder pelo binómio PSD-CDS. É irónico pensar que a histórica derrota da direita pode muito bem levar à substituição de José "Pirro" Seguro.

Na sede da Aliança, os rostos fechados não mentiam quanto ao impacto deste fraquíssimo resultado e o único aspecto positivo salientado nos vários discursos foi o de não ter sido ainda pior. Nos discursos monocórdicos, em que o fim de cada frase foi marcado por palmas muito frouxas, fechou-se o ciclo das Europeias com uma novidade em relação à campanha: ninguém culpou desta vez José Sócrates pela crise de votos da Aliança. O cenário anímico só não é mais negro porque, segundo consta, sobraram algumas garrafas de Murganheira para afogar as mágoas.

"Com nojo ou sem nojo, levámos uma grande cabazada!"

Enquanto a CDU prossegue a sua gradual subida eleitoral, desta vez com um candidato que fez furor entre o eleitorado feminino, e já anuncia a apresentação de uma moção de censura ao Governo que terá o destino de todas as outras (nem que o PSD e o CDS tenham de recorrer novamente à disciplina de voto),  já o Bloco de Esquerda continua em queda livre, confirmando que boa parte da sua credibilidade saiu com Louçã, Drago e Rosas. Não basta ser do contra só porque sim.

O grande protagonista da noite acabou mesmo por ser Marinho Pinto cujo estilo brigão-irascível-populista valeu ao MPT uma estrondosa subida de mais de 200.000 votos e uma inédita eleição de um deputado para o Parlamento Europeu (dois de acordo com as últimas notícias.). A adesão do eleitorado a esta candidatura foi de tal ordem que correm boatos de que até a Manuela Moura Guedes votou no MPT.  Será que vamos em breve ver Marinho Pinto noutras lides eleitorais? 

Imagens: Terra dos Espantos, Courrier International, Ed Ward, RFI

sábado, fevereiro 15, 2014

Sobre as cartas de amor


Há alguns anos, fui convidado a dar uma aula de processamento de texto num curso de informática na zona da Guarda. O grupo era formado por senhoras com idades entre os 40 e os 50 anos, que se estavam a iniciar nas lides dos computadores, e mostraram ser bastante interessadas e voluntariosas.

Como parte da estratégia de motivação inicial, dei o mote para a discussão das vantagens de escrever textos num computador em relação à escrita manual. Tendo recolhido uma série de ideias interessantes, decidi espicaçá-las um pouco:

-"Claro que a escrita manual tem uma grande vantagem sobre a escrita num computador. Sabem qual é?"

Fez-se silêncio durante alguns segundos, enquanto se entreolhavam com ar intrigado, após o que concluí:

-"É muito mais romântico, não acham?"

Por entre as risadas que se seguiram, uma das senhoras tomou a palavra para me dar razão:

-"É sim senhor! Quando o meu marido andava na tropa fartava-se de me escrever cartas. Eu não era capaz de as ler porque não conseguia perceber a letra dele mas adorava recebê-las!"

Imagem: Wikipédia

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Pesquisas do Katano!

Após um prolongado interregno, publicamos mais um artigo da série "Pesquisas do Katano" que, na prática, consiste numa lista de termos de pesquisa no Google que trouxeram os cibernautas ao Blog do Katano, para provavelmente em seguida carregarem no botão de retroceder, ao mesmo tempo que soltavam uma imprecação entre dentes. 

quanto tempo para por moeda no parquimetro
Fico na dúvida se esta pesquisa pretende esclarecer de quanto em quanto tempo se deve introduzir uma moeda no parquímetro ou se se prende, mais precisamente, com o tempo socialmente aceitável que se deve demorar no acto de introdução da moeda no dito cujo. A resposta mais provável a esta questão será provavelmente "Um certo tempo".

Agora é claro que, se estivermos a falar do estacionamento de superfície pago da cidade do Fundão, a coisa muda de figura. Gasta-se tanto tempo a tentar identificar um lugar de estacionamento que, quando finalmente isso for conseguido, provavelmente já acabou o horário de estacionamento pago e a questão da moeda já nem se coloca (ver "A qualidade do estacionamento pago no Fundão by EMSA-Consequi"). Por outro lado, também há quem não tenha muita sorte com os parquímetros quando estaciona em tempo útil (ver "Ah parquímetro ladrão!").

como fazer pasteis jesuitas em video
Embora não sejamos muito versados na confecção de jesuítas, estamos em condições de avançar que os ingredientes necessários são: farinha, manteiga, água, sal, ovos, açúcar, canela e uma câmara de vídeo. Não havendo câmaras de vídeo convencionais disponíveis, pode-se usar em alternativa a câmara de um smartphone. No entanto, um amigo meu já experimentou e diz que assim os pastéis não ficam grande coisa.

coelhos stressados
Esta pesquisa reincidente foi sem dúvida feita por alguém que se quis inteirar dos inquietantes eventos de Janeiro de 2008 quando um esquadrão de caças F-16 da força aérea portuguesa sobrevoou a zona de Penamacor a baixa altitude, provocando partos prematuros no gado caprino e deixando inúmeros coelhos à beira de um ataque de nervos! Podem recordar esse episódio clicando aqui e, já agora, não deixem de ler o comunicado da força aérea sobre o sucedido clicando aqui.

luxemburgo onde param os drogados
Aqui temos uma normal preocupação no planeamento de umas férias no Grão-Ducado do Luxemburgo. Também nós estivemos lá há uns tempos atrás e recordo-me bem das questões que então colocámos: "Onde é que ficam as muralhas da Cidade Velha?", "Quais são os pratos típicos?", "Onde é que param os drogados?", "Onde é que fica o Palácio Grão-Ducal?". 

Ana Malhoa a dar ao cu
Nem me atrevo. Adiante.

komo ir vestida para a serra da estrela
Talvez seja recomendável um estilo um pouco mais informal. A tendência da moda Outono/Inverno 2013/14 é o uso de saias largas abaixo do joelho e sobretudos compridos. Também se sugere o uso de vestuário com cinturas marcadas, botas de cano alto. O padrão tartan também está muito em voga nesta estação. Tenho a certeza que uma ida à Serra nesta altura com este tipo de modelito será uma experiência inesquecível.


A série completa de artigos, que inclui termos de pesquisa como "Beber água da tibórnia é prejudicial?", "como se comunicar com extraterrestres" ou "tourada que causonou morte" pode ser consultada aqui:

Pesquisas do Katano - Novembro de 2008
Pesquisas do Katano - Janeiro de 2009
Pesquisas do Katano - Março de 2009
Pesquisas do Katano - Junho de 2009
Pesquisas do Katano - Agosto de 2009
Pesquisas do Katano - Setembro de 2009
Pesquisas do Katano - Janeiro de 2010
Pesquisas do Katano - Março de 2010
Pesquisas do Katano - Novembro de 2010

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Sobre Eusébio e o Panteão Nacional

Na última semana toda a actualidade noticiosa girou em torno da morte de Eusébio da Silva Ferreira, provavelmente o melhor futebolista português de todos os tempos. Como é usual em situações que envolvam fortes reacções emocionais por parte da opinião pública, a comunicação social explorou para além do razoável esta matéria, matéria essa que também proporcionou uma oportunidade de ouro para a classe política marcar pontos junto do eleitorado. Cavalgando a onda do populismo, todas as forças partidárias abraçaram agora a nova causa nacional: levar o defunto futebolista para o Panteão Nacional, mesmo que tal não esteja de acordo com a lei.

Em primeiro lugar convém entender aquilo que é, ou supostamente devia ser, o Panteão Nacional. Embora a necessidade de criação de um Panteão Nacional "destinado para receber as cinzas dos grandes mortos depois do dia 24 de Agosto de 1820" tenha sido feita pelo Decreto de 26 de Setembro de 1836, só lhe seria definida uma localização física pela lei nº520 de 1916, destinando-lhe o "antigo e incompleto templo de Santa Engrácia" e atribuíndo a posse do edifício ao Ministério do Fomento para que ali fizesse as necessárias obras. No entanto, o edifício só seria terminado em 1966, 284 anos após o início das "obras de Santa Engrácia". A partir de 2003, passaria a dividir o estatuto de Panteão Nacional com o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde se encontram os restos mortais de D. Afonso Henriques e D.Sancho I.


O Panteão Nacional foi inaugurado com pompa e circunstância pelo regime salazarista, e para ali foram trasladados logo nesse ano os restos mortais de Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Óscar Carmona e Sidónio Pais, ou seja, 3 escritores (no caso de João de Deus, também um pedagogo que marcou várias gerações), 2 presidentes da República e um "híbrido", pois embora Teófilo Braga tenha sido presidente da República durante alguns meses, destacou-se mais na Literatura. 

As figuras mais polémicas deste lote serão provavelmente Óscar Carmona que, pese embora a sua ilustre carreira militar, foi um dos líderes do golpe de 28 de Maio de 1926 que acabou por levar ao estabelecimento do Estado Novo, e Sidónio Pais, o Presidente-Rei como lhe chamou Fernando Pessoa, que implantou em Portugal o regime totalitário da República Nova, passando por cima da Constituição então em vigor, acabando por ser assassinado em 1918. Muito provavelmente, os restos mortais destes dois últimos cidadãos ilustres nunca teriam sido trasladados para o Panteão se isso não tivesse acontecido em pleno Estado Novo.

Seria depois preciso aguardar até 1990 para que este grupo fosse aumentado, com a deposição dos restos mortais de Humberto Delgado, o General Sem Medo mas já não foi preciso esperar tanto para que merecessem honras de Panteão Amália Rodrigues (2001), Manuel Arriaga (2004) e Aquilino Ribeiro (2007). A próxima personalidade será Sofia de Mello Breyner, ao que tudo indica já este ano.

Embora não presencialmente, estão homenageados no Panteão através de cenotáfios, ou seja, de monumentos/inscrições evocativas, as figuras de Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e Infante D. Henrique.


Critérios definidos por lei!

Os critérios que regem a atribuição de honras de Panteão estão bem definidas pela lei 28/2000 de 29 de Novembro, que veio substituir as anteriores e, segundo a qual, "as honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade."

Ora, tendo em conta os critérios dispostos na lei, onde é que se enquadra Eusébio? Simplesmente em nenhum deles. Pelo contrário, a figura de Amália, usada como argumento em algumas opiniões pró-Eusébio como o exemplo de que nem só escritores ou políticos merecem o Panteão (a lógica de algumas opiniões até me leva a crer que a seguir a Amália e Eusébio, chegaria com naturalidade a vez da irmã Lúcia), é perfeitamente enquadrável no aspecto da expansão da cultura portuguesa e na criação artística. 

Não esqueçamos que a cantora, que tinha raízes no Fundão, tirou o fado das tascas de Lisboa e deu-o ao Mundo, sendo o grande motor do processo que redundaria na sua classificação como Património Imaterial da Humanidade em 2011, 10 anos após a morte da fadista. Nem teria sido necessário alterar a lei de forma a ser depositada no Panteão logo um ano após a sua morte, em vez dos 5 que até então eram necessários.

Para que Eusébio mereça honras de Panteão a lei teria de ser novamente alterada, o que criaria uma prática perigosa e descaracterizante, banalizante até, que seria nociva para o valor sagrado do Panteão Nacional. Eusébio foi provavelmente o melhor jogador português de todos os tempos e é justo que seja lembrado como tal, dando o seu nome a um estádio, a um museu promovido pela Federação Portuguesa de Futebol ou eternizando-o na toponímia mas levá-lo para o Panteão é excessivo. Existem muitos nomes que -esses sim!- mereciam há muito estar em Santa Engrácia. Egas Moniz, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Aristides de Sousa Mendes são nomes que me ocorrem logo à partida mas muitos outros há.

Esta questão foi levantada ainda quando decorria o velório de Eusébio mas também sabemos que uma decisão importante tomada a quente pouco deverá à assertividade e à ponderação. O que se pede é que haja respeito por Eusébio e pelo Panteão Nacional.

Foto da inaguração do Panteão Nacional: Lisboa Memory Scapes

sábado, dezembro 07, 2013

Nem os mais corajosos aqui entram!


Em Caria, nem todos os avisos são tão acolhedores como que aqui publiquei há uns tempos (ver aqui). Outros há, como o retratado neste instantâneo, que desaconselham de forma explícita a entrada, embora com uma abordagem muito peculiar do uso da ortografia. Será para aumentar o efeito intimidatório ou será apenas mais um caso de dúvida explícita na aplicação do novo acordo ortográfico?

quarta-feira, outubro 02, 2013

Rescaldo eleitoral das Autárquicas 2013

Terminadas que estão as eleições autárquicas, há muito para dizer e analisar. O primeiro facto relevante, na minha perspectiva pessoal, claro, é que não fui eleito, embora soubesse de antemão que a tarefa seria muito complicada. Tenho realmente pena de não poder trabalhar de forma mais activa para o bem comum deste cantinho da Beira mas -lá está!- a participação cívica pode ser feita de muitas e variadas formas. Certo é que 2014 irá trazer algumas boas novidades nesse aspecto.

Em relação a tudo o que girou à volta das eleições, campanha eleitoral inclusive, aquilo que primeiro me ocorre dizer é que foi indiscutivelmente uma experiência muito gratificante. Conheci um grupo que me acolheu da melhor forma, feito de gente determinada, voluntariosa e acessível. De igual modo, foi muito gratificante partilhar ideias e contactar com as pessoas que foram todas elas muito acolhedoras e receptivas. Houve episódios curiosos, claro. Destaco pelo meio o fair play daquele senhor que insistentemente me pediu um isqueiro que eu não tinha para dar e a simpatia daquele outro cujo cão investiu sobre mim, tendo-se detido a apenas um palmo de uma zona anatómica que me é particularmente cara.


Os números

No Fundão, manteve-se o cenário anterior. Na Câmara Municipal venceu a lista do PSD liderada por Paulo Fernandes, seguida do PS, CDU, CDS e, finalmente, do PTP. Em mandatos, a representação mantém-se em 5 elementos do PSD e 2 do PS. Sendo uma pessoa que aprecio, só posso desejar ao Paulo Fernandes força, coragem e sorte para este, agora sim, mandato completo para pôr em prática as suas ideias. 

Não concordo no entanto de forma alguma com a reinclusão na lista de um elemento que, tendo já feito parte do último elenco autárquico, saiu a meio do mandato para, de forma surpreendente (ou não) ter ido desempenhar funções de assessor de um ministro em Lisboa. Que imagem é que isto passa? Que confiança é que isto inspira aos cidadãos? Aguardemos pelos próximos capítulos.



Para a Assembleia Municipal, o cenário repete-se, vencendo mais uma vez o PSD. Em termos de mandatos, o PSD consegue 14, seguido do PS com 8 e finalmente da CDU que mantém os 2 que já detinha. Destacam-se aqui também os votos em branco que, por pouco, não conseguiam também eles um mandato.


Finalmente, para a Junta de Freguesia, que resultou da união das freguesias de Fundão, Donas, Valverde, Aldeia Nova do Cabo e Aldeia de Joanes, a lista DAR -a lista independente do PSD-, voltou a vencer, seguida da lista do PS, depois a lista independente UPF e finalmente a CDU. Em termos de mandatos temos aqui a perspectiva de uma coligação já que a lista DAR tem 6 mandatos contra 7 do conjunto dos adversários. 




Os cidadãos estão desinteressar-se!

Em termos partidários, é significativa a descida de votos no PSD, PS e CDS, especialmente nos dois primeiros partidos. Embora tendo tido uma votação modesta quando comparada com os dois principais partidos, a CDU registou uma subida muito interessante, aliás, foi mesmo a única força partidária a subir nas votações.

Preocupante é ver a tremenda subida da absentação e ainda dos votos em branco e dos votos nulos, num claro sinal de desinteresse e descrença dos cidadãos em relação às forças governativas. Este é um problema grave que deve obrigar tanto vencedores como vencidos a uma profunda reflexão. Nos próximos 4 anos será prioritário envolver os cidadãos nos projectos desenvolvidos, ouvi-los, alimentar a sua autoestima e o seu brio. Os autarcas não podem passar os próximos 4 anos fechados nos seus gabinetes. Mas este esforço não recai só sobre quem foi eleito. A oposição tem também inevitavelmente um papel importante neste esforço. Boa sorte a todos!

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