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sábado, dezembro 27, 2014

Monte Cassino, o monte que custou mais de 140 vidas por metro

A cidade de Cassino é uma cidade pacata, situada à sombra de um castelo recém-restaurado e de um outro imponente edifício do qual, quando o ruído da cidade o permite, se ouvem as badaladas de um sino. Trata-se da abadia de Monte Cassino, um edifício cujo nome se tornou tristemente célebre pela encarniçada batalha que ali se travou entre as forças especiais alemãs e as tropas aliadas durante a II Guerra Mundial.


A nova cidade de Cassino, construída um pouco a Sudoeste da antiga povoação que, juntamente com o castelo, foi literalmente arrasada durante a II Guerra Mundial.


O plano era viajar até Bari, na costa do Adriático mas decidimos incluir uma etapa na nossa viagem, pernoitando em Cassino, uma pacata cidade no extremo da região da Lázio. A viagem fez-se de comboio e ficámos bastante surpreendidos com a qualidade de serviço. Como não podia deixar de ser, a viagem não poderia ser isenta de sobressaltos e, já quase no final da viagem, percebemos que deveríamos ter validado os nossos bilhetes nas máquinas disponibilizadas para o efeito ainda em Roma. Felizmente, fizemos a viagem em absoluta tranquilidade sem que nenhum revisor tivesse aparecido para nos cumprimentar.

Chegados a Cassino, encontrámos uma cidade que nos pareceu algo desordenada o que acaba até por ser compreensível dado o passado recente da cidade. Após termos vencido a distância a partir da estação, chegámos ao nosso hotel (ver aqui) onde fomos recebidos pela funcionária de hotel mais efusiva e extrovertida que alguma vez havíamos encontrado em semelhante posição. Com um delicioso inglês enfiado à força numa forma italiana, descreveu-nos com um discurso entusiasmado que poderíamos encontrar em Cassino.

Aproveitando o pouco tempo de luz que ainda tínhamos e já que ficava mesmo ali ao lado, decidimos fazer uma rápida caminhada até ao castelo próximo, embrenhando-nos numa estreita estrada asfaltada monte acima, pelo meio da floresta. A dada altura, ouvimos acima de nós evidentes sons de movimento que pareciam acompanhar-nos e, no momento em que a estrada descrevia uma curva em cotovelo, fomos surpreendidos pela aparição de um javali.


O primeiro javali que avistámos e que desconhecia que as regras de confrontação com um ser humano ditam que se ponha a milhas o quanto antes. Posso dizer hoje que, em Setembro de 2014, derrotei um javali no "jogo do sério".

Quando finalmente decidiu fugir, foi seguido quase de imediato por outros dois, acabando por desaparecer na floresta. Entretanto começava a escurecer e vimos-nos forçados a desistir da nossa ida ao castelo, regressando à cidade que pouco tinha para nos oferecer. O mais emocionante da noite na cidade acabou por ser a nossa tentativa de reconstruir a bicicleta de um ciclista que, movido a álcool, se estatelou à nossa frente, fazendo com que várias peças da sua montada ficassem espalhadas na calçada.

O dia seguinte seria bem mais interessante, com a visita logo pela manhã à abadia de Monte Cassino.


A Abadia de Monte Cassino, o monumento-fénix


A partir de uma praça de Cassino onde existe uma igreja que parece uma unidade fabril, avista-se a abadia de Monte Cassino lá no alto. 

Quem conhece a História da II Guerra Mundial, terá com toda a certeza ouvido falar da abadia de Monte Cassino e de como esta abadia, fundada por São Bento no século VI no local onde existia um templo dedicado a Apolo, foi palco de uma das mais duras batalhas desse conflito.

A invasão aliada de Itália começou em 1943, menos de um ano antes do desembarque na Normandia, facto que o rei italiano aproveitou para fazer lavagem de cara do seu país no conflito, mandando prender Mussolini e assinando a paz com os Aliados, Quem não achou piada a isto foi Hitler que deu ordem para que as suas tropas ocupassem o território italiano. Como Mussolini foi entretanto libertado por comandos alemães e fundou um novo estado italiano no Norte, passou a haver tropas italianas ao lado dos alemães e também ao lado dos Aliados. Uma bela confusão, como devem imaginar.

À medida que os Aliados iam avançando para Norte, a resistência ia sendo cada vez mais tenaz, já que os alemães iam construindo linhas defensivas umas atrás das outras nas zonas montanhosas do centro de Itália. Uma delas, a Linha Gustav, tinha um ponto nevrálgico na região de Cassino.

Como os monges beneditinos de Monte Cassino não queriam envolver a sua abadia no conflito, negociaram com os alemães e, segundo consta, estes concordaram em não ocupar Monte Cassino. Melhor ainda, ofereceram-se para transportar os tesouros culturais da abadia para a segurança do Vaticano. Dizem no entanto as más línguas que o número de camiões que saiu da abadia, carregados com os preciosos livros, quadros e outras obras de arte, foi significativamente maior que o número de camiões que efectivamente chegou ao Vaticano. Há até quem diga que 15 caixas serviram de presente de aniversário ao infame Göering. 



A memória da destruição no museu da abadia


Imobilizados diante da Linha Gustav, os Aliados começaram a acreditar que, se não havia artilharia, haveria pelo menos um posto de observação nazi na abadia. Pelo sim pelo não, foram largadas sobre o edifício beneditino mais de 1.150 toneladas de bombas, reduzindo a abadia a um monte de escombros que rapidamente -então sim!- foi ocupado pelos para-quedistas alemães. Só passados 3 meses, à custa de milhares de vidas, o monte seria finalmente conquistado.

O cemitério polaco, num monte próximo. Aos soldados do exército da Polónia coube o feito de serem os primeiros a chegar ao topo do Monte Cassino, pondo assim fim a 4 meses de combate. Considerando que o monte tem 520m de altitude e que a batalha custou a vida a mais 74.000 soldados (Aliados e alemães) antes do topo ser atingido, temos portanto um custo por metro de mais de 140 vidas.

Após a guerra, a abadia seria reconstruída, sendo os custos suportados na totalidade pelo estado italiano. O edifício actual é pois praticamente idêntico ao que foi destruído durante a guerra, vendo-se apenas aqui e ali um ou outro pormenor inacabado.

A nave central da reconstruída igreja da abadia em cujo tecto ainda estão por pintar as cenas que o decoravam antes da II Guerra Mundial


A Abadia hoje

Sobre a porta da abadia (na qual não entram os turistas) está gravada de forma bem visível a palavra "Paz".

A Abadia funciona ainda hoje como tal mas também como museu e local de peregrinação, já que aí se encontram as relíquias de São Bento e Santa Escolástica, religiosamente guardadas (o termo é aqui perfeitamente aplicado) numa pequena arca de pedra, sob o altar-mor da igreja. Outra opinião têm os monges da abadia de Fleury, em França, que garantem estarem ali e não em Cassino as relíquias de São Bento. Contudo, conhecemos bem a capacidade que as relíquias de santos têm de se multiplicarem como se gozassem da capacidade de mitose. De outra forma, ao contrário do que hoje acontece, com todos os pedaços da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado que estão espalhados pelo Mundo católico, não seria possível construir um navio. Também da virgem Maria existem aqui relíquias, na forma de um pedaço do seu véu e de uma pequena pedra que terá vindo do seu túmulo. Coisas da fé.

O museu tem muito mais do que apenas objectos ligados à religião. Tem também uma bela colecção de arqueologia com peças não só provenientes de Cassino (antiga cidade romana de Casinum) e do Monte, mas adquiridas noutras paragens. 

No final do percurso, os visitantes passam por uma loja de recordações e ainda de produtos supostamente fabricados no local. Foi aí que adquirimos um licor dito "típico dos monges de Monte Cassino" que fez sensação no jantar em que foi servido no nosso regresso a Portugal. Já que duvido que alguém se volte a atrever a bebê-lo, talvez dê para desentupir canos.



A vinha da abadia. Espero que o vinho seja melhor que o "licor típico dos monges de Monte Cassino".


Terminada a visita, esperámos pelo autocarro que nos iria levar de regresso à cidade mas mal sabíamos a emoção que iria ser a descida até Cassino. Circulando a uma velocidade vertiginosa, buzinando a cada curva em que entrava em contra-mão, aquele condutor parecia possuído pelo Demo. Em menos de um fósforo, estávamos de novo na cidade onde apanhámos o comboio rumo a Bari, a nossa última etapa italiana.

Os bilhetes por validar da viagem Roma-Cassino, acabaram por ser oferecidos à nossa funcionária de hotel favorita que, bem à sua maneira, nos agradeceu efusivamente.

A seguir: no túmulo do Pai Natal

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Roma, a cidade eterna!


Criança que se preze gostaria de ir à Disneylândia. Eu, nos meus tempos de Escola Primária, queria era ir a Roma, sobretudo a partir do momento em que comecei a ler uns livros de História que contavam o épico (e vão) desaguisado de um pastor serrano chamado Viriato com as temíveis legiões romanas. A visita que finalmente fiz à cidade eterna, ainda mais especial por ter sido sob o pretexto de lua-de-mel, fez-me descobrir uma cidade capaz de provocar crises de algo semelhante a uma hiperglicemia monumental a quem aprecia especialmente o património cultural, mas não só. Roma tem muito mais que se lhe diga!


Chegámos ao aeroporto da Portela algo desconfiados. Afinal, o voo que nos estava destinado era da TAP e esta companhia aérea tinha estado nas últimas semanas ligada a casos sucessivos de atraso de voos. Chegando em cima da hora, uma funcionária stressada levou-nos até ao balcão de check-in alertando-nos para o facto de o voo estar na iminência de fechar. Ainda estaríamos afinal meia hora à espera que a porta de embarque abrisse, para embarcarmos no velhinho Fokker 100 no qual viajaríamos até Roma, sentados entre jogadores da selecção italiana de hóquei em campo.

Em Roma, depressa descobrimos que é muito difícil sentirmos-nos sozinhos naquelas ruas apinhadas, não pelo movimento das pessoas mas antes pela quantidade de indivíduos que nos abordam, na tentativa de vender gadgets de todo o tipo, visitas guiadas, bebidas geladas (era Verão ainda) ou simplesmente para obter dinheiro sem dar nada em troca.

No que toca à circulação, os peões encontram em Roma condutores com um estilo de condução muito arrojado. Atravessar as ruas numa passadeira sem semáforos é um verdadeiro desafio e qualquer peão que se detenha junto à passadeira, na esperança que os condutores parem para lhe ceder a passagem, melhor fará em ir buscar uma cadeira para se sentar, já que arrisca ficar ali muito tempo. O segredo é avançar e olhar os condutores nos olhos e, acima de tudo, nunca hesitar já que isso fará com que os condutores percam todo o respeito pelo peão. Ser peão em Roma é uma constante prova de macheza.

Os transportes públicos no centro de Roma resumem-se essencialmente a autocarro e táxi, já que o metropolitano, constrangido pela riqueza patrimonial do subsolo romano, não pode chegar ao coração da cidade. O principal problema foi conseguir perceber a intrincada malha das linhas de autocarro e, pior ainda, conseguir associar o nome das paragens às ruas. Adquirimos um passe que nos dava acesso grátis ou reduzido aos monumentos e nos permitia também viajar gratuitamente nos autocarros da cidade. O pior foi quando no último dia, já com o passe expirado e quando procurávamos chegar à estação de comboios para prosseguir viagem para Sul, entrámos num autocarro sem máquina dispensadora de bilhetes e o condutor, com o modo de simpatia desligado, nos informou que não vendia bilhetes. À minha pergunta de "Então como fazemos? Podemos ir na mesma?" limitou-se a virar a cara para o lado. Como quem cala consente, lá fizemos a viagem de borla até à estação de Roma Termini.

Quanto à comida, uma das primeiras coisas que aprendi a dizer foi "senza formaggio", que é como quem diz "se faz favor, não incluam os meus pratos nessa mania generalizada de incluir queijo em tudo aquilo que se ingere, que isso é coisa que abomino". Aquilo é gente que, se for preciso e não prestarmos atenção, até no café são capazes de enfiar queijo. Seja como for, lá sobrevivi e acabei até por ter até excelentes surpresas gastronómicas e até fiquei fã de um restaurante situado no Trastevere, uma simpática zona na margem direita do Tibre. Dos gelados nem vale a pena falar. Provámos tudo aquilo que era humanamente possível e os que sobraram não tinham pior aspecto.


Ponte para a Ilha Tiberina, uma pequena ilha do Tibre no centro de Roma.

Piazza de Santa Maria, no Trastevere 



Apesar do queijo, têm sentido de humor estes romanos


Nas nossas deambulações pela capital italiana, sabendo de antemão que seria impossível ver tudo o que há para ver num ano, quanto mais num punhado de dias como era o nosso caso, decidimos optar por alguns locais mais emblemáticos.



A entrada para a Praça de São Pedro, no centro da qual se ergue o obelisco egípcio em granito que outrora estava no centro do Circo de Nero, não muito longe do local actual. Mudou-se para aqui no final do século XVI. 


O Vaticano, já se sabe, é o sublimar da humildade e recato pregados nas margens do Jordão por Jesus Cristo mas ao contrário. Não fomos à Basílica até porque, uma vez que já vimos o filme "Anjos e Demónios" repetidas vezes já conhecemos bem o edifício por dentro e por fora. Visitámos sim o museu do Vaticano, percorrendo as galerias cheias de estátuas de deuses e imperadores da Roma Antiga "coladas" a pedestais que nada têm a ver com elas (muitos dos pedestais são até inscrições funerárias!), estátuas essas que, por vergonha do papa Clemente XIII, tiveram as suas partes pudendas cuidadosa e inclementemente tapadas por folhas de figueira. A passos tantos demos por nós nos antigos aposentos papais cujas paredes estão cobertas pelas pinturas dos grandes mestres e acabámos na Capela Sistina onde a voz nasalada de um segurança se fazia persistentemente ouvir em alto e bom som pelos altifalantes, apelando ao silêncio.


Pátio no complexo de palácios do Vaticano, com a escultura contemporânea "Esfera dentro da esfera".

Bem mais interessante, do ponto de vista arqueológico, acabaria por ser o Museu do Capitólio, situado naquilo que foi durante a antiguidade o arquivo geral de Roma, então capital do Mundo conhecido.

Como não podia deixar de ser, já que a razão de estarmos em Roma estava ligada à Muralha deste imperador, não pudemos deixar de visitar o mausoléu do imperador Adriano, hoje bastante transformado e rebaptizado de Castel Sant'Angelo. Se hoje é impressionante, como seria então na altura da sua construção, com as paredes revestidas a mármore e letras douradas e com a ciclópica estátua que recebia as oferendas e rezas dos visitantes ao imperador defunto?

Rampa helicoidal dentro do Castel Sant'Angelo através da qual se acedia à câmara sepulcral do mausoléu de Adriano. Por aqui passou o cortejo fúnebre do imperador na sua última viagem.


Pelas ruas mais sinuosas e modestas chegámos à Piazza Navona cuja planta reproduz na perfeição a arena do Estádio de Domiciano e cujos edifícios circundantes foram construídos sobre as bancadas deste. Numa das ruas adjacentes, ouvia-se bem alto a música da festa de um casamento judeu que decorria num dos terraços e que parecia bem animada.

Piazza Navona cuja forma denuncia a planta da arena do Estádio de Domiciano.


O Panteão de Roma também mereceu a nossa visita. Trata-se de um magnífico edifício, provavelmente o mais bem conservado do Império Romano (foi construído no reinado de Augusto e reconstruído pelo "nosso" Adriano 100 anos mais tarde) e que, se outrora foi dedicado aos principais deuses do panteão romano, hoje encontra-se tranformado na igreja de Santa Maria e Mártires. Alberga também os túmulos de várias personalidades relevantes, desde artistas do Renascimento até dois reis de Itália, que são diligentemente velados por associações monárquicas italianas, para fúria dos republicanos.


Até ao século XIX, a cúpula do Panteão era a maior cúpula do Mundo. A 40m de altura, o óculo com 9m de diâmetro ilumina o espaço de uma forma muito particular.


Ali perto, a Fonte de Trevi encontrava-se infelizmente em obras mas a visita era permitida através de uma passadeira metálica que não destoava dos muitos andaimes. Para não privar os turistas do romântico gesto de atirar uma moeda para a fonte, a mesma onde o Dan Brown afogou um cardeal pretendente ao trono da Santa Sé, foi disponibilizado de forma provisória um tanque para o efeito. Se os turistas querem atirar moedas, para quê dificultar-lhe a tarefa?


À volta da Fonte de Trevi abundam as lojas e os vendedores de rua, como este vendedor de castanhas.

Partindo do Capitólio, junto ao qual ficámos alojados, percorremos a distância que nos separava do Coliseu, ao longo da rua que separa as ruínas do fórum do mercado de Trajano. O Coliseu ou, mais correctamente, o Anfiteatro Flaviano, foi construído com as receitas provenientes do saque de Jerusalém no ano 70. A propaganda posterior fez deste sítio um local icónico do martírio de cristãos mas, ao que parece, os números foram bastante exagerados.

Vista para o último andar do Coliseu, onde se situava o "camarote imperial". Para se deslocarem ao Coliseu e evitar contactos indesejáveis com a plebe, os imperadores usavam um túnel conhecido como Túnel de Cómodo (o tal que fez a vida negra a Russel Crowe no filme "Gladiador"). A cobertura têxtil do Coliseu era manobrada por marinheiros, habituados que estavam a manipular as velas das suas galeras.


A complexidade dos mecanismos desta arena permitia elevar em pouco tempo, através de alçapões, sistemas de roldanas e elevadores, diversos elementos de cenário, animais, gladiadores. A dada altura, a arena podia até ser transformada em palco de recriação de batalhas navais históricas através da sua inundação. Quanto aos espectadores, que podiam ser entre 50.000 a 80.000 (as opiniões dividem-se), ir aos jogos era um ritual obrigatório. Os lugares eram distribuídos de acordo com a posição social e também não era raro haver situações de pugilato entre adeptos de diferentes gladiadores. Ainda bem que evoluímos bastante desde esses tempos.


À saída, uma simpática senhora chinesa veio inadvertidamente para cima de mim executando um estranho bailado. Fiquei tão impressionado que procurei logo ficar também nas fotos que a família lhe ia tirando. No final, quando se apercebeu da minha presença, retribuiu com um "Obrigado". Uma simpatia.

Pela Via Appia Antiga


O último dia em Roma foi parcialmente dedicado a percorrer parte da Via Appia antiga, aquela que terá sido provavelmente a primeira auto-estrada da História. Esta via construída em 312 a.C. tinha como objectivo facilitar o trânsito entre as cidades de Roma e Cápua, tendo mais tarde sido prolongada até à cidade de Brindisi, na costa adriática. Para além da perfeição da obra (diz-se que a estrada era tão perfeita que as pedras pareciam ter nascido juntas e terá sido a primeira via em que se usou um ligante de cal para selar as juntas), o que torna a obra notável é o seu traçada rectilíneo na primeira centena de quilómetros. Começa com um primeiro troço de 36km após o qual, com um desvio de apenas 2º (!!) começa outro de 62km até à actual cidade de Tarracina, o que faz deste, ainda hoje, o mais longo troço viário em linha recta da Europa!

A Porta San Sebastiano, antiga Porta Appia das muralhas aurelianas (construídas por ordem do imperador Aureliano no século III), atrás das quais se encontra um arco triunfal. As paredes desta porta estão cobertas de graffitis feitos ao longo dos séculos desde a sua construção.


Partindo das Termas de Caracala, saímos do perímetro de Roma pelas portas de São Sebastião, antiga Porta Appia, das muralhas aurelianas. Os primeiros quilómetros, até começar efectivamente o lajeado, não são particularmente interessantes, já que a via é hoje uma estrada estreita sem passeios e bastante movimentada mas, a dada altura, o trânsito é desviado para a Via Appia Nuova e então sim, pode-se caminhar descontraidamente.

Ao longo da via os monumentos funerários sucedem-se, uns mais monumentais, outros mais modestos, tendo alguns sido reaproveitados quer em construções antigas, como fortificações, quer em moradias que ainda hoje são habitadas. O monumento funerário mais imponente é sem dúvida o mausoléu de Cecília Metela.


Um monumento funerário reaproveitado como extensão de uma vivenda contemporânea.

Apesar de se tratar de um valiosíssimo monumento protegido por lei e integrado num parque criado para aumentar o âmbito de protecção, assistimos a muitos atentados ao longo do percurso. Nos muros das várias vivendas (de proprietários "remediados", como diria o primeiro-ministro português) distinguem-se fragmentos de cerâmica e elementos arquitectónicos antigo reaproveitados e -pasme-se!- sobre a via circulam veículos, apesar da expressa proibição.


Sim, há ali um sinal que parece ser de sentido proibido, sublinhado por um boneco representando um polícia. Em Itália, pelos vistos, este sinal deve significar alguma obrigatoriedade de circulação.


Fomos caminhando até a noite cair e percebermos que éramos os únicos a circular por ali. Com a ajuda de um pequeno mapa, descobrimos um pequeno caminho rural através do qual, iluminados pela luz da Lua, fomos parar a um subúrbio onde apanhámos um autocarro de volta a Roma. Ficou a outra metade do percurso da Via Appia por percorrer, infelizmente.


O fim do nosso percurso pela Via Appia: o portão de entrada da Villa dos Quintili, um magnífico palácio do século II que foi de tal forma alvo da cobiça do imperador Cómodo (outra vez!) que os seus proprietários acabaram por ser acidentalmente executados. As ruínas são de tal dimensão que o local chegou a ser chamado de Velha Roma quando a memória da sua origem se perdeu.

No dia seguinte chegou finalmente a hora de nos despedirmos da cidade eterna, prosseguindo a nossa viagem para Sudeste, tendo como primeira etapa Cassino e a sua famosa abadia. O melhor estava ainda para vir.

sexta-feira, outubro 31, 2014

Grandes mudanças e regresso à escrita!

Há já algum tempo que por aqui não escrevia umas linhas mas a vertigem dos acontecimentos dos últimos meses a isso levou. Em questão de apenas 3 meses, a minha realidade alterou-se radicalmente e fez já de 2014 um ano memorável, embora ainda faltem 2 meses para o seu termo e a publicação dos resultados de uma sondagem dando a maioria absoluta ao Passos Coelho e sus muchachos nas próximas legislativas, assim como o anúncio do regresso de José Sócrates às lides políticas, possam ainda acontecer mas eu duvido. Murphy era apenas um pessimista inveterado e não um sádico extremista.

Assim, já casado, com novo emprego e tio de uma sobrinha ansiosa por trocar os Teletubbies pelo visionamento das gloriosas campanhas do FêCêPê na Europa e no Mundo, tenho finalmente algum tempo para debitar umas quantas linhas e até já sei por onde começar.

Nos próximos artigos vou escrever sobre motoristas desenfreados, encontros com animais selvagens, campos de minas, cenários de guerra e sobre uma base militar abandonada na Europa de Leste. Sim, já adivinharam. Vou falar sobre a minha lua-de-mel. 


sexta-feira, agosto 15, 2014

A Ponte do Ladrão

Junto à aldeia de Lajeosa do Mondego, no concelho de Celorico da Beira, uma interessante ponte em pedra sobre o rio Mondego quase passa despercebida ao lado do nó de ligação da A25 com o antigo IP5. Trata-se da Ponte do Ladrão, nome curioso mas que, ao contrário do que parece indicar e daquilo que acontece ali bem pertinho, não possui qualquer pórtico de portagem.



Diz a tradição local que, junto à ponte, houve em tempos idos uma estalagem que dava guarida aos viajantes e seria com certeza um descanso bem-vindo por parte de quem percorria a estrada. O pior é que o dono dessa estalagem tinha o desagradável hábito de ficar com alguns pertences dos seus hóspedes como recordação. A estalagem já há muito desapareceu mas a ponte continua de pé, embora com as guardas danificadas.



O selo do infortúnio de parar naquela estalagem "colou-se" à ponte e tornou-se um monumento à infelicidade, tanto que havia quem dissesse de quem não tinha sorte na vida que "mais valia atirar-se da Ponte do Ladrão, coitado".


A data de construção da ponte é incerta mas talvez seja do século XVI ou XVII e a matéria-prima necessária foi obtida no local, tendo em conta as marcas visíveis no terreno. Algumas das marcas de canteiro que possui assemelham-se a algumas que existem hoje na muralha de Trancoso.



quarta-feira, julho 30, 2014

Memórias de Verdun - 100º aniversário do início da I Guerra Mundial

Numa altura em que se assinala o 100 aniversário do início da I Guerra Mundial, recordo a minha visita a Verdun, então palco de uma encarniçada batalha que durou 10 meses e vitimou quase 700.000 soldados mas que hoje enverga o epíteto de "Capital Mundial da Paz". Este é um túmulo colectivo gigantesco no qual estão sepultados não só soldados mas também povoações e os sonhos de várias gerações. 

A Batalha de Verdun

Uma aldeia de Verdun. Antes e depois.
A Batalha de Verdun é o paradigma da irracionalidade de quem decidiu e dirigiu a I Guerra Mundial. Quando a mobilização geral foi decretada em cada país à medida que as declarações de guerra se iam sucedendo, todos os soldados, comandantes e governantes estavam convencidos de terem a razão e a superioridade do seu lado e de que estariam de regresso a casa antes do Natal. Só que a guerra mudou, prolongou-se, tornou-se uma trituradora de corpos e em 1916 não se via o seu fim.

Usando a racionalidade dos números, o general alemão Falkenhein propôs um plano simples pela sua lógica: se os alemães tinham mais soldados que os franceses, então numa batalha de atrito, havendo igual número de baixas em ambos os lados, os vencedores seriam inevitavelmente os alemães. Escolheu-se o palco para pôr em prática este plano: seria Verdun, espinho cravado na frente de batalha e local sagrado do ideário nacional da França, como Guimarães o é para Portugal. 

A 21 de Fevereiro iniciou-se o ataque alemão com fogo concentrado de 1200 peças de artilharia sobre 10km das linhas francesas. Em 2 dias apenas, caíram sobre o estas mais de 2 milhões de projécteis! Decidido a não ceder, o general Pétain ordenou a resistência a todo o preço, celebrizando a frase "Não passarão!", isto apesar de fortalezas-chave da região terem sido tomadas, algumas delas sem resistência, tal era a desorganização.

Fazendo de Verdun um prelúdio de Estalinegrado, reforços foram sendo continuamente enviados para a linha da frente através da única via de comunicação que não tinha sido cortada pelos alemães, a estrada que receberia a partir daí o nome de "Via Sagrada". Um veículo com tropas a 14 segundos, segundo dizem.

10 meses depois, após inúmeros avanços e recuos, tinham sido restabelecidas de grosso modo as posições do início da batalha. Por nada, tinham morrido cerca de 350.000 franceses e 320.000 alemães e várias povoações tinham sido apagadas do mapa para sempre.

A necrópole e o ossário de Douaumont

Partindo de Douaumont, local dominado pela torre do Ossário, descobre-se a Necrópole Nacional, formada pelo grupo principal de sepulturas individuais e por outros grupos mais pequenos e memoriais que se encontram dispersos um pouco por todo o lado. A torre tem a forma de um projéctil de artilharia e à noite funciona como farol simbólico, sendo visível a muitos quilómetros de distância. Do seu topo domina-se o cenário do antigo campo de batalha

Ao todo e sem distinção de nacionalidades ou religiões encontram-se no ossário restos de cerca de 130.000 soldados recolhidos no campo de batalha até muito depois do fim da Guerra. Sepulturas individuais são mais de 16.000. É difícil explicar o peso que se sente especialmente neste local mas também em cada memorial ou sepultura que se descobre no silêncio da floresta que rodeia o local.

Vista do edifício principal do Ossário para lá do cemitério.


O edifício do Ossário, simbolizando a forma como os soldados franceses deram o peito às balas, formando a barreira que deteve os alemães.


Outra vista do cemitério


Outra ainda


Metade do cemitério vista do alto da torre do Ossário. Há 98 anos atrás todo este cenário era uma paisagem lunar, pintada em cinza e castanho e os bosques tinham desaparecido.

Uma volta pelas redondezas

Partindo do Ossário, sem nenhum objectivo concreto, caminhei pelos bosques dos arredores durante algumas horas. A primeira coisa que notei foi a irregularidade do terreno devido às marcas, já algo esmorecidas, do bombardeamento indiscriminado a que esta zona foi sujeita.
Marcas de crateras sobre uma fortificação subterrânea da qual se avista um respiradouro já bastante exposto.

No meio da vegetação, tropeça-se frequentemente em ferro e betão. É preciso ter em conta que esta era uma região fortificada e que o espaço entre os fortes principais estava preenchido com fortins, abrigos e trincheiras.

A fortificação de Thiaumont é bom um exemplo disso. Situada no ponto máximo do avanço alemão, esta fortificação mudou de mãos mais de 20 vezes antes de ser definitivamente reconquistada em Outubro de 1916. Já pouco sobrava da sua estrutura nessa altura.


Campânula de observação em aço da fortificação de Thiaumont, arrancada da sua base pelo impacto directo de um projéctil de artilharia. 


Outro aspecto da fortificação de Thiaumont, com dois monumentos em memória de soldados que aí perderam a vida.


Um abrigo de infantaria semi-enterrado mostra o resultado do impacto directo de um projéctil de artilharia. A espessa couraça de betão armado foi insuficiente para proteger os soldados que ali estavam abrigados.

Mais à frente um conjunto de 4 respiradouros chamou a minha atenção. Tratava-se do "Abrigo das 4 chaminés", destinado a acolher temporariamente feridos antes de serem enviados para a rectaguarda e a proporcionar abrigo e descanso aos soldados. Não chegou a ser conquistado pelos alemães, pelo menos não inteiramente já que a dada altura, os alemães conseguiram estabelecer uma posição sobre o abrigo que albergava no seu interior muitos soldados franceses.

Os relatos dão conta desse momento delicado. Tendo tomado posição sobre o abrigo, os alemães começaram a lançar granadas e gás pelos respiradouros e tentaram entrar pelas duas entradas do abrigo. Encurralados, os franceses acederam fogueiras sob as chaminés e junto das escadarias para tentar fazer sair o gás pela acção do ar quente e ripostaram com as suas espingardas e metralhadoras às investidas alemãs.

Nem todos tinham infelizmente máscaras de gás e aqueles que as tinham tiveram de ver os seus camaradas agonizar no chão frio das galerias. Os alemães acabaram por ser desalojados pela artilharia francesa que se encontrava no monte oposto e que, ao aperceber-se da situação, disparou sobre o abrigo.


Uma das quatro "chaminés"


Uma das duas entradas do abrigo flanqueadas por sua vez por duas casamatas


Embora o aspecto e os avisos de segurança fossem desencorajadores, a curiosidade foi mais forte e acabei por me aventurar no interior do abrigo


No interior a escuridão é total. Sem lanterna, avancei graças ao flash da máquina fotográfica.


As galerias onde se acumulavam os soldados franceses

O Forte de Douaumont

O forte de Douaumont antes e depois da batalha
Construído para, em conjunto com os fortes próximos de Vaux e Souville servir de ferrolho da região fortificada de Verdun, o caso do forte de Douaumont é bem a prova da desorganização do exército francês perante a ofensiva alemã de 1916, tendo sido tomado sem esforço 4 dias depois do início da ofensiva.

Perante o maciço ataque alemão, o forte que tinha capacidade para 800 homens encontrava-se apenas guarnecido com 60 que, sem conhecimento da situação operacional e sem qualquer comunicação com o restante dispositivo de defesa, se limitavam a disparar os poucos canhões sobre alvos pré-estabelecidos antes dos combates.

Um pequeno grupo de alemães que tinha conseguido escalar a escarpa e chegar ao fosso do forte, percebeu que não havia grande oposição e voltou atrás para chamar reforços. A pequena guarnição foi apanhada de surpresa e rendeu-se sem oposição. 

Em Outubro, o forte voltaria a mudar de mãos sem oferecer resistência quando, após um violento incêndio no seu interior provocados por projécteis de artilharia que tinham conseguido perfurar a sua espessa couraça, os poucos alemães que haviam ficado para trás foram surpreendidos por soldados marroquinos do exército francês e renderam-se por sua vez.


O corpo central do forte em 2007 


A torre eclipsante de canhão de 155mm.


Corredor de acesso ao interior do forte, com chicane de metralhadoras (os dois muros com abertura no centro)


Secção selada após uma explosão provocada por um lança-chamas. Atrás da parede ficaram sepultados quase 700 alemães mortos por essa explosão.

As aldeias "mortas pela França"

Outros monumentos existentes nas redondezas recordam que as vítimas da guerra não são apenas militares. No sector de Verdun a batalha apagou do mapa nada mais nada menos que 9 localidades, 6 das quais nunca voltariam a ser construídas em parte pela dimensão da destruição mas também pela poluição provocada pelas munições utilizadas e pelo risco de existência de projécteis por detonar (ver 1ª imagem deste artigo).

Visitei dois locais onde outrora tinham existido aldeias. A primeira foi Fleury-devant-Douaumont, aldeia que antes da batalha tinha mais de 422 habitantes e que no decurso desta mudou de mãos 16 vezes, tendo por isso ficado em completa ruína. Hoje o local consiste essencialmente numa floresta cujo solo, onde abundam vestígios de materiais de construção, é extremamente irregular devido às crateras resultantes dos constantes bombardeamentos. O único edifício que ali se encontra é a capela de Nossa Senhora da Europa e a povoação continua a ser sede de comuna e tem também um maire (presidente de Câmara), nomeado a título simbólico, embora não tenha qualquer habitante. 


Marco junto à estrada recorda a aldeia desaparecida de Fleury-devant-Douaumont. Este marco foi construído com recurso a restos das casas da aldeia.

No local onde outrora se situavam os principais edifícios da aldeia, encontram-se pequenos marcos a recordar esse facto, neste caso o edifício que servia de câmara municipal e escola. 

 Indicação da orientação da antiga Rua de São Nicolau. No solo irregular são visíveis os restos de materiais de construção daquilo que foi outrora a aldeia.



A outra aldeia que visitei foi a de Douaumont, situada em frente ao forte com o mesmo nome, cuja recordação se fez pela colocação de marcos com os nomes dos habitantes e respectivas profissões ao longo da estrada. Também os edifícios mais importantes e as fontes são evocadas nesta alameda de memórias.

Uma capela, único edifício actualmente existente no local, ergue-se para assinalar o local onde outrora existiu a igreja da aldeia e é aqui que anualmente, no 2º Domingo de Outubro, se realiza uma missa em memória dos caídos à qual assistem os descendentes dos antigos habitantes de Douaumont.


Entrada em Douaumont, outra "aldeia morta pela França"



A rua onde se recordam alguns dos seus 288 habitantes

Em memória do Sr. Théophile Lamorlette, tecelão de profissão.


A Trincheira das Baionetas, da lenda à realidade

A certa altura fui parar a um memorial invulgar, a Trincheira das Baionetas. Trata-se de uma estrutura em betão armado construída por iniciativa estado-unidense como memorial em honra dos soldados mortos na I Guerra Mundial neste local como refere a inscrição sobre a entrada.

"Em memória dos soldados franceses que dormem de pé com a espingarda na mão nesta trincheira, (pel)os seus irmãos da América"

Um panfleto que tinha recolhido num museu ali perto conta a história desta trincheira. Os soldados franceses estavam aqui prontos, com a espingarda na mão, para carregarem sobre os alemães quando um tiro certeiro de artilharia alemã os enterrou vivos, deixando apenas as baionetas expostas como marcas de uma sepultura imprevista.

Na verdade a história é muito menos heróica e situa-se num nível diferente de tragédia. Tratava-se afinal de uma vala comum na qual foram enterrados alguns soldados, tendo as espingardas sido usadas para marcar o local de enterramento de cada um deles. A evocação heróica e patriótica da valentia dos soldados franceses encarregou-se depois de dar um tom romântico à história.


As sepulturas da Trincheira das Baionetas. Estas últimas entretanto já desapareceram e apenas se vê a ponta da espingarda perto de cada cruz. Ao todos havia nesta vala 21 soldados. 14 foram trasladados para a necrópole de Douaumont.

O memorial não é só local de morte mas também de vida, tendo em conta a pequena colónia de morcegos que aqui encontrou as condições ideais para se abrigar.

Outros monumentos

Como referi, na região de Verdun abundam os locais de memória dos que tombaram durante a I Guerra Mundial. É claro que Verdun é um local emblemático pelo seu significado na construção da identidade francesa e por isso terá um valor simbólico acrescido mas também é importante referir que não faltam cemitérios e monumentos noutras paragens do Nordeste. Isto para não falar dos monumentos em honra dos mortos da I Guerra que existem em praticamente todas as localidades de França, com maior ou menor modéstia, aos quais foi depois acrescentada a referência aos mortos da II Guerra.

Dos memoriais que encontrei à volta do Ossário, eis os que me pareceram mais interessantes:


Monumento em memória dos 28.000 soldados muçulmanos mortos em combate, principalmente forças coloniais magrebinas e senegalesas. Construído em apenas 3 meses de 2006, foi no entanto necessário proceder previamente à desminagem do terreno. Nesse trabalho foram encontradas 219 munições (balas, obuses e granadas) assim como os restos mortais de um soldado cuja identidade (e religião) se desconhece.



Inaugurado em 1938, o memorial domina a secção do cemitério onde estão sepultados alguns dos muitos soldados judeus caídos no campo de batalha. Judeus e muçulmanos morreram e foram aqui sepultados de igual forma e não constam que se dêem mal.



Monumento a André Thome, deputado que abdicou da possibilidade de não ser incorporado conferida pelo seu estatuto de político para se voluntariar para a frente de combate. Morreu em Verdun a 10 de Março de 1916 com 36 anos de idade.



Monumento a André Maginot, deputado de Bar-le-Duc e ministro, que se alistou voluntariamente como soldado raso tendo sido ferido num joelho em combate. Como Ministro da Guerra, foi grande defensor da construção de uma fronteira fortificada com a Alemanha que viria a ser chamada de Linha Maginot. De pouco serviria durante a II Guerra Mundial (ver aqui artigo sobre a visita ao impressionante forte Hackenberg).


Um covilhanense morto em Verdun

Nos arquivos do Ministério da Defesa de França, é possível encontrar uma relação dos soldados mortos em Verdun. Entre eles encontram-se muitos portugueses mas um deles chamou-me a atenção. Trata-se de um tal de Jean Georges Haudecoeur, cabo do 165º Regimento de Infantaria, falecido no hospital militar de Verdun na sequência de ferimentos sofridos em combate 4 em Setembro de 1914, portanto logo nos primeiros combates da I Guerra. Curiosamente, embora tenha um nome francês, o registo de óbito aponta-o como tendo nascido em Portugal, mais precisamente em "Covilhan". 



Imagem aérea: Fórum AR15.com, Strange Military
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