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domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



sábado, julho 09, 2016

Sabem onde fica este poço?


Embora pareça tratar-se apenas de um poço com um problema grave de fuga, na verdade há muito mais para dizer sobre ele e sobre este local. Sabem onde fica este poço? Uma pista: o rio em questão é um dos muitos rios que cruzam o nosso território vindos do país vizinho.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



terça-feira, dezembro 15, 2015

Nascer do Sol, algures sobre Espanha...

... a alguns quilómetros de altitude. Lá em baixo, as montanhas (provavelmente de Navarra) formam uma barragem transbordada pelas nuvens, como se de uma torrente furiosa se tratasse.




quarta-feira, outubro 14, 2015

Caminho Inca, Parte 4 - Do tesouro de Chinchero ao ouro branco de Maras

À medida que o dia do início da caminhada pelo trilho inca até Machu Picchu se aproximava, a ansiedade ia crescendo mas íamos aproveitando o tempo disponível da melhor forma. Depois da visita ao Vale Sagrado dos Incas no ter aberto o apetite, regressámos a Chinchero e descobrimos dois locais espectaculares que mudaram radicalmente a nossa visão do Império Inca.

Ainda entusiasmados com tudo o que tínhamos visto na recente visita ao Vale Sagrado, decidimos ir explorar o planalto de Chinchero com dois destinos bem definidos em mente: Moray e Maras. Logo pela manhãzinha, saímos de Cusco conduzidos pelos Sr. Jesus, uma pessoa extremamente simpática e com uma bagagem de conhecimento exemplar que não se cansou de partilhar connosco.

A saída de Cusco fez-se por uma zona mais pobre, que já conhecíamos do regresso da viagem pelo Vale Sagrado no dia anterior. As casas amontoadas, parecendo favelas, as ruas em terra batida e o muito lixo que se acumulava aqui e ali, formavam um cenário deprimente. Segundo a nossa guia, era uma consequência do súbito e incontrolado afluxo de pessoas que procuravam fugir, não só da pobreza da zona rural, como também da insegurança provocada pela organização terrorista Sendero Luminoso, que nas zonas mais remotas do Peru continua teimosamente a existir.


Ao cenário já por si caótico do bairro pobre junta-se o caótico trânsito peruano que pode ser descrito em duas palavras: tangentes e buzinadelas.


O colorido tesouro de Chinchero

A nossa primeira paragem foi em Chinchero. Ao contrário do dia anterior, onde pouco tínhamos visto, descobrimos desta feita algo que nos tinha então passado ao lado: a actividade têxtil tradicional que as artesãs desta comunidade mantêm bem viva na forma de associações locais. Logo à entrada de um dos vários centros de produção, fomos recebidos por um simpático grupo de alpacas, camelídeos muito parecidos com os lamas mas mais dóceis, mais pequenos e com uma lã muito mais suave e, por isso, muito apreciada. A diferença reflecte-se bem no preço das peças!


Um bicho com mais simpatia que bom gosto, a crer pelo penteado.

Fomos em seguida convidados a sentar sob um dos telheiros de colmo onde uma das senhoras nos serviu um chá de folha de coca acabado de fazer (e que até soube bem dado que estava assim para o frescote) e, enquanto bebericávamos esse chá, assistimos a uma pormenorizada explicação sobre o processo de fabrico artesanal dos tecidos andinos.

Sendo já claro que provinha de lamas, alpacas e ovelhas, ficámos a conhecer os processos de corte, lavagem, com "champô inca" que, segundo ela, -"Deixa a lã bem branquinha e mantém o cabelo das senhoras sempre preto." e, finalmente, a fiação. 

Já em fio, a lã pode ser tingida com várias cores, a maior parte de origem vegetal, havendo ainda outras de origem mineral e... até animal. A cor vermelha, por exemplo, é obtida a partir da cochonilha, o pequeno insecto parasita que não serve só para tingir tecidos. Também é usado como corante alimentar (quando encontrarem um tal de aditivo "E120" no rótulo de um alimento, já sabem do que se trata) e até como corante para cosmética, como aliás a Jessica fez questão de demonstrar, esmagando um pequeno grupo de cochonilhas e passando o resultado pelos lábios. -"Por aqui é um batom bem barato e fácil de obter. Dura 24 horas ou 100 beijos!", disse-nos, provocando uma risada geral.  


Para tingir a lã é necessário que esta ferva durante algum tempo numa infusão do corante que lhe dá o tom desejado. Após a secagem, a cor torna-se permanente, por muito que a lã seja lavada.


Concluído o processo, os fios são ordenados já tendo em mente o padrão de cores que se vai dar ao tecido, usando-se para isso duas estacas cravadas no chão. Daí sai directamente para o tear, um bem diferente daqueles a que estamos habituados, visto que uma das extremidades do tear é amarrada a um poste ou uma árvore enquanto a outra é amarrada à cintura da própria tecedeira. O resultado final é um tecido colorido com padrões diversos, cujo conhecimento é transmitido oralmente de geração em geração, simbolizando sempre algo relacionado com o universo andino, material ou não.



Preparação dos fios antes da passagem ao tear.



O tear típico, bem diferente dos nossos. os padrões são obtidos intercalado os fios do conjunto, conjugando devidamente a posição das ripas de madeira. Para evitar que os fios fiquem embaraçados, usa-se um osso pontiagudo, normalmente de lama. -"Este é de um turista que não nos quis comprar nada." atirou a Jessica com ar grave.



Na explicação pormenorizada dos padrões de uma peça que acabámos por comprar (nem poderia ser de outra forma, dado o amor que temos ao nosso esqueleto), descobrimos condores, lamas, garras de puma entre outros. 


Moray, um sofisticado laboratório de investigação agrícola


Pouco depois de termos saído de Chinchero com destino a Moray, trocámos a estrada de alcatrão por uma de terra batida que percorre o planalto à vista dos montes nevados envolventes. O sítio de Moray não se avista senão de perto, dado que foi construído aproveitando algumas depressões naturais do terreno. Isso faz com que o impacto visual do sítio seja bastante forte, mesmo que saibamos o que vamos ali ver. A dimensão e organização dos vários socalcos em círculos concêntricos, num total de quatro grupos, um maior e três mais pequenos, é impressionante!

Mas pare que servia afinal este local? A hipótese mais comummente aceite é que se tratava de um laboratório agrícola, destinado a testar a adaptabilidade das várias espécies cultivadas a diferentes climas e altitudes, permitindo seleccionar as melhores sementes para as diferentes zonas do Vale Sagrado. Esta tese apoia-se em parte na diferença de temperatura que é possível registar entre socalcos do mesmo grupo.

Nestes socalcos foi construído um elaborado sistema de irrigação, cujos canais chegavam a todas as plataformas de cultivo, sem excepção.


O impacto visual do sítio é tremendo! Ampliando a foto (com um clique) é possível ver algumas pessoas junto aos socalcos, o que dá uma noção da escala.


Quanto à drenagem, o próprio solo já por si era bastante poroso, o que facilitava o processo. Ainda assim, os Incas aplicaram aqui o sistema habitual de construção dos socalcos com camadas de diferentes tipos de solos. As primeiras camadas eram de materiais que facilitavam a drenagem (pedra e areão) e sobre estas era colocado o solo fértil para cultivo.



Outra perspectiva do maior grupo de socalcos, com vista das montanhas para lá do Vale Sagrado.


O ouro branco de Maras

Deixando Moray para trás, seguimos viagem rumo a Maras, para visitar um local cuja importância sobreviveu ao passar dos séculos sendo ainda hoje fundamental para a economia local. Trata-se das Salinas de Maras, um local de extracção de sal por evaporação da água, a mais de 3.000 m de altitude!



Depois de passarmos pela pequena comunidade de Maras, chegámos à vista das Salinas por uma estrada estreita e com dois sentidos de circulação, sem qualquer barreira de protecção que nos separasse da ravina, o que fez com que alguns dos passageiros soltassem algumas expressões de inquietação quando o Sr Jesus tinha de conduzir mais próximo da berma.

As Salinas de Maras, com o Vale Sagrado em segundo plano

As Salinas de Maras funcionam ininterruptamente há já alguns séculos. Presume-se que o sal já seria aqui explorado antes da chegada dos Incas, que continuaram a actividade mas aperfeiçoando o processo, implementando um sistema de pequenos tanques escalonados. A exploração é sazonal, fazendo-se somente na época seca, de Maio a Novembro. Durante a estação das chuvas, o caudal da água destrói muitos dos tanques, obrigando à sua reconstrução antes do retomar dos trabalhos na época seguinte. 

É interessante constatar que todo este conjunto é alimentado por um pequeno curso de água que brota na zona mais alta do vale e que depois percorre o intrincado sistema de canaletas entre os tanques de extracção de sal, sendo redireccionado conforme as necessidades. A salinidade desta água resulta do contacto de um lençol freático com um depósito salino subterrâneo, gerado pelo aprisionamento de grandes quantidades de água do mar durante o processo de formação das montanhas, há cerca de 110 milhões de anos atrás. 


A nascente do curso de água que alimenta as Salinas de Maras. Na foto percebe-se bem seu o teor de sal, que quase provoca hipertensão só de olharmos para ela.

Às famílias de Maras cabe ainda hoje a responsabilidade de explorar o sal deste local, o que não quer dizer que um forasteiro não possa também aqui trabalhar. Para tal, tem de pedir autorização à comunidade local que depois decide sobre a concessão ou não de um tanque que esteja livre.

A beleza deste local, com os tons brancos e rosados (resultantes dos vários minerais que a água transporta) que contrastam com o ocre predominante no meio envolvente, é quase hipnótica.



Um trabalhador transporta o sal para o topo do vale.



Momento de pausa, tanto no pequeno abrigo como ao longe, entre montes de sal.



Os canais de circulação de água entre os tanques são aqui bem visíveis.


A postos para o Trilho!

Com as visitas ao Vale Sagrado e aos arredores de Cusco, rapidamente chegámos ao dia da véspera da nossa partida. Como combinado, ao fim da tarde fomos até à sede da agência que tínhamos contratado para nos acompanhar ao longo do trilho, para o briefing prévio.

Tratou-se do primeiro contacto com o grupo e com um dos guias, que nos deu as informações essenciais sobre o percurso e sobre como iriam decorrer as etapas. O primeiro contacto com aqueles que viriam a ser os nossos companheiros permitiu-nos perceber que ali tínhamos todos algo em comum: estávamos ansiosos pelo início da caminhada!



A seguir:


O início do trilho!

terça-feira, outubro 06, 2015

Caminho Inca, Parte 3 - O Vale Sagrado dos Incas

Ainda com alguns dias pela frente antes de começarmos o Caminho Inca, não podíamos desperdiçar a oportunidade de visitar alguns dos locais mais importantes da região de Cusco. Por isso, tanto em visitas guiadas como de forma autónoma (usando o peculiar sistema de transportes públicos da região) percorremos o planalto de Chinchero e o mítico Vale Sagrado dos Incas, onde a Via Láctea se confunde com o rio Urubamba. O que encontrámos mudou a nossa maneira de ver o Peru e os Incas.

Logo pela manhã, entrámos no autocarro que haveria de nos levar até ao Vale Sagrado. Para facilitar as coisas em termos de transporte, optámos por uma visita guiada, inscrevendo-nos numa das agências existentes perto da Plaza de Armas. O percurso iria levar-nos sucessivamente às comunidades de Pisac, Urubamba, Ollantaytambo e Chinchero, com uma primeira e breve paragem na pequena comunidade de Corao, uma povoação muito modesta, onde a maior parte das casas é construída em tijolo de adobe.


Corao, tijolos de adobe a secar ao Sol. Com tanta matéria prima à volta, construir casas fica bem em conta. 



Uma das ruas de Corao, com os inevitáveis camelídeos para turista ver e uma pequena loja.


O Vale Sagrado é o nome pelo qual é conhecida uma secção do vale pelo qual corre o rio Urubamba (ou também Vilcanota, entre outros nomes), sendo actualmente considerado o coração do Império Inca. Ao longo do Vale Sagrado, encontram-se numerosas ruínas incas o que é compreensível dado que este vale era um autêntico celeiro do império. Para uma sociedade eminentemente agrícola como era a Inca, é fácil hoje em dia compreender a importância que este vale terá então tido, sobretudo quando após vários quilómetros numa sinuosa estrada que corre entre altas montanhas, nos deparamos com este vale largo, cheio de terrenos de cultivo a perder de vista.

Para os Incas, que construíram várias cidades ao longo do vale, para além de outras estruturas, este vale terá tido um significado ainda mais profundo. De facto, os Incas acreditavam convictamente que o que viam no céu, nas grandes manchas escuras entre aglomerados de estrelas e nas próprias constelações, tinha reflexo na sua realidade imediata. Os lamas, pumas, raposas, serpentes e outros animais que viam no céu eram a fonte dos animais que caminhavam à sua volta. Sendo assim, o alinhamento quase perfeito do vale com o ramo da Via Láctea motivou a crença de que o rio Urubamba era o prolongamento ou o reflexo do grande Rio Celestial que viam no céu.

Pisac, a cidade da Perdiz


Pisac, nas margens do rio Urubamba

A actual comunidade de Pisac ou, melhor dizendo, a "vila colonial de Pisac", foi fundada pelos espanhóis no quadro da "relocalização dos índios", política levada a cabo para reorganizar o território e deslocar os indígenas para locais mais facilmente acessíveis e controláveis. A antiga cidade Inca situa-se no monte imediatamente acima da actual vila, sendo os seus socalcos agrícolas bem visíveis à distância.

Há várias teses quanto à origem do nome "Pisac" sendo que se acredita que o nome venha do quechua "P'isaq" que é o nome de uma ave semelhante a uma perdiz, havendo até que defenda que a zona urbana junto ao templo do Sol é na verdade um geoglifo que representa essa ave.


Pisac, com as suas diferentes zonas. Os socalcos dominam a paisagem enquanto as áreas edificadas se situam nos dois extremos da fotografia. Acima das construções da esquerda, sobre a pequena elevação que aí se vê, situava-se o Intihuatana, o Templo do Sol.


Aspecto do sector urbano mais a Norte (direita da foto anterior) denominado Qallaqasa. No limite dos socalcos percebe-se a muralha que delimitava a cidade.


A antiga cidade Inca, que se estima ter tido cerca de 600 habitantes, estava dividida 4 zonas edificadas distintas, para além da zona agrícola e da zona funerária. Essas 4 zonas edificadas dividem-se entre áreas de habitação, áreas de culto, armazéns e até áreas militares. Sobre a necrópole importa dizer que, para os enterramentos, foram aproveitadas as cavidades naturais de uma encosta abrupta junto à cidade, tendo até agora sido contabilizados mais de 1.500 túmulos. Nada de mais se pensarmos que a cidade foi fundada no século XV e perdurou até meados dos século XVI.



Vista da zona funerária, para a qual foram aproveitadas e alargadas as cavidades naturais aí existentes.

Como sempre acontece nas construções incas, os edifícios mais importantes tinham uma construção mais cuidada e impressionante, com pedras de maiores dimensões e sem ligante entre si, ao passo que as áreas residenciais do povo tinham uma construção mais rudimentar, em pedra pequena e barro. As paredes eram depois revestidas com adobe ou argila e caiadas de branco, podendo ter partes pintadas em vermelho ou amarelo vivo e até representações de animais.



Aspecto da Qallaqasa com construção mais rudimentar das casas.


Sector Este da cidade, avistando-se algumas construções que terão servido principalmente como armazéns. Os celeiros eram sempre construídos em locais mais expostos. Sabem porquê? Mais abaixo explico.

Terminada a visita às ruínas, fomos até à vila actual de Pisac para apreciar a mestria do trabalho de joalharia em prata, uma das artes herdadas dos povos pré-hispânicos que aqui se mantém bem viva. A prata desta região é trabalhada com um grau de pureza acima da média, fazendo dela uma referência a nível mundial. Os visitantes podem assistir aos trabalhos e depois visitar as exposições para eventuais compras, sendo seguidos -de bem perto!- por um dos vários funcionários que mantêm sempre os olhos bem abertos, não vá um dos potenciais clientes levar uma das peças e esquecer-se inadvertidamente de pagar.


Os táxis do Vale Sagrado e os deliciosos porquinhos-da-Índia

Depois de uma rápida passagem pelo famoso mercado tradicional de Pisac, voltámos ao autocarro para seguir rumo à cidade de Urubamba, onde nos aguardava o nosso almoço. No caminho deparámos-nos com os moto-táxis, pequenos veículos de transporte de passageiros que por aqui são extremamente populares. Há-os até que têm uma pequena caixa aberta à rectaguarda, sendo possível vê-los a transportar mercadorias e bagagens.



Um dos moto-táxis do Vale Sagrado, com um certo toque tunning.

No caminho, sobretudo ao passar pela comunidade de Lamay, vêem-se várias "Cuyerias", nada mais nada menos que restaurantes onde se serve um prato nacional peruano: o Cuy, isto é, o porquinho-da-Índia. Embora a ideia de comer um animal de estimação nos pareça estranha, no Peru é um dos pratos mais populares, sendo os Cuy criados como coelhos. O nosso guia, percebendo o espanto perante esta iguaria, perguntou a certa altura se tínhamos algum destes bichos como animal de estimação. Tendo recebido uma resposta afirmativa por parte de uma das senhoras presentes, retorquiu: -"Nesse caso, aconselho-a vivamente a sacrificar e comer o animal. Vai- ver que é delicioso!". A gargalhada geral que se seguiu contrastou com o ar desconcertado da senhora. Este foi um prato do qual nos abstivemos durante toda a nossa estadia no Peru.


À frente de uma das "Cuyerias" de Lamay, um homem tenta aliciar potenciais apreciadores de gastronomia peruana segurando uma espetada de... porquinhos-da-Índia. 


Ollantaytambo, a cidade inca guardada por um deus



A invulgar povoação de Ollantaytambo, caso único no Peru

Ollantaytambo seria, tal como Pisac, um centro político, religioso e administrativo, como pequenas capitais regionais na órbita de Cusco. O seu nome ainda motiva muita discussão mas duas hipóteses têm neste momento mais força: a primeira que diz que o nome virá do termo aymara (uma língua pré-inca ainda hoje falada por alguns milhões de habitantes) "Ullantawi", significando "Observatório" ou Torre de Vigia. A segunda hipótese baseia-se no nome de um general Ollanta, sendo "Tambo" um termo quechua que significa "lugar de descanso".

Para lá da impressionante construção da parte mais alta da cidade, encavalitada numa elevação, há vários outros factores que fazem de Ollantaytambo um local singular.

Em primeiro lugar, constitui o caso único no Peru de uma povoação que mantém o traçado inca da sua planta e de boa parte das construções. As ruas rectilíneas desenham a planta ortogonal original da cidade, sendo bem visível o aparelho inca de construção nas bases dos muros. É uma autêntica aula viva de História e uma janela privilegiada para a paisagem humana de há quase 600 anos atrás.



Os socalcos agrícolas


Vista da parte mais alta de Ollantaytambo, onde se situava o templo do Sol.

Em Ollantaytambo, cidade que terá tido aproximadamente 1.000 habitantes durante o império Inca, há dois antigos espaços sagrados que se destacam. O primeiro é o Templo da Água, uma fonte ceremonial dentro de um espaço fechado onde decorriam os rituais relacionados com este culto. Tem a interessante particularidade de, no solstício de Inverno (21 de Junho), os raios de Sol incidirem directamente sobre a fonte, tendo provavelmente sido palco de cerimónias religiosas associadas ao calendário Inca.



A fonte ceremonial no Templo da Água. A 21 de Junho, os raios de Sol incidem directamente sobre a bica desta fonte.

Outro local fascinante é o do observatório solar ali mesmo ao lado. Os Incas, tinham a agricultura como base da sua economia pelo que era fundamental regular a sementeira e colheita das mais de 2.000 espécies de batata e 200 espécies de milho de que dispunham, entre outros tipos de cultura (incluindo a sagrada coca). Para regular o calendário agrícola, os Incas apoiavam o seu conhecimento do clima e do tempo na observação astronómica, o que resultava na construção de observatórios. Embora com uma evidente conotação religiosa, os Incas desenvolveram os seus conhecimentos e domínio dos fenómenos astronómicos de forma notável.

Em Ollantaytambo, o observatório solar permitia, através da evolução da projecção das sombras de 3 grupos de saliências ao longo do ano, determinar a ocorrência dos solstícios de Inverno e Verão, conforme as sombras estivessem projectadas sobre os degraus da base ou sobre os entalhes da parede rochosa. 

O observatório solar junto ao templo da Água, um dos vários observatórios que existiam na cidade.

Subimos então por uma bem íngreme escadaria, ao longo dos vários socalcos, e foi curioso ver que alguns ainda hoje são cultivados, como não podia deixar de ser com "papas", isto é, batatas. Ao chegar ao topo, continuámos por um estreito caminho empedrado, em direcção ao templo do Sol e demais estruturas circundantes.



Plantação de "papas" num dos socalcos de Ollantaytambo. 


Chegados à antecâmara, detivemos-nos a apreciar a vista privilegiada para o actual núcleo da povoação e para a montanha para lá dele. Chamou-nos a atenção a forma como os edifícios pareciam desafiar a gravidade, colados que estavam ao flanco da montanha, mas o melhor foi quando o nosso guia nos chamou a atenção para a gigantesca formação rochosa que se encontrava entre as construções, olhando-nos de soslaio. Tratava-se de Tunupa, o deus Inca que fecundava a terra e a água, com o fogo celeste e as suas lágrimas, sendo também capaz de soltar o fogo que mora nas profundezas terrestres. Está ali, diz-se, enviado pelo criador de tudo, o deus Wiracocha.   



Chegados junto do templo do Sol, pelo trilho que se vê à esquerda e que, pela reduzida largura e visão privilegiada para a zona baixa do vale, chegou a provocar alguma inquietação incómoda na zona baixa abdominal de alguns dos presentes,  deslumbrámos-nos com a vista. Do outro lado da povoação, empoleirados na montanha, avistam-se edifícios empoleirados na montanha e um deus que nos olha de volta. Os edifícios que se encontram à direita deste eram armazéns, onde os cereais colhidos nas zonas agrícolas eram armazenados. A localização, sempre em local destacado, não era inocente. Destinava-se a garantir a melhor ventilação possível dos preciosos grãos, para ajudar à sua conservação.

Pormenor da foto anterior com o rosto do deus barbado destacado digitalmente. O que é espantoso e que mostra que o rosto terá tido um significado de grande importância para os Incas, é que sobre a sua cabeça foi construído um edifício, como se de uma coroa se tratasse. Mais à esquerda, noutra saliência da montanha, encontrava-se (mais) um observatório solar. Numa excessiva coincidência, eram este observatório e a "coroa" de Tunupa, juntamente com o próprio templo do Sol de Ollantaytambo, as primeiras construções deste recanto do vale a iluminar-se na manhã do solstício de Inverno.


Os construtores que não precisavam de ajuda extra-terrestre

O pouco que resta do templo do Sol consegue deixar-nos tão intrigados como impressionados, deixando à imaginação como seria o edifício caso estivesse completo. Os muros das estruturas ao redor do templo foram todos construídos com o mesmo aparelho ciclópico que tínhamos visto em Saqsaywaman (ver aqui), embora sem a mesma dimensão colossal. Grande parte destes muros foram destruídos pelos espanhóis, tendo muita da pedra sido utilizada na construção da igreja da actual Ollantaytambo. 

Reparando mais uma vez nas protuberâncias que se viam em algumas das pedras dos muros, aproveitei a deixa para perguntar sobre qual seria o seu propósito. A resposta foi pronta -"Suspeita-se que tenham servido como pontos de amarração de cordas para transporte das pedras. Isso vê-se em algumas pedras, em várias das construções incas mas, depois de colocadas as pedras, essas protuberâncias eram removidas." (recordar aqui). Aproveitando a deixa, decidi que era hora de, finalmente, ficarmos a saber a verdade. Por isso, olhei o guia nos olhos e atirei a pergunta: -"Então não foram os aliens?", ao que o guia esboçou um sorriso e respondeu simplesmente -"Não, não foram os aliens.", motivando o riso dos que estavam presentes. Pareceu-me sincero.

Do templo propriamente dito sobra apenas uma parede, na qual ainda se conseguem perceber os pumas e as chamadas "cruzes andinas" escalonadas que aqui estavam esculpidas em relevo e que depois foram picadas pelos espanhóis, no quadro da purga da idolatria. A própria parede é constituída por 6 enormes blocos de granito vermelho, separados por pedras extremamente finas do mesmo material, todo este conjunto sobre um alicerce de pedras mais finas. Segundo o nosso guia -"Esta construção destinava-se absorver a energia libertada pelos sismos, tanto em oscilações horizontais como verticais. Reparem que inclusive as paredes tinham sempre alguns graus de inclinação. Estas construções eram totalmente resistentes a sismos.".

A parede do templo do Sol, com vestígios dos relevos dos pumas e cruzes andinas nas faces de pedras que pesam dezenas de toneladas.

Ao redor do templo, blocos espalhados e irregulares corroboram a tese de que o templo do Sol estava ainda em construção quando os espanhóis chegaram. -"Os trabalhos foram interrompidos mas isso acabou por ter um lado bom, ao permitir-nos perceber mais sobre a forma como decorriam os trabalhos de construção. Sabemos que os blocos eram extraídos das pedreiras e transportados até ao local de construção, onde eram talhados, polidos e encaixados uns nos outros. Sabemos, pelas ferramentas encontradas, que usavam ferramentas de cobre,  hematita ou obsidiana para os cortes e os mesmos materiais ou até rocha de dureza igual para polir."

A questão impõe-se: de onde vieram afinal estas pedras do templo do Sol? -"Pelo tipo de rocha, granito vermelho, sabemos que terão vindo de uma pedreira que fica a 7km daqui. A rocha era grosseiramente cortada e, através de uma rampa cujos vestígios ainda existem, vinham até ao fundo do vale. Aí o rio seria certamente usado como via de transporte, sempre na época seca, com o caudal mais baixo, para permitir uma viagem menos atribulada. Para depois subir até aqui, usavam outra rampa que ainda é visível.". 

Como alguns pareciam estar cépticos, abriu um livro e mostrou uma fotografia onde se via uma pedra de algumas toneladas a ser puxada com cordas por várias pessoas em trajes tradicionais andinos. -"Um arqueólogo fez uma reconstituição para tentar perceber como eram transportadas as pedras. Pelos vistos, correu bem.". Nada descabido até porque num império com 10 a 12 milhões de habitantes e onde um imposto era pago em trabalho, era usual ter milhares de homens a trabalhar nos projectos mais importantes.


Blocos semi-trabalhados junto ao templo do Sol que contribuem para ilibar os seres extra-terrestres da responsabilidade das construções do império Inca.

Para terminar acrescentou um último pormenor: -"Vejam aqui (apontando para uma pequena pedra cilíndrica sob uma grande pedra que estava deslocada sobre o muro) este elemento. É uma pedra ainda fora do seu sítio com um cilindro que ficou esquecido por baixo dela. Servia para ajudar a mover as pedras para a sua posição final.". 

Após esta lição sobre construção inca, tirámos mais algumas fotos à paisagem e descemos novamente por entre os socalcos. Estava na hora de continuar a nossa viagem, deixando o Vale Sagrado para subir até ao planalto de Chinchero, onde nos esperava uma grande festa. 



Degrau a degrau, de regresso ao autocarro. Em sentido contrário ouvia-se apenas a respiração ofegante de quem chegava.



A caminho de Chinchero, uma vista privilegiada para a cidade de Urubamba.


Chinchero, uma festa à nossa espera


Às portas de Chinchero, pensámos ter um comité de recepção à nossa espera. Afinal não.


Ao chegarmos a Chinchero fomos surpreendidos pela agitação da festa popular que aí decorria. Subindo a custo porque, como percebemos depois, estávamos a quase 3.800m de altitude e era necessário controlar bem a respiração e dosear o esforço, caminhámos até ao largo da igreja.

Aí o colorido das bandeiras, a música, as diversões e locais de venda de alimentos (a Ana ainda provou a maçaroca de milho branco cozido) e bebidas criavam um ambiente extremamente cativante. Por todo o lado se viam os trajes tradicionais de Chinchero, onde se destacam o preto e o vermelho. Percebemos também que os trajes são aqui considerados verdadeiramente como trajes de festa e não apenas para vestir como relíquias em grupos de folclore. Ao longe, um grupo sentado ao longo de um muro partilhava uma grande garrafa de cerveja, bebendo em sequência do gargalo. Um ritual habitual, segundo o nosso guia. 

Devido à festa não foi possível visitar grande coisa em Chinchero. Ficam as fotos do colorido da festa:


A igreja de Chinchero, construída sobre um antigo templo Inca. Ainda se vê um dos muros com nichos trapezoidais de construção inca.



Uma habitante local passeando orgulhosamente o seu traje de Chinchero, diante de um muro Inca com indícios de restauro.




O bailarico ao som da banda.


Terminada a visita a Chinchero, já com o deus Inti a descer cada vez mais no horizonte, regressámos a Cusco. A Chinchero haveríamos de voltar outra vez, não para ver monumentos mas para aprender mais sobre um dos mais belos tesouros dos Andes. Isso e também para descobrirmos um local que prova o quanto os Incas estavam à frente dos europeus em termos agrícolas.


A seguir:

O tesouro de Chinchero, um centro de investigação Inca de fazer inveja e o branco que cobre um vale e que não é de neve. 

O último capítulo antes da partida para Machu Picchu




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