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sexta-feira, novembro 08, 2013

Maúnça 2013 - Que ninguém se atreva a faltar!


Tem hoje início a 13ª "Mostra de Artes e Sabores da Maúnça", certame onde a castanha assume um papel de destaque mas não só. As ruas e caves da aldeia do Açor, bela terra feita de gente hospitaleira, irão animar-se com cores, aromas e sons que prometem um fim-de-semana em grande.

Para aguçar o apetite, partilho aqui uma amostra do que foram as últimas edições:





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segunda-feira, setembro 02, 2013

Recriação histórica do Cerco de Almeida 2013

Como acontece todos os anos, o som dos mosquetes e canhões voltou a fazer-se ouvir nas muralhas de Almeida, com a recriação dos encarniçados combates de que esta vila foi palco há cerca de 200 anos atrás, durante a 3ª invasão francesa. Participaram nesta recriação mais de 200 figurantes (estimativa com o grau de precisão próprio do "olhómetro"), oriundos não só de Portugal como também de França, Reino Unido e Espanha. Sem ter tido oportunidade de assistir às recriações de Sexta e Sábado, decidimos não perder a de Domingo de manhã e, bem cedo, fomos até Almeida.

Com início previsto para as 10h da manhã, a recriação acabou por se atrasar e ainda bem. Assim, pudemos assistir a tudo desde o início. Durante mais de uma hora, os combates desenrolaram-se sobre as muralhas, terminando com a vitória das tropas francesas sobre as anglo-lusas e com a posterior evocação da memória das vítimas dos combates de 1810, que terão provocado 700 a 1.000 mortos.


A cavalaria prepara-se para o combate


No acampamento francês, também a infantaria se vai preparando


O desfilar das tropas, rumo ao campo de batalha



 O balcão do antigo quartel encheu-se de espectadores.


As tropas britânicas assumem as suas posições no terreno.


Tem finalmente início o ataque das tropas francesas


A cadência de tiro é dificultada pela complexidade da preparação dos mosquetes


A pouco e pouco, as tropas napoleónicas progridem no terreno com o apoio da artilharia


A resistência dos portugueses é tenaz


Os franceses tentam assaltar as posições aliadas


Dois batedores tentando perceber o posicionamento francês no terreno. Detectados, serão pouco depois obrigados a fugir.


Mais uma violenta carga da infantaria francesa sobre as posições anglo-lusas


A artilharia francesa continua a bombardear as posições aliadas


Uma carga de cavalaria britânica tenta neutralizar a artilharia francesa


A situação fica de tal maneira escaldante que até surgem pequenos focos de incêndio no terreno 


Uma vez que os mosquetes se revelam pouco eficazes nessa tarefa, outro tipo de soldado é chamado a intervir para extinguir o fogo.





Os últimos momentos da resistência anglo-lusa

A carga final das tropas francesas sobre o último reduto anglo-luso

Embora extremamente interessante, esta reconstituição pecou por vezes por falta de coordenação entre os intervenientes e por alguns momentos de "acalmia", embora compreensíveis dada a heterogeneidade dos participantes e o calor que se fazia sentir. Ainda assim, gostei mais da recriação a que assisti há 3 anos atrás (clicar aqui para o artigo e aqui para o vídeo), que também terá beneficiado da progressiva mudança de cenário.

Independentemente do seu nível de perfeição, este tipo de recriações são de extrema importância para a preservação da memória daquela época tumultuosa da História de Portugal e há inevitavelmente que dar os parabéns a quem anualmente leva a cabo esta iniciativa. O enquadramento paisagístico, esse sim, é inevitavelmente perfeito e merece só por si uma viagem a Almeida.

Para finalizar, convém ter em conta que esta reconstituição foi meramente simbólica. Aquilo que aconteceu naquela tarde de Verão de 1810 foi bem diferente do que foi retratado sobre as muralhas da Estrela da Pedra.


O que realmente aconteceu no cerco de Almeida

Perante a nova invasão francesa, o comandante das tropas anglo-lusas, o Duque de Wellington, definiu uma estratégia de recuo progressivo, desde a fronteira com Espanha até às Linhas de Torres, aplicando uma política de terra queimada de forma a criar atrito no exército francês, tanto em termos materiais como humanos. A espectacular fortaleza de Almeida tinha um papel bastante importante nessa estratégia. 

Tendo sido devidamente abastecida e guarnecida, esperava-se que Almeida resistisse durante alguns meses, obrigando os franceses a retardar a sua marcha ou, na pior das hipóteses, a empenhar ali parte das suas tropas. Infelizmente, nos primeiros dias do certo, um tiro de canhão extremamente feliz acertou em cheio no pátio do castelo medieval, que estava a ser usado como paiol de munições. O resultado foi uma explosão catastrófica que arrasou não só o castelo mas também a maior parte da vila. A fortaleza, tornada indefensável, foi obrigada a render-se, passados que estavam apenas alguns dias de resistência.

O relato de um oficial francês sobre esse momento diz bem da violência da explosão:

"A terra tremeu e vimos um imenso tornado de fogo e fumo erguer-se no centro da Praça. Foi como a erupção de um vulcão - uma visão que não consigo esquecer após 26 anos. Enormes blocos de pedra precipitaram-se nas nossas trincheiras, matando e ferindo vários dos nossos homens. Canhões de calibre pesado ergueram-se dos muros e precipitaram-se longe destes. Quando o fumo se dissipou, grande parte de Almeida havia desaparecido e o resto era apenas um amontoado de destroços".


As ruínas do que foi outrora o castelo medieval de Almeida, nivelado pela terrível explosão de 1810.

O que resta do fosso dá ainda uma ideia do quão monumental seria o castelo


quinta-feira, maio 09, 2013

Benfeita, a aldeia das 1620 badaladas da Torre da Paz


Na aldeia de Benfeita, no concelho de Arganil, o aniversário da rendição alemã que pôs termo à II Guerra Mundial é comemorado de forma muito peculiar a cada ano que passa, no dia 7 de Maio, data em que terá chegado à aldeia a notícia do fim das hostilidades na Europa. A tradição dita até que terá sido esta uma das primeiras povoações portuguesas a receber a notícia.

Com o trauma da I Grande Guerra ainda bem vivo no espírito da população portuguesa e em sinal de gratidão pelo facto de Portugal se ter conseguido manter neutral durante a II Guerra Mundial, a população de Benfeita resolveu construir uma torre sineira para que os seus sinos tocassem no dia em que os combates chegassem ao fim. Inicialmente chamada de Torre Salazar, para "comemorar a paz portuguesa e homenagear o Chefe do Govêrno e a sua clarividente e quasi milagrosa política internacional, que preservou a nossa pátria dos horrores da guerra", esta torre foi construída graças a uma campanha de recolha de donativos para a qual contribuíram privados e entidades públicas, como as Câmaras Municipais de Figueira da Foz ou Viana do Castelo.

Numa homenagem 2 em 1, durante duas horas de cada 7 de Maio, o Sino da Paz toca automaticamente 1620 badaladas do alto da rebaptizada Torre da Paz, celebrando o fim da II Guerra Mundial com a memória do número de dias correspondentes aos 54 meses que durou a I Guerra Mundial. Evoca-se portanto o fim do medo com a memória amarga dos dias em que os combatentes portugueses perderam a vida nas trincheiras da Flandres e nas selvas africanas.


segunda-feira, março 04, 2013

A tradição do Ramo de Santo António

O Ramo de Santo António é uma tradição que se cumpre em regra no chamado "Domingo Gordo", o último Domingo antes do Carnaval. Nesse dia, os "mordomos", percorrem as ruas das povoações, transportando uma vara ou mastro, indo de porta em porta para "pedir o ramo". Cada lar dá o seu contributo para o ramo, em regra chouriças, mas também há quem dê pão, broa ou apenas dinheiro. 

A data não é escolhida ao acaso pois era geralmente entre Dezembro e Janeiro que as famílias faziam a "matação" do porco, estando por isso os fumeiros domésticos bem recheados. Actualmente, a suinicultura doméstica chegou ao fim mas a a recolha do ramo não terminou.




No final do percurso, que pode ser demorado em função da hospitalidade dos habitantes, a população junta-se para leiloar as peças recolhidas. A verba obtida reverte depois para a comissão fabriqueira local que, tradicionalmente a deveria aplicar na festa de Santo António a ter lugar no Verão, daí a referência a Santo António.

No último fim-de-semana, juntei-me à comitiva que, na aldeia de Vale d'Urso e com uma interpretação flexível do calendário, saiu para a rua para pedir o ramo. Em processo de desertificação, a aldeia diminuiu no seu número de habitantes mas não na sua generosidade e hospitalidade. No final, praticou-se uma alteração positiva da tradição: substituiu-se o leilão pela entrega voluntária de 5 euros por parte de cada um e, logo de seguida, organizou-se uma bela patuscada, bem regada diga-se, para ser também ela dividida por todos os que quisessem participar. Esta fechou com chave de ouro, na forma de uma deliciosa canja de tordo!

Partilho aqui algumas fotografias para deleite dos olhos e da imaginação gustativa!














segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal!

Decididos a mostrar um pouco daquilo que a nossa Beira Baixa tem de melhor a uma visita vinda do Minho que acolhemos por estes dias, aproveitámos a tarde ensolarada de Domingo para ir até Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal! A subida não foi fácil mas, como sempre, valeu bem a pena. Monsanto tem aliás esse condão. Pode-se visitar inúmeras vezes (já perdi a conta às minhas visitas a este local) que não perde a magia.

(Cliquem nas fotos para ampliar)

Esta aldeia, integrante da rede de Aldeias Históricas de Portugal, situa-se no flanco de um inselbergue, um monte que se ergue, feito ilha, numa extensa planície. Monsanto é o resultado do perfeito casamento entre os fraguedos graníticos e a as construções humanas, tanto que, se algumas das suas casas não fossem caiadas de branco, a aldeia bem poderia passar desapercebida aos olhos do viajante mais distraído. 



Esta povoação tem uma história longa, mais antiga até que Portugal, remontando possivelmente aos tempos dos nossos antepassados que os romanos baptizaram de lusitanos. Foi contudo na Idade Média, com a conquista deste território pelos cristãos, que Monsanto se começaria a definir como a povoação que hoje conhecemos. 

Monsanto desenhado por Duarte Darmas no século XVI.


Tendo o território sido doado aos templários, estes logo trataram de construir um castelo no cimo do Mons Sanctus, o Monte Santo, tendo à sua volta construído uma muralha. A importância deste local era tal que recebeu sucessivamente carta de foral de Afonso Henriques e depois do seu filho D.Sancho I e bisneto D. Sancho II. Mais tarde, já no século XVI, seria a vez de D. Manuel lhe atribuir um foral novo. Portanto, desde bem cedo, Monsanto foi sede de Concelho, subsistindo alguns vestígios desse facto. A povoação situava-se inicialmente lá no alto, à sombra da protecção do castelo.


O epíteto de aldeia mais portuguesa de Portugal deve-se a um concurso levado a cabo pelo Estado Novo no final dos anos 1930, concurso esse que se destinava a premiar a aldeia que mantivesse no seu estado mais puro a sua identidade portuguesa. Pelas próprias palavras do Secretariado da Propaganda Nacional, o concurso enquadrava-se numa estratégia de "combater por todos os meios ao seu alcance a penetração no nosso país de quaisquer ideias perturbadoras e dissolventes da unidade e interesse nacional". O prémio foi entregue a 4 de Fevereiro de 1939, faz hoje precisamente 74 anos, e consistiu num galo de prata, cuja réplica se encontra hoje no topo da chamada Torre de Lucano, uma torre sineira do século XV que domina a aldeia.

A entrega do galo de prata a 4 de Fevereiro de 1939 a representantes do povo de Monsanto pelo Presidente da República, Óscar Carmona, e pelo Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar. Foto Rádio Clube de Monsanto


Igreja de São Salvador, datada do século XVI.

Tendo sido sede de Concelho até 1853, Monsanto ostenta ainda sinais dessa autonomia administrativa. O exemplo mais emblemático é o pelourinho, invulgar pela sua simplicidade. É preciso notar no entanto que se trata muito provavelmente de uma reconstrução ocorrida em 1936. A peça terminal foi acrescentada posteriormente, após ter sido encontrada encastrada numa casa em 1937. Tendo um valor simbólico tão grande, merecia ser mais valorizado e não atirado para o canto de um largo onde os automóveis lhe fazem concorrência.

O pelourinho de Monsanto.

 Um grande nome das letras surge associado a Monsanto: Fernando Namora. O médico escritor exerceu aqui a sua actividade entre 1944 e 1946, período que serviu de inspiração para a sua bem conhecida obra "Retalhos da vida de um médico". A casa onde morou e a casa onde teve o seu consultório estão assinaladas, existindo junto desta última um conjunto de dois bancos de pedra corridos ainda hoje conhecidos como "bancos da paciência" destinados precisamente aos pacientes que aguardavam a sua vez.

 Casa onde esteve instalado o consultório de Fernando Namora

A subida até ao castelo, o ex-libris de Monsanto, pode ser um desafio para o menos preparados mas vale bem a pena.




Nem só as habitações se misturam com as rochas. Também os espaços reservados aos animais aproveitam os blocos da encosta na sua construção, desde galinheiros a pocilgas, como é o caso da foto abaixo. 





O ex-libris de Monsanto é definitivamente o castelo, bem camuflado no topo do monte que, já por si, é uma fortaleza natural. Compreende-se bem o porquê de a fortaleza se ter mantido inexpugnável em sucessivos cercos aos quais, com maior ou menor dificuldade foi resistindo. A destruição maior foi causada ironicamente por causas naturais. Algures durante o ano de 1815, um relâmpago atingiu o castelo, que era então usado como armazém de pólvora e de munições, provocando uma explosão que o destruiu parcialmente. 

Como não podia deixar de ser, o castelo está ligado a uma lenda que exalta a irredutibilidade e engenho do povo de Monsanto. Conta a lenda que a povoação foi cercada durante 7 anos, por um inimigo cuja identidade se perdeu no tempo. Esgotando progressivamente os seus mantimentos, viram-se os sitiados com apenas um vitelo e um alqueire de trigo. Debatendo sobre o que se deveria fazer, uma idosa sugeriu uma ideia astuciosa para transformar o desespero dos sitiados no desânimo dos sitiantes. Assim, alimentaram o vitelo com o trigo e, tendo este terminado a refeição, atiraram o pobre animal do alto das muralhas para as posições do inimigo. O animal caiu sobre as rochas e despedaçou-se, espalhando o trigo à sua volta. Vendo que os habitantes de Monsanto, após 7 anos de cerco e sabe-se lá por que providências misteriosas, ainda se davam ao luxo de lhes atirar com animais tão bem nutridos, desanimaram e levantaram o cerco. 

Assim, todos os anos, a 3 de Maio, na festa da Santa Cruz, os monsantinos sobem ao castelo em procissão, transportando potes brancos cheios de flores, que depois lançam das muralhas. Simbolizam estes potes o malogrado vitelo que salvou Monsanto.




Já sei que vão dizer "Olha! Uma seteira!". Errado! Trata-se de uma troneira, ou troeira, em forma crucetada, estrutura que surgiu para colocação das primeiras peças de artilharia, os trons. Os rasgos em forma de cruz, por cima da posição circular da peça, destinavam-se a observação por parte do artilheiro.


É por vezes difícil distinguir a fronteira entre a fortaleza feita pelo homem e a fortaleza natural...




Do alto da parte mais alta do recinto do castelo, onde outrora se ergueu a torre de menagem, a visão é arrebatadora:


Penha Garcia na encosta da crista quartzítica que alberga um impressionante depósito de fósseis (ver aqui) que podem ser visitados em rotas pedestres bem sinalizadas. Penha Garcia tem muitas outras particularidades que merecem uma visita mas... não estas que em 2009 a SIC apontou e que levou a que fosse aqui publicado um artigo.

A capela de São Pedro de Vir-A-Corça avista-se no meio de rochas e arvoredo lá bem ao fundo. Tão ou mais velha que Portugal, esta capela é também ela protagonista de algumas lendas que por aqui se contam.



 Deixando o castelo e regressando um pouco nos nossos próprios passos, avista-se ali ao lado a arruinada Capela de São Miguel, no local onde outrora se encontrava a antiga povoação de Monsanto e da qual esta capela é a única construção que ainda se mantém de pé. À sua volta descobrem-se inúmeras sepulturas escavadas na rochas, as marcas derradeiras que os antigos monsantinos deixaram na paisagem.  


(Foto tirada em 2005)



Com o Sol a despedir-se no horizonte, atrás da Gardunha, foi tempo de voltar a descer e de ver a aldeia com outra luz. Aqui ficam algumas amostras:






Já no caminho de regresso ao Fundão, um último olhar em direcção a Monsanto:


Vale bem a pena visitar a aldeia mais portuguesa de Portugal. Não concordam?

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