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quarta-feira, maio 30, 2018

O "não" à Eutanásia e a legitimidade que nos assiste

A discussão durante os últimos dias foi intensa e ontem, finalmente, a proposta de despenalização da eutanásia, ou melhor, as 4 propostas foram a votos na Assembleia da República, sendo que a proposta do PS foi reprovada por apenas 5 votos. Este resultado acaba por ser surpreendente, especialmente tendo em conta a posição do Partido Comunista que votou contra.

Resultado da votação para cada proposta (o documento de cada proposta está disponível no link):

PAN (link) 102 a favor, 116 contra, 11 abstenções
PS (link) 110 a favor, 115 contra, 4 abstenções
BE (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções
PEV (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções

Dizem aqueles que eram contra a despenalização, que este resultado mostra que a sociedade portuguesa não quer a eutanásia. É uma completa falácia. A sociedade portuguesa está representada no parlamento por interposta pessoa e, nesta matéria em particular, aquilo a que se assistiu foi a uma expressão das convicções morais pessoais de cada deputado, quando lhes foi dada essa liberdade pelos seus partidos pois, de outro modo, valeu a vontade dos partidos. 

Para a sociedade portuguesa ser ouvida, esta questão deveria ter sido referendada mas, como li algures, “a sociedade portuguesa ainda não tem maturidade para discutir este tipo de questões”. Esclarecedor e contraditório. Portanto, 

Fiquei triste por este resultado pois assumo-me como sendo a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido, que são práticas diferentes com o mesmo objectivo de antecipar a morte. No entanto, também defendo que o Estado não se pode nunca demitir da sua função social e é da sua responsabilidade fazer com que o desespero e o sofrimento possam ser atenuados de tal forma que o recurso à antecipação da morte seja uma via o menos desejável possível. Isso passa por uma aposta clara no reforço dos cuidados paliativos, algo que até agora não tem acontecido. Aliás - suprema ironia! -, muitos dos que agora exigem o reforço nesta vertente de cuidados hospitalares, são os mesmos que, há uns tempos atrás, promoveram cortes drásticos no financiamento do nosso sistema de saúde. 

Há também muito para dizer sobre as campanhas e discussões que se desenrolaram até ao dia de ontem. Quer-me parecer que muita gente não percebeu exactamente o que estava em causa nem compreendeu o que era isto da eutanásia. Parecia haver pessoas convencidas de que, com a aprovação da eutanásia, se iria assistir ao abater sistemático de doentes pelo país fora ou, no mínimo, que esta iria passar a ser uma prática médica do quotidiano das unidades de saúde. 

Isto também terá sido promovido pelo tom e argumentos de certas campanhas que pareciam apostar claramente na propagação do medo e da desinformação em proveito daquilo que defendiam, o que aliás é uma prática recorrente. Frases como “A eutanásia mata!” acompanhada de uma imagem lúgubre e “Por favor não matem os velhinhos” no cartaz de uma das pessoas que ontem se manifestaram diante do Parlamento, são claros indicadores do nível de esclarecimento que foi promovido.


Exemplo de campanha falaciosa e de desonestidade intelectual. A mensagem que se procura passar é que a eutanásia pode vir a ser uma imposição que não depende da vontade expressa de cada um. Lutar contra a eutanásia torna-se pois uma luta pela própria sobrevivência. 


Houve até uma subtil campanha que traçou um paralelo entre esta eutanásia e o abate de animais em canis, como se estas realidades pudessem sequer ser comparáveis. 

Clamou-se pelo respeito pela vida, alegou-se que toda a vida é sagrada, que tirar vidas é errado. Desconsiderou-se algo que estava aqui em causa que era o direito a uma morte digna e o respeito por uma decisão pessoal que apenas diz respeito a quem a toma.

Tentemos colocar-nos na pele de alguém que, acamado e totalmente dependente, sofre de uma doença incurável e com sintomas que se traduzem num sofrimento contínuo que lhe condiciona totalmente toda e qualquer interacção com o mundo ao seu redor. Vai definhando aos poucos, nesta lenta agonia, sob o olhar da sua família que irá guardar esta visão como a última recordação do seu ente querido.

O desespero e o sofrimento, que nada consegue atenuar, são tais que o alívio da morte se afigura como a única solução viável para lhe pôr cobro. A pessoa não quer sofrer mais e não quer que a família partilhe do seu sofrimento. Pede para morrer, para partir com tranquilidade e com dignidade.

Que moralidade tenho eu, que nem tenho ideia do que ele sofre, para lhe vedar essa opção? Que legitimidade tenho eu para lhe dizer Não, meu caro. Eu acho que todas as vidas são sagradas e toda as vidas devem ser salvaguardadas por isso aguenta e continua a sofrer. A tua dignidade está salvaguardada pela recordação que os teus familiares têm de como tu eras antes de ficares nesse estado. Não gosto de te ver sofrer mas não tens outro remédio. Agora fica aí e aguenta-te enquanto eu vou lá para fora ver as montas, beber copos com os amigos e viver a minha vidinha tranquilamente. Ainda por cima não tenho de suportar a visão de ti nesse estado.

Outra pergunta que eu faço é se alguém se deu sequer ao trabalho de ler as propostas de lei ou se se limitaram a ler os títulos das notícias partilhadas com frases fortes nas redes sociais. O passado recente faz-me suspeitar que se tratou sobretudo do 2º caso.

Ora, o que as propostas de lei diziam é que a eutanásia teria de ser uma decisão do próprio e que essa decisão teria de ser consciente, isto é, teria de ser uma decisão actual, séria, livre e esclarecida:


Por outro lado, a aceitação do pedido teria de seguir um processo de avaliação clínica implicando o parecer de um médico orientar, de um especialista na doença de que padeceria o doente e no parecer de um especialista em psiquiatria. Se todos os pareceres fossem positivos, então o processo seguiria para uma Comissão de Verificação e Avaliação a quem caberia depois a decisão final.

Poderá haver ainda alterações a fazer mas este modelo, parece-me, impediria decisões e acções tomadas com demasiada ligeireza. Por outro lado, havendo já países em que a eutanásia é legal, é sempre possível analisar essas realidades de forma a avaliar e corrigir as suas fragilidades.

Para já, a eutanásia foi colocada na gaveta, provavelmente até às próximas eleições legislativas de 2019. O ardor do debate sobre este tema vai também diluir-se, assim como a vontade manifestada por inúmeros cidadãos e grupos políticos em reforçar o investimento em cuidados paliativos como alternativa moralmente correcta à eutanásia.

Por enquanto, resta aos doentes em sofrimento aguentar-se, à espera que lhes proporcionem uma solução que resolva o seu sofrimento, seja ela qual for.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Não, a lei que permite a entrada de animais em restaurantes não é o 1º sinal do fim do Mundo.

Imagem tirada daqui

"Após o ribombar das trombetas celestes, o chão irá fender-se derramando sobre a terra legiões de animais famintos e sarnosos que irão invadir os restaurantes, condenando à fome e à intromissão de pêlos, em partes insuspeitas e recônditas do corpo, todos os seres humanos aí presentes.

É desta forma que é encarada nas redes sociais, esse lugar de indignações instantâneas e seguidistas, quiçá com algum exagero da minha parte, a perspectiva da entrada em vigor da lei que irá permitir a entrada de animais de companhia em estabelecimentos de restauração

A receita é sempre a mesma: a aquisição de informação fica-se pela leitura do título de uma notícia, na maior parte das vezes já inquinada por uma certa dose sensacionalismo e falta de rigor, com vista a obter "cliques", e de pronto se faz a sua partilha, juntando-lhe uma série de palavras "robustas", plenas de indignação.

Nas redes sociais, parece que as pessoas perderam a capacidade de ter um certo nível de pensamento crítico e, pior ainda, parecem ter perdido a capacidade para debater assuntos com alguma urbanidade. Basta uma opinião contrária à de alguém para este último desfilar um rol de adjetivos pouco abonatórios dirigidos a quem ousou discordar. Os exemplos são mais que muitos e poderão ter a ver com a sensação de impunidade e protecção que é dada por estarem escondidos por um ecrã.

Depois, no que diz respeito às leis, há sempre um argumento de contraditório que teima em vir à superfície: “Tanta coisa tão importante para legislar e perdem tempo com estas coisas!”. Um bom exemplo disto é a onda indignação geral, com um certo teor de islamofobia, é certo, que se gerou perante inúmeras iniciativas de ajuda a refugiados, que fugiam à guerra na Síria. O argumento principal era que “em vez de se ajudarem os sem-abrigo, estamos a trazer estas pessoas para viverem às nossas custas!”. Então muito preocupadas com os sem-abrigo, seria interessante averiguar quantas destas pessoas se mexeram desde então para os ajudar ou até, sendo picuinhas, quantas delas desviam o olhar quando passam por eles na rua para evitar dar umas moeditas.

Também parece generalizada a ideia de que a Assembleia da República dedicou dias inteiros das suas sessões à aprovação desta lei o que não pode estar mais longe da verdade. Basta ir consultar a documentação disponível no site da Assembleia da República para perceber isso, em vez de nos ficarmos com os pacotes sintéticos de indignação instantânea do Facebook.

Caros concidadãos, se acham que há coisas mais importantes MEXAM-SE! Criem petições, aborreçam os deputados que elegeram para a Assembleia da República. Não fiquem sentadinhos à espera que as mudanças caiam do céu. A cidadania, não se esqueçam, não se esgota nas mesas de voto. É, pelo contrário, um exercício que deve praticado ao longo de um período de 4 anos. Mas adiante.


O que diz afinal a lei que foi aprovada?

Voltando ao tema de abertura, o que diz afinal a lei que foi aprovada na sequência de uma proposta do PAN? 

Não, também não é isto que vai acontecer:



e não, também não vai ser o apocalipse da invasão animal com a chegada dos 4 binómios cinotécnicos do apocalipse como está a ser pintado. 



Em termos gerais, deixa de proibir taxativamente a entrada de animais de companhia em espaços de restauração, excepção feita a cães-guia como até agora acontecia, conferindo aos proprietários a prerrogativa da escolha de permitirem ou não essa entrada.

Ainda assim:

- Essa permissão ou não será dada a conhecer mediante a afixação de um dístico na entrada dos estabelecimentos (como acontecia com a permissão ou não de fumadores). Na ausência do dístico assume-se que a entrada é permitida;

- Os proprietários podem definir um limite de animais dentro do estabelecimento;

- Os animais terão de estar presos com trela curta, não podendo circular livremente

- O proprietário pode definir uma área específica para a permanência de animais em vez de permitir a sua presença em todo o espaço


Percebido? Espalhem a palavra!

Ah! Já agora, senhores donos de animais, porque há regras de civismo que são de observância obrigatória, não tentem aproveitar-se desta lei alegando que agora ninguém pode proibir a entrada de animais. Também será conveniente que os cães estejam treinados para não terem comportamentos que incomodem as restantes pessoas e animais. As regras de civismo aplicam-se a todos embora em Portugal muitas vezes tenha tristemente de ser imposto por lei.


segunda-feira, março 06, 2017

Argemela de novo em risco - Recordando uma reportagem de 2003

O monte da Argemela está novamente na ordem do dia pelos piores motivos, a perspectiva da destruição das suas encostas por uma exploração mineira a céu aberto que terá um impacto irremediável na paisagem e recursos hídricos. Na Internet foi já aberta uma petição dirigida aos Ministros do Ambiente e da Economia para travar este processo. Poderão encontrá-la (e assiná-la, já agora) neste link: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84767

Já no início deste século o local fora danificado durante os trabalhos de abertura de um caminho, que rasgou parte do sistema de muralhas do castro que ali existe e que, mais tarde, foi novamente danificado pela exploração mineira da Unizel, que ali se instalou para explorar feldspato, abrindo um rombo na encosta.

Foi precisamente na véspera do início desta exploração de feldspato que me desloquei até ao monte da Argemela para visitar as escavações arqueológicas de emergência que ali decorriam, na tentativa de delimitar o sítio arqueológico. O resultado foi a reportagem que se segue e que na altura foi publicada no portal ArqueoBeira:


ArqueoBeira - 11 de Julho de 2003
Castro da Argemela (Fundão/Covilhã)


Terminaram as escavações de emergência


Alexandre Valinho e Miguel Serra em pleno trabalho - ArqueoBeira 2003

Terminaram no passado domingo dia 6 de Julho os trabalhos de prospecção de emergência no Castro da Argemela. Estes trabalhos, inseridos no projecto dirigido pela Drª Raquel Vilaça sobre o estudo da ocupação pré-romana na Beira Interior, duraram cerca de uma semana e foram executados pela empresa de arqueologia Palimpsesto - Preservação e Estudo do Património Cultural Lda. Esta intervenção deveu-se à necessidade urgente de delimitar este importante sítio arqueológico, para evitar que a exploração mineira prevista para este monte, o pudesse vir a destruir.

Na zona, está prevista para breve uma exploração mineira a cargo da empresa Unizel. Aparentemente, sob o monte da Argemela, existe um extenso filão de feldspato, mineral que esta empresa explora também na Turquia.

Em conversa com os Drs Alexandre Valinho, Miguel Serra e Eduardo Porfírio, que dirigiu os trabalhos no local, procurámos conhecer um pouco mais a natureza dos trabalhos e aquilo que reveleram.

Vala de sondagem que colocou a descoberto parte da 2ª muralha do castro - ArqueoBeira 2003

Os trabalhos, efectuados no perímetro da "acrópole", consistiram na abertura de 5 valas de sondagem, 4 com 4mx2m e uma, esta adjacente à 1ª linha de muralha, com 8mx2m.

"Os nossos trabalhos visam essencialmente estabelecer uma linha de protecção para o castro, procurando evitar ao máximo que os trabalhos de mineração previstos para a zona, tenham impacto sobre este sítio que já foi muito maltratado" - Afirma Miguel Serra, continuando: "Na parte da muralha que pusemos a descoberto, podemos ver que esta consiste apenas em pedra sobreposta, pelo que trabalhos envolvendo maquinaria pesada ou explosivos poderiam provocar um desmoronamento. Repare que aqui (apontando para uma parte exposta) ela até já apresenta sinais de desmoronamento."


Eduardo Porfírio, director da escavação - ArqueoBeira 2003

Estas sondagens que poderiam eventualmente revelar a existência de estruturas ou vestígios nada produziram: "Essencialmente, procurámos saber se existiam estruturas fora desta linha de muralhas, o que não parece acontecer" - afirma Serra.

Sobre o castro, diz-nos Valinho que "Para além disso, seria necessário confirmar se a alegada 3ª cintura de muralha existe mesmo, ou se é apenas um talude de antigas explorações mineiras. Não deixa de ser atípico que com tanta marca de mineração, não existam informações mais concretas na memória colectiva das comunidades circundantes, acerca deste local.".

De acordo com Alexandre Valinho "Os vestígios encontrados resumem-se a alguns fragmentos de cerâmica, que apontam para uma ocupação durante o Bronze Final ou mesmo Calcolítico".

Sobre o estado de conservação do castro, as opiniões mostram cautela, procurando não alimentar demasiadas expectativas. Alexandre Valinho afirma ainda assim que "é bom ver que, pelo menos esta parte da muralha que não foi arrasada pelos bulldozers, se encontra num estado razoável." Sobre a existência de mais vestígios, afirma que "só futuros trabalhos poderão dissipar essas dúvidas." Uma cautela justificada, se tivermos em conta que o castro foi muito maltratado ao longo dos anos, com a abertura de vários caminhos por bulldozers que sistematicamente rasgaram as cinturas de muralha para a abertura de caminhos e por sondagens geotécnicas em diversas zonas do castro.


A origem

Só recentemente começou a vir a público alguma luz sobre a origem deste local que na tradição popular mistura lusitanos, romanos, visigodos e árabes em histórias de guerras, torturas e nobreza.

Os fragmentos de cerâmica encontrados e o aparelho da muralha sugerem uma ocupação que se terá situado em 3 épocas distintas, com início no Calcolítico, algures no 3º milénio a.C., não existindo no entanto provas que confirmem que essa ocupação tenha sido contínua.

Os escassos vestigios encontrados confirmam uma ocupação no Calcolítico e no Bronze Final, sendo que a muralha se pode situar pelo seu aparelho como pertencendo aos Sécs IX ou X a.C..

"A localização do castro, dominando toda a paisagem envolvente, poderá indiciar uma ocupação da Idade do Bronze, em que este tipo de localização era padrão. Na Idade do Ferro, havia uma maior preocupação em dominar principalmente o rio." - Diz Alexandre Valinho


Os atentados

O castro da Argemela foi durante muitos anos vítima da ignorância e desleixo das pessoas a quem de direito cabia zelar pela sua preservação.

Sob o solo, existem grandes riquezas minerais, facto que aliado à exploração das encostas circundantes por uma empresa de celulose, levou a que a pressão sobre o castro pusesse em risco a sua existência.

Por várias vezes, na imprensa regional, se puderam ler notícias de destruição das muralhas, à medida que sistematicamente estas iam sendo derrubadas por bulldozers que abriam caminhos.

Não sendo mencionado como sítio arqueológico no PDM quer do concelho do Fundão, quer no concelho da Covilhã, os trabalhos no local, não eram acompanhados por arqueólogos o que ajudava a que os vestígios por demais evidentes (acumulação de enormes quantidades de pedra solta e fragmentos de cerâmica) fossem simplesmente ignorados.


A classificação que tardou

O último acto de destruição no castro, no ano de 2002, fez finalmente despertar as consciências. Manuel Frexes, presidente recém eleito da Câmara Municipal do Fundão, deslocou-se de imediato ao local para averiguar in situ o resultado da destruição.

De imediato, foram accionados os necessários mecanismos que, pouco tempo depois, resultaram na classificação do Castro da Argemela como Imóvel de Interesse Municipal pela Câmara Municipal do Fundão.

Resta agora esperar que os futuros trabalhos neste local, possam trazer mais alguma luz sobre a história do castro, para que na nossa imaginação se voltem a erguer as muralhas que outrora dominaram o vale do Zêzere.

segunda-feira, julho 21, 2014

E se isto vos aparecesse à frente?

Durante o último fim-de-semana, enquanto caminhava placidamente e admirava montras num centro comercial aqui bem perto, estaquei subitamente diante de um folheto promocional de uma empresa de informática e sistemas de segurança.



Em grande destaque, o folheto aconselhava-me de forma imperativa a proteguer os meus bens dos amigos do alheiro. Por um lado fiquei satisfeito porque sinceramente acho uma pena o verbo proteguer não ser mais usado pelas pessoas no dia-a-dia porque até é um verbo catita. Eu protego, tu protegues, ele protegue... É bonito! No entanto, também fiquei muito triste porque se estava a discriminar de forma completamente despudorada os amigos do alheiro. Acho muito mal e explico porquê.

O alheiro é um indivíduo que vende alhos para ganhar a vida e que merece à partida elevada consideração porque, bem vistas as coisas, para além de conviver com um cheiro que não é agradável e que o torna pouco atractivo até ao mais faminto dos vampiros, também deve ser constantemente vítima de piadas fáceis nas quais se emprega de forma algo criativa a palavra "alho". Admitamos, não deve ser fácil fazer amigos e se, ainda por cima, começamos a instalar por aí sistemas de alarme destinados a mantê-los ao largo, qual será a motivação para estabelecer relações de amizade com o senhor alheiro quando se sabe à partida que se vai ser discriminado por esta espécie de sapo verde tecnológico

Um pouco mais abaixo no folheto, encontrei ainda outra referência que me escandalizou: o "kit de desacopulador". Que diabos! O país enfrenta neste momento uma grave crise de natalidade, de tal magnitude que o Primeiro-Ministro já não sabe se há de mandar lixar com "f" os portugueses de forma gratuita ou se também os vai ter de subsidiar nessa actividade e o Presidente da República, que se calhar até já dobrou o cabo da andropausa,  até já pergunta em público o que é preciso fazer para que nasçam crianças, e há gente a ganhar dinheiro com dispositivos desacopuladores? Está bem que o dispositivo em causa tem apenas 7500 Gauss de força e, como tal, nunca conseguirá ser mais interessante que um pé-de-cabra ou um balde de água fria na tarefa de interromper cópulas mas está-se a passar aqui a mensagem errada, senhores.

Foi com tudo isto em mente que optei por desacopular dali para forma para me proteguer de ficar excessivamente indignado. Ele há com cada uma...!

terça-feira, maio 13, 2014

MIURA, um conto de Miguel Torga



Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. 

O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais... Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias... Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! 

A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas. A planície!... O descampado infinito, loiro de sol e trigo... O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo... A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco... Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.


 A planície... Um som fino de corneta. Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez? Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria. A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos... Assobios. O Bronco não fazia bem o papel... Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro. Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria? Palmas, música, gritos. Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. 

Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto. Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Nova picada no lombo.


 - Miura! Cornudo!


 Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena. Pronto! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira? 

A figura franzina avançou. Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente. Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou:


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 A multidão dava palmas.


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, ei-lo. Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. 

À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Silêncio. Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo, até lhe não poder sair do domínio dos chifres. Agora! De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. Palmas, gritos. 

Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:


 - Eh! toiro! Eh! boi!


 Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos! Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole. Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?! Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. 

Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado. Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência. Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!

 Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caiu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação. Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular. Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? 

Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.


Imagens: Grupo de Libertação Animal, RTP - Grandes Livros

terça-feira, outubro 08, 2013

Pontes, maratonas e manifestações (ou marchas, vá)


Perante isto:

"O Sistema de Segurança Interna deu um parecer técnico desfavorável à realização, a 19 de Outubro, por parte da CGTP, de uma marcha de protesto cujo itinerário inclui a Ponte 25 de Abril, invocando diversos riscos de segurança. " in Público (7-10-2013)

Eu pergunto:

Porque é que uma manifestação, ou marcha, portanto um ajuntamento onde todos participam em prol de um objectivo comum, oferece maiores riscos de segurança que uma prova onde milhares competem uns contra os outros?


quarta-feira, outubro 02, 2013

Rescaldo eleitoral das Autárquicas 2013

Terminadas que estão as eleições autárquicas, há muito para dizer e analisar. O primeiro facto relevante, na minha perspectiva pessoal, claro, é que não fui eleito, embora soubesse de antemão que a tarefa seria muito complicada. Tenho realmente pena de não poder trabalhar de forma mais activa para o bem comum deste cantinho da Beira mas -lá está!- a participação cívica pode ser feita de muitas e variadas formas. Certo é que 2014 irá trazer algumas boas novidades nesse aspecto.

Em relação a tudo o que girou à volta das eleições, campanha eleitoral inclusive, aquilo que primeiro me ocorre dizer é que foi indiscutivelmente uma experiência muito gratificante. Conheci um grupo que me acolheu da melhor forma, feito de gente determinada, voluntariosa e acessível. De igual modo, foi muito gratificante partilhar ideias e contactar com as pessoas que foram todas elas muito acolhedoras e receptivas. Houve episódios curiosos, claro. Destaco pelo meio o fair play daquele senhor que insistentemente me pediu um isqueiro que eu não tinha para dar e a simpatia daquele outro cujo cão investiu sobre mim, tendo-se detido a apenas um palmo de uma zona anatómica que me é particularmente cara.


Os números

No Fundão, manteve-se o cenário anterior. Na Câmara Municipal venceu a lista do PSD liderada por Paulo Fernandes, seguida do PS, CDU, CDS e, finalmente, do PTP. Em mandatos, a representação mantém-se em 5 elementos do PSD e 2 do PS. Sendo uma pessoa que aprecio, só posso desejar ao Paulo Fernandes força, coragem e sorte para este, agora sim, mandato completo para pôr em prática as suas ideias. 

Não concordo no entanto de forma alguma com a reinclusão na lista de um elemento que, tendo já feito parte do último elenco autárquico, saiu a meio do mandato para, de forma surpreendente (ou não) ter ido desempenhar funções de assessor de um ministro em Lisboa. Que imagem é que isto passa? Que confiança é que isto inspira aos cidadãos? Aguardemos pelos próximos capítulos.



Para a Assembleia Municipal, o cenário repete-se, vencendo mais uma vez o PSD. Em termos de mandatos, o PSD consegue 14, seguido do PS com 8 e finalmente da CDU que mantém os 2 que já detinha. Destacam-se aqui também os votos em branco que, por pouco, não conseguiam também eles um mandato.


Finalmente, para a Junta de Freguesia, que resultou da união das freguesias de Fundão, Donas, Valverde, Aldeia Nova do Cabo e Aldeia de Joanes, a lista DAR -a lista independente do PSD-, voltou a vencer, seguida da lista do PS, depois a lista independente UPF e finalmente a CDU. Em termos de mandatos temos aqui a perspectiva de uma coligação já que a lista DAR tem 6 mandatos contra 7 do conjunto dos adversários. 




Os cidadãos estão desinteressar-se!

Em termos partidários, é significativa a descida de votos no PSD, PS e CDS, especialmente nos dois primeiros partidos. Embora tendo tido uma votação modesta quando comparada com os dois principais partidos, a CDU registou uma subida muito interessante, aliás, foi mesmo a única força partidária a subir nas votações.

Preocupante é ver a tremenda subida da absentação e ainda dos votos em branco e dos votos nulos, num claro sinal de desinteresse e descrença dos cidadãos em relação às forças governativas. Este é um problema grave que deve obrigar tanto vencedores como vencidos a uma profunda reflexão. Nos próximos 4 anos será prioritário envolver os cidadãos nos projectos desenvolvidos, ouvi-los, alimentar a sua autoestima e o seu brio. Os autarcas não podem passar os próximos 4 anos fechados nos seus gabinetes. Mas este esforço não recai só sobre quem foi eleito. A oposição tem também inevitavelmente um papel importante neste esforço. Boa sorte a todos!

quinta-feira, setembro 26, 2013

Porque a democracia não se pode esgotar nas mesas de voto

Leitura prévia recomendada: Pequeno manifesto sobre a minha participação nas eleições autárquicas


"O meu nome é David Caetano e sou candidato independente pela lista da CDU que, nas próximas eleições autárquicas de 29 de Setembro, irá concorrer à Assembleia de Freguesia da nova união de freguesias de Fundão, Valverde, Donas, Aldeia Nova do Cabo e Aldeia de Joanes.

Aceitei este desafio com plena consciência não só da responsabilidade que ele acarreta, mas também das dificuldades e sacrifícios que implica. Não podia, contudo, perder a oportunidade de trabalhar para ajudar a construir o futuro desta comunidade que tanto significa para mim. Aceitei-o também porque acredito no valor dos membros desta lista e na sua vontade de trabalhar em prol dos cidadãos.

Vivemos um momento que é, para todos nós, da maior importância. A partir do próximo dia 29, as freguesias de Fundão, Valverde, Donas, Aldeia Nova do Cabo e Aldeia de Joanes irão ser extintas, agregando-se num novo mapa de poder local, fruto do capricho de uma reorganização, feita num gabinete demasiado distante da nossa realidade. Os desafios que se levantam com esta reorganização, assim como os problemas que existiam e existem ainda, aliados à crise económica e financeira que o país atravessa, só poderão ser superados com dedicação de todos os cidadãos.

É indispensável que os nossos representantes nas autarquias saibam ouvir a população, de modo a atenderem da melhor forma às suas necessidades e dificuldades. Mais importante que qualquer ideologia partidária, são indispensáveis a disponibilidade e voluntariedade dos autarcas que no próximo dia 29 forem eleitos, mas não só.

É também fundamental que os cidadãos sejam exigentes para com os autarcas, reivindicativos até se a ocasião o exigir. Essa exigência é um ingrediente fundamental de uma democracia viva e participativa, que não se pode de maneira nenhuma esgotar nas mesas de voto. Só assim poderemos almejar construir uma comunidade mais forte, mais próspera e com mais e melhores condições de vida.

É esse o meu desejo e o desejo de todos os membros desta lista mas só o poderemos fazer com o seu voto. Por isso, no próximo dia 29 de Setembro, VOTE CDU!"

quinta-feira, setembro 12, 2013

Pequeno manifesto sobre a minha participação nas eleições autárquicas


Este ano, pela primeira vez, farei parte de uma das inúmeras listas concorrentes às eleições autárquicas de dia 29 de Setembro, concretamente na lista da CDU que concorre à Assembleia de Freguesia da nova união de freguesias sediada no Fundão.

Esta participação surgiu na sequência um convite que me foi feito por pessoas pelas quais tenho grande consideração. Ainda assim, não foi uma decisão tomada de ânimo leve mas sim após uma profunda reflexão e, como geralmente gosto de fazer, após pedir a opinião daqueles que me são mais próximos, apesar de a maioria me ter aconselhado a não me meter nestas lides.

Embora em termos de ideologia me posicione mais à esquerda, não sou decididamente apologista do comunismo mas concordo com a ideia de que o PCP é um partido que cumpre uma função social bastante importante. Não me enquadrando na sua ideologia, também não acredito que as ideologias tenham de ser estanques e é possível encontrar ideias interessantes, seja à esquerda ou à direita. Que diabo! Até o Bloco de Esquerda consegue apresentar ideias que acho interessantes, no meio tanto ser "do contra". Já agora, antes que daí advenha alguma consequência, gostaria de deixar bem claro que esta última frase não foi de modo algum um piropo. 

A nível local, contudo, sempre defendi que, mais que as ideologias, o que vale são as pessoas, a sua capacidade e vontade de trabalhar. Isso sim terá sempre de ser valorizado acima de tudo.

Por outro lado, a perspectiva de poder contribuir de forma activa para a comunidade, seja através de trabalho ou, na pior das hipóteses, através da participação no debate de ideias, apresentou-se como um argumento de peso ao qual era impossível ficar indiferente.

Foi por isso, considerando todos estes factores, que decidi aceitar o convite, esperando poder dar o meu contributo activo a este fantástico cantinho da Cova da Beira a partir do próximo dia 29. Tenho a certeza que será uma experiência interessante e gratificante. Contudo, como em eleições os resultados nunca são certos, o meu sincero desejo enquanto cidadão é que, independentemente de quem seja eleito, a população possa contar com uma Junta de Freguesia empenhada e activa. 

Post Scriptum (por extenso, para evitar confusões) - Curiosamente, acabei mais tarde por receber um outro convite para integrar uma lista, vindo de outra freguesia e -lá está!- com outra conotação partidária. Por ter já dado o meu sim à CDU, acabei inevitavelmente por recusar este convite mas era também uma proposta muito interessante uma vez que se trata de um grupo que tem desenvolvido um trabalho digno de registo e ao qual desejo as maiores felicidades.

segunda-feira, agosto 05, 2013

MANIFESTAÇÃO Contra a tourada SangriAgosto

A Associação Comercial e Industrial do Concelho do Fundão decidiu que no cartaz da edição 2013 do festival SangriAgosto deveria constar uma tourada. A associação de uma tourada ao nome Sangria foi ironicamente cruel. A introdução de um elemento socialmente fracturante, num evento que deveria fomentar a união da população, foi irresponsável. 

De imediato gerou-se uma onda de contestação que tornou esta tourada tão incómoda, a ponto de a própria ACICF recusar agora assumir a paternidade da ideia, tendo inclusive alegado que o facto de o seu nome aparecer nos cartazes como único organizador do evento se dever a... um erro tipográfico! Agora temos a originalidade da realização de uma tourada que ninguém organiza. Ao telefone, recusam-se a dar respostas. Aos e-mails respondem com o silêncio. Se estão tão convictos de que se trata de um evento benéfico para o Fundão, porque mostra este medo? 

A petição, contra este evento estranho à matriz das tradições do Fundão, continua a ser assinada e já ultrapassou as 1500 assinaturas mas a ACICF recusa-se a reconhecer o seu erro e vai mesmo levar a tourada avante. 

Ao contrário da ACICF, vamos provar que não temos medo de dar a cara e é por isso que lá estaremos, no próximo dia 10 de Agosto pelas 17h, junto ao local onde a tourada se vai realizar. Vai ser uma manifestação pacífica, não lhes vamos dar nenhum pretexto para a vitimização, mas vamos lá estar! Vamos mostrar-lhes que somos contra este espectáculo bárbaro e eles não vão poder ignorar esse facto. 

Vamos dizer-lhes, olhos nos olhos, "Estamos aqui!"


segunda-feira, janeiro 28, 2013

Subscrição de carta aberta contra o (des)Acordo Ortográfico

Está em curso nas redes sociais uma iniciativa contra o famigerado Acordo Ortográfico, cuja polémica parece ultimamente ter arrefecido, em parte porque a sua entrada em vigor foi para já adiada com um original "cada um escreve como quiser". Essa polémica teve eco em outras paragens atlânticas: no Brasil optou-se também pelo seu adiamento para 2016, enquanto que em Angola, como país predominante dos PALOP que se preze, foi rejeitada (pelo menos para já) a adesão ao mesmo.

Quanto a esta iniciativa, trata-se de uma carta dirigida ao Ministro da Educação e Ciência que, para já e ultrapassados os 1.000, tem como objectivo chegar aos 4.000 subscritores.

Quem quiser aderir à lista de signatários da carta aberta poderá fazê-lo nesta página:
https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dG13TnlWRk10UXd0cDJvZTViS0picWc6MQ#gid=0

A carta encontra-se disponível nesta página:
http://fr.scribd.com/doc/119430003/Carta-a-Min-Educ-Nova


segunda-feira, setembro 17, 2012

Onde é que tu estavas no 15 de Setembro de 2012?



Memorável! É o que se pode dizer de um dia em que os portugueses mostraram que o limite da tolerância foi atingido e que não concordam com uma política governativa que asfixia cada vez mais os que cada vez mais menos têm. Na Covilhã, algumas centenas saíram à rua e manifestaram-se contra o (des)Governo deste país. Foram poucos mas foram bons. Eu estive lá com muito orgulho... e ainda mais indignação.






 Até o Pêro da Covilhã, perdido no infinito, parece pensar que será mais fácil encontrar o Preste João do que a saída desta crise...

sexta-feira, setembro 14, 2012

Protoiro - Amigos dos animais mas pouco amigos de reparos incómodos

Na rede social Facebook, fui surpreendido pela partilha de uma fotografia que retratava alguns cavalos magros num baldio, fotografia essa que havia sido colocada nesta rede social pela Protoiro, aquela organização que recentemente deu nas vistas por ter cometido a proeza de organizar uma tourada em Viana do Castelo. Esta foto era acompanhada de uma descrição na qual a Protoiro se gabava de ter conseguido resolver a situação de alguns cavalos abandonados num baldio em Sintra, ao mesmo tempo que criticava as organizações "supostamente amigas dos animais" por nada terem feito neste caso.

Se a iniciativa de que a foto dava conta é de facto louvável, já a crítica às restantes associações e os modos em que a mesma foi feita pareceu-me denotar ali um aproveitamento claro. Ao fim e ao cabo, os  infelizes cavalos estavam simplesmente a ser usados como arma de arremesso para desacreditar as associações que se opõem à Protoiro e às touradas, procurando contribuir para aquela tese peregrina de que os ditos "aficionados" são os melhores amigos possíveis dos touros e dos cavalos.

Ora, perante isso, lembrei-me do terrível caso daquele cavalo chamado "Xelim" que morreu em Abril último na arena de Sevilha, com as entranhas de fora, após ter sido atingido por um touro, e não pude deixar de fazer o reparo: "Falta aqui a foto daquele cavalo com as entranhas de fora". Resultado: comentário apagado e impedido de fazer mais qualquer comentário. 

Clicar aqui para ver a foto a que me refiro.
ATENÇÃO: esta foto é susceptível de chocar pessoas mais sensíveis.

No fundo, esta atitude enquadra-se perfeitamente naquilo que tem sido a postura intolerante, e até agressiva, desta associação que defende esta coisa das touradas, embrulhando-a num rótulo de cultura e afirmando-se como "amiga dos touros e dos cavalos". Não soa estranho ouvir da parte de uma organização que defende e aplaude a tortura dos touros para puro entretenimento, dizer que é amiga dos touros e dos cavalos? 

Mas pronto, dizem que é cultura e que se lixem o espírito crítico e a evolução. Porquê? Porque sim. E caluda!

quarta-feira, setembro 12, 2012

Evitar pórticos na A23 com o iPhone!

Aqui pelo Blog do Katano temo-nos batido desde a primeira hora contra o atentado ao Interior que foi a instalação de pórticos na A23 e A25. Se bem estão lembrados, em Novembro último publicámos uma série de artigos sobre as portagens e sobre como evitar os pórticos na A23, resultado de um trabalho de campo que então efectuámos. 

Tendo recusado adquirir o famigerado dispositivo e seguindo os meus próprios conselhos, posso afirmar que desde a instalação dos pórticos já poupei mais de 500 euros, um facto assinalável sobretudo se tivermos em conta a actual conjuntura económica.
Se quiserem ler ou reler esses artigos basta clicar num destes links:

Os preços das portagens na A23 de Abrantes até à Guarda
Como evitar portagens na A23 entre Torres Novas e Castelo Branco
Como evitar portagens na A23 entre a Guarda e Castelo Branco 
Consultar on line os pagamentos em dívida nas portagens das Ex-SCUT

Adicionalmente, o camarada Rui Sousa publicou no seu blogue Viver na cidade da Guarda um artigo no qual explicava como evitar os pórticos na A25, tarefa bem mais difícil do que na A23, diga-se de passagem.



Uma aplicação para iPhone que ajuda a evitar portagens na A23!

Há dias, fui surpreendido por um e-mail, enviado pela empresa Estrela Sustentável, esta empresa sediada na Covilhã, no qual me era dada a conhecer uma aplicação desenvolvida para iPhone destinada a ajudar os utilizadores a fugir às portagens na A23.

Não tenho infelizmente hipótese de testar esta aplicação uma vez que não possuo iPhone mas parece estar para breve o lançamento de novas versões, tanto para iPad como para smartphones Android, em cujo rol de utilizadores já me incluo. Também está prometida a inclusão de mais auto-estradas para além da A23, uma expansão que me parece obrigatória.


A aplicação tem um custo comercial de 1,59€, um preço que nos parece bem justo visto que, evitados dois ou três pórticos, a aplicação está paga.

Seja como for, o Blog do Katano oferece a possibilidade de usufruir de um conjunto de códigos promocionais, oferecidos pela Estrela Sustentável, para descarregar GRATUITAMENTE a aplicação Evitar Pórticos na A23:

JEJE7PFT3XWN / P6JLAAY3T4JJ / 3T4WF34MEW6L / MTPJFMA4HWLF / RMJ44NWXRELP / M6XAL6NXKYMT / FLLMJ6JXFF4E / N4P3MMPY4YXY / 679LWMXWP9LJ / T634R9NT4MJE


Bom proveito e... boas poupanças!

terça-feira, maio 15, 2012

Fomos ali num instante resgatar um cão


O rasto na estrada que se vê na foto é o da água que escorreu do escadote com que há minutos atrás tentámos resgatar um cão, algo parecido com um labrador, que se debatia em pânico dentro de um dos tanques de água do centro cívico do Fundão.


Não tendo nada para além do escadote, e apesar de saber que seria de pouco uso dado ser demasiado leve, liguei aos bombeiros pedindo que viessem dar uma ajuda ao animal, cujo ladrar de pânico ecoava pelos prédios à volta. Reticentes, disseram que não tinham nada para resgatar o cão e que este os poderia agredir. Voltei a apelar que viessem retirar o cão e que se munissem de uma simples tábua que bastaria colocar dentro do tanque de forma a que o bicho pudesse usar como rampa. Uma vez que finalmente me foi dito que iriam ver o que podiam fazer, desliguei e aguardei.


20 minutos depois, visto que ninguém aparecia e não conseguindo continuar a ver o cão a debater-se para tentar sair da armadilha em que tinha caído, vestimo-nos e descemos para tentar fazer alguma coisa. Como previsto, o escadote foi de pouca ajuda. O cão esse, olhava para nós com algum receio, não sabendo bem o que esperar. Finalmente, optámos pelo pragmatismo. Pegámos no animal pela coleira, mandando às malvas a tal possibilidade de sermos agredidos e, num vigoroso puxão, conseguimos fazer sair o cão.


Foi bonito ver a alegria do animal que, depois de sacudir aquela água toda, correu em nossa volta, rebolando-se aqui e ali na relva, acompanhando-nos saltitante até à porta do prédio. Mal a fechámos partiu a correr, rumo a um destino que parecia ter como certo. Será que vai levar um ralhete por aparecer a estas horas e completamente molhado em casa?


Uma vez que já não é a primeira vez que um cão cai para dentro de um destes tanques, embora não me lembre de tal ter acontecido à noite, não seria já recomendável adaptar o seu interior para que um animal mais infeliz (já não digo uma criança, que essas devem estar sempre vigiadas) possa sair de lá pelo seu próprio pé? Perdão, pela sua própria pata?

quinta-feira, março 22, 2012

Um pedido de casamento pouco habitual...


Numa cena pouco habitual pelo género dos seus intervenientes, uma das pausas do jogo de hóquei sobre gelo da NHL entre os Ottawa Senators e os Toronto Maple Leafs, de 17 de Março último, foi aproveitada por uma espectadora para pedir em casamento a sua namorada. Sim, leram bem!

Pela indicação dada pela mascote, Christina aceitou o pedido de Alicia, e nem o facto de uma ser adepta dos Senators e a outra dos Leafs foi obstáculo.

Ao ver este vídeo e a fantástica reacção do público ao perceber que se trata de um pedido de casamento, eu pergunto: onde estão a imoralidade e a degradação desta cena? Peço desculpa aos mais sensíveis mas, ao ver este vídeo, só consigo ver dois seres humanos naquele que será seguramente um dos momentos mais felizes das suas vidas.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

OUVIR E FALAR - Ciclo de Tertúlias pela Democracia e Cidadania

TERTÚLIA AO AR LIVRE.

A ideia é tão simples que dá ares de complicada.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

A Pegada, com o apoio do Blog do Katano, vai organizar um ciclo de tertúlias "OUVIR E FALAR" ao ar livre.
As regras são tão simples que, praticamente, não existem. Resumem-se a "OUVIR E FALAR". DEMOCRACIA, LIBERDADE, CIDADANIA. Passar das conversas de café para uma, espera-se, grande conversa de RUA. Um grupo de amigos (e de amigos de amigos) que se reúne, numa Praça, em várias Praças, para conversar. Sobre o que nos atenta. Sobre o que não mata mas mói. Pisa, mastiga, importuna, cansa. E -- também os ditos se renovam -- mata!

Não temos partido, mas tomamos partido.

A primeira Praça a receber-nos será, assim tudo corra bem, no Fundão. Seremos dez, seremos cem, seremos duzentos. Pouco importa. Acima de tudo, seremos.
Estamos indignados, mas não somos indignados.
Este grupo recém-criado no facebook servirá, acima de tudo, como uma pré-tertúlia. Uma preparação para uma data já definida mas cujo anúncio concreto reservaremos para daqui a alguns dias (não se trata de fazer render o peixe, trata-se apenas de acertar tudo para que, a falhar alguma coisa, não falhe a organização de algo que vai exigir muito de cada um dos que avançaram com a ideia).

Em suma, e tudo se resume ao dito no início.

OUVIR E FALAR.

Um dia destes, no Fundão.

Haverá melhor sítio em Portugal para uma iniciativa deste género? Honremos esta terra e com ela honramos Portugal.
Não somos pioneiros, já alguém por aqui fez algo de semelhante. A seu tempo, lembraremos o seu nome aos mais esquecidos.

Terminamos com quem sabe, parece que era grego (sim, dessa mesma Grécia de XXI):

Platão, República, Livro VII
"Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós"

OUVIR E FALAR.

Post scritum para quem estiver interessado em saltar do banco do café: clique aqui e, no canto superior direito, peça para aderir ao grupo; o pedido será certamente correspondido.


Texto de Rogério Costa Pereira - Pegada

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