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sexta-feira, novembro 06, 2015

Caminho Inca - O terceiro dia no Trilho

3ª etapa: de Chaquicocha a Wiñay Wayna
Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4


Ao terceiro dia despedimos-nos da cota dos 3.000m, para descobrir duas cidades Incas notáveis, isto depois de descermos por escadarias vertiginosas, cravadas no flanco da montanha. Foi um dia inesquecível, durante o qual percebemos o porquê das montanhas terem sido consideradas deuses pelos Incas. Aliás, eu próprio acabei por descobrir entre as montanhas o meu Apu, o meu espírito protector. 



A paisagem matinal com que fomos brindados à saída da tenda, com o sítio de Sayaqmarca (no centro da fotografia) a revelar-se finalmente na sua totalidade.



O dia começou novamente bem cedo, com mais uma chávena de chá ou café a motivar o despertar. O nevoeiro do dia anterior tinha desaparecido, o que nos permitiu finalmente apreciar a paisagem à nossa volta e avistar as ruínas de Sayaqmarca empoleiradas num monte. Depois do pequeno-almoço e da habitual distribuição de snacks para comer ao longo do caminho, deixámos o acampamento para trás e continuámos a nossa jornada.



A estrada Inca num notável estado de conservação. Mais à frente, um pequeno caminho Inca recém-descoberto leva até um altar, situado no topo daquela elevação à direita. Mais à frente, à esquerda, outra estrada foi recentemente descoberta perdendo-se na floresta no fundo do vale.



Após algumas centenas de metros, onde a dado momento Toni nos apontou uma abertura na vegetação como sendo um novo troço da estrada Inca recentemente descoberto, entrámos numa zona de floresta com vegetação extremamente densa e com o solo cheio de musgo. As próprias árvores serviam de suporte ao musgo e a outras espécies vegetais, compondo um cenário que parecia tirado de uma daquelas histórias de aventuras na selva, embora aqui o caminho estivesse já aberto e empedrado.




A entrada na zona de floresta mais densa onde tivemos direito a uma bela aula de botânica peruana


Ao longo do caminho, Toni foi-nos dando explicações sobre as espécies vegetais mais interessantes que íamos encontrando no caminho, nomeadamente as orquídeas. Só no Peru haverá mais de 3.000 espécies de orquídeas e, ao longo do trilho, encontram-se centenas delas, embora poucas estivessem floridas nesta altura do ano.

Outra espécie que nos foi apresentada foi a Q'oya Icchu, a planta com a qual os Incas construíam as suas pontes suspensas, entrançando as fibras para produzir as cordas da ponte. Ainda hoje esta técnica se repete anualmente na cerimónia de substituição do cordame da ponte de Q'eswachaka, evento classificado como Património da Humanidade pela UNESCO (ver aqui).

Toni, o musgo e o feto com mais de 100 anos.


Algumas flores do Caminho Inca, para não dizerem que não tenho sensibilidade.




Toni mostra a sua habilidade no entrançar da Q'oya Icchu, a planta a partir da qual os Incas produziam as cordas para as suas pontes. Estas cordas eram de tal forma grossas e resistentes que suportavam o peso de vários homens e animais de carga, tendo de ser no entanto substituídas anualmente, em cerimónias de grande significado religioso.



O caminho continuou sob um denso manto de nevoeiro que só a espaços nos deixava ver alguma coisa para além da calçada que tínhamos à nossa frente e, pouco depois, chegámos ao primeiro dos 2 túneis pelos quais iríamos passar nesse dia. Era mais uma vez o resultado do aproveitamento de uma fenda natural que tinha sido alargada pelos construtores desta estrada, não necessariamente Incas mas provavelmente povos conquistados por estes e que haviam ousado resistir. 

O percurso tinha sido geralmente "inca flat", ou seja, aos altos e baixos mas começou a certa altura a subir, até chegarmos ao 3º ponto mais alto da nossa caminhada, Abra Phuyupatamarca, a pouco mais de 3.600m de altitude. Cumprido o ritual da oferenda ao deus da montanha, (lembram-se?) seguiu-se um troço fácil até ao primeiro conjunto de ruínas do dia: Phuyupatamarca.




 O primeiro túnel do dia, que reforçou a nossa certeza de não ter havido problemas de obesidade no Império Inca



À saída do túnel, a vista da floresta perde-se no nevoeiro



Phuyupatamarca, a cidadela das nuvens

A pose heróica à chegada a Phuyupatamarca (do quechua "Phuyu"=nuvem + "pata"=escadas, socalcos + "marca"=local, povoação)

A localização e arquitectura de Phuyupatamarca, à semelhança de Sayaqmarca, impressionam quem por ali passa. O conjunto seria também um local de grande importância religiosa e encontra-se num admirável estado de conservação. É composto por várias construções sobre socalcos irrigados por um intrincado sistema de canais, que ainda hoje alimenta várias fontes rituais. 

A proximidade da selva contribui para a presença constante de nuvens, fruto da elevada humidade do ar. Por isso foi-nos impossível apreciar a vista para o fundo do vale, onde corre o Urubamba, e montanhas circundantes. 

Phuyupatamarca foi o local escolhido por Toni para nos dar uma pequena aula sobre a religião e mitologia dos Incas.


A entrada em Phuyupatamarca, passando por fonte e canais.


Uma paisagem com mil e um deuses

A religião Inca, como qualquer outra religião extinta ou actual, baseou-se em crenças pré-existentes, assimilando mitos e personagens. Muitas vezes até, os Incas mantinham os cultos dos povos que iam assimilados, para facilitar a sua integração no Império.

Os Incas dividiam a sua realidade em três níveis: o nível superior, onde moravam os deuses, o nível intermédio, onde eles próprios habitavam, e o nível inferior, o mundo dos mortos. Também acreditavam que havia canais e mensageiros que ligavam estes níveis. As grutas e nascentes, por exemplo, era canais de comunicação com o nível inferior. Quanto ao papel de mensageiros, este era desempenhado pelo condor, o puma e a serpente, os 3 animais sagrados dos Incas.

Os Incas acreditavam na continuidade da vida, não na reencarnação. Acreditavam que os que morriam renasciam noutro nível e era por isso que os mortos (devidamente mumificados) eram colocados em posição fetal (e no seio da Pacha Mama, em covas ou grutas). Afinal, se era nesta posição que nasciam neste nível, essa teria de ser a posição em que entrariam no próximo.

Sendo uma religião fundamentalmente animista e uma sociedade com economia baseada na agricultura, viam naquilo que os rodeava os seus deuses, havendo no entanto, por trás de tudo, um deus criador supremo: Viracocha (lembram-se dele?). As principais divindades eram Inti (o Sol), Mama Quilla (a Lua) e a Pacha Mama (a mãe-Terra) mas também prestavam culto a deuses menores como o relâmpago, o arco-íris, os rios, as montanhas e o milho, por exemplo. Em cultos pré-incaicos, adorava-se também o deus Tunupa e era dele que provinha a chuva e os relâmpagos, com os quais fertilizava a mãe-Terra.

Soltando o artista que há em si, Toni ilustrou de forma bastante eficaz a sua pequena aula sobre religião Inca. Um senão: o destaque dado à chakana ou cruz Inca que, na verdade, não terá feito parte da simbologia Inca visto que nem sequer é mencionada pelos cronistas do período colonial.


Geralmente designado como "Apus", os deuses das montanhas, dos rios e outros acidentes geográficos eram espíritos protectores, cujo culto era observado pelo povo, ao passo que o culto aos deuses maiores era reservado às elites. Também apenas as elites podia usar o ouro e a prata, não porque lhe dessem valor monetário mas antes porque eram metais sagrados, que não se degradavam e reflectiam a luz do Sol e da Lua. 

Com a chegada dos Espanhóis e da sua mensagem evangelizadora apoiada nos ferros da Inquisição, os Incas abandonaram a velha religião mas não por completo. Verificou-se um sincretismo religioso em que os deuses maiores foram interpretados como sendo as divindades maiores do panteão cristão. Os rituais fundiram-se e actualmente é possível assistir a manifestações como aquela que acontece nas montanhas, num local cujo nome me escapa, em que se faz uma procissão até uma igreja no alto de um monte e, quando o Sol nasce, todos se ajoelham diante dele para pedir um bom ano agrícola.



A vertiginosa descida

Terminada a nossa aula teológica, retomámos a caminhada para iniciar uma descida verdadeiramente vertiginosa. O trilho passou a ser na forma de degraus bastante estreitos e a inclinação era tal que muitos sentiam dificuldade em descer. A solução: esticar ao máximo os bastões de caminhada e descer de lado, para os pés assentarem completamente nos degraus. Foi assim o percurso durante uma longa distância, havendo apenas algumas secções em patamar para respirar um pouco.



O início da descida...



...e a continuação da descida, para alegria dos joelhos dos caminheiros.


A dada altura olhei para trás e uma forma rochosa chamou a minha atenção. Achei curiosa a forma e apontei-a aos guias que, pelos vistos, nunca tinham reparado nela. -"Acho que encontrei o meu Apu: o Cuy!", afirmei com convicção. 

Todos se riram, sobretudo porque na noite anterior, ao jantar, Toni tinha feito uma extensa apologia das qualidades gastronómicas do Cuy (porquinho-da-Índia),  rebatendo a argumentação de um dos presentes de forma brilhante: -"Porra, mas vocês comem porquinhos-da-Índia? Não têm McDonalds, é?" ao que Toni respondeu: -"Nós não gostamos de McDonalds, só de KFC.". A surpresa gerou a inevitável pergunta: -"O quê? Kentucky Fried Chicken?", com Toni a rematar: -"Não. Kentucky Fried Cuy!".

Realmente, se houve coisa que não faltou nesta aventura, para além de degraus, foi boa disposição.


O meu Apu, el Cuy, vigiando a nossa marcha.


Aos poucos fomos descendo cada vez mais a encosta, com mais uma passagem por um túnel e avistando mais uns quantos colibris a beijar as poucas flores que por ali havia, até nos afastarmos definitivamente do manto de nuvens.

Com os degraus já vencidos, fomos premiados com o regresso do Sol após quase 24h de ausência. Foi a forma que o deus Inti encontrou de nos dar as boas-vindas ao próximo e fantástico sítio arqueológico e, para lá dele, a montanha Machu Picchu! Estávamos já próximos da nossa meta. 

Finalmente abaixo do tecto de nuvens mas ainda com degraus.



A entrada no 2º túnel do dia.



Finalmente o Sol, na parte mais baixa do trilho.



Os socalcos de Intipata e, para lá dele, a emblemática montanha Machu Picchu. A cidade lendária fica logo ali, a seguir àquela elevação.


Intipata, os degraus do deus Sol

Quando se avista, Intipata não percebe logo toda a sua monumentalidade. Apenas se vislumbram alguns socalcos no meio da vegetação. Só quando chegamos ao local se percebe a sua verdadeira dimensão. Foi assim connosco, com a chegada ao local a ser brindada com um uníssono "Uau!". 


A chegada ao complexo agrícola de Intipata (do quechua "Inti" = Sol + "Pata" = Socalcos, escadas), com o já familiar rio Urubamba lá ao fundo. A Amazónia fica para lá daquelas montanhas!


Em Intipata, tudo é de cortar a respiração: os socalcos moldados na forma da montanha e que parecem não ter fim, a sua forma de escadaria a pique que nos faz suster a respiração, a vista para o de novo visível vale do rio Urubamba enquadrado pelas encostas rugosas das montanhas à volta. 

O local mereceu bem os longos minutos de contemplação que lhe dedicámos, sentados na relva, a tentar absorver toda aquela grandiosidade. Mais impressionados ficámos quando Toni nos revelou que o que hoje está visível é apenas uma pequena parte das ruínas, dado que estas continuam encosta acima, onde só se vê floresta. A razão para não terem sido postas totalmente a descoberto, embora haja algumas escavações a decorrer actualmente, prende-se com a necessidade de preservar o ecossistema de certas espécies vegetais endémicas muito frágeis.



No momento em que nos sentámos maravilhados a contemplar uma das mais bonitas paisagens que tínhamos visto até então, foi impossível não nos sentirmos pequeninos.


Por muito que nos custasse, foi necessário prosseguir o nosso caminho. O acampamento já se avistava e, como bem nos lembrou Toni, já estávamos com alguma fome. Descemos mais um belo lanço de escadas, passando junto a um grupo de construções na base dos socalcos agrícolas, e depressa chegámos às nossas tendas, sendo mais uma vez recebidos com palmas.

Não foi no entanto o fim da etapa pois, após o almoço e sem o peso das mochilas, iríamos ainda visitar um sítio maravilhoso: Wiñay Wayna ou Wiñay Huayna.



Descendo pela escadaria central de Intipata, com o acampamento à vista.




Um último olhar para Intipata, com os socalcos moldados pela forma da encosta



Já no acampamento, após a habitual calorosa recepção, com Marciel e Wilfred, sempre sorridentes e incansáveis. 

Marciel é um jovem com 20 anos, oriundo de uma família agrícola pobre. Segundo me contou, a família possui alguma terra de cultivo e ovelhas mas o seu sonho é mesmo ser cozinheiro. Por intermédio de Nilo, fiquei a saber mais tarde que, no regresso a casa, o cozinheiro-chefe da equipa prometeu a Marciel o cargo de ajudante de cozinheiro na próxima expedição. Imagino o quão largo terá sido o seu sorriso ao saber da novidade.





Wiñay Wayna, a Juventude Eterna

Após o almoço, já com Nilo de regresso (tinha ficado para trás para apoiar uma pessoa em dificuldade), atravessámos o acampamento para tomar um pequeno trilho que seguia para Sudeste. Foi possível perceber a quantidade de gente que estava ali acampada, à espera para entrar na lendária cidade de Machu Picchu no dia seguinte.

Continuámos o nosso caminho e, quando passámos por um tosco portal de madeira, a visão de dezenas de socalcos e ruínas de construções revelou-se aos nossos olhos. Escondida num recanto daquela montanha, entre árvores e cascatas, estava a cidade agrícola de Wiñay Wayna.

A pose triunfal da chegada a Wiñay Wayna ou Wiñay Huayna, (do quechua "wiñay"= eternamente + "wayna"=jovem)


Esta cidade agrícola foi descoberta na década de 1940, quase 30 anos depois de Machu Picchu. Divide-se em dois núcleos construídos, um na parte superior com uma tipologia de construção que sugere ter sido um local de grande importância (mais um templo e residências nobres), e um outro, mais abaixo, que terá sido zona residencial de menor nível social. Tal como Intipata, este terá sido um centro de produção agrícola destinado a abastecer Machu Picchu.

Na parte superior, atrás do templo, um aqueducto alimenta uma fonte a partir da qual a água é canalizada por todo o complexo, contornando o templo antes de ir alimentar várias fontes que se encontram ao longo da escadaria principal de Wiñay Wayna.



A descida para o núcleo habitacional inferior



A canalização de água vinda das traseiras do templo, no momento em que abastece a primeira das várias fontes que se situam junto à escadaria principal da cidade.




Uma outra perspectiva dos socalcos, com uma caminheira a tentar ganhar motivação para regressar lá acima.


Depois de exploradas as ruínas, ficámos em amena cavaqueira com Nilo e alguns dos restantes membros da equipa, sentados num dos socalcos. Falou-se de tudo um pouco, desde política e economia até História e foi interessante perceber como pode ser diferente a visão sobre determinadas  personagens e factos, quando há um oceano de permeio. 

Com a luz já a desaparecer, regressámos ao acampamento para lanchar e esperar pela hora do jantar.


A despedida

O jantar marcou a despedida oficial dos nossos carregadores que no dia seguinte, quando tomássemos o caminho de Machu Picchu, desceriam rumo à localidade próxima de Aguas Calientes para aí apanharem o comboio de regresso a casa.

A nossa sobremesa, mais uma obra do engenho dos nossos cozinheiros. (Foto: Debby Brosko)


O último jantar foi memorável, com o toque final a ser dado com um belo bolo como sobremesa. No final, todos os membros do staff compareceram na tenda, apresentando-se um a um e sendo então eles brindados com uma merecida salva de palmas.

Tínhamos entretanto feito uma colecta para dar uma gorjeta aos carregadores, cozinheiros e guias. Trata-se de uma prática habitual no Caminho Inca embora a nossa agência tenha deixado bem claro, quer no momento da contratação quer depois, ao longo do caminho pela voz dos nossos guias, que os carregadores eram bem pagos e que não éramos obrigados a dar nada. Bem diferente de uma conversa que tinha ouvido durante a tarde no acampamento, com um guia de outra agência a dizer aos seus clientes qual era o valor mínimo esperado da gorjeta.

Por mais ninguém falar espanhol no grupo, coube-me por decisão unânime a honra de entregar a nossa oferta aos chefes do staff e de fazer também um pequeno mas sentido discurso de agradecimento pelo esforço desenvolvido em prol do nosso conforto ao longo daqueles inesquecíveis dias.

Depois, recolhemos às nossas tendas para ir dormir. No dia seguinte entraríamos finalmente na lendária Machu Picchu!

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A seguir 


Finalmente Machu Picchu!

domingo, outubro 25, 2015

Caminho Inca - O primeiro dia no Trilho!

1ª etapa: do Km82 a Llulluchapampa
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Finalmente tinha chegado o grande dia! Saímos do nosso hotel bem cedo para a viagem de autocarro que haveria de nos levar ao início do Trilho. Após um belo-pequeno almoço nas margens do Urubamba, foi tempo de pôr as mochilas às costas e começar a caminhar. Machu Picchu estava a poucos dias de distância e as nossas expectativas eram elevadas mas depressa percebemos que, o que nos esperava, era muito melhor do que poderíamos ter imaginado.


Como combinado, pouco passava das 4h20 da manhã quando saímos do nosso hotel para embarcar no autocarro que já estava à nossa espera. A viagem até ao início do trilho iria ainda demorar 2h pelo que aproveitámos para dormir mais um pouco, acordando apenas quando mais alguém entrava no autocarro para se juntar ao grupo.

Finalmente estávamos a caminho do Caminho Inca mas a preparação tinha começado uns meses antes, mais precisamente em Maio. Uma vez que o acesso ao trilho é bastante controlado, sendo apenas permitida a entrada diária de 500 pessoas, 200 caminheiros e, os restantes, o staff das agências que obrigatoriamente devem acompanhar os primeiros, é necessário reservar as entradas com meses de antecedência.

Optámos pelos serviços da Enigma Peru (ver aqui) e não nos arrependemos. O serviço teve muita qualidade e todo o staff foi extremamente profissional e simpático, tanto os guias como os carregadores. Sim, porque há carregadores! Dado que não há acessos para veículos automóveis, todo o material necessário para os 4 dias (tendas, material de cozinha, alimentos, etc) é transportado às costas pelos carregadores e, acreditem, é impressionante vê-los a trabalhar e a correr montanha acima com aquela carga toda. Por uma taxa extra, os caminheiros podem entregar até 7kg de bagagem aos carregadores para não irem eles tão carregados. Nós, no entanto, optámos por transportar toda a nossa carga.


Últimos preparativos nas margens do Urubamba.

A última paragem do nosso autocarro foi em Ollantaytambo (recordam-se?) para deixar entrar os últimos carregadores. A partir daí o alcatrão terminou e fizemos os derradeiros 14 quilómetros numa estrada de terra batida até Piscacucho e à estação ferroviária do mítico Km82, onde se encontra o checkpoint de entrada no Trilho.

Assim que saímos do autocarro, enfrentámos pela primeira vez os vorazes mosquitos, que nos iriam perseguir ao longo da caminhada, o que nos obrigou logo ali a fazer uso do repelente (o nosso melhor amigo ao longo dos 4 dias!). Após os últimos preparativos, assim como um belo pequeno almoço servido ali à vista do rio Urubamba, dirigimos-nos finalmente ao checkpoint  onde tivemos de mostrar os bilhetes e os passaportes. Uma formalidade que não se aplica aos residentes locais que habitam em pequenas comunidades ao longo do trilho. Com o passaporte carimbado, franqueámos o portal da ponte sobre o Urubamba. A caminhada tinha começado!


O Trilho Inca


A foto da praxe, antes do checkpoint



Passaporte carimbado e o portal de início do trilho logo ali, a apenas meia dúzia de passos

Os primeiros quilómetros do trilho foram feitos junto à margem esquerda do Urubamba, numa paisagem algo árida. Pelo caminho, foi necessário desviarmos-nos de um grupo de cavalos que transportavam carga sozinhos para um destino incerto, primeiro na ida e mais tarde no regresso, já sem carga. Foi uma visão bem curiosa.

Mais à frente, Nilo, o nosso guia,  chamou-nos a atenção para um conjunto de ruínas que se avista do outro lado do rio. Trata-se do Tambo de Sallapunku, um dos muitos locais construídos ao longo da rede de estradas do Império Inca, onde os mensageiros que asseguravam a comunicação entre as diferentes partes do Império, eram revezados. O trabalho destes mensageiros tinha várias peculiaridades de que falarei num dos próximos artigos.

Ficámos também a saber que havia ali duas estradas Incas, uma em cada margem. A nossa levando a Machu Picchu, o caminho da peregrinação, e a outra que bifurcava uns quilómetros mais à frente, levando um ramo também para Machu Picchu enquanto o outro dava acesso à selva amazónica.

Enquanto admirávamos as ruínas, um comboio passou na linha férrea junto a estas, facto que mereceu um comentário encorajador por parte de Nilo: -"Aquilo é para turistas. Vocês são aventureiros!


Um Tambo, um local onde os mensageiros Incas, os Chaskis, passavam a sua mensagem em modo de estafeta ao mensageiro seguinte. Dado que os Incas não tinham sistema de escrita, a mensagem tinha de ser memorizada. 


Pouco depois do Tambo, chegámos a uma pequena comunidade agrícola onde os habitantes aproveitam o trilho para fazer algum dinheiro extra, vendendo suprimentos aos caminheiros, junto a telheiros em colmo que convidam a parar para descansar. Também disponibilizam a utilização de WCs por apenas 1 Sole (menos de 30 cêntimos).

Ali perto, um grupo de homens trabalhava afincadamente na produção de tijolos de adobe, amassando a terra e a palha com os pés, moldando os tijolos e pondo-os a secar ao Sol.


Trabalho de produção de tijolos de adobe. A terra, palha e água são amassados com os pés antes de serem moldados.

Depois de uns minutos de pausa para hidratar, retomámos a caminhada para enfrentar a primeira subida digna desse nome. Nesta altura já tínhamos assimilado a rotina a seguir aquando da ultrapassagem por carregadores (a quem deve ser sempre facilitada a passagem). À aproximação de carregadores, o último do grupo gritava "Porter!" e ia-se passando a palavra, encostando ao mesmo tempo, sempre para o lado da montanha, para o deixar passar.

O que não estávamos à espera era que, a meio de uma subida com traçado algo estreito, nos aparecessem em sentido contrário uns quantos cavalos carregados em passo apressado, seguidos de perto pelo dono que nos gritava "Cuidado amigos!". Tivemos de encostar o mais rapidamente possível para os deixar passar e não ganhámos para o susto.


A primeira subida. Consegue-se avistar um grupo de carregadores quase a chegar à plataforma. Com as recentes leis de protecção dos carregadores, cada um só pode transportar um máximo de 25kg mas, em situação de emergência, também transportam pessoas em dificuldades.


Vencida a subida, chegámos a o primeiro conjunto de ruínas do trilho. Trata-se de Wilkarakai , um local fortificado a partir do qual se domina a curva do vale do Urubamba e a foz do rio Kusichaka. Presume-se que tenha também sido um local onde os viajantes Incas, a caminho da cidade sagrada de Machu Picchu, poderiam parar para realizar rituais religiosos.

O que este sítio tem de fantástico é a vista que oferece para uma cidade situada no fundo do vale: Llactapata, um centro de produção agrícola com cerca de uma centena de construções e que terá sido o centro de um aglomerado populacional de aproximadamente 1.000 habitantes.

Entre o local onde nos encontrávamos e as ruínas de Llacatapata, ergue-se um monte com uma pequena plataforma no topo onde eram realizados sacrifícios. Era um local que se avistava facilmente de qualquer ponto do vale o que deixa supor a importância dos rituais aí levados a cabo.

Wilkarakai (do quechua Wilka="Neto", "da linhagem" + rakai ="ruína"), o primeiro conjunto de ruínas do trilho, oferece uma vista privilegiada para a cidade de Llactapata, na confluência dos rios Kusichaka e Urubamba. (Foto: Debby Brosko)


Um altar de sacrifícios no topo de um monte entre Wilkarakai e Llactapata. (Foto: Debby Brosko)




O nosso fantástico Nilo mostrando a cidade de Llactapata (do quechua "Llacta"=cidade + "pata"=local elevado, acima da margem do rio). Nesta cidade, agora ao abrigo de leis de protecção de património, foram encontradas mais de uma centena de construções


Ainda impressionados com aquela paisagem espectacular, e após as explicações pormenorizadas de Nilo, retomámos o caminho, descendo agora para a margem do rio Kusichaka. Já não faltava muito para o acampamento de Wayllabamba onde iríamos fazer a pausa para almoço.

Descida para o vale do Kusichaka. Conseguem ver o pequeno túmulo Inca na falésia?


O primeiro acampamento

Após alguns quilómetros, atravessámos o rio por uma ponte de madeira e avistámos de imediato a sinalética do local de acampamento. Sob ela, um dos membros da equipa Enigma agitava a bandeira para assinalar que ali seria o nosso local de paragem. 

Tinham sido uns primeiros quilómetros bem quentes e poeirentos mas a salva de palmas com que fomos recebidos por todos os membros do staff foi uma bela injecção de moral. Isso e o delicioso almoço que nos foi servido dentro da tenda de refeições.

A seguir ao almoço, durante a meia-hora de descanso que se lhe seguiu, estendemos-nos ao comprido na relva para relaxar e recuperar ao máximo as forças para a continuação da caminhada. Isto porque já sabíamos que nos esperava uma dura subida. Iríamos subir mais nos últimos 4km do que nos 11km que tínhamos feito até então, tudo isto agora acima dos 3.000 metros de altitude. Nada que uma bela chávena de chá de coca não ajudasse a superar.


A chegada a Wayllabamba, local de acampamento para almoço



A interminável escadaria!

Ao sinal dos nossos guias, e após a distribuição de água (fervida, claro) para encher os cantis, pusemos novamente as mochilas às costas e retomámos a caminhada, enquanto os carregadores ficavam para trás a desmontar o acampamento. Depressa pudemos experimentar uma subida íngreme, uma amostra daquilo que iríamos encontrar durante o resto do dia. Quem não pareceu muito incomodado foram os carregadores que, a dada altura e apesar de transportarem aquela carga toda às costas, nos ultrapassaram com facilidade.

À medida que subíamos, a vegetação que se concentrava inicialmente apenas no fundo do vale foi-se alargando cada vez mais. Lentamente, os arbustos foram dando lugar às árvores e a uma floresta lindíssima, facto que contribuiu para uma significativa queda de temperatura. Em contrapartida, o trilho transformou-se numa escadaria que parecia não ter fim.

Se o nosso grupo conseguiu apesar de tudo resistir às novas condições do trilho, a mesma sorte não teve outro grupo de cidadãos estado-unidenses que encontrámos no caminho e do qual alguns elementos estavam em nítidas dificuldades, levando-nos a partilhar água com eles e a "arrastá-los" connosco.

Foi já no início da floresta que vivemos um momento algo caricato. Quando menos esperávamos, dois lamas passaram a correr e em sentido descendente pelo nosso grupo, obrigado mais uma vez a improvisar uma escapatória e alguns mesmos a deitarem-se na encosta. Logo a seguir, e por ordem de altura, 3 crianças passaram igualmente por nós em perseguição aos lamas, sendo elas próprias perseguidas pela mãe, que não parecia muito satisfeita. Refeitos do susto, a risada foi geral.



O início da subida com alguns degraus só para aquecer. O pior viria depois.



Um bem-vindo momento de pausa, um pouco antes de entrarmos na floresta.



À medida que subimos, o trilho aproximava-se cada vez mais da floresta -e que floresta!-. Na vegetação luxuriante, destacavam-se as bromélias avermelhadas a crescer nas árvores. Segundo a explicação de Nilo, é costume no Peru usar-se as flores das bromélias para enfeitas as árvores de Natal: -"Venham ao Peru no Natal. É lindo!" rematou.





Já dentro da floresta, em plena escadaria, o autor deste blogue passando por uma cidadã estado-unidense de outro grupo, em nítidas dificuldades. Logo a seguir estava o guia desse grupo já com todas as mochilas do grupo às costas, tentando incentivá-los a continuar. Quando lhes perguntámos porque se tinham metido nesta aventura responderam com indignação -"Ficámos a saber deste trilho num blogue e lá diziam que era fácil!"


A chegada ao acampamento

Foi com o Sol já posto atrás das montanhas que alcançámos finalmente o acampamento onde iríamos passar a noite e onde já tudo estava pronto para nos receber. Mais uma vez fomos acolhidos com palmas e, sinal do espírito de grupo que entretanto se foi criando, recebemos da mesma forma os restantes membros da equipa à medida que iam chegando.

Vista parcial do acampamento com a tenda de refeições em primeiro plano. À chegada, tínhamos uma bacia com água e sabonete à porta de cada tenda e, antes de jantar, pudemos descontrair com um pequeno lanche com cacau quente ou chá (mas não de coca, que à noite não se recomenda).


Depois de nos terem sido atribuídas as tendas onde iríamos dormir, foi-nos servido um pequeno lanche onde o café e o chá caíram mesmo bem, para não falar das pipocas! À hora do jantar, mais uma vez delicioso, a conversa centrou-se sobre a proeza que tinha sido vencer aquela subida e a satisfação (tal como o cansaço) era indisfarçável. Toni, o nosso outro guia, lançou o briefing para o dia seguinte e também começou a revelar o seu apurado sentido de humor. -"Amanhã vamos continuar a subir até à Passagem da Mulher Morta". O nome intrigou-nos e levou-nos a perguntar o porquê do nome ao que, sem hesitar, Toni respondeu -"Ah, isso tem a ver com a primeira vez em que fui guia."

Foi pois um serão bem animado até à hora de ir dormir, não sem que antes nos fossem dadas algumas recomendações extra, relativas ao frio que se ia fazer sentir nessa noite, tal como o retirar todas as pilhas e baterias dos equipamentos electrónicos e guardá-los junto ao nosso corpo durante a noite para o frio não os descarregar.

Apesar de ansiosos pelo dia seguinte, adormecemos facilmente, vencidos pelo cansaço da subida. O dia seguinte seria igualmente exigente mas também seria memorável.


As tendas onde iríamos dormir. O nosso "chalet" era o segundo a contar da esquerda e, como podem imaginar, tinha uma vista magnífica.


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A seguir:

Da Mulher Morta ao santuário Inca de Sayacmarca

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