Durante a II Guerra Mundial, o governo britânico decidiu reforçar as defesas costeiras com a construção de uma série de fortalezas ao largo do estuário do rio Tamisa. Tratava-se na prática de uma série de plataformas dotadas de radares e artilharia para protecção anti-aérea e marítima, guarnecidas por algumas centenas de soldados.
Após o fim da guerra, esses fortes acabaram por ser abandonados até que, já nos anos 60, alguns foram ocupados por estações de rádio piratas. Londres não achou piada à ideia de ver instalações governamentais ocupadas por estações de rádio ilegais e moveu uma perseguição legal que obrigou ao seu encerramento.
Um deles, um major do exército reformado temperamental chamado Roy Bates, decidiu não baixar os braços e mudou a sua estação, a Radio Essex, para o forte de Roughs Tower que tinha a particularidade de se situar fora do limite das águas territoriais britânicas. Não contente, declarou a independência da plataforma a 2 de Setembro de 1967 (no dia do aniversário da sua esposa), rebaptizando o forte. Nascia assim o Principado de Sealand, um território com 550m2 governado pelos príncipes Roy e Joan Bates e com constituição, moeda, passaportes, cartões de identidade, bandeira e hino próprios. Tem actualmente até uma equipa de futebol com palmarés internacional (ver aqui) obtido de forma dramática.
Eis o Principado de Sealand em todo o seu esplendor!
Dado que o príncipe Roy faleceu em 2012, a chefia do estado é actualmente assegurada pelo seu filho Michael.
Mas nem tudo foi pacífico no processo de emancipação de Sealand. Primeiro ocorreu um incidente com uma embarcação inglesa em 1968, que levou a que fossem disparados tiros de aviso a partir da plataforma e que só não deu em nada porque os tribunais britânicos alegaram não ter jurisdição sobre um território extra-territorial. Depois houve outro incidente envolvendo um helicóptero que sobrevoou Sealand, insultando os seus moradores. Mas isto foi apenas o prenúncio de algo muito mais grave.
Em 1978, aproveitando o facto de apenas se encontrar em Sealand o príncipe herdeiro Michael, um grupo de mercenários alemães e holandeses liderados por Alexander Achenbach, primeiro-ministro de Sealand, ocupou o país e fez o príncipe refém. Foi um erro crasso. A partir de Inglaterra, o príncipe Roy Bates, então com 60 anos mas com o mesmo feitio temperamental de sempre, formou uma força expedicionária com um grupo de amigos, naquilo que foi uma mobilização sem precedentes na história das forças armadas sealandesas, e voou até Sealand num helicóptero pilotado por John Crewdson, piloto, actor e duplo de vários filmes de acção, entre eles "James Bond - Ao serviço de sua majestade".
Os prisioneiros exibidos pelo Príncipe Roy.
Após um aceso tiroteio, Sealand foi recuperado e os ocupantes foram feitos prisioneiros, tendo sido libertados apenas 7 semanas depois, na sequência da visita de um diplomata alemão. Alexander Achenbach acabou por fundar o Governo Rebelde de Sealand, que reclama até hoje o estatuto de governo legítimo do território, a partir do exílio na Alemanha. Estabelecida a paz, estava aberto o caminho para a paz e prosperidade.
A economia de Sealand ou como adquirir um título nobiliárquico a bom preço
Embora tenha recusado uma oferta de compra por parte do site de downloads piratas Pirate Bay, Sealand encontrou outras formas de rentabilizar o território como a fundação da Haven Co (ver site), uma empresa de serviços de alojamento de sites com conteúdos não abrangidos pela legislação internacional. Após algumas peripécias que levaram ao seu encerramento, a empresa retomou a sua actividade e, numa altura em que tanto se fala nisso, promete até proteger os dados da espionagem da NSA (ver aqui). Falou-se também na possibilidade da Wikileaks mudar os seus servidores para Sealand, o que acabou por não se concretizar. Há no entanto outras fontes de rendimento.
Apesar do turismo de massas não ser viável em Sealand, é no entanto possível comprar partes do território a 19,99£ a peça na loja on line embora o stock seja extremamente limitado. Também no mesmo sítio se vendem selos postais, moedas, endereços de e-mail e merchandising diverso e last but not the least, títulos de cidadania e títulos nobiliárquicos. Assim, qualquer pessoa se pode tornar sealandês ou mesmo barão, lorde, conde ou cavaleiro de Sealand o que, em termos de utilidade prática, não é menos que os títulos nobiliárquicos que se ostentam cá pela nossa República, mas pode causar boa impressão entre os amigos. Até consigo imaginar a minha entrada na próxima festarola a ser anunciada: -"Senhoras e senhoras, eis David Caetano, filho de Luís, filho de António, filho de João, e ilustre Cavaleiro de Sealand!".
Fotos:
Brasão de Sealand e fotografia geral do território do Principado de Sealand: Wikipédia
Prisioneiros: Bob Le-Roi
Links:
Principado de Sealand - http://www.sealandgov.org/
Principado de Sealand no Facebook - http://www.facebook.com/PrincipalityOfSealand
Governo Rebelde de Sealand - http://principality-of-sealand.eu/
Obituário do príncipe Roy (Daily Mail) (The Guardian)

































