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sexta-feira, julho 20, 2018

Como identificar falsas notícias


A comunicação social é hoje bem diferente daquilo que era há alguns anos, sobretudo pelo sucesso alcançado pelas redes sociais, de que o Facebook é um dos melhores exemplos. As redes de partilha de informação deixaram de se apoiar exclusivamente nos mass media clássicos (imprensa, rádio e televisão) e passaram a ter nas redes sociais um pilar importantíssimo. A informação propaga-se hoje a um ritmo elevadíssimo e, no meio deste turbilhão com um nível competitivo inédito, os agentes noticiosos "oficiais" debatem-se com a necessidade diária de serem os primeiros a obter e divulgar as notícias. Em consequência:

  • O tempo dispendido para validar a credibilidade dos factos apresentados na notícia é menor

  • A deontologia é muitas vezes desconsiderada face à urgência de mostrar trabalho e garantir leitores/audiência

  • Há um efeito "cascata" em que se um agente noticioso publica uma notícia inédita, validada ou não, muitos outros vão atrás e reproduzem-na, partindo do princípio que foi validada na fonte

Esta precipitação é de tal monta que, por vezes, até artigos satíricos são partilhados como sendo verdadeiros. Lembram-se de quando a cadeia televisiva RT difundiu a notícia de como a Roménia tinha enviado ajuda para o Tahiti em vez do Haiti? [Ver aqui]




Por outro lado, nas redes sociais cada utilizador tornou-se um agente noticioso não oficial, partilhando publicações que vai encontrado no seu "feed" de informações, cronologia se preferirem. O problema é que a validação da sua fiabilidade é geralmente nula e reveste-se de várias particularidades:


  • Não há obrigação deontológica de validar a credibilidade dos factos

  • As partilhas são sempre influenciadas pelas convicções e preconceitos de cada um e são motivadas, ou seja, estamos pré-condicionados para tomar como credíveis todas as notícias que vão de encontro às nossas convicções e preconceitos. 

  • As partilhas são motivadas pela necessidade viciante de obter "Likes", no fundo, de se sentir importante no seio da "comunidade virtual"

  • O fascínio do sensacionalismo, a pressa em obter "Likes", e, por vezes, uma certa preguiça, fazem com que a partilha se faça de forma precipitada, apenas com base na leitura do título e poucas vezes se lê, como sempre deveria acontecer, o corpo da notícia

  • A partilha raramente avalia as motivações políticas ou sociais de quem publicou originalmente a notícia


Todo este conjunto de factores cria o eco-sistema ideal para o surgimento e proliferação de notícias falsas ou, "como se diz em americano", as Fake News. Esta é uma praga que infesta a sociedade de informação actualmente e frequentemente ultrapassam, em termos de alcance, a verdade dos factos. Por outro lado, quando se descobre que uma notícia é falsa, o alcance do seu desmentido é irrisório quando comparado com o alcance que a notícia atingiu inicialmente. Porquê? Porque, desprovido que é de sensacionalismo, a motivação para a partilha de um desmentido é muito menor.


Cada um é responsável por aquilo que partilha!

De facto, mesmo que não sejamos autores de uma determinada notícia falsa, o facto de a partilharmos torna-nos parcialmente responsáveis pela sua existência e pelas suas consequências, que em casos extremos podem ser trágicas. 

Um caso que ficou célebre foi o do Pizzagate, nos Estados Unidos no qual, devido a um boato que se tornou viral, um homem invadiu uma pizaria e disparou vários tiros porque acreditava que esta era o local de tráfico de crianças por pedófilos ligados ao partido democrático [Ver aqui].

No Brasil, um rumor que se tornou viral, levou ao linchamento de uma mulher que tinha sido transformada numa raptora e abusadora de crianças. [Ver aqui]

As falsas notícias que mais frequentemente vejo serem partilhadas têm a ver com:
  • conteúdos raciais
  • conteúdos religiosos
  • conteúdos políticos
  • teorias da conspiração

Os actos de vandalismo de um grupo de hooligans adeptos do Basileia (na Suíça) transformou-se em supostos actos de violência por parte de muçulmanos que queriam impor o respeito pelo Ramadão em Birmingham, no Reino Unido [imagem tirada daqui]

Quando vemos uma notícia que provoca em nós uma reacção emocional, o primeiro impulso será de a partilhar imediatamente. É precisamente nesse momento que devemos ter a capacidade de refrear esse impulso e de colocar a questão fundamental: "Será que isto é verdade?"


Como identificar notícias falsas?

Quando me deparo com uma notícia partilhada que chame de alguma forma a minha atenção pelo seu título e que levante algumas suspeitas, sigo sempre o mesmo método de avaliação:
  1. Abrir e ler a notícia. O título está em harmonia com o seu conteúdo? Cita fontes? Aproveitem também para verificar a data da publicação.

  2. Analisar o site em que está publicada. É um site fiável? Qual é o sentido geral das suas publicações (pode ser satírico, política ou religiosamente tendencioso, ...)?

  3. Fazer uma pesquisa pelas fontes citadas. Existem? São quem a notícia diz serem?

  4. Procurar a notícia noutras fontes de informação, nomeadamente em sites informativos credíveis, como canais de televisão ou jornais on-line. Se não encontrarmos a notícia em nenhum deles, será bastante suspeito.

  5. Partir do princípio que a notícia é falsa e pesquisar no Google como se assim fosse. Usando o exemplo dos hooligans suíços que atrás referi, o método que usei para descobrir que se tratava de fake news foi simplesmente o de fazer uma pesquisa no Google com os termos "Ramadan riot Birmingham fake" ("Ramadão tumulto Birmingham falso")
  6. Copiar uma frase da notícia suspeita e pesquisá-la, colocando-a entre aspas, no Google
  7. Suspeitar de todas as partilhas que sejam acompanhadas de frases como "Esta publicação está a ser censurada! Partilhem antes que o Youtube ou Facebook elimine este artigo outra vez!"

Claro que nem todas as partilhas são de artigos. Muitas vezes são fotografias acompanhadas de uma descrição e é mais difícil verificar a origem desta. 

O caso bem conhecido de uma imagem partilhada com falsa descrição. Tornou-se viral por representar supostamente o êxodo de europeus para África durante a II Guerra Mundial mas, na verdade, representa a fuga de dezenas de milhares de albaneses para Itália nos anos 1990. [Imagem tirada daqui]


Diferentes imagens com a mesma credibilidade:

Uma frase atribuída a Catarina Martins e publicada no Jornal Expresso que, pelos vistos, na semana em questão foi publicado... à Quarta-feira! Uma pesquisa no Expresso on-line não deixa dúvidas quanto à não-existência desta frase.


O cartão de Fernando da Silva Pais, director da Pide, foi transformado no "cartão de informador" de Cavaco Silva


Neste cartão de membro da FNLA, a identidade de Peter McAleese foi substituída pela de Manuel Alegre


No entanto também há formas de despistar a sua credibilidade, sendo a mais simples a de fazer uma pesquisa de imagens no Google
  1. Abrir a imagem num novo separador (Botão direito do rato - Abrir em novo separador) e copiar o endereço da imagem da barra de endereços do nosso navegador
     
  2. Fazer uma pesquisa de imagens no Google, pesquisando pelo endereço da imagem. O Google vai procurar imagens visualmente semelhantes e apresentar os sites onde elas se encontram. Se os factos da partilha forem falsos, será possível encontrar na lista de resultados o seu contexto original ou o desmentido da falsa legenda.

É claro que haverá partilhas cuja veracidade será difícil de validar mesmo com todas estas etapas de verificação mas garanto que a grande maioria das falsas notícias será facilmente detectada desta forma. Dá algum trabalho mas vale a pena até porque, como referi atrás, cada um de nós é responsável por aquilo que partilha, tanto pela sua veracidade como pelas suas consequências.

Já agora, para terminar, gostava também de ter algum feedback vosso. Quais são as formas de verificação da veracidade das notícias que utilizam? Acham que esta lista é completa ou falta alguma coisa?



segunda-feira, março 06, 2017

Argemela de novo em risco - Recordando uma reportagem de 2003

O monte da Argemela está novamente na ordem do dia pelos piores motivos, a perspectiva da destruição das suas encostas por uma exploração mineira a céu aberto que terá um impacto irremediável na paisagem e recursos hídricos. Na Internet foi já aberta uma petição dirigida aos Ministros do Ambiente e da Economia para travar este processo. Poderão encontrá-la (e assiná-la, já agora) neste link: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84767

Já no início deste século o local fora danificado durante os trabalhos de abertura de um caminho, que rasgou parte do sistema de muralhas do castro que ali existe e que, mais tarde, foi novamente danificado pela exploração mineira da Unizel, que ali se instalou para explorar feldspato, abrindo um rombo na encosta.

Foi precisamente na véspera do início desta exploração de feldspato que me desloquei até ao monte da Argemela para visitar as escavações arqueológicas de emergência que ali decorriam, na tentativa de delimitar o sítio arqueológico. O resultado foi a reportagem que se segue e que na altura foi publicada no portal ArqueoBeira:


ArqueoBeira - 11 de Julho de 2003
Castro da Argemela (Fundão/Covilhã)


Terminaram as escavações de emergência


Alexandre Valinho e Miguel Serra em pleno trabalho - ArqueoBeira 2003

Terminaram no passado domingo dia 6 de Julho os trabalhos de prospecção de emergência no Castro da Argemela. Estes trabalhos, inseridos no projecto dirigido pela Drª Raquel Vilaça sobre o estudo da ocupação pré-romana na Beira Interior, duraram cerca de uma semana e foram executados pela empresa de arqueologia Palimpsesto - Preservação e Estudo do Património Cultural Lda. Esta intervenção deveu-se à necessidade urgente de delimitar este importante sítio arqueológico, para evitar que a exploração mineira prevista para este monte, o pudesse vir a destruir.

Na zona, está prevista para breve uma exploração mineira a cargo da empresa Unizel. Aparentemente, sob o monte da Argemela, existe um extenso filão de feldspato, mineral que esta empresa explora também na Turquia.

Em conversa com os Drs Alexandre Valinho, Miguel Serra e Eduardo Porfírio, que dirigiu os trabalhos no local, procurámos conhecer um pouco mais a natureza dos trabalhos e aquilo que reveleram.

Vala de sondagem que colocou a descoberto parte da 2ª muralha do castro - ArqueoBeira 2003

Os trabalhos, efectuados no perímetro da "acrópole", consistiram na abertura de 5 valas de sondagem, 4 com 4mx2m e uma, esta adjacente à 1ª linha de muralha, com 8mx2m.

"Os nossos trabalhos visam essencialmente estabelecer uma linha de protecção para o castro, procurando evitar ao máximo que os trabalhos de mineração previstos para a zona, tenham impacto sobre este sítio que já foi muito maltratado" - Afirma Miguel Serra, continuando: "Na parte da muralha que pusemos a descoberto, podemos ver que esta consiste apenas em pedra sobreposta, pelo que trabalhos envolvendo maquinaria pesada ou explosivos poderiam provocar um desmoronamento. Repare que aqui (apontando para uma parte exposta) ela até já apresenta sinais de desmoronamento."


Eduardo Porfírio, director da escavação - ArqueoBeira 2003

Estas sondagens que poderiam eventualmente revelar a existência de estruturas ou vestígios nada produziram: "Essencialmente, procurámos saber se existiam estruturas fora desta linha de muralhas, o que não parece acontecer" - afirma Serra.

Sobre o castro, diz-nos Valinho que "Para além disso, seria necessário confirmar se a alegada 3ª cintura de muralha existe mesmo, ou se é apenas um talude de antigas explorações mineiras. Não deixa de ser atípico que com tanta marca de mineração, não existam informações mais concretas na memória colectiva das comunidades circundantes, acerca deste local.".

De acordo com Alexandre Valinho "Os vestígios encontrados resumem-se a alguns fragmentos de cerâmica, que apontam para uma ocupação durante o Bronze Final ou mesmo Calcolítico".

Sobre o estado de conservação do castro, as opiniões mostram cautela, procurando não alimentar demasiadas expectativas. Alexandre Valinho afirma ainda assim que "é bom ver que, pelo menos esta parte da muralha que não foi arrasada pelos bulldozers, se encontra num estado razoável." Sobre a existência de mais vestígios, afirma que "só futuros trabalhos poderão dissipar essas dúvidas." Uma cautela justificada, se tivermos em conta que o castro foi muito maltratado ao longo dos anos, com a abertura de vários caminhos por bulldozers que sistematicamente rasgaram as cinturas de muralha para a abertura de caminhos e por sondagens geotécnicas em diversas zonas do castro.


A origem

Só recentemente começou a vir a público alguma luz sobre a origem deste local que na tradição popular mistura lusitanos, romanos, visigodos e árabes em histórias de guerras, torturas e nobreza.

Os fragmentos de cerâmica encontrados e o aparelho da muralha sugerem uma ocupação que se terá situado em 3 épocas distintas, com início no Calcolítico, algures no 3º milénio a.C., não existindo no entanto provas que confirmem que essa ocupação tenha sido contínua.

Os escassos vestigios encontrados confirmam uma ocupação no Calcolítico e no Bronze Final, sendo que a muralha se pode situar pelo seu aparelho como pertencendo aos Sécs IX ou X a.C..

"A localização do castro, dominando toda a paisagem envolvente, poderá indiciar uma ocupação da Idade do Bronze, em que este tipo de localização era padrão. Na Idade do Ferro, havia uma maior preocupação em dominar principalmente o rio." - Diz Alexandre Valinho


Os atentados

O castro da Argemela foi durante muitos anos vítima da ignorância e desleixo das pessoas a quem de direito cabia zelar pela sua preservação.

Sob o solo, existem grandes riquezas minerais, facto que aliado à exploração das encostas circundantes por uma empresa de celulose, levou a que a pressão sobre o castro pusesse em risco a sua existência.

Por várias vezes, na imprensa regional, se puderam ler notícias de destruição das muralhas, à medida que sistematicamente estas iam sendo derrubadas por bulldozers que abriam caminhos.

Não sendo mencionado como sítio arqueológico no PDM quer do concelho do Fundão, quer no concelho da Covilhã, os trabalhos no local, não eram acompanhados por arqueólogos o que ajudava a que os vestígios por demais evidentes (acumulação de enormes quantidades de pedra solta e fragmentos de cerâmica) fossem simplesmente ignorados.


A classificação que tardou

O último acto de destruição no castro, no ano de 2002, fez finalmente despertar as consciências. Manuel Frexes, presidente recém eleito da Câmara Municipal do Fundão, deslocou-se de imediato ao local para averiguar in situ o resultado da destruição.

De imediato, foram accionados os necessários mecanismos que, pouco tempo depois, resultaram na classificação do Castro da Argemela como Imóvel de Interesse Municipal pela Câmara Municipal do Fundão.

Resta agora esperar que os futuros trabalhos neste local, possam trazer mais alguma luz sobre a história do castro, para que na nossa imaginação se voltem a erguer as muralhas que outrora dominaram o vale do Zêzere.

sábado, dezembro 31, 2016

Atendimento prioritário - O civismo imposto por lei


Entrou em vigor a lei que impõe regras de atendimento prioritário no sector privado, à semelhança do que já existia no sector público. A partir de agora, as empresas e instituições do sector privado estão obrigados por lei a dar prioridade no atendimento a idosos, deficientes, grávidas e pessoas com crianças de colo (e não crianças ao colo, que é um conceito ligeiramente diferente).

Embora já houvesse um conjunto de boas práticas em vigor em determinados estabelecimentos, como a existência de caixas de prioridade em hipermercados, o cumprimento destas regras de civismo era algo arbitrário, em função do humor e da ética de funcionários e demais clientes.

Não deixa no entanto de ser algo triste que um conjunto de boas práticas cívicas, que devia resultar da educação de cada um, tenha de ser imposto por lei. A verdaed é que esta é uma questão cultural e basta estar um pouco mais atento no dia-a-dia para perceber que a insensibilidade para com as pessoas que agora são objecto desta lei é frequente.

Lembro-me por exemplo daquela senhora que, cheia de pressa, estacionou de forma a ocupar logo dois lugares reservados a pessoas com deficiências. A única deficiência que se lhe percebia era meramente moral e talvez possamos por aí dar-lhe um desconto. Ou então aquelas pessoas que, percebendo que se encontrava uma grávida na fila para pagar, optaram por fingir que não a viram para não perderem a sua vez.

O facto de ser uma questão cultural é facilmente perceptível se compararmos a nossa realidade com a de outros países. Por exemplo, há alguns meses viajámos até Amesterdão, estando a Ana gravidíssima. A atenção e o cuidado que lhe eram sistematicamente dirigidos em transportes públicos ou estabelecimentos comerciais era de tal ordem que ela chegava a sentir-se mal por isso.

Seja como for, pode ser que esta lei sirva criar hábitos cívicos nas pessoas. Vai haver abusos? Claro que vai. Quem não se lembra dos tão emblemáticos e falados casos de pessoas que pediam crianças "emprestadas" a familiares para entrarem na Expo 98? Veja-se também os casos mencionados neste link. Creio no entanto que esta lei, com mais ou menos casos, acabará por ter um certo efeito pedagógico nos cidadãos, mesmo que venha a dar muito que falar. Só é pena ter tido de ser criada.

quarta-feira, agosto 03, 2016

Resgate de uma ave vítima de armadilha

Ao fazer uma caminhada, encontrei uma pequena ave caída no chão, batendo desesperadamente as asas sem conseguir voar. Quando a apanhei, o motivo ficou claro: a ave fora vítima de uma armadilha e tinha as asas coladas!



Chamariz ou milheirinha, bastante debilitada


Tratava-se de uma pequena milheirinha ou chamariz, por sinal um macho, uma ave granívora muito comum no nosso território. De alguma forma, tinha conseguido escapar de uma armadilha de cola mas as penas das asas tinham ficado coladas, impossibilitando-a de voar. No momento em que a encontrei, tentava encontrar refúgio numa zona de erva mais alta, com um cão a rondá-la com curiosidade (ou seria fome?).

O uso de cola para captura de aves é uma prática ilegal mas muito comum, cujo objectivo é a captura dos pequenos pássaros tanto para coleccionismo como para venda ou consumo. A técnica consiste em cobrir um pequeno pau ou um ramo com uma substância adesiva e esperar que as aves pousem, já que estas irão ficar coladas e impossibilitadas de fugir.

Depois de recolhida sem grande dificuldade trouxe-a para casa e o primeiro desafio passou por remover a cola. Para a limpeza das penas usámos óleo vegetal -sim, o vulgar óleo alimentar!- e cotonetes, aproveitando o facto de aquela cola ser solúvel nesse material. 

Como a ave estava enfraquecida, teve de passar por um período de convalescença para ser hidratada e alimentada, nas melhores condições possíveis. Dois dias depois já dava sinais de grande energia e as asas e cauda pareciam de novo em boas condições, pelo que decidimos libertá-la.

Levámos-la para um local ermo com muitas árvores, junto a um ribeiro, e abrimos a porta da gaiola. Pareceu hesitar, confusa por aquela mudança drástica de cenário mas, fazendo pontaria à abertura, saiu como uma flecha rumo às árvores.

Que tenha mais sorte no futuro.



A agitação no momento da abertura da porta...




... antes de sair disparada. Conseguem vê-la na fotografia?


PS - Em breve voltarei ao local onde encontrei a ave para procurar as armadilhas e reunir eventuais dados para uma denúncia ao SEPNA. Esta prática das armadilhas de cola é ainda bastante corrente e constitui uma ameaça ao equilíbrio dos ecossistemas que é necessário erradicar.


Agradecimentos ao Gonçalo Elias do portal Aves de Portugal, pela ajuda na identificação da ave.


quarta-feira, outubro 14, 2015

Coelho ou Costa. Afinal em que ficamos?

Lusitanos, vestidos à moda gaulesa, trocando impressões sobre a formação do próximo Governo

Nos últimos dias muito se tem debatido sobre a questão da formação do novo Governo de Portugal, nem sempre de forma informada ou adequada. Nas redes sociais, imbuídos de uma "sabedoria constitucional" inata, argumenta-se com a ilegalidade de um eventual Governo de esquerda, acontecimento que, de tão cataclísmico, poderia até levar à eliminação da selecção nacional de futebol de 11 do Campeonato da Europa. Certo é que esse cenário (o do governo de esquerda e não o da eliminação do Euro 2016) não é de forma alguma ilegal e até é bem possível que a "PaF" tenha cantado vitória demasiado cedo. O que diz afinal a lei sobre isto?


A festa da PaF, que na verdade são dois partidos

A questão da formação do novo Governo tem dado azo a uma discussão alargada, envolvendo desde os vendedores de opinião nos media clássicos e figuras destacadas da nossa sociedade, até ao opinador amador que há em cada português e que se expressa com denodo, tanto à mesa do café como nas redes sociais, embora nesta última com um vigor adjectival mais fulgurante. Infelizmente, a pedagogia e o bom senso não foram chamados para nenhum destes palcos, o que é pena e leva a que haja já quem estabeleça paralelos entre a formação do Governo e o formato das competições futebolísticas. 

Sobre isto, quero desde já aqui deixar bem claro que não acredito que o futebol tenha uma importância tal na sociedade portuguesa que a questão política e os partidos sejam vistos como competições entre equipas de futebol mas, ouvir comparações destas, faz-me sentir como se tivesse acabado de sofrer uma entrada a pés juntos, promovida por defesa-central razoavelmente bruto.

A discussão está neste momento bipolarizada: uns (à "direita") defendem que a coligação "PaF" ganhou e, como obteve a maioria dos votos, deve ter o direito de formar governo, embora minoritário, enquanto outros (à "esquerda") defendem que se o PS, o BE e a CDU se coligarem, então terão a maioria parlamentar necessária para formarem governo. A celeuma é tal que, sobre esta última ideia, José Matos Correia (PSD) lançou o conceito de governo "legal mas politicamente ilegítimo". Na minha ignorância pergunto-me o que é isso da legitimidade política que, não importando se é ou não legal, é fundamental para a formação de um governo.


O que diz afinal a lei (mesmo a que não é politicamente legítima)?

Primeiro comecemos por recapitular os resultados das eleições legislativas: a coligação PaF obteve 104 mandatos, o PS 89, a CDU 17, o BE 19 e o PAN 1. Falta ainda atribuir 4 mandatos relativos aos círculos eleitorais fora de Portugal e que poderão influenciar esta discussão até porque é possível, por exemplo, que os nossos emigrantes votem em massa na coligação.

Neste momento, será portanto correcto afirmar que a coligação detém o maior número de votos na Assembleia da República, certo? Errado. Diz a lei eleitoral da Assembleia da República, no seu artigo 22º que:

"As coligações deixam de existir logo que for tornado público o resultado definitivo das eleições, mas podem transformar-se em coligações de partidos políticos, nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 12º do Decreto-Lei nº 595/74, de 7 de Novembro"

Significa isto que a PaF, criada para tirar partido do método de contagem utilizado em Portugal para obter mais votos, se extingue após a publicação dos resultados eleitorais. Portanto, na Assembleia da República não haverá PaF mas sim PSD e CDS que irão, à semelhança dos últimos 4 anos, trabalhar em conjunto. Os para já 104 mandatos serão portanto divididos entre estes dois partidos. Não sei como será feita essa divisão nem se já foi feita (poderei por isso estar a dizer uma asneira) mas, se se mantiver a proporção da anterior legislatura, o PSD terá 85 mandatos e o CDS 19.

Então e o que deve fazer o Presidente da República? Sobre o papel do Presidente da República na escolha do Governo, diz a Constituição da República Portuguesa (o tal papel que atrapalha tanto quem governa), na alínea f) do seu artigo 133º que

"(Compete ao Presidente da República, relativamente a outros órgãos,) nomear o Primeiro-Ministro, nos termos do n.º 1 do artigo 187.º"

Até aqui tudo bem mas o que diz especificamente esse artigo 187º no seu ponto nº1 relativamente à formação do Governo? Simplesmente isto:

" O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais. "

Nada diz especificamente sobre partidos mais votados. Apenas que o Presidente da República deve ouvir os partidos com assento parlamentar e ter em conta os resultados eleitorais na sua decisão. Ponto prévio, para já Cavaco Silva apenas teve uma reunião com Passos Coelho para lhe dizer para se entender com o resto dos partidos, não foi uma audição com vista à formação do Governo. Portanto, terá de reunir novamente com o PSD e com os restantes partidos para poder tomar uma decisão. 


"Factura do bolo-rei, talão de encomenda ao Carlos Gil,... onde é que está a lista dos partidos que tenho de ouvir?!"


Imaginem por exemplo que o PSD e o CDS (e o PAN também, suponhamos) defendem em Belém que o chefe de Governo deve ser Passos Coelho mas que, a seguir, os restantes partidos propõem o nome de António Costa. O Presidente terá então ouvido os partidos e, à luz dos resultados eleitorais, terá de convidar a formar Governo quem lhe ofereça uma perspectiva de estabilidade governativa. Se os partidos ditos de "esquerda", que obtiveram nas eleições a maioria dos lugares do Parlamento, defendem um governo liderado por Costa, qual será a decisão mais lógica?

Resta-nos a nós eleitores, tanto os que cumpriram o seu papel neste processo como os que tiveram infelizmente mais que fazer no passado dia 4 de Outubro, aguardar serenamente pelos desenvolvimentos e torcer para que, aconteça o que acontecer e, independentemente de ser ou não politicamente legítimo, que pelo menos se cumpra a lei. Já não será mau de todo.




Links úteis: 

quarta-feira, outubro 07, 2015

Legislativas 2015: quanto tempo durará este governo?

Como geralmente acontece em noite eleitoral, apenas o 2º classificado não cantou vitória mas, convenhamos, depois dos tremendos e sucessivos tiros nos pés dados desde o início da campanha, António Costa dificilmente poderia aspirar a outro resultado. Quem não se lembra da polémica com os outdoors, que começou com aqueles que pareciam cópias made in China da capa da revista "Despertai!", por exemplo? O pior foi contudo a incapacidade em apresentar propostas que convencessem os eleitores, perdendo diariamente terreno para Passos Coelho, ao longo da campanha.

Quando no fervor do triunfo começaram a cantar o hino nacional, veio-me à memória o trauma de ouvir a imitação de um caprino a cantar o "Grândola Vila Morena" feita por Miguel Relvas no Clube dos Pensadores. Podia ter sido pior, vá lá.


Realmente as coisas não podiam ter saído melhor à PAF. Apesar dos sucessivos escândalos que atingiram o Governo, desde a revelação dos históricos "esquecimentos" do primeiro-ministro em relação às obrigações contributivas (em contraste com as regras fiscais que foram sendo impostas), aos submarinos do vice-primeiro-ministro, o mesmo que reinventou o conceito de irrevogabilidade, passando pela ministra "SWAP", o caso Relvas, as ligações perigosas a instituições bancárias falidas por gestões de bradar aos céus (o que não invalidou que o Sr. Dias Loureiro fosse apresentado como "caso de sucesso" por Cavaco Silva), entre outros , a tudo isto o casamento de conveniência PSD-CDS conseguiu sobreviver. 

Claro que o caso Sócrates acabou por ser um conveniente alívio da pressão, conseguindo até o efeito colateral de atingir António Costa, pelo seu passado de proximidade ao recluso 44 mas, ainda assim, nada diminui o demérito do PS nesta derrota. Já a forma como Seguro foi afastado do PS poderá ter contribuído para afectar de alguma forma os socialistas mas, por si só, não me parece que este episódio tenha sido relevante no despique eleitoral, voltando a ser pertinente apenas na discussão à volta das consequências da derrota.

Fantasmas... Foto: 5dias

Apesar de tudo, usando agora uma terminologia futebolística para aumentar o interesse público deste artigo, entre seguir um caminho indefinido e um caminho que, não sendo o melhor, pelo menos era um caminho, o eleitorado optou por reeleger o binómio Passos-Portas mas não deixou de aproveitar para mostrar um valente cartão amarelo, sujeitando-os a ter de governar em minoria, ao perderem mais de 700.000 votos e 25 deputados, e ficando a depender de acordos prévios com os restantes partidos para poder governar. Foi por isso a pior vitória possível, sendo os festejos manifesta e deliberadamente exagerados.  

Passando agora para os partidos da esquerda, a CDU terá ficado algo desencantada com os seus resultados que, apesar de tudo, estão em linha com a lenta subida que tem vindo a registar nas últimas eleições. A desilusão de não ter sido a alternativa privilegiada de esquerda, em detrimento do BE, acabou por se fazer sentir. O PCP desempenha uma importante função social de defesa dos trabalhadores, algo que os distingue dos outros partidos, mas não pode continuar alheio à necessidade de renovação.

Uma das estrelas da noite. Foto: Esquerda.net

Por falar no BE, o partido de Catarina Martins acabou por ser estrela da noite eleitoral ao passar de 8 para 19 deputados. Acredito até que alguns destes novos deputados, apanhados de surpresa pelos resultados, estarão a fazer contas à vida para saber quem é que vai ficar com os miúdos enquanto estiverem no Parlamento. O mérito deste sucesso recai sem dúvida na qualidade de discurso da líder ao longo da campanha mas também terá a ver com a imagem positiva que o Bloco passou no termo da última legislatura. Quem não se lembra do autêntico fuzilamento de Zeinal Bava na comissão de inquérito parlamentar, às mãos de Mariana Mortágua, por exemplo? Nada mau para um partido que chegou a ser considerado como estando em vias de extinção.

À Assembleia chegou entretanto um novo partido, o PAN. De Lourenço e Silva confesso que pouco sei, a não ser que é engenheiro civil, pratica mergulho e tem uma horta cheia de erva porque se desleixou nos últimos dias. Que este mandato sirva para trazer algum ar fresco às discussões na AR. Sendo Portugal um país que tem fobia a novidades, preferindo o conforto bipolar da alternância PSD-PS, é um feito.

André Lourenço e Silva, o rosto do PAN na AR. Foto: PAN

A abstenção voltou entretanto a subir. Depois de todos se terem regozijado pela descida desta anunciada pelas primeiras projecções, verificou-se afinal que, não só não tinha descido, como acabou afinal por bater o recorde, ultrapassando os 43%. Continua a falar-se em "necessidade de reflexão", "cativar os cidadãos" mas isso continua invariavelmente a ser apenas um discurso que fica bem e não um discurso sentido. Importante, importante é ganhar, nem que haja apenas 2 ou 3 eleitores.



Cenas dos próximos capítulos

Os próximos dias serão sem dúvida muito interessante, com o PS a procurar situar-se no novo contexto político onde toda a gente lhe pisca o olho. Tornou-se de repente a solteira mais cobiçada da aldeia. A ajudar à festa, Cavaco Silva regressou da jornada da sua jornada de reflexão, na qual não atingiu o nirvana mas conseguiu chegar a uma brilhante conclusão: terá de haver consenso.  

A nós, contribuintes, resta-nos aguardar pelo desfecho desta história, se bem que o último governo minoritário que tivemos teve vida curta, tendo sido derrubado após a recusa do PSD em viabilizar mais um famigerado programa de estabilidade e crescimento (o PEC IV). A justificação dada então por Passos Coelho foi que não era necessário cortar mais salários nem despedir mais gente mas antes aplicar a austeridade ao Estado (recordar aqui). Enquanto aguardamos, sempre podemos ir assistindo ao desenrolar do caso BES e à discussão à volta dos números do défice, sabendo que Passos Coelho já assegurou que podemos ficar tranquilos. Obviamente.

PS (Post Scriptum, entenda-se) - Cá pelo burgo, repetiu-se o resultado de 2011: 2 deputados para a coligação e 2 para o PS, com a diferença de agora o número de votos ter sido favorável aos socialistas. Eu poderia dizer que alguém da coligação meteu água e que os eleitores não acharam grande piada a isso mas abstenho-me. Isto só diz respeito à queda de popularidade do primeiro-ministro. Obviamente.

quinta-feira, agosto 28, 2014

Ecos da operação de limpeza na Serra da Estrela

Recordam-se da iniciativa de limpeza do lixo existente no cume da Serra da Estrela, realizada em Abril último, e sobre a qual aqui publiquei um artigo? O Urbi et Orbi, o jornal on-line da UBI (Universidade da Beira Interior), publicou na semana passada um artigo sobre esse evento no qual dá a conhecer mais alguns pormenores e testemunhos dos participantes, para além de trazer mais alguma luz sobre o que é afinal essa coisa do "Geocaching". Cliquem sobre a imagem. Vale a pena ler.


terça-feira, julho 15, 2014

Quando o civismo também entra em défice...

...nada melhor que colocar a eloquência ao serviço da pedagogia, como é possível ver neste aviso manuscrito afixado numa parede algures na cidade do Fundão. Para além da ausência de erros ortográficos e não olhando à construção frásica, há um aspecto que merece ser destacado e que faz com que este aviso toque na mouche em relação aos seus destinatários: a culpa não é dos cães mas sim dos seus donos e da falta de civismo destes. 


sexta-feira, junho 13, 2014

Divulgação: Jornadas para a salvaguarda do património cultural imaterial da Beira Interior

Contribuir para a salvaguarda e uma mais ampla percepção da riqueza e diversidade do Património Cultural Imaterial da Beira Interior, este é o mote para as jornadas que amanhã têm lugar no auditório da Moagem no Fundão, com um programa de altíssima qualidade. 

Esta iniciativa é mais uma etapa de um projecto amplo, que pretende abranger todo o território nacional, promovendo e valorizando à escala local as mais diversas e singulares expressões culturais imateriais que, no seu todo, contribuem para a criação da identidade do país.

É uma iniciativa a não perder por todos os que se interessam pelo património e que amam a sua região, sendo o valor da inscrição -5 euros-  quase simbólico.

As inscrições podem ser feitas amanhã na Moagem ou através dos seguintes contactos, também disponíveis para prestar informações adicionais:

Ana Carvalho - 966 046 769 / anaemiliacarvalho@cm-fundao.pt
Margarida Silva - 910202420 / associacaopci@outlook.pt



quarta-feira, maio 28, 2014

Turismo em Setúbal não passa de conversa para inglês ver

Qualquer turista não lusófono que procure informações no site da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa ficará no mínimo desconcertado com aquilo que lhe é apresentado. Como se não bastasse o facto de apresentar apenas informação nas páginas em português -a maioria das páginas em outras línguas estão vazias-, se um visitante anglófono tentar obter alguma informação na sua língua sobre o que há para ver e fazer na península de Setúbal, ficará com a impressão que o fenómeno do turismo nessa região se resume a "blá blá".

Isto provoca alguma estranheza se tivermos em conta que a ERT-RL se apresenta (na página em português, obviamente) como uma entidade com "a missão de valorização e desenvolvimento das potencialidades turísticas da Área Regional de Turismo de Lisboa". Olhando para o site, fica-se com a impressão que isto não passa de conversa... para inglês ver.


segunda-feira, abril 28, 2014

Assim se contribuiu para a limpeza da Serra da Estrela

Porque o Geocaching não é apenas um passatempo (ver aqui), um grupo de meia centena de praticantes desta actividade juntou-se no último Domingo no ponto mais alto de Portugal Continental, para uma operação de limpeza da zona envolvente da Torre e nem o forte vento e a baixa temperatura foram suficientes para desanimar os participantes.

Tratou-se de um evento C.I.T.O. (Cache In Trash Out), um evento no qual os participantes, muitas vezes sem se conhecerem, marcam encontro num local determinado e, chegados aí, dão o seu contributo para melhorar o local, recolhendo o lixo que por aí se encontrar espalhado. Este tipo de evento insere-se no espírito de consciencialização ambientalista promovido pelo Geocaching. Este evento foi organizado por alguns geocachers da região e teve algum apoio por parte da Câmara Municipal de Seia, que cedeu os sacos destinados à recolha do lixo.

A Torre é um dos pontos mais maltratados da Serra e onde o impacto ambiental do elevado afluxo de turistas mais se faz sentir. A facada mais profunda foi mesmo a própria instalação do "centro comercial" no local, algo que não conheço de mais nenhuma paragem. O resultado é a acumulação de lixo (especialmente plástico e vidro) um pouco por todo o lado, numa demonstração de falta de civismo e também de falta de respeito por este sítio tão emblemático do nosso país.

Depois deste fim-de-semana, graças ao espírito de missão de uns quantos, pelo menos um cantinho da Serra ficou mais limpo e foi para mim um enorme prazer poder participar nesta iniciativa. Venham mais!










segunda-feira, abril 14, 2014

Quando o RSI ajuda mas também é factor de exclusão

-"Isto não está nada fácil, sabe?". Foi com estas palavras que uma senhora, que até há alguns dias era uma perfeita desconhecida, interrompeu o meu trabalho no balcão de atendimento de uma empresa cliente em Castelo Branco. Apesar da interrupção ser inconveniente, resolvi não impedir indelicadamente a continuação do monólogo. Afinal, pensei que seria fácil manter-me concentrado no meu trabalho fingindo que a estava a ouvir. Estava enganado.

-"Vim buscar comida ali à cantina social. Infelizmente tenho de o fazer, não tenho outra hipótese porque não tenho dinheiro para comprar comida. O pior é que a comida nem sempre é boa e há dias ficámos todos doentes lá em casa, eu, o meu marido e a minha filha. As outras pessoas que lá vão também se queixam da qualidade da comida mas temos medo de falar porque, se o fizermos, vão-nos chamar de ingratos.Vamos lá ver o que me calha hoje na sorte."

A minha atenção começou a divergir da minha tarefa e fui ficando cada vez mais interessado naquilo que aquela senhora me dizia. Afinal, há coisas às quais é impossível ficar indiferente, sobretudo por aquilo que, a palavras tantas, ela acabou por dizer:

-"O senhor tem alguém na sua vida? Se tiver, namore! Aproveite! Eu e o meu marido deixámos de dar beijos há já algum tempo. As nossas noites são passadas a chorar. Eu tinha uma loja de trabalhos de costura que sobrevivia com dificuldade e acabei por fechá-la. Maldita a hora em que o fiz. O meu marido foi despedido pouco tempo depois porque o Governo mudou as regras (sic) e ficámos sem nada. Sabe o que é não ter nada? Moro numa cave e isso é tudo o que nos separa de sermos sem-abrigos. Não temos nada. Comida, detergentes, gás, não temos nada disso. É uma sensação horrível. Não o desejo a ninguém, nem à pior pessoa do Mundo."

Pergunto-lhe se não recebe nenhum tipo de apoio.

-"Sim. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção. Vai tudo para a renda e ainda assim não é suficiente. Depois falta o resto. No mês passado ainda fiz 30 euros a arranjar umas peças de roupa. Este mês não sei como vai ser. Às vezes venho aqui e esta senhora (recepcionista da clínica) dá-me alguma carne. Estou-lhe grata do fundo do coração."

Nesta altura, senti-me tentado a pegar na carteira para lhe dar algum dinheiro para poder comprar alguma comida. Pareceu adivinhar os meus pensamentos.

-"Sabe de uma coisa? Eu sentir-me-ia muito melhor com 3 euros ganhos a trabalhar do que com 5 euros que o senhor eventualmente me pudesse dar, porque é disso que precisamos, eu e o meu marido. Trabalho. Eu tenho muito jeito para trabalhos de costura e também para restauro. Faço restauro de livros, tapetes, carpetes,.... Imagine que até restauro tapetes de Arraiolos! O pior é que tento divulgar o que faço e não resulta. Tenho um blogue [ver aqui] e já distribuí panfletos. As pessoas até dizem "Você faz tanta coisa? Qualquer dia encomendo-lhe uns trabalhos" mas a campainha nunca toca."

-"Mas também não é só isso. As pessoas que recebem RSI são discriminadas e chegam até a ser tratadas como criminosas. Eu sinto isso.Nem imagina o quanto é duro."

Para terminar a conversa, fala-me de uma ideia que lhe foi sugerida por uma amiga: contactar a produção de um desses programas de televisão que têm ajudado pessoas em situação semelhante. O único obstáculo que a impede de o fazer é a vergonha. Pergunto-lhe porque não o faz. Afinal, o pior que poderá acontecer é receber um "não". Seja como for, estará sempre a bater a duas portas: a da solidariedade e a da promoção do seu trabalho. Ela fica a pensar durante algum tempo e, antes de se ir embora, remata:

-"O senhor é capaz de ter razão. Vou pensar seriamente nisso. Entretanto, se precisar ou conhecer alguém que precise dos meus serviços, agradeço que me contacte. Obrigado por este bocadinho e desculpe lá pelo tempo que lhe roubei. Mas sabe? Faz-me bem desabafar."

Foi assim que eu conheci a Dª Clara. Fiquei a vê-la ir embora e a pensar em tudo o que me tinha dito, aquilo que aqui reproduzi e outras confidências que seria indelicado partilhar. Perguntei-me quantas pessoas estarão neste momento nas mesmas condições, vivendo de uma solidariedade que chega a ser um factor de exclusão e sonhando com o dia em que a campainha finalmente tocará. Servir-lhes-á de conforto, sabendo que perderam tudo ou quase tudo nos últimos anos, ouvir os nossos governantes afiançar que o país está melhor? 

quinta-feira, março 20, 2014

Reflorestação da Gardunha arranca já depois de amanhã!


A associação Descobrindo vai levar a cabo no próximo Sábado, dia 22 de Março, uma acção de reflorestação na Serra da Gardunha que merece um aplauso. 

Após o fiasco das últimas iniciativas, inclusive a na altura tão propalada Epson Biodiversity Iniciative (clicar para ver), espero que esta acção seja o mote para a criação de uma plataforma consistente que contribua para recuperar a floresta da Serra da Gardunha que o desleixo e os sucessivos incêndios destruíram nos últimos anos.

Citando o site da Descobrindo:

"Vamos reflorestar a Gardunha” é o nome da acção a realizar no próximo dia 22 de Março de 2014, na Serra da Gardunha. O ponto de encontro é o local onde foi realizado Solstício - Festival da Natureza , junto às piscinas de São Fiel pelas 9H00, onde existirá transporte até aos locais de plantação.

É com muita satisfação que anunciamos a concretização da iniciativa que nos propusemos realizar no âmbito do Solstício - Festival da Natureza com o objectivo de dar início à reflorestação da Serra da Gardunha. A primeira edição do festival Solstício teve como grande objectivo a plantação de uma árvore por cada entrada no festival.

Nesse sentido, e aproveitando o momento dedicado ao Dia Internacional da Árvore e das Florestas vamos dar início à plantação total de 3500 árvores em diferentes locais desta Serra. Estando já alguma vegetação autóctone a regenerar-se, a iniciativa prevê o plantio de esp espécies que já se podem encontrar nos locais: Bétulas, Castanheiros, Faias, Carvalho Robur e Carvalho Negral, e alguns Freixos.

O regresso, para quem o desejar, será realizado numa caminhada.

A inscrição é obrigatória de forma a garantir o reforço alimentar, o almoço e toda a logística. Os inscritos devem munir-se de uma ferramenta necessária para a plantação (sacho ou enchada)."

Conselhos a seguir na procura de emprego


Há uns tempos atrás fui surpreendido num processo de zapping pelo "28 minutos e 7 segundos de vida", um programa da TVI 24 no qual José Alberto Rodrigues e Manuel Forjaz conversam sobre um tema específico. Embora me pareça que o programa abuse da exploração do facto de Manuel Forjaz sofrer de cancro, achei-o bastante interessante, sobretudo pela forma fluida da conversa, assente na capacidade de comunicação de Manuel Forjaz.

O tema do programa de que falo era a procura de emprego e durante quase uma hora falou-se não só das dificuldades que quem procura emprego tem de enfrentar, como também dos erros mais comuns que se cometem nesse processo. Aqui fica uma síntese das ideias principais enunciadas por Manuel Forjaz:

Quem procura emprego não explora o suficiente as possibilidades de procura que estão ao seu dispor, limitando-se muitas vezes aos tradicionais anúncios de jornal. Na Internet existe uma grande variedade de sites de procura de emprego e, para além disso, há que saber explorar as nossas redes de conhecimentos pessoais (familiares, amigos, antigos professores, etc).

Somos pouco cuidadosos com a nossa presença na Internet. A maioria das pessoas não olha à sua exposição on line fazendo publicações nas redes sociais que podem ser contraproducentes para a sua imagem junto de potenciais empregadores

A rede social LinkedIn é cada vez mais uma ferramenta usada por empregadores para recrutamento mas convém que quem cria o seu perfil nessa plataforma não se limite a criar uma página básica

O Europass foi uma coisa criada pelos eurocratas para os empregadores não empregarem ninguém. É um documento ilegível que não faz nenhuma diferenciação, tornando muito difícil para o empregador encontrar elementos diferenciadores que permitam contratar alguém

O curriculum vitae deve ser elaborado de forma a adequar-se ao empregador, à indústria, à complexidade das funções a desempenhar e de forma a destacar as competências que se querem demonstrar.

Um dos passos mais difíceis na procura de emprego é fazer chegar o curriculum vitae às pessoas certas

É preciso ser inteligente, criativo e experimentador na procura de emprego

Em geral, os candidatos vão às entrevistas de emprego muito mal preparados

Numa entrevista é preciso conhecer o entrevistador, o que é que o move, que tipo de pessoas é que ele emprega, tal como é preciso saber exactamente quais são as exigências do cargo ao qual o entrevistado se está a candidatar. Hoje em dia, em pouco tempo, é fácil obter informação sobre qualquer empresa a qual nos estejamos a candidatar

Nunca mentir é uma regra sacramental das entrevistas de emprego


Vídeo: uma entrevista de emprego na Idade da Pedra:
   


Numa entrevista, o contacto visual e a linguagem corporal são fundamentais.

Convém prepararmo-nos para perguntas difíceis como "Porque é que o hei-de escolher a si e não a outro?" ou "O que é que você vai trazer em termos de valor acrescentado a esta empresa?". Não se pode esperar que as perguntas se cinjam ao percurso profissional do entrevistado

Quando as pessoas não são escolhidas, desistem de continuar a tentar. É fundamental não se fechar a ligação com o entrevistador/potencial empregador no final da entrevista


Vídeo: as respostas pré-concebidas numa entrevista de emprego fora-de-série!

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