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sábado, novembro 30, 2013

A imagem do fim-de-semana: Badajoz, Badajoz, oh Elvas à vista!

Pormenor dos edifícios da Plaza Alta no centro histórico de Badajoz

A cidade de Badajoz foi a primeira etapa de uma pequena viagem que acabaria depois por nos levar também a Alandroal, Vila Viçosa e Estremoz. Não foi um périplo isento de peripécias e algumas das fotografias nele registadas foram obtidas à custa de mil perigos. 

Tudo será contado no próximo artigo. Não percam!

quinta-feira, novembro 28, 2013

Nesta casa entra-se e sai-se em boa companhia

Ali por Caria, na zona antiga desta vila beirã, por entre velhas casas de pedra onde, nas ombreiras das portas, se avistam aqui e ali as marcas atribuídas aos cristãos-novos, há uma dessas portas em particular que chama a atenção.


Se nesta casa só se entra em ilustre companhia, é certo que dela não se sai menos bem acompanhado, isto fazendo fé na recomendação que se encontra sobre a porta e que quase faz com que as cruzes que ladeiam a entrada passem despercebidas.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Posta em blogsfera alheia: Estes romanos são loucos...por símbolos fálicos

Hoje também estamos ali n'A Funda São para falar sobre mitologia e arqueologia, numa publicação que, após análises efectuadas por um laboratório independente, revelou ter elevadas doses de cultura e um ou outro vestígio de informação turística. Vale a pena ler clicando no link abaixo:




terça-feira, setembro 24, 2013

Postais da Caledónia - O canhão português de Edimburgo

A par da elevação onde se situa o castelo de Edimburgo, outro monte domina a paisagem desta cidade. Trata-se de Calton Hill, local de grande simbolismo para a Escócia. É neste monte que se situam os edifícios do Governo, o Observatório da Cidade (um antigo observatório astronómico)  assim como uma série de memoriais e outros monumentos. 

Vista do centro histórico de Edimburgo, com o castelo lá ao fundo, a partir de Calton Hill, com o memorial do filósofo Dugald Stewart em primeiro plano.

O monumento que disputa com o memorial do Almirante Nelson o papel de monumento mais destacado, é o chamado Monumento Nacional. A sua construção teve início em 1826 e destinava-se a homenagear todos os escoceses mortos na guerra contra a França Napoleónica. Pretendia-se que este edifício fosse uma reprodução mais ou menos fiel do Parténon de Atenas mas, infelizmente para os escoceses (e para os empreiteiros), a construção foi interrompida apenas 3 anos mais tarde, por falta de financiamento. Assim ficou até aos nossos dias, tendo na altura sido popularmente rebaptizado de "A desgraça da Escócia" ou "O orgulho e pobreza da Escócia".

O Monumento Nacional da Escócia ou o "Novo Parténon" que nunca o chegou a ser.

O elemento que mais nos chamou a atenção acabou contudo por ser o mais pequeno: o "canhão português"! Trata-se de um canhão que terá sido produzido durante o período de domínio filipino. No preparar da revolução de 1640, o canhão terá sido expedido para Goa, integrado nas tropas comandadas por Diego da Silva, conde de Portalegre, e aí terá participado na defesa da colónia portuguesa contra as forças holandesas. 

O resto da história constitui para já um mistério. Sabe-se que foi capturado pelo rei da Birmânia em 1784-85, numa região que ainda hoje faz parte desse país (possivelmente levado para aí por mercenários portugueses), passando para mãos britânicas no século seguinte, quando o reino foi conquistado pelas tropas do general Prendergast.

Acabou como parte integrante de uma exposição internacional realizada em Edinburgo em 1886, pouco depois da sua captura pelos britânicos, na condição de ser depois oferecido à cidade, como viria efectivamente a acontecer.


O Canhão Português de Calton Hill. Na primeira inscrição lê-se "Dom Diego de Silva Conde de Portalegre" e por baixo desta uma data que corresponde ao século XVII (16...). 

segunda-feira, setembro 23, 2013

Postais da Caledónia - Quando os mortos "fugiam" das sepulturas

No decurso da nossa visita ao cemitério de Greyfriars, em Edimburgo (ver aqui), deparámo-nos com uma campa rasa, cuidadosamente protegida com uma grade de ferro maciço. Este tipo de protecções era uma prática corrente, não só Reino Unido mas como em vários países europeus, nos séculos XVIII e XIX e destinava-se a evitar que os cadáveres recém-enterrados fossem roubados por salteadores, para posterior venda às faculdades de medicina.



A grande procura era motivada pela escassez de corpos disponíveis para dissecação nas aulas de anatomia já que, até 1832, só os cadáveres de assassinos executados podiam ser usados para tal fim. À falta de corpos para dissecar, os anatomistas recorriam a "ressureccionistas", indivíduos que, a troco de dinheiro, invadiam os cemitérios para desenterrar e roubar os cadáveres.



As protecções de ferro como as da fotografia, assim como outras igualmente elaboradas, eram utilizadas por familiares dos defuntos com mais posses. Os mais pobres recorriam frequentemente à vigilância directa, que duraria o tempo tido como suficiente até o cadáver estar impróprio para ser usado nas aulas de anatomia.

Sendo uma actividade lucrativa, não tardou que surgissem "ressurreccionistas" mais empreendedores que produziam os seus próprios cadáveres para venda. Os mais famosos foram os senhores Burke e Hare que, em apenas 10 meses do ano de 1828, liquidaram 16 infelizes para depois venderem os seus cadáveres.

Finalmente, em 1832 e para pôr fim a esta prática, o Parlamento Britânico promulgou o Anatomy Act, uma lei que veio permitir a doação voluntária de corpos para efeitos de investigação.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Postais da Caledónia - Greyfriars Bobby, uma fantástica história fabricada

Estátua e fonte dedicadas a Greyfriars Bobby, inauguradas em 1873


Em Edimburgo, numa avenida perpendicular à Royal Mile, existe uma pequena fonte encimada pela estátua de um cão e, atrás desta fonte, encontra um pub com uma estátua idêntica sobre a porta principal. Este pub tem o nome de Greyfriars Bobby, o mesmo nome que se pode ler na primeira lápide do enorme cemitério situado nas suas traseiras. 

Este Greyfriars Bobby é precisamente o cão representado pelas estátuas e é também o protagonista de uma das mais enternecedoras histórias de Edimburgo, atraindo diariamente a este local inúmeros turistas. Infelizmente, esta história terá sido construída precisamente para cativar os turistas, não correspondendo à verdade dos factos.


A história de Greyfriars Bobby

Conta-se em Edinburgo que, em pleno século XIX, um notável polícia chamado John Gray adoptou um Skye Terrier com 6 meses de idade para servir de cão de guarda e companhia e depressa se tornaram inseparáveis. Um dos seus locais favoritos era o café da senhora William Ramsey, situada na praça de Greyfriars.

Infelizmente, em finais de 1857, John Gray contraiu tuberculose, acabando por falecer em Fevereiro do ano seguinte. Foi sepultado no cemitério de Greyfriars, assim chamado por ter sido um local ocupado pelos monges franciscanos ("frades cinzentos") entre 1447 e 1558. 

O cemitério de Greyfriars, um local tão lúgubre quanto fascinante. São frequentes os relatos de fenómenos paranormais, sendo o mais conhecido o do Poltergeist de Mackenzie. Pelas estatísticas "oficiais", entre 1990 e 2006, 350 pessoas foram atacadas e 170 desmaiaram no local. Uma das mais populares atracções deste local é precisamente a visita nocturna ao Mausoléu Mackenzie e está tudo dito.


Na manhã seguinte, o curador do cemitério, um tal de James Brown, deu de caras com o pequeno Bobby deitado sobre a campa do dono. Como não era permitida a entrada de cães no cemitério, escorraçou-o apenas para o voltar a encontrar no mesmo local na manhã seguinte. Ao terceiro dia, apiedou-se do cão e deu-lhe alguma comida. 

O Bobby acabou por se tornar o único habitante vivo permanente do cemitério, nunca se afastando da campa do dono excepto para ir comer ao café da Sra Ramsey, onde os clientes tinham criado o hábito de lhe dar de comer. Assim, sempre que se ouvia o canhão da 1h da tarde, o Bobby corria para o café, onde comia, e voltava ao cemitério. Esta rotina só terminaria em 1872, com a sua própria morte.


A história verdadeira é substancialmente diferente

Segundo um historiador da Universidade de Cardiff, chamado Jan Bondeson, esta história foi fabricada para atrair turistas com as suas gorjetas. Alarmado pelas diferenças entre os quadros que se pintaram do pequeno cão, enquanto este ainda era vivo, e pela longevidade de 18 anos que a história sugere, concluiu que houve mais que um cão envolvido nesta história.

O primeiro cão terá sido um rafeiro que foi abandonado na zona do cemitério, tendo sido adoptado pelo curador do mesmo, o tal James Brown. O curador, que todos os dias ia comer ao café da Sra Ramsey acompanhado pelo seu cão, começou a contar a história que hoje se conhece (certamente embelezada ao longo dos anos) aos forasteiros que por lá apareciam. Em seguida, acompanhava-os ao cemitério, a troco de uma gorjeta, mostrando-lhes a campa onde o cão teimava em deitar-se.

A história acabou por ser alvo da atenção da imprensa e, como é lógico, o número de turistas interessados em conhecer o pequeno Bobby disparou, para felicidade dos bolsos de Brown. Infelizmente, o cão acabou por morrer e, para não perder a sua fonte de rendimento, o curador do cemitério adoptou outro cão, este sim o Skye Terrier representado nas estátuas. A estátua da fonte foi mesmo elaborada em 1870, usando como modelo o cão, na altura ainda em vida. 

A história acabou por se tornar uma referência incontornável de Edimburgo e ainda hoje, muitos são aqueles que se desviam da Royal Mile para ir ao cemitério de Greyfriars para conhecer os locais onde supostamente decorreu esta fantástica história. Junto ao memorial dedicado ao Skye Terrier, deixam flores e... pauzinhos, algo com que qualquer cão gostaria de brincar, pois está claro. 


Memorial dedicado a Greyfriars Bobby, na entrada do cemitério Greyfriars, onde se pode ler:
"Greyfriars Bobby / Morreu a 14 de Janeiro de 1872 / com 16 anos de idade. / Que a sua lealdade e devoção possam ser uma lição para todos nós." e ainda "Eregido pela Dog Aid Society / of Scotland e descerrado por Sua Alteza Real / o Duque de Gloucester CCVO / a 13 de Maio de 1981"

Foto do pub e da estátua: Terrierman's Daily Dose

segunda-feira, setembro 16, 2013

Postais da Caledónia - Estórias do Castelo de Edimburgo

Da recente visita a Escócia, a recordação da cidade de Edimburgo (Édinbrô como se diz por cá) é uma das recordações que guardo com maior admiração. Ao contrário de Glasgow, Edimburgo é toda ela monumental e cheia de história (e estórias como depois veremos). É obrigatório subir a Royal Mile até ao Castelo, situado num esporão rochoso que consiste no último vestígio de um antigo vulcão. A Royal Mile é, como o nome indica, uma rua com uma milha escocesa de comprimento, isto é, cerca de 1,81 km, ladeada de edifícios histórico com fachadas imponentes. 

A Royal Mile ou, em português, a Um Vírgula Oitenta e Um Quilómetros que, a partir do Parlamento Escocês, sobe até ao Castelo de Edimburgo.


No cimo da Royal Mile, passando por enormes bancadas amovíveis de onde sazonalmente se assiste a paradas militares, chega-se finalmente ao castelo, cuja entrada é guardada pelas estátuas de William Wallace e Robert Bruce, mais conhecidos entre nós como Mel Gibson e Angus Macfadyen, respectivamente. Passando depois por uma segunda porta, chega-se a um primeiro pátio, com uma grande vista sobre a cidade. Foi aí que esperámos pelo guia que nos iria orientar pelos diferentes edifícios do castelo, partilhando, com muito humor, algumas histórias simplesmente deliciosas.


A porta principal do castelo de Edimburgo, sobranceira à qual se encontra a Bateria da Meia Lua e os restos da Torre de David que é basicamente a torre mais importante do Reino Unido. Bom, se calhar estou a exagerar um bocadinho mas lá que houve bom gosto na sua denominação, isso houve!


Vista sobre a cidade e Mar do Norte.


O Canhão da Uma da Tarde

Desde 1861, um tiro de canhão é disparado diariamente e rigorosamente às 13:00 a partir do Castelo de Edimburgo, excepto ao Domingo, Sexta-feira Santa e dia de Natal. A ideia era fazer com que fosse possível a todos os comandantes dos navios ancorados ao longo do estuário, acertarem o seu relógio. Como o som se propaga de forma algo lenta, os navios mais próximos ouviriam o disparo praticamente às 13:00. No entanto, os que se encontravam mais longe só o ouviriam passados vários segundos, pelo que houve necessidade de afixar em cada ancoradouro a hora precisa a que o disparo poderia ali ser ouvido.





Mas se o objectivo do disparo, que hoje continua a ser feito de forma meramente simbólica, era o de permitir acertar os relógios e, inevitavelmente, orientar também a população da cidade nas suas actividades diárias, por que razão se escolheu a uma da tarde e não o meio-dia?

A explicação do guia é simples e mordaz: "Até parece que não conhecem os escoceses! Fica muito mais barato disparar apenas uma vez do que disparar doze vezes!"



Oliver Cromwell ou o homem que morreu duas vezes

O curto período republicano do Reino Unido foi especialmente amargo para a Escócia, que se opôs quase naturalmente à revolução liderada por Oliver Cromwell. Este, depois de assegurar o controlo de Inglaterra, invadiu a Escócia e tomou o castelo de Edimburgo, deixando ali uma guarnição permanente.

Após a sua morte, quando já tinha sido nomeado Lorde Protector e já tinha designado o seu filho como herdeiro, a República não durou muito mais. Alvo da sede de vingança por parte dos monárquicos reempossados, o cadáver de Cromwell foi retirado do túmulo, julgado e condenado à morte por decapitação. Tendo a sua cabeça ficado exposta num espeto durante 25 anos.

Sobre este fim macabro, um actor vestido e armado bem a rigor foi taxativo: -"Após a morte de Oliver Cromwell, sucedeu-lhe o seu filho Ricardo que, infelizmente para ele, não era nem metade do homem que fora o seu pai e nem sequer metade do homem que fora a sua mãe. Em apenas 9 meses, conseguiu perder tudo o que o seu pai levara 9 anos a conquistar (...) O cadáver de Cromwell foi finalmente desenterrado, julgado e condenado à morte por decapitação.

Quem admirar Oliver Cromwell dirá que ele era um homem de tal dimensão que até morreu duas vezes. Se falarem com um escocês ele dirá que Cromwell não morreu as vezes suficientes."



O humor é a tónica dominante entre os guias e actores espalhados pelo castelo. Este em particular permitia que os turistas fossem ter com ele, nas pausas do seu relato da história do castelo, para tirarem fotografias. A cada um perguntava de onde era, tecendo sempre um comentário a propósito. Um deles, quando declarou ser norueguês, levou com um resmungado "Bloody vikings!".

quinta-feira, setembro 12, 2013

Posta em blogosfera alheia

Hoje estamos no blogue "A funda São" com um artigo dedicado à decoração interior da torre de menagem do castelo de Carlisle (Lembram-se? Não? Então cliquem aqui!) e as evidentes discrepâncias entre esta e o que está representado nos painéis interpretativos. Vale a pena espreitar!


segunda-feira, setembro 02, 2013

Recriação histórica do Cerco de Almeida 2013

Como acontece todos os anos, o som dos mosquetes e canhões voltou a fazer-se ouvir nas muralhas de Almeida, com a recriação dos encarniçados combates de que esta vila foi palco há cerca de 200 anos atrás, durante a 3ª invasão francesa. Participaram nesta recriação mais de 200 figurantes (estimativa com o grau de precisão próprio do "olhómetro"), oriundos não só de Portugal como também de França, Reino Unido e Espanha. Sem ter tido oportunidade de assistir às recriações de Sexta e Sábado, decidimos não perder a de Domingo de manhã e, bem cedo, fomos até Almeida.

Com início previsto para as 10h da manhã, a recriação acabou por se atrasar e ainda bem. Assim, pudemos assistir a tudo desde o início. Durante mais de uma hora, os combates desenrolaram-se sobre as muralhas, terminando com a vitória das tropas francesas sobre as anglo-lusas e com a posterior evocação da memória das vítimas dos combates de 1810, que terão provocado 700 a 1.000 mortos.


A cavalaria prepara-se para o combate


No acampamento francês, também a infantaria se vai preparando


O desfilar das tropas, rumo ao campo de batalha



 O balcão do antigo quartel encheu-se de espectadores.


As tropas britânicas assumem as suas posições no terreno.


Tem finalmente início o ataque das tropas francesas


A cadência de tiro é dificultada pela complexidade da preparação dos mosquetes


A pouco e pouco, as tropas napoleónicas progridem no terreno com o apoio da artilharia


A resistência dos portugueses é tenaz


Os franceses tentam assaltar as posições aliadas


Dois batedores tentando perceber o posicionamento francês no terreno. Detectados, serão pouco depois obrigados a fugir.


Mais uma violenta carga da infantaria francesa sobre as posições anglo-lusas


A artilharia francesa continua a bombardear as posições aliadas


Uma carga de cavalaria britânica tenta neutralizar a artilharia francesa


A situação fica de tal maneira escaldante que até surgem pequenos focos de incêndio no terreno 


Uma vez que os mosquetes se revelam pouco eficazes nessa tarefa, outro tipo de soldado é chamado a intervir para extinguir o fogo.





Os últimos momentos da resistência anglo-lusa

A carga final das tropas francesas sobre o último reduto anglo-luso

Embora extremamente interessante, esta reconstituição pecou por vezes por falta de coordenação entre os intervenientes e por alguns momentos de "acalmia", embora compreensíveis dada a heterogeneidade dos participantes e o calor que se fazia sentir. Ainda assim, gostei mais da recriação a que assisti há 3 anos atrás (clicar aqui para o artigo e aqui para o vídeo), que também terá beneficiado da progressiva mudança de cenário.

Independentemente do seu nível de perfeição, este tipo de recriações são de extrema importância para a preservação da memória daquela época tumultuosa da História de Portugal e há inevitavelmente que dar os parabéns a quem anualmente leva a cabo esta iniciativa. O enquadramento paisagístico, esse sim, é inevitavelmente perfeito e merece só por si uma viagem a Almeida.

Para finalizar, convém ter em conta que esta reconstituição foi meramente simbólica. Aquilo que aconteceu naquela tarde de Verão de 1810 foi bem diferente do que foi retratado sobre as muralhas da Estrela da Pedra.


O que realmente aconteceu no cerco de Almeida

Perante a nova invasão francesa, o comandante das tropas anglo-lusas, o Duque de Wellington, definiu uma estratégia de recuo progressivo, desde a fronteira com Espanha até às Linhas de Torres, aplicando uma política de terra queimada de forma a criar atrito no exército francês, tanto em termos materiais como humanos. A espectacular fortaleza de Almeida tinha um papel bastante importante nessa estratégia. 

Tendo sido devidamente abastecida e guarnecida, esperava-se que Almeida resistisse durante alguns meses, obrigando os franceses a retardar a sua marcha ou, na pior das hipóteses, a empenhar ali parte das suas tropas. Infelizmente, nos primeiros dias do certo, um tiro de canhão extremamente feliz acertou em cheio no pátio do castelo medieval, que estava a ser usado como paiol de munições. O resultado foi uma explosão catastrófica que arrasou não só o castelo mas também a maior parte da vila. A fortaleza, tornada indefensável, foi obrigada a render-se, passados que estavam apenas alguns dias de resistência.

O relato de um oficial francês sobre esse momento diz bem da violência da explosão:

"A terra tremeu e vimos um imenso tornado de fogo e fumo erguer-se no centro da Praça. Foi como a erupção de um vulcão - uma visão que não consigo esquecer após 26 anos. Enormes blocos de pedra precipitaram-se nas nossas trincheiras, matando e ferindo vários dos nossos homens. Canhões de calibre pesado ergueram-se dos muros e precipitaram-se longe destes. Quando o fumo se dissipou, grande parte de Almeida havia desaparecido e o resto era apenas um amontoado de destroços".


As ruínas do que foi outrora o castelo medieval de Almeida, nivelado pela terrível explosão de 1810.

O que resta do fosso dá ainda uma ideia do quão monumental seria o castelo


sexta-feira, junho 07, 2013

Muralha de Adriano, aí vamos nós!


122 d.C. Toda a ilha da Britânia encontra-se sob ocupação romana. Toda? Não. A Norte, as bravas tribos dos Caledónios resistem ainda e sempre ao invasor.

Podia ser este o mote de um álbum de banda desenhada sobre um qualquer primo escocês do Asterix mas efectivamente, em 122 d.C. o imperador romano Adriano decidiu que era hora de pôr fim à política expansionista do império, adoptando uma política de consolidação de fronteiras. 

Na ilha da Britânia, ordenou que se construísse uma muralha que, de costa a costa, separasse as regiões pacificadas sob o domínio romano das irrequietas tribos dos Caledónios que moravam nas terras montanhosas do Norte, no território da actual Escócia. O objectivo não era fechar a fronteira mas sim controlá-la, já que, embora existisse uma forte guarnição militar nos vários fortes, fortins e torres da muralha, havia pontos de passagem que permitia a circulação de pessoas e bens.
Construída em apenas 6 anos pelos legionários, esta muralha iria para sempre moldar a paisagem do Norte de Inglaterra, sendo hoje considerada Património Mundial integrada no grupo "Fronteiras do Império Romano", juntamente com as fortificações que hoje se encontram na Alemanha.

A partir da próxima Segunda-feira iniciamos a aventura de percorrer a pé os 140km do trilho da Muralha de Adriano durante 6 dias. Vai ser uma viagem pelos trilhos da História, visitando aldeias, ruínas, escavações e museus que a Muralha guarda ainda.

Acompanhem tudo, aqui no Blog do Katano!


sexta-feira, maio 17, 2013

A memória dos Cátaros no regresso a Montségur

O castelo de Montsegur e, na base, o prado que é conhecido como "Camp dels cremats"

Ainda durante a recente passagem pelos Pirinéus, tive a satisfação de poder voltar à aldeia de Montsegur, dominada pela visão do seu castelo construído no topo de um esporão rochoso. A primeira vez que tentei subir ao castelo, há alguns anos atrás, fiquei frustrado. Chovia a cântaros e o castelo estava escondido pelas nuvens, das quais se ouvia esporadicamente o som dos trovões. Ainda assim, resolvi ser teimoso e iniciei a subida protegido pela floresta, até ao quiosque de venda de bilhetes que se encontra a meia encosta.

O funcionário, que estava distraído a ler uma revista, quase caiu da cadeira quando me encostei à abertura do quiosque e lhe dirigi um "Bom dia!". -"Vai subir?!", perguntou-me ele, ao que eu respondi afirmativamente, já que, tendo vindo de propósito, sentia que era uma pena voltar para trás sem chegar ao castelo. -"Eu não o aconselho a fazê-lo! Há trovoada, lá em cima.", insistiu ele, ao que retorqui -"Sim mas, se eu for atingido por um relâmpago, vocês devolvem-me o dinheiro do bilhete, certo?". Não desarmando, respondeu-me -"Podemos devolver mas só se o conseguirmos identificar.".

A actual "nova" aldeia de Montségur, sob a vigilância do castelo. A antiga aldeia situava-se no topo do esporão, junto à fortificação.


Acabou por levar a melhor, tendo-me convencido a descer para visitar a aldeia e o seu museu. Só regressei três anos mais tarde e a visita valeu bem a espera. A paisagem que se avista do topo do castelo é de cortar a respiração, mas mais chocante que tudo é a própria história deste castelo, assim como daqueles que foram outrora os seus habitantes: os Cátaros!

Os Cátaros ou uma das mais sangrentas atrocidades religiosas da Europa

O Catarismo foi uma variante do Cristianismo que, provavelmente vinda do Sudeste europeu, ganhou extrema popularidade no Sudoeste do actual território francês, entre os séculos X e XII, numa altura em que este território vivia sob a influência do reino de Aragão. Os cátaros chamavam-se a si próprio "Bons homens" e apenas reconheciam o sacramento do "Consolamentum", um baptismo espiritual que os convidava a optar por uma vida de pobreza e abstinência. Renegavam os símbolos, as mulheres tinham funções religiosas activas, embora nos níveis mais baixos e, para além de ferozes anti-clericais, criticavam com veemência a feudalização da Igreja Romana. A cidade de Albi era o fulcro fundamental desta doutrina, daí que os cátaros tenham também ficado conhecidos como albigenses.

A rápida expansão do Catarismo, à qual se associaram vários nobres da região em busca de autonomia, não agradou muito à Igreja, que já na época tinha a particularidade de ser mais célere a condenar as heresias que aconteciam fora da sua esfera do que dentro dela, e após várias tentativas pacíficas de trazer os albigenses de volta à razão, o Papa Inocêncio III encontrou no rei Filipe Augusto de França, ansioso por incorporar a região no seu reino, o aliado ideal para lançar a primeira de duas cruzadas contra os albigenses em 1209. Esta primeira cruzada iniciou-se com o cerco e massacre de Béziers. Diz a lenda que, não sabendo como distinguir católicos de cátaros, o representante pontifical terá afirmado "Matem-nos todos. Deus saberá reconhecer os seus!". 

Depois de Béziers, foi a vez de Carcassone (ver aqui) cair à traição nas mãos dos cruzados


No ano seguinte, na localida de Bram, os requintes de sadismo atingiram o seu auge quando o Simão de Monfort, líder do exército francês, mandou que se arrancassem os olhos, lábios e nariz a 100 prisioneiros, deixando apenas um olho a um deles, fazendo-os depois seguir em fila indiana com a mão sobre o ombro do que seguiam na frente, até à cidade de Cabaret, que 3 meses antes conseguira repelir o cerco católico, numa medida de guerra psicológica.

Após uma segunda cruzada e um esmerado trabalho pela recém-criada Inquisição, a  guerra contra os cátaros teria o seu epílogo no ano de 1244 em Montségur, que por força das circunstâncias se tornara o centro espiritual do Catarismo. Montségur resistiu durante 10 meses ao cerco, acabando por cair graças a uma audaciosa escalada nocturna de um grupo de cruzados. Sem hipóteses de resistir, foi dado aos sitiados o prazo de 15 dias para que preparassem a rendição. A condição era apenas uma: quem não renegasse a sua fé morreria na fogueira. Apesar de muitos terem preferido a conversão, quando o prazo terminou cerca de 200 cátaros, homens, mulheres e crianças, desceram do castelo para morrerem na gigantesca fogueira feita naquele que é hoje conhecido como Camp dels Cremats (o campo dos queimados).

Alguns cátaros conseguiram no entanto fugir, tendo-se refugiado durante alguns dias "infra castrum" (sic), sob o castelo, numa alusão que sugere a existência de grutas que até hoje ainda não foram encontradas. Esta ideia sai reforçada pelo facto de não se ter encontrado até hoje nas pesquisas arqueológicas um número significativo de restos humanos, o que deixa supor a prática de enterramentos em grutas, à semelhança do que aconteceu no castelo de Montreal de Sos (ver aqui). No museu da "nova" aldeia de Montségur, uma vitrina horizontal guarda os esqueletos de um casal de cátaros, assim como as duas pontas das flechas que causaram a sua morte.

Só a partir do século XVIII a sua memória foi resgatada do esquecimento, e o mistério à volta destes homens e mulheres levou a que mais recentemente tenham sido associados a um fabuloso tesouro que estaria ainda escondido, assim como ao Santo Graal. Folclores.

Iluminura: Histoire de France

segunda-feira, abril 01, 2013

O Trilho dos Canos de Água (PR9)

Aproveitando a estadia em Viana do Castelo e um Sábado com condições climatéricas extremamente favoráveis, decidimos trocar o binómio pós-almoço do café e jornal por uma caminhada pelo PR9, o Trilho dos Canos de Água.


Trata-se de um trilho pedestre circular, com uma extensão de 10km, que tem início e fim junto à Basílica do Sagrado Coração de Jesus, no monte de Santa Luzia sobranceiro à cidade de Viana do Castelo, percorrendo os montes próximos e tendo o seu extremo mais a Norte na passagem pela aldeia de São Mamede.

Como 10km era nitidamente coisa "para meninos", decidimos incrementar um pouco a dificuldade do percurso, começando a caminhada na cidade e subindo até ao monte de Santa Luzia pelo escadório. Foi uma proeza tremenda mas, aqui entre nós, eu acho tanto degrau junto deve ser contra a lei e talvez até contra a Convenção de Genebra e o memorando da Troika.


O escadório é acompanhado por uma caleira de água e segue paralelo à linha do funicular de Santa Luzia. Segundo fontes não confirmadas, durante a subida e impressionado com tanto degrau, um dos participantes terá afirmado: "Fico neste degrau. Deixem aqui um ramo de flores todos os anos nesta data."



No topo do escadório, que a partir de certa altura adopta bem a propósito o nome de Calvário, encontra-se uma cabine desactivada do funicular. Ali mesmo ao lado encontra-se a estação de topo e, com a inevitável imagem de grandiosidade, a Basílica. 



Partindo do painel de início do trilho, chega-se a uma bifurcação na qual optámos por tomar a via da esquerda. O trilho segue por um caminho de terra batida, entre vegetação frondosa. O único senão foram 3 motoqueiros que por ali faziam motocrosse e que não consegui fulminar com o olhar. Ficou pois no ar durante algum tempo o cheiro a combustível queimado.





Ao longo do percurso, o trilho cruza-se com várias calçadas que partem pela encosta para rumo incerto. Segundo fonte ligada à Câmara Municipal de Viana do Castelo, muitas destas calçadas serão da altura da Regeneração, no século XIX, quando Fontes Pereira de Melo, então ministro das obras públicas, implementou um programa de fomento de construção e melhoria de infraestruturas viárias. Mas serão todas?  Convém não esquecer que existiu no monte de Santa Luzia um grande povoado que foi romanizado. 


Ao fim de algum tempo, descobre-se o início da razão de ser deste trilho: as múltiplas canalizações da zona da Areosa que abastecem de água a cidade de Viana. Chegamos aos arcos de Fincão, dois arcos de aqueducto paralelos por entre os quais segue o trilho. Verdade seja dita, o que por ali não faltava era água, devido às chuvas dos últimos dias.







A partir dos arcos, eis algo completamente diferente: o percurso passa a ser feito sobre as antigas canalizações de granito até perto da aldeia de São Mamede.




O percurso passa por vários locais que têm um problema que é o seguinte: a humidade. Ora, falar de humidade é falar de cogumelos. Pois bem, cá estão eles:




De quando em vez, pelo meio da vegetação (e quando o nevoeiro desta vez o permitiu) é possível avistar o mar para lá da veiga da Areosa.



Mas nem só de caminhada se faz o percurso. Os praticantes de geocaching também têm com que ficar de barriga cheia.


Mais à frente, constata-se que é necessária a intervenção de um canalizador, visto que o excesso de água que circula dentro dos canos escapa por uma das tampas mal seladas. Senhores dos Serviços Municipalizados, aqui fica o apelo.



A dada altura, um pouco para lá do Alto do Melro, o cano de água chega ao fim, perdendo-se numa galeria mais larga que entra terra a dentro. Com ele termina também a vegetação frondosa que nos acompanhava deste o início do trilho. O local é interessante: muita água, uma paisagem que seria excelente não fosse o nevoeiro tapar-nos as vistas e uma azenha antiga que merece uma vista de olhos.







Já perto da aldeia de São Mamede, encontrámos um pacífico grupo de garranos pastando em liberdade. Dos quatro exemplares, só um pareceu mais incomodado com a presença da objectiva. Esta parte do percurso é feita novamente por alcatrão.



A aldeia de São Mamede encanta pela paz que aqui se vive. A quietude do local apenas foi quebrada por um simpático cão que decidiu acompanhar-nos na caminhada e pelos gritos da criança que, de uma janela longínqua, chamava desesperadamente por ele.








Após algum tempo, abandonamos finalmente o alcatrão e regressamos ao caminho de terra batida que atravessa a crista da serra. No caminho encontramos a peculiar Casinha dos Aviões, à qual o nevoeiro dava um ar fantasmagórico. Trata-se de uma construção inacabada que foi erguida durante a II Guerra Mundial para controlar o tráfego aéreo. Infelizmente para o empreiteiro, o conflito mundial acabou entretanto e a construção nunca foi terminada, encontrando-se hoje algo degradada. Ainda assim, vale a pena subir até ao alto da torre para contemplar a paisagem da foz do Lima, ou pelo menos assim o presumo dado que o nevoeiro nada deixou ver.






Pouco depois, nova calçada. Esta de construção muito mais cuidada do que as outras, deixando supor uma datação mais recente. Foi o prelúdio do regresso à estrada asfaltada que, passando pelo Campo de Tiro Militar, nos levaria de volta ao ponto de partida, passando pela torre de água e pela Citânia de Santa Luzia.


Feito o percurso, podemos dizer que este é um trilho interessante. Está bem sinalizado, é de baixa dificuldade e muito calmo. É  possível conhecer graças a ele alguns "cantinhos" mais escondidos dos montes à volta de Viana do Castelo. Só é pena ter alguns troços por asfalto. Há muito pouco trânsito nesses troços, é certo, mas podendo-se evitar será melhor. Por outro lado, os pés agradecem.

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