Mostrar mensagens com a etiqueta Muralha de Adriano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Muralha de Adriano. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, julho 02, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 2

Mapa do percurso
(clicar para ampliar)

Dia 2 -  De Heddon-on-the-Wall a Chollerford (36km porque achámos que 23 era coisa de meninos)


[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Após uma noite bem dormida, apesar da luz do dia já nos entrar pela clarabóia pouco depois das 4 da manhã, preparámo-nos para o nosso 2º dia de caminhada, um dia que sabíamos que iria ser muito mais interessante que o anterior. Depois de um pequeno-almoço reforçado, mais à british, despedimo-nos da nossa bem disposta anfitriã e pusemo-nos a caminho.


Paula Laws, gere a tempo inteiro e praticamente sozinha o Bed and Breakfast da Houghton North Farm e, quando é preciso, ainda dá uma ajuda ao seu marido no trabalho da quinta.



O casario ao redor da quinta, que inclui uma pequena escola actualmente a servir de moradia, tem alguns pormenores interessantes como este.



Uma vez que já tínhamos visitado Heddon-on-the-Wall no dia anterior, optámos por seguir um caminho que nos permitiria voltar ao trilho sem ter de ir à aldeia, poupando assim algum tempo.


Um bonito atalho para regressar ao Trilho da Muralha de Adriano


A Estrada Militar

Pouco depois, chegámos à estrada B6318, mais conhecida como a Estrada Militar (Military Way), que basicamente consiste no maior atentado alguma vez feito à Muralha de Adriano já que vários dos seus quilómetros foram construídos sobre a própria Muralha. Isto aconteceu no Levantamento dos Jacobitas de 1745, no século XVIII, quando uma questão de sucessão à revolta dos escoceses católicos contra os ingleses protestantes, procurando o regresso do rei exilado Jaime II (VII de Inglaterra).


A "Military Way", actual B6318, foi construída em 1752 e muitos dos seus quilómetros estendem-se sobre a própria Muralha de Adriano.



Vestígios da Muralha no talude da estrada


Na altura, havendo uma gritante falta de estradas que permitissem ao exército governamental movimentar-se de forma responder mais eficazmente às investidas dos rebeldes, o general Wade mandou que se construísse a Estrada Militar num eixo vital: Newcastle - Carlisle. Sendo uma estrada empedrada, aproveitou logicamente a melhor fonte de matéria prima disponível: a Muralha de Adriano, e foi sendo continuamente utilizada até aos nossos dias, na forma da "nacional" B6318.

A nossa permanência na Estrada Militar foi fugaz já que, após algumas dezenas de metros apenas, a sinalização com a avelã (o símbolo dos National Trails) nos orientou para umas pequenas escadas de madeira, que nos fizeram transpor um muro de limite de propriedade para um prado. Nesse momento, experimentámos um dos aspectos que fazem deste trilho uma pequena maravilha para o caminheiro e que seria omnipresente até à meta final: dentro do prado o trilho havia sido assinalado pela passagem de um corta-relva. Foi pois por esta novidade no trilho que chegámos ao próximo forte da Muralha.


Um trilho com piso verdadeiramente "gourmet"

Vindobala, o forte que ainda espera pela luz do dia

Estavam decorridos apenas 2km quando chegámos à quinta de Rudchester, construída sobre parte do forte romano de Vindobala. Não há muito para ver neste forte que permanece oculto sob a terra. Apenas se vêm as irregularidades do terreno que denunciam a plataforma onde se situava.


Nesta imagem do Google Maps é possível ver os contornos do forte de Vindobala, que estaria também saliente na parte Norte da Muralha, aqui substituída pela estrada. O Trilho é visível contornando a parte Sul.



E é este o aspecto do forte. O que falta deve ser completado com recurso à imaginação do observador. Em alternativa pode-se sempre dar uma vista de olhos ao painel informativo presente no local. Ora vejamos:

Um olhar mais treinado conseguirá perceber as diferenças entre o aspecto actual do forte e aquele que terá sido o seu aspecto original.

Este forte terá sido ocupado durante 300 anos, praticamente até ao momento em que os romanos abandonaram a Britânia, e os seus últimos ocupantes terão sido os soldados da primeira coorte dos Frisiavónios, tribo da região que corresponde actualmente à zona de fronteira entre a Holanda e a Alemanha. Embora tenha sido alvo de escavações em 1897, 1902 e 1924, escavações essas que permitiram localizar alguns dos edifícios mais importantes do forte, as investigações seguintes concentraram-se principalmente no vicus, o povoado que se desenvolveu fora do forte (ler artigo anterior). 

Actualmente, o forte espera por melhores dias e, estando tão perto de Heddon-on-the-Wall, esta aldeia só teria a ganhar com a musealização deste local. 


Até à Estalagem de Robin dos Bosques

Após a apreciação possível do forte de Vindobala, prosseguimos a nossa caminhada para Oeste, rumo àquela que seria a nossa primeira paragem num sítio icónico do trilho: o Robin Hood Inn, deliciando-nos pelo caminho com a paisagem à nossa volta (apesar de umas nuvens suspeitas começarem a tapar ocasionalmente o Sol). Não tardou muito para que atravessássemos a estrada, passando a caminhar directamente dentro do fosso da Muralha! Foi pelo fosso que chegámos ao lugar de Harlow Hill, um pequeno conjunto de casas ao redor de uma antiga igreja que hoje é usada como palheiro. 

Paisagens que prendem o nosso olhar!


Depois de atravessarmos a estrada, fomos parar ao fosso da Muralha! Ainda assim este foi cuidadosamente preparado com a colocação de lajeado para evitar que se caminhe em lama nas alturas mais chuvosas do ano, conceito que nestas latitudes é difícil de localizar em termos cronológicos.


A antiga igreja de Harlow Hill, actualmente a servir de palheiro na quinta anexa.



Depois de Harlow Hill, os reservatórios de Whittledene que com o tempo se transformaram num santuário de aves. Esta particularidade acabou por ser explorada com a instalação de mesas, bancos e de um observatório de aves, tornando muito difícil a tarefa de resistir à tentação de aqui fazer uma pausa. Felizmente, a nossa firmeza de espírito levou a melhor e prosseguimos de forma determinada no nosso caminho... até porque já estávamos à vista do Robin Hood Inn!


Um curioso apontamento no trilho, quase a chegar ao Robin Hood Inn.

Ao cumprirmos um terço daquela que seria a distância normal para a tirada do dia, chegámos diante do Robin Hood Inn, em East Wallhouses. Este é um sítio de paragem obrigatória no trilho por vários motivos. Primeiro porque se trata do 2º local, depois de Segedunum, onde se deve carimbar o Passaporte do Trilho da Muralha de Adriano. Em segundo lugar porque este é um dos poucos locais onde se pode comer uma refeição antes de chegar a Chollerford! Finalmente, porque se trata de um pub tão antigo quanto a Estrada Militar, já que abriu em 1752! Pretextos mais que suficientes para entrarmos e nos sentarmos para saborear um belo "Brownie" acompanhado por uma chávena de café.


O famoso Robin Hood Inn, um ponto de paragem obrigatória no trilho que disponibiliza um espaço de campismo gratuito nas traseiras da casa, desde que os campistas comam no pub.



O interior do pub com o elemento mais importante de todo o espaço (logo a seguir às torneiras de cerveja): a indispensável lareira.



No exterior, a caixa que guarda o carimbo (e a almofada) para carimbar o Passaporte da Muralha de Adriano. Não está fechada nem é preciso uma vez que existe por estas paragens um grande respeito por aquilo que é público, mais ainda quando está associado a Trilho. Viríamos na penúltima etapa a comprovar isso quando, a caminho de Carlisle, fizemos uma admirável descoberta no Trilho (lá chegaremos).

Infelizmente, mal saímos do pub, a chuva começou a cair com crescente intensidade, tendo sido necessário recorrer ao equipamento impermeável. Seguindo em frente, voltámos a atravessar a estrada e avistámos pela primeira vez o elemento mais impressionante da estrutura defensiva complementar da Muralha: o VallumPara sabermos do que se trata, convém abrir aqui um parêntesis de alto valor histórico-cultural para falar um pouco sobre a estrutura da Muralha de Adriano. 


A estrutura da Muralha de Adriano

O projecto inicial da Muralha de Adriano não incluía fortes. Já existiam vários situados numa linha mais distante à rectaguarda, ao longo de uma via estratégica fundamental, que os Saxões viriam depois a chamar de Stanegate (a Estrada de Pedra), que ligava as cidades de Corstopitum, junto à aldeia de Corbridge que nesta etapa iríamos visitar, e Luguvalium, a actual cidade de Carlisle. 

Esta primeira fase da Muralha pressupunha a construção de torres e fortins, estes últimos num total de 80 e construídos a cada milha romana, sendo que nos intervalos entre eles foram construídas duas torres de vigia/sinalização. Cada fortim possuía uma porta de passagem na muralha e tinha uma guarnição que podia chegar a mais de 30 soldados auxiliares. A função da Muralha não era impedir a passagem entre Norte e Sul mas sim controlá-la, sendo certamente local de cobrança de portagens para quem vinha a território oficialmente romano fazer negócios. Não sendo uma fronteira estanque, a influência romana prolongava-se muito para lá da Muralha.

Reconstrução de uma das portas do forte romano de Arbeia, na margem Sul da foz do rio Tyne, perto de Segedunum (ver artigo anterior). Foto: Roman Footprints


Mais tarde, alguns fortins foram substituídos pelos grandes fortes hoje conhecidos, que abriam em geral não uma mas até três portas (algumas duplas) para o lado Norte da Muralha, abandonando-se alguns dos fortes da rectaguarda. A guarnição dos fortes, dependendo do seu tamanho, podia incluir 500 a 1.000 soldados. Sendo fortes permanentes, para além dos habituais edifícios de aquartelamento, estábulos, casa do comandante (praetorium) e centro de comando (principia), comuns em fortes de campanha, estavam ainda dotados de equipamentos adicionais como latrinas, hospital, celeiros, termas e oficinas.

Mas para além dos fortins, fortes e torres, a Muralha incluía outras obras defensivas complementares que a tornavam ainda mais impressionante. À sua frente foi construido um fosso e, na rectaguarda, uma enorme vala com 3 metros de profundidade, ladeada por duas elevações: o VallumEntre o Vallum e a Muralha, os romanos construíram uma via militar para deslocar mais rapidamente os soldados ao longo da Muralha. 

Os sistemas defensivos da Muralha de Adriano, da esquerda para a direita: rampa, fosso, a Muralha propriamente dita, a via militar romana para deslocar os soldados ao longo da Muralha e o Vallum ladeado por duas elevações artificiais. Imagem History of England

Ainda se discute qual seria o seu propósito, havendo quem defenda tratar-se de uma estrutura de defesa para perigos vindos da rectaguarda (nem sempre a convivência com os indígenas submetidos se mantinha pacífica) ou simplesmente a demarcação física da zona militar da Muralha, para impedir a circulação de civis fora das passagens autorizadas (fortins e fortes). Com a construção do Vallum, logo após o início da construção dos fortes, o número de pontos de passagem na Muralha terá sido reduzido de 80 para apenas 15!


O castelo de Halton e o forte romano de Onnum

Como eu dizia atrás, foi portanto sob intensa chuva que continuámos a nossa caminhada mas nem por isso deixámos de nos impressionar com a visão do Vallum, mas antes disso foi necessário enfrentar pela primeira vez uma manada de gado bovino que, com elevada desfaçatez, se tinha ido instalar em pleno Trilho! 

Chuva, chuva e mais chuva. Bem-vindos a Inglaterra!


O momento em que demos de caras com o movimento bovino "Ocuppy Hadrian's Wall Trail". Com uma tremenda frieza e presença de espírito acabamos por passar por elas. Pronto eu confesso, seguimos o mesmo percurso que as senhoras que iam à nossa frente fizeram, e que evitava inteligentemente passar junto dos vitelos.



Do fundo deste Vallum, 19 séculos de História contemplam os caminheiros!

Foi já com a chuva a parar que chegámos à parte do Trilho que atravessa o portão de entrada da propriedade do Castelo de Halton, após cerca de 3/5 da distância total do percurso normal, do qual parte perpendicularmente para Sul uma pequena estrada semi-privada. Esta estrada, pela qual se pode circular ao abrigo da lei de "Right of Passage" promulgada em 2000, que permite que se possam atravessar zonas privadas, em locais previamente demarcados, para efeitos de recreio ou exercício, passa junto ao Castelo e leva até à aldeia de Corbridge mais a Sul.

O cruzamento do trilho com esta estrada fica no preciso centro do antigo forte romano de Onnum, ocupado entre 270 e 370 d.C, e cuja metade Norte, no outro lado da estrada, é já muito difícil de perceber. 

O forte de Onnum, no cruzamento do Trilho com a estrada que atravessa a propriedade do Castelo de Halton


Ora foi enquanto trocávamos o nosso calçado e meias encharcados que tomámos a decisão de ir até Corbridge ver o que se passava, aproveitando para levantar dinheiro e visitar a cidade romana. Sem termos uma noção precisa das distâncias, estávamos longe de imaginar que este desvio acabaria por acrescentar cerca de 13km ao percurso!




O Castelo de Halton, propriedade privada construída em volta de uma antiga "peel tower", uma torre medieval de vigia e sinalização construída devido às constantes incursões dos "Border Reivers", saqueadores profissionais que assolavam as zonas fronteiriças. É uma história muito interessante -havia regras específicas para o exercício deste tipo de actividade!- de que falarei em outros artigos.


Momento de convívio com um habitante local, junto ao Castelo de Halton


Corstopitum, a cidade romana sobre uma série de fortes

Após pouco mais de uma hora (e muito alcatrão) chegámos finalmente a Corbridge, uma simpática aldeia com habitantes não menos simpáticos, desde a menina que nos vendeu as sandochas do almoço e que nos acusou de sermos os portadores do mau tempo, até às senhoras mais entradotas que elogiaram o meu bastão de caminhada. Do centro da aldeia ao conjunto arqueológico de Corstopitum (ou Coria) foi questão de minutos (o tempo urgia já que, em geral, este tipo de sítios fecha às 6 da tarde e já não são admitidos mais visitantes a partir das 17h30). 

A actual Corbridge vista da cidade romana de Corstopitum

A cidade romana desenvolveu-se a à volta de uma sucessão de fortes que foram sendo construídos no local durante mais de 80 anos, tendo a estrutura urbana mantido um "enclave" militar no seu centro, quando já há muito esta zona deixaram de servir de forte. Foi nas escavações feitas no centro militar desta cidade, durante a década de 1960, que se fez uma das maiores descobertas arqueológicas da região da Muralha de Adriano: o tesouro de Corbridge (ver aqui), consistindo num cofre de madeira que continha vários objectos pertencentes a um soldado romano: uma armadura segmentada, ferramentas e armas de campanha, tábuas de cera para escrita e papiro. Algum motivo terá levado um soldado a guardar o seu equipamento ou a pedir a alguém que o guardasse e, por capricho do destino, nunca o terá recuperado. Este tesouro encontra-se em exposição no museu / centro interpretativo das ruínas.


Restos de uma fonte e, atrás dela, do aqueducto que a alimentava



Estruturas civis junto à "Stanegate" a estrada que passsava pelo centro desta cidade, ligando-a a Luguvallium, a actual Carlisle



Outra perspectiva da estrada principal, com uns belos chuveiros no horizonte.



A "sala-forte" de um antigo forte. Era uma sala segura no centro do edifício de comando e servia para guardar bens preciosos como o salário dos soldados.



Embora possa parecer que este muro terá feito parte de uma casa construída por um antepassado latino de Gaudi, ele é na verdade a consequência da construção civil por cima de estruturas militares anteriores. O muro foi construído directamente por cima do fosso do antigo forte, que entretanto fora aterrado, mas a posterior acomodação de terras acabou por torcê-lo da forma que se vê.



Dois habitantes locais que nos vigiaram com muita atenção ao longo da nossa visita à parte Sul das ruínas.

Terminada a visita já em cima das 18h, recuperámos as mochilas que havíamos deixado na recepção, retomando em seguida o caminho de regresso ao Trilho, quase 6km a Norte. Ao chegarmos novamente ao Castelo de Halton, decidimos ligar à proprietária do Bed and Breakfast onde iríamos ficar nessa noite, para a avisarmos que nos tínhamos atrasados e só chegaríamos depois das 21h30. De imediato perguntou se queríamos que nos viesse buscar mas obviamente recusámos. Aceitámos no entanto que nos viesse buscar mal chegássemos a Chollerford, uma vez que a sua quinta ficava ainda a 4km daí.


O touro, a Muralha e o campo de batalha

Foi já bastante cansados que fizemos o que restava ainda do caminho até Chollerford, num percurso que nos levou alternadamente a caminhar pelo Vallum e pelo fosso até que, no sítio de Planetrees, voltámos a encontrar vestígios da própria Muralha, estes com uma característica muito importante.

Nesta altura a menção de Vallum (à esquerda das giestas) já só nos fazia pensar em Valium, algo que teria vindo mesmo a calhar dadas as dores de pés e pernas...


...e depois, claro! Tinha feito questão de colocar escadinhas em vez de portões, para deixar a coisa mais interessante! O ar de "Tens aí a motosserra?" da Ana diz tudo.


A entrada no bosque da Stanley Plantation até foi simpática.


A saída do bosque da Stanley Plantation podia ter sido mais simpática.


Cruzando novamente a estrada, passámos ao fosso da Muralha. A visão que a partir de certa altura tivemos daí para o vale do rio North Tyne, que passava por Chollerford, insuflou um novo ânimo para o que ainda faltava da caminhada e bem útil que essa injecção provou ser!

Este "Tête-à-tête" junto ao fosso foi apenas o prenúncio de um outro que teríamos uns minutos mais à frente com uma manada liderada por um touro nitidamente viril e que fez despertar o nosso interesse por uma bonita cerca que nos fez desviar um pouco do Trilho. Quem nos visse até seria capaz de achar que estávamos deliberadamente a procurar evitar passar no raio de acção daquele garboso macho bovino. Este da foto optou por uma retirada estratégica à vista do meu bastão de caminhada que tão boa impressão havia causado junto das senhoras de Corbridge.


Não muito depois, chegámos a Saint Oswald, local onde uma igreja assinala a vitória de Oswald, rei dos Anglos (povo bárbaro vindo do actual território alemão que para aqui migrou após a partida dos romanos), sobre Cadwallon, rei dos Bretões (os celtas que já viviam nesta ilha antes da chegada dos romanos), na batalha de Heavenfield aqui ocorrida no século VII d.C e na qual a Muralha de Adriano foi um elemento táctico importante.

Logo a seguir chegámos a Planetrees, depois de mais uma vez termos atravessado a estrada agora para o lado do Vallum, dando de caras com uma boa secção da Muralha, algo que já não acontecia desde Heddon-on-the-Wall. Esta secção da Muralha foi salva da destruição por William Hutton, tido como a primeira pessoa a percorrer a pé todo o percurso da Muralha de Adriano desde o início da Era Moderna. Ao chegar aqui Hutton deparou-se com vários trabalhadores desmanchando a Muralha para utilizar a pedra na construção de uma quinta ao lado. A sua intervenção foi decisiva para convencer o proprietário destas terras a deixar intacta a secção hoje visível mas já não veio a tempo de salvar os 200m que entretanto já tinham sido destruídos.


O troço de Planetrees, salvo por William Hutton.

Este troço é importante na medida em que é a primeira secção da Muralha de Adriano para quem vem do Este que apresenta uma construção estreita (2m) sobre alicerces largos (3m), ao contrário do que acontecia em Heddon onde a Muralha tinha 3m de largura. Foi portanto algures entre estas duas actuais localidades que os romanos decidiram desistir de construir uma muralha larga, apesar de os alicerces já estarem feitos, quiçá por razões económicas ou para apressar o processo de construção.


Muralha estreita sobre alicerces largos, numa novidade na Muralha para quem vem de Este

Já perto das 22h chegámos finalmente a Chollerford e, conforme combinado, telefonámos à Sra Sandra Maughan que poucos minutos depois apareceu para nos dar boleia até à sua quinta, a Green Carts Farm, onde iríamos pernoitar. Estávamos exaustos depois de quase 40km de marcha com o peso das mochilas às costas mas tinha valido a pena.

No dia seguinte iríamos começar a caminhar pela secção mais espectacular do Trilho da Muralha de Adriano mas, antes disso, haveria ainda um forte para visitar.

Próximo capítulo: O forte mais bem conservado de todo o Trilho que entrava agora na sua parte mais espectacular!

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

sábado, junho 29, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 1

Mapa do percurso.
(clicar para ampliar)

Dia 1 - De Wallsend a Heddon-on-the-Wall (25km + 3 de descontos)

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Quando acordámos para o nosso primeiro dia de caminhada ao longo do Trilho da Muralha de Adriano, ficámos um pouco preocupados com o tom cinzento escuro do céu. Decidimos no entanto deixar as preocupações para depois do pequeno-almoço e de umas belas canecas de café (pelas nossas contas, a taxa de câmbio do café britânico para o café português é de 3,75 canecas para uma chávena).

O proverbial humor inglês manifestou-se logo na conversa que tivemos com dois funcionários mais velhos do hotel: -"Vocês vão fazer o trilho?! Bom, desculpem lá o tempo que está!". Obviamente que lhe disse que não fazia mal pois, conhecendo alguma coisa sobre Inglaterra, não trazíamos expectativas muito elevadas a respeito da meteorologia, levando uma uma risada geral. A comparação com o clima português foi depois inevitável mas ficaram extremamente surpreendidos quando lhes disse que, na semana anterior, tinha nevado na nossa região. Ao explicarmos que havia em Portugal quem dissesse que este "Inverno de Verão" seria uma imposição do FMI pois estaríamos a viver Verões acima das nossas possibilidades, voltaram a rir e -claro está!- deu azo a mais um comentário irónico -"Bom... é uma teoria. Um bocado fraca, mas uma teoria!". 

A preparação final! O ar resoluto diz bem do nível de determinação, isto se conseguirmos ignorar a dificuldade em conseguir fechar tudo o que é fecho da mochila em tempo minimamente decente.


Tudo tratado, saímos finalmente do hotel para atravessar a zona residencial até à estação de metro de Chillingham Road, a partir de onde viajaríamos até ao ponto de partida da nossa caminhada que, 5 dias depois, nos levaria à costa oposta de Inglaterra.

Estação de metro de Chillingham Road. O caminho era por enquanto para Este.

Wallsend e o Forte de Segedunum

Wallsend, uma zona residencial periférica que prosperou a partir da Revolução Industrial, quando era então um descampado, devido às suas minas de carvão, fica a cerca de 6 km para Este do centro de Newcastle e é aí que se situa o início (ou fim, para quem começa na extremidade oposta) do trilho da Muralha de Adriano, mais precisamente nas ruínas e centro interpretativo do forte romano de Segedunum. Numa primeira fase de construção, o extremo da Muralha situava-se em Pons Aelius, portanto na zona do actual castelo normando da cidade, tendo sido depois prolongada até Segedunum, sem ter no entanto a espessura e os cuidados defensivos que em geral foram aplicados no grosso da Muralha. Mal chegámos à estação de Wallsend, avistámos imediatamente a torre de 34m que foi construída para permitir uma vista panorâmica dos vestígios do forte.


Entrada para as ruínas, museu e centro interpretativo do forte romano de Segedunum.

Apesar de ser o forte mais escavado de todos os da Muralha, das ruínas propriamente ditas pouco há para ver. O facto de esta ter sido uma zona de construção intensa levou ao desaparecimento de praticamente toda a pedra que ainda sobrava. Inclusive, sobre o forte, foram construídos várias naves fabris e um hotel (este comprovadamente todo com pedra do forte). A própria estrada corta um terço do forte mas as intervenções nessa área, que actualmente é residencial e não faz parte do conjunto visitável de Segedunum, deixaram uma boa ideia da sua forma original. Estima-se que a guarnição deste forte tenha sido composta por 600 soldados. Fora do perímetro do forte para Sudoeste, foi construído um edifício que recria aquilo que terão sido as termas do forte.

Vista aérea do forte de Segedunum, sendo bem visível a sua forma original. Também é possível a forma como este forte encaixava na Muralha (que destaquei a vermelho), tendo três portas abertas no lado Norte e uma aberta para Sul. No canto inferior direito, vê-se a muralha a inflectir para terminar pouco depois na margem do rio Tyne. 



Da torre avista-se a disposição geral do forte, as termas que foram construídas de raiz para efeitos pedagógicos (foram copiadas em espelho dos vestígios de outro forte). Avista-se também parte dos antigos estaleiros e um belo céu carregado de nuvens.


Pormenor dos aquartelamentos e cavalariças. Estas distinguem-se pelas cavidades destinadas a receber e conter a urina dos cavalos. Não chegámos a saber como é que esta era depois retirada mas também não fizemos muita questão de tirar essa história a limpo.

As Termas

As termas romanas, esse ícone da cultura romana, eram acima de tudo locais de socialização onde se discutia política, negócios, coscuvilhices ou, como seria aqui mais provável, acontecimento mais ou menos importantes da vida militar dos soldados do forte. O banhista devia sempre começar por praticar ginástica ou luta livre, passando em seguida ao sudatorium, uma sala muito quente que o fazia suar. Em seguida, passava para o banho quente, o caldarium, depois para o banho tépido, o tepidarium, e finalmente para a piscina do frigidarium, o banho frio. No final era massajado e untado com óleos aromáticos.

O edifício das termas foi uma adição contemporânea, para efeitos pedagógicos. Haveria de facto umas termas (fora do forte para não distrair os fanáticos dos banhos) mas não se sabe ainda onde. Estas foram baseadas na planta das do forte de Chester (daqui a dois artigos falamos dele!) mas, para poderem encaixar neste cantinho, a planta foi aplicada em espelho em relação à original. 


O edifício das termas, com o típico telhado romano




Parte muito interessante: como é que os romanos aqueciam as termas? Graças a um sistema chamado hipocausto em que o calor gerado por uma fornalha circulava sob o chão, que era sustentado por pequenas colunas ou arcos de tijolo e pelas paredes e tecto através de tijoleira oca. 


Não se aplicou mosaico no pavimento porque se pensou que, sendo umas termas para militares, a funcionalidade era mais importante que o requinte da decoração. Ainda assim, houve um evidente esmero na aplicação de frescos nas paredes e no tecto e saímos daqui com bastantes ideias arrojadas para a decoração da sala lá de casa.

Uma fonte no sudatorium, para que os banhistas pudessem molhar a cara ou beber para não desfalecerem devido ao calor.


As Latrinas das termas

No mundo romano abundavam as latrinas públicas nas quais, em longos bancos com pequenas aberturas, as pessoas se sentavam lado a lado. Consegue-se facilmente imaginar as belas conversas que decorreram nestas belas instalações sanitárias de uso colectivo, enquanto se aliviava o organismo de matérias dispensáveis mais ou menos odoríferas. Certas latrinas públicas teriam até capacidade para uma centena de utilizadores heterogéneos nos seus níveis de aflição.

Já agora, a título de curiosidade, sabiam que para os romanos a urina era valiosa? Para esta existiam pias colectoras onde ela era descarregada por quem precisava de se aliviar. O conteúdo das pias era depois vendido para a indústria têxtil sendo usado para o branqueamento de togas, por exemplo, graças à presença de amoníaco na sua composição. Também era usada para (deixem-me aqui consultar a cábula) branquear os dentes e como remédio contra alguns males. Adiante.




Como não podia deixar de ser, eis as latrinas! Os romanos usavam um antepassado do papel higiénico: esponjas espetadas na ponta de um pau. Para além da água que corria sob os assentos, também aos pés dos utilizadores havia uma caleira na qual corria água limpa que servia para lavar as esponjas no final do processo.

Para uma imagem mais concreta do ambiente comunal das latrinas, encontrei este pequeno vídeo demonstrativo. Ignorem a presença feminina pois, se no caso de latrinas públicas estas eram usadas tanto por homens como mulheres, já neste caso em particular só era usada pelos soldados do forte.



A Muralha e os seus construtores

No exterior perto da cerca junto à qual passa o trilho, encontramos uma estela que recorda os construtores da Muralha. Todos? Claro que não. A Muralha foi construída de 122 a 128 d.C. pelos soldados de 3 legiões, numa altura em que as legiões eram compostas por cerca de 5000 legionários e muitas vezes um número equivalente de auxiliares (soldados que não eram cidadãos romanos). As legiões dividiam-se depois em 10 coortes e cada uma destas em 6 centúrias, comandadas por um centurião. Na construção da muralha, à semelhança do que acontece nas construções medievais com as marcas de canteiro, os soldados das centúrias assinalavam a parte da Muralha que havia construído com uma inscrição com o nome do seu centurião. Nesta estela estão pois compiladas todos os nomes de centuriões encontrados até agora ao longo da Muralha.

A estela dedicada aos "construtores" da Muralha de Adriano

Fora do perímetro do forte e junto aos vestígios da Muralha de Adriano que se estendem para Oeste, foi construído aquilo que terá sido o seu figurino original, com cerca de 4m de altura. Discute-se ainda o formato das ameias mas, sobretudo, se seria ou não caiada de branco para ser vista ao longe como símbolo da glória de Roma. Na face oposta desta construção foram experimentados para efeitos ilustrativos alguns tipos de revestimento.


A (re)construção da Muralha junto aos alicerces da verdadeira e, em primeiro plano, alguns troncos assinalam as cavidades para postes encontradas nas escavações. Não se sabe se teriam feito parte de alguma estrutura defensiva ou se estariam associados à povoação que se desenvolveu à volta do forte e em ambos os lados da Muralha.


Experiências de revestimento


A caminho!

Na visita a Segedunum acabámos por nos distrair um pouco e, quando demos conta, já era quase meio-dia! Comprámos os passaportes para irmos carimbando ao longo do trilho e assim obtermos um belo certificado no final, recuperámos as mochilas que havíamos deixado na recepção, e fizemo-nos ao caminho! É difícil dizer ao certo onde é que aqui começa (ou acaba) o trilho. Nós decidimos partir do princípio que o mesmo começa simbolicamente junto à estela e na prática atrás do centro interpretativo com o início da rampa que dá acesso à "Hadrian Way".

"A minha intuição feminina diz-me que o trilho começa aqui!"

Esta rampa dá acesso à via mista (ciclovia nº72 e via pedestre) que foi construída sobre uma linha de caminho de ferro abandonada. Desta ainda se podem ver ao longo do caminho os vestígios de várias pontes actualmente demolidas. Esta ciclovia 72 faz parte da National Cycle Network que, no Reino Unido, agrega quase 23.000 km de ciclovias (ver aqui). Espantoso! Já em relação à via pedestre, esta Hadrian's Wall Trail integra-se no conjunto dos chamados National Trails que, só em Inglaterra e Gales, se estende por 4.000km! Já na Escócia, existe um conjunto de trilhos próprios, os Great Trails, formando uma rede de mais de 2.700 km!

Entrando na via, encontrámos mais à frente a secção da Muralha que partia do forte e terminava na margem do rio Tyne. Esta seria a última vez que veríamos vestígios da Muralha antes de Heddon-on-the-Wall, o fim da etapa portanto. Isto tem a ver com a decisão no planeamento do trilho de tirar os caminheiros  da malha urbana, levando-os a percorrer um percurso muito mais calmo e interessante junto ao rio. Há também que ter em conta o facto de já não haver praticamente vestígios da Muralha em Newcastle. Existem sim mais a Oeste (ver mapa no início do artigo) restos da entrada Sul de um forte (Forte de Condercum) e ainda de um pequeno templo dedicado ao deus de origem germânica (actual Alemanha) Antenociticus. Os soldados deste forte eram portanto germanos.


O último troço da Muralha antes do fim da etapa, o trilho sobre uma antiga linha de caminho de ferro e uma valente caminheira a preparar-se para gastar as solas (as suas e a do bastão).

Em Newcastle fez-se um trabalho muito bom no que diz respeito a vias pedestres e ciclovias, começando na forma como as antigas linhas férreas do período áureo industrial foram reaproveitadas e terminando na forma como estas foram rodeadas de áreas florestais que as isolam da visão das zonas fabris. No caminho cruzámo-nos várias vezes com ciclistas e outros caminheiros, apesar de estarmos em horário laboral numa Segunda-feira. Pouco depois de termos começado chegámos ao início da zona urbana de Newcastle mas só após mais de uma hora chegaríamos ao centro.

Newcastle outra vez, pela última vez.



O trilho chega finalmente ao rio Tyne, numa zona que infelizmente sofre ainda com a poluição de uma fábrica de alcatrão que já não existe actualmente. Dado novo: o Sol deu mostras de querer aparecer.


Quase, quase à vista do centro de Newcastle, a marina de Saint Peter quebra de certa forma a monotonia do caminho.



Finalmente no horizonte avistam-se as pontes que nos indicam que estamos já a chegar ao centro da cidade.  Estas pontes são um símbolo de Newcastle.

Alinhamento "pontenário". Quantas pontes conseguem contar?


A Millennium Bridge, a ponte mais recente inaugurada em 2002. Trata-se de uma ponte pedonal com características únicas. O tabuleiro e o arco são uma única peça e quando a ponte é movimentada para deixar passar o tráfego fluvial, pivoteia, ou seja, o tabuleiro e o arco deslocam-se no sentido dos ponteiros do relógio. Nesse mesmo momento, o conteúdo dos caixotes de lixo da ponte é automaticamente descarregado para depósitos nas extremidades. Para lá da ponte avista-se o BALTIC, um centro de arte contemporânea instalado numa antiga moagem.


O SAGE, da autoria do famoso arquitecto britânico Norman Foster, responsável entre outros projectos pelo actual Estádio de Wembley e pelo "supositório" de Londres, é um centro de conferências e espectáculos que não passa despercebido nas margens do Tyne.

Nesta altura do percurso, decidimos fazer um pequeno desvio para o centro de Newcastle para ir comer qualquer coisa. Acabámos por aproveitar a oportunidade para entrar na Catedral de São Nicolau, que no dia anterior já estava fechada.


Pontes sobre a "baixa" de Newcastle


A Catedral de São Nicolau, patrono dos navios e marinheiros. Este templo, actualmente a sede de diocese mais a Norte de Inglaterra, tem uma história que começou em 1091, sendo que o edifício actual remonta ao século XV. No exterior, uma estátua  de 1903 recorda a rainha Vitória. Do outro lado da rua há uma loja Subway que serve excelentes sandochas de chicken tikka.



O interior da catedral está cheio de memoriais. O mais antigo é do século XIII e pertence a um nobre da corte de Eduardo I (o "Pernas Longas" e mau da fita do filme Braveheart). Este edifício quase foi destruído num bombardeamento por tropas escocesas no prelúdio da guerra civil, mas o então mayor teve o discernimento de encher a torre com prisioneiros escoceses e com isso salvou a catedral.

Regressados à margem do rio, a belíssima zona de Quayside, devorámos as sandochas (mau grado um pequeno acidente que espalhou chicken tikka por cima das nossas bagagens) e retomámos a caminhada. Lentamente fomo-nos afastando da zona urbana de Newcastle, após alguns quilómetros também do rio, e quando chegámos a Denton (onde no nome do Denton Turret Medical Centre sobrevive a referência a uma das torres da Muralha), já estávamos numa aprazível zona de subúrbios.

Denton, uma zona bem calma na periferia de Newcastle.

Novamente numa via rodeada de árvores, que não deixavam ver de um lado os pavilhões fabris e, do outro lado, a zona residencial, chegámos a Lemington e foi precisamente aqui que vivemos um dos momentos mais assustadores de todo o trilho. Numa altura em que caminhávamos despreocupadamente neste corredor verde, avistámos subitamente um viaduto que passava por cima da via e, por baixo deste, paradas e de mão dada estavam duas meninas com... máscaras do Justin Bieber! É difícil lembrar-me da última vez que apanhei um susto destes, que me paralisou os movimentos e nem sequer me deixou tirar uma fotografia. Só me conseguia lembrar daquela cena do filme "The Shinning". Como assim "Qual cena?". Esta cena:


Elas começaram a caminhar para nós, nós começámos a encostar-nos à beira do trilho, e quando passaram a olhar para nós através daqueles buracos negros na cara do Justin Bieber só consegui exclamar "Now, that is something spooky!", ao que elas responderam com algo que não percebi mas que me pareceu semelhante a uma praga de 1.000 anos. 

Procurando esquecer este sinistro encontro, continuámos a percorrer o segmento de Lemington que eventualmente nos levou de volta à margem do rio Tyne e a um local emblemático do Trilho da Muralha de Adriano: a Boat House. Trata-se de um pub com mais de 300 anos de existência e que proporcionou um belo momento de pausa para reidratação com vista para o rio.


Um inquietante aviso amarelo na cerca do The Boat House. Teria a ver com o nosso encontro recente no trilho?

Este momento de pausa proporcionou também um curioso momento de diálogo(?) com um cidadão local idoso que saía do pub, depois de nitidamente aí ter feito um avultado investimento em cerveja. A experiência de falar com um "geordie" nestas condições é semelhante a falar com alguém versado exclusivamente em mandarim e fomos obrigados a recorrer mais uma vez à técnica do acenar afirmativamente com a cabeça e sorrir. Só quando o senhor repetiu pela 3ª ou 4ª vez aquilo que estava a dizer, e apontou para a Ana dizendo mais alguma coisa e a palavra "Denmark", é que percebemos que nos estava a perguntar de onde éramos. -"Ahhh! Blá blá bla Portugal! Blá blá blá Portugal blá blá!". Despedimo-nos do nosso companheiro de conversa e seguimos em frente.

A perspectiva pós-pausa para hidratação que mostra um pouco da antiguidade da casa. Na parede exterior existem várias marcas com datas que assinalam o nível de cheias excepcionais ocorridas no passado. A marca relativa ao ano de 1771 situa-se acima das portas e janelas do rés-do-chão!

Após passarmos pelo memorial da batalha de Newburn Ford, na qual em 1640 os escoceses venceram os ingleses, deixámos finalmente o alcatrão (que alívio!) para fazermos os últimos 4km em terra batida. Mantivémo-nos sempre junto ao rio, embora o Trilho propriamente dito tenha sido redireccionado para uma ciclovia/via pedestre. Justificou-se plenamente e a caminhada tornou-se muito mais interessante. Entretanto, encontrámos um homem que passeava o seu cão e que nos acompanhou em boa parte do percurso, acabando por ser uma boa distracção. Finalmente despedimo-nos e iniciámos a parte mais desnivelada do percurso na subida final para Heddon-on-the-Wall.






Como não ficámos exactamente em Heddon, usámos um trilho alternativo para chegar ao local onde iríamos ficar durante a noite: a Houghton North Farm. Aí fomos recebidos pela Paula, uma senhora extremamente despachada que nos perguntou se já tínhamos comido alguma coisa, propondo-nos que deixássemos já as mochilas no quarto e oferecendo-se para nos dar boleia até ao centro de Heddon, uma vez que eram quase 21h e o pub deixava de servir às 21h30. Aceitámos de bom grado e seguindo as suas indicações, dirigimo-nos para a carrinha de caixa aberta que se encontrava no pátio da quinta. "Wrong side!", gritou-nos, ao ver que nos dirigíamos para o lado direito da carrinha. -"Não se preocupem", disse-nos "Isso está sempre a acontecer aqui." e com uma condução tão rápida quanto o seu discurso, deixou-nos à frente do The Swan, onde nos deliciámos com um belo buffet de carnes e legumes.


O The Swan, um dos dois pubs de Heddon-on-the-Wall


Consolo para a vista e para o estômago!

Após o jantar, saímos para dar uma volta pela povoação e fomos até ao segmento da Muralha de Adriano que aqui se encontra à vista. Para quem vem de Newcastle, este é o primeiro troço da muralha depois de Segedunum e mede mais de 200m de comprimento, com 3m de largura. Muita da pedra utilizada para construir a igreja da aldeia no ano de 650 veio daqui e, a própria Muralha sofreu intervenções posteriores, como a construção de um kiln durante a Idade Média, uma espécie de secadeira em forma de garrafa para a secagem de milho.


O mais comprido segmento escavado da Muralha de Adriano com a espessura de 3m. Esta varia à medida que se avança para Oeste e há troços onde tem menos de 2m.

Regressámos finalmente à Houghton North Farm, após termos feito mais 3km de caminhada, para um belo banho e uma noite de descanso para o 2º dia de caminhada que, como viríamos a descobrir da forma mais dolorosa, viria a ser épico!

Próximo capítulo: O dia em que deixámos os pés e um pulmão e meio pelo caminho por causa de uma cidade romana.

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...