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terça-feira, maio 13, 2014

MIURA, um conto de Miguel Torga



Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. 

O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais... Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias... Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! 

A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas. A planície!... O descampado infinito, loiro de sol e trigo... O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo... A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco... Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.


 A planície... Um som fino de corneta. Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez? Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria. A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos... Assobios. O Bronco não fazia bem o papel... Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro. Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria? Palmas, música, gritos. Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. 

Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto. Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Nova picada no lombo.


 - Miura! Cornudo!


 Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena. Pronto! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira? 

A figura franzina avançou. Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente. Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou:


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 A multidão dava palmas.


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, ei-lo. Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. 

À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Silêncio. Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo, até lhe não poder sair do domínio dos chifres. Agora! De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. Palmas, gritos. 

Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:


 - Eh! toiro! Eh! boi!


 Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos! Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole. Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?! Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. 

Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado. Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência. Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!

 Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caiu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação. Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular. Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? 

Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.


Imagens: Grupo de Libertação Animal, RTP - Grandes Livros

sexta-feira, dezembro 14, 2012

O papel higiénico, os tubos agradecidos e o entulho

As mensagens que encontramos nas paredes e portas das instalações sanitárias de uso público, podem ser de índole diversa e nem sempre muito claras no seu conteúdo. Se mensagens há que prometem serviços de ordem sexual com elevados padrões de qualidade, com indispensável indicação de número de telefone, outras que denunciam de forma depreciativa determinadas características de terceiros devidamente identificados, ainda outras que dão a conhecer faculdades bastante abonatórias de elementos de outro sexo, mas há também mensagens do foro institucional, que dão instruções ou fazem recomendações para o uso dos equipamentos sanitários disponíveis.

Ora, é precisamente nesta última categoria que se enquadra o aviso que ilustra este artigo. Pelos vistos (apesar das adulterações manuscritas na forma de sinais de pontuação), há aqui um apelo para a não colocação de papéis no interior da sanita. Até aqui tudo bem. O resto da mensagem é que é pouco clara, pelo menos para mim que não consegui perceber a relação entre canalizações gratas e a produção de entulho... 


quarta-feira, agosto 15, 2012

Orgulho enorme por esta jovem e extraordinária autora!

Tive hoje o prazer de receber esta notícia -uma surpresa que, pensando bem, até nem o é!- da publicação do primeiro livro da minha jovem prima Laura Dupui, uma jovem de extraordinárias capacidades e que ainda vai dar muito mais que falar! 

Vale a pena ler a entrevista dada há uma semana ao jornal "La Dépêche" e que abaixo traduzo:


Aos 14 anos, Laura Dupui publica o seu primeiro romance

Após ter obtido o "Brevet des Collèges" (ndr: equivalente ao nosso 9º ano) com menção de "Muito Bom" (18,5 a Francês, 19 a História, 20 a História da Arte), Laura Dupui prepara-se para entrar no 3º ciclo no liceu Grabriel-Fauré, em Foix. Mas até lá ela vai apresentar o seu primeiro romance no Salão do Livro em Tarascon no próximo dia 12 de Agosto. Com 14 anos!

Laura, há quanto tempo escreves?
Há muito tempo, mas foi por volta dos 8 anos que tive vontade de me lançar na escrita de romances. Também participei em concursos de notícias, como em Maio de 2011 onde obtive o primeiro prémio (adolescentes) na Feira do Polar (Romance Policial) em Séronais, em Castelnau-Durban. Gosto muito de escrever romances pois sinto-me livre para desenvolver ideias pessoais. Durante um estágio na "Gazeta Ariégeoise" (jornal local), descobri que a escrita de artigos de jornal implicava menos liberdade. Escrevo entre a minha actividade escolar e as minhas restantes actividades. De facto, pratico bastante desporto (ténis, equitação, esqui) mas também pratico piano, canto coral, teatro. Sou igualmente membro do conselho comunitário dos jovens do vale de Auzat e Vicdessos.

Onde é que vais buscar a tua inspiração?
A inspiração surge-me naturalmente e nunca tenho necessidade de procurar longe apesar de fazer algumas viagens com os meus pais. Por exemplo, as belas paisagens do meu vale permitem-me descrever com precisão os cenários, tal como a minha casa, os passeios ou os filmes que vejo. Tudo pode criar ideias que anoto, mesmo à noite! As minhas personagens são inteiramente fictícias, gosto de as criar com as suas diferentes personalidades.

Quais são os teus projectos nesta área?
Pretendo, com certeza, continuar a escrever enquanto a minha imaginação não me falhar, pois tenho ainda dezenas de ideias na cabeça e muitas histórias para contar e espero que outras venham a seguir se as pessoas me lerem. Se escrevo é também para ser lida! Espero que este romance agrade pois já estou a preparar o 2º volume, com uma surpresa final para o leitor!

segunda-feira, julho 25, 2011

Vamos nessa / Hábitos de leitura

O Eduardo, ali d'O Andarilho, propôs-me este desafio relativo a hábitos de leitura, que tem vindo a ser reencaminhado através de blogues, e que no final deve ser proposto a outros colegas da blogosfera. Ora então cá vai disto.

1. - Existe um livro que relerias várias vezes?

Qualquer um da obra de João Aguiar. Bom, se calhar nem todos mas a maior parte.

2. - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste, tentaste e não conseguiste ler até ao fim?

Assim de repente, ocorre-me Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie. Um dia destes tento novamente.

3. - Se escolheres um livro para ler no resto da vida, qual seria?

O resto da vida com um livro apenas? Impensável!

4. - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, não leste?

"Ceux de 14" de Maurice Genevoix. Não consigo encontrar apesar de já ter corrido uns quantos alfarrabistas...

5. - Que livro leste, cuja cena final jamais conseguiste esquecer?

"A Oeste nada de novo". Fiquei uns quantos segundos parado a olhar para o livro após o ter fechado.

6. - Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Se bem me lembro, algures pelo 5º ou 6º ano, cheguei a ser alvo de chacota por ter preferido ir para a biblioteca em vez de ter ficado com o pessoal no pátio a jogar ao eixo. Ainda na primária, devorei todos os livros dos Cinco, vários de Júlio Verne, todos os livros sobre história que conseguia apanhar, mais tarde li todos os livros da colecção Uma Aventura que tinham sido lançados até à altura em que achei que já não eram interessantes. Já agora, há que dar o honroso destaque aos livros de BD que também tiveram uma quota parte importantíssima nos meus hábitos de leitura infanto-juvenis. Não me esqueço que foi graças a um livro da Disney que aprendi uma receita infalível para curar os soluços. (Entretanto terá sido por essa altura que também tive acesso, sem querer, a revistas profusamente ilustradas com senhoras desnudadas mas creio que não será de bom tom referir isso aqui até porque há alunos meus que lêem este blogue.)

7. - Qual o livro que achaste chato, mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Não me lembro do título, nem do autor, mas o livro continua a fitar-me de forma intimidatória a partir da 2ª prateleira a contar do cimo, da estante da esquerda da minha mini-biblioteca. Porquê? Era mau demais e apeteceu-me deitar-lhe o fogo e só não o fiz porque isso resultaria no prejuízo dos 3 euros que me custou o livro, mais o preço das acendalhas. Ah, e porque danificar um livro é um crime lesa-cultura. Sobretudo por isso. Obviamente.

8. - Indica alguns dos teus livros preferidos.

"Uma deusa na bruma", "A hora de Sertório" e "O Priorado do Cifrão" (O Dan Brown leva aqui das boas!) de João Aguiar, "The Shinning" e "Os Tommyknockers" de Stephen King, "A Oeste Nada de Novo" de Erich Maria Remarche, "Toxina" de Robin Cook (numa altura em que se fala tanto da e-coli, é de leitura obrigatória!), etc, etc...

9. - Que livro estás a ler?

Estou entre livros. Reli "Contos do Alhambra" de W. Irving e agora vou ao "Dragão de Fumo" de João Aguiar.

10. - Indica dez amigos para responder a este inquérito.

As próximas vítimas são: a Ana Andrade, a Tituxa, o Roque, a Sãozinha, a Paulinha, a Cathy (toma lá que já almoçaste!), o Paulo Moura, o Orca, a Maria, o Luís e o Daniel!



terça-feira, fevereiro 08, 2011

183º aniversário do nascimento de Júlio Verne - Download grátis de e-books do autor

Por ocasião do 183º aniversário do nascimento de Júlio Verne (8 de Fevereiro de 1828) presto aqui homenagem a este fantástico escritor, partilhando com vocês alguns links para ebooks que poderão descarregar e ler gratuitamente, bastando para tal ter o Adobe Acrobat Reader instalado.

Infelizmente não encontrei muita coisa em português. Sendo assim, deixo aqui também a sugestão de vários links noutras línguas.

Em português:


Outras línguas (128 links para download):

Obras de Júlio Verne Project Guttenberg

Peço a quem conhecer mais links (legais, obviamente!) que os partilhe aqui com os restantes leitores.

Voyage dans la Lune, Filme mudo francês de 1902


Logótipo Google comemora 183º aniversário do nascimento de Júlio Verne


O motor de busca Google volta hoje a surpreender com um logótipo interactivo para comemorar o 183º aniversário do nascimento do escritor Júlio Verne (8 de Fevereiro de 1828).

Hoje, o logótipo do Google transformou-se no painel de comandos do submarino Nautilus (do livro "20.000 léguas submarinas") que pode ser controlado com o rato, clicando e arrastando a alavanca que se encontra à direita.

Mais um excelente pormenor do Google, embora não ao nível daquilo que fizeram em relação ao 30º aniversário do jogo Pacman. Lembram-se disso?

domingo, julho 18, 2010

Foguetes: o peido colectivo do povo

Ontem, enquanto perscrutávamos o céu nocturno através da lente de um telescópio que, entre constelações várias, permitiu uma visão inédita das crateras lunares e um fabuloso "pôr-da-lua" atrás de uma linha negra recortada pelos pinheiros no horizonte, distinguiram-se ao longe os inconfundíveis clarões provocados pela explosão de foguetes.

É-me difícil compreender como é que, perante a realidade que todos conhecemos, ainda haja quem acredite piamente que os acidentes são apenas ocorrências infelizes da exclusiva responsabilidade da inépcia alheia, achando-se eles donos de uma destreza a toda a prova que impede qualquer deslize.

Por coincidência, num momento de leitura, descobri a páginas tantas uma passagem dedicada a este tema.

Aqui fica esse trecho, dedicado a todos aqueles que, apesar de estarmos em época de incêndios e apesar de todos os avisos e proibições, persistem no seu comportamento irresponsável e criminoso:

As minhas férias, na sua parte mais agradável, foram preenchidas com longos passeios a pé nos arredores de Giestal. Eu tinha fome de verde, fome de ouvir os ruídos do campo e o vento a passar nas agulhas dos pinheiros. Queria cheirar a resina e o perfume áspero das ervas e flores cujos nomes nunca me foram ensinados ou já esqueci.

Como era de esperar, sendo Verão, estas actividades bucólicas foram seriamente perturbadas pelos foguetes, que abafaram consideravelmente os ruídos do campo e do vento a passar nas agulhas dos pinheiros. O Verão em Portugal é a estação dos foguetes e não venham dizer-me que se trata de uma tradição milenar do nosso povo porque é mentira. Há mil anos não havia sequer pólvora na Europa.

Os foguetes não são uma tradição do povo, os foguetes são os peidos colectivos do povo. E, o que é pior, são peidos incendiários. Enquanto estive em Giestal, houve cinco fogos florestais, dois deles provocados pelo foguetório.

domingo, junho 20, 2010

Saramago - Faleceu o populista extremista e ideólogo anti-religioso mais famoso de Portugal


Nunca li qualquer obra de Saramago tal como nunca assisti a qualquer filme de Manoel de Oliveira. Bom, talvez não seja bem verdade pois, há uns tempos atrás, ainda li algumas linhas de um dos seus livros mas parei na altura em que os cães, sem cordas vocais, começaram a ladrar ao mesmo tempo que alguém a 1.000 km dali riscava o chão com um pau. Depois disso, a minha leitura foi circunstancialmente interrompida até hoje pelo que, em termos de ranking pessoal de leitura, Saramago é batido largamente por exemplo pela Enid Blyton e pelo Destak.

Não será por isso por ser fã da sua obra literária que lamentarei a morte de Saramago. Admirava-o sim, embora consciente do cunho da subjectividade das suas convicções políticas, pelo facto de dizer tudo o que lhe ia na cabeça de forma directa e sem falsas moralidades, afrontando os dogmas instituídos. Saramago era uma pessoa tão atentatória à moral que se atreveu inclusive a dizer que Jesus tinha dado uns valentes amassos a Maria Madalena (ou ao contrário), sendo por isso considerado persona non grata por vários sectores da sociedade portuguesa e pelo próprio Vaticano.

Aliás, este último ponto não é novidade nenhuma. O Vaticano tem esta tendência de condenar à viva voz aqueles que se atrevem a diferir, em termos comportamentais, da generalidade do gado ovino. Quando se fala de comunismo (estou neste momento a benzer-me repetidamente e vou inclusive efectuar já de seguida a aplicação de desinfectante que sobrou da pandemia da Gripe A, nas mãos) então até o tecto da Capela Sistina estala.

É certo que um grupo de homens, todos eles envergando vestidos, que vivem trancados, a maior parte deles já entradotes, e guardados com afinco por jovens de trajes coloridos e sotaque germânico não pode ser um grupo bem disposto e por isso, dou-lhes um desconto. Aliás, estimo que o nível de humor no seio do Vaticano terá melhorado significativamente com a morte, segundo o l' Osservatore Romano, deste populista extremista e ideólogo anti-religioso seguidor das políticas marxistas (estou a benzer-me outra vez repetidamente e vou novamente desinfectar as mãos). Adiante.

Voltando a Saramago, a maior influência que este teve na minha vida foi provavelmente ter-me feito perceber que a palavra Nobel se lê "Nobél" e não "Nóbel" isto para além do orgulho de viver num país que, passados quase 50 anos depois de um médico ter descoberto que retirando parte do cérebro a um indivíduo este ficará muito mais sossegado, voltava a receber o prestigiado galardão sueco.

Fica na retina o reconhecimento do país a Saramago, desde a classe política (nada como morrer para mudar a reputação de um indivíduo) até ao cidadão anónimo, e com um aparato dos media tal que, tendo sido apanhado desprevenido pela transmissão televisiva das exéquias do autor, cheguei a pensar que o Papa estivesse de volta.

Isto poderá parecer muita prosa para quem só leu Saramago até à parte em que os cães, sem cordas vocais, começaram a ladrar ao mesmo tempo que alguém a 1.000 km dali riscava o chão com um pau mas, ao fim e ao cabo, nem precisaria de ter lido absolutamente nada para ter algo a dizer. Que o diga a senhora que falou para a repórter de um canal de televisão dizendo que estava ali para dar o último adeus ao autor, isto apesar de nunca ter lido qualquer livro uma vez que padecia de uma dificuldade que era a seguinte: não sabia ler. Apesar de tudo, tinha uma familiar que tinha muitos livros de Saramago e eram, segundo a senhora e em tom de voz muito sentido e grave "livros lindos".

Até sempre Saramago! Espero que não sejas alvo de bullying, aí desse lado, por parte do Abel e do seu gang, ao serviço do Maior.

sexta-feira, junho 04, 2010

Faleceu João Aguiar - A cultura portuguesa ficou mais pobre

Sendo seu grande admirador, foi com grande tristeza que tive ontem conhecimento da morte de João Aguiar, vencido por um cancro aos 66 anos.

Aguiar era um grande defensor da cultura portuguesa sendo, em contraponto, um profundo crítico da facilidade com que a população portuguesa tem tendência a assimilar tudo o que é estrangeirismo em detrimento daquilo que "é nosso".

Magoava-o o desrespeito pela escrita da Língua Portuguesa, progressivamente conspurcada por corpos estranhos e cada vez menos praticada com correcção. Aliás, como disse Alice Vieira, grande amiga de Aguiar, este era uma pessoa extremamente calma e a única coisa que o irritava era os erros de português.

Com publicação em Espanha, França, Itália, Alemanha e Bulgária, Aguiar deixa atrás de si um apreciável rol de obras destacando-se na ficção histórica, através da qual procurou retratar com rigor a realidade da Antiguidade no espaço territorial do Portugal actual. O seu último livro, "O Priorado do Cifrão", é, por outro lado, uma crítica mordaz e irónica aos "best sellers" instantâneos e aos seus sucedâneos, numa alusão clara ao "Código Da Vinci".

Com o seu desaparecimento, a cultura portuguesa fica mais pobre e, ao mesmo tempo, perde um dos seus mais acérrimos defensores.

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quinta-feira, março 18, 2010

Quando um livro com 84 anos nos faz revisitar o que pensávamos conhecer

Ler é uma das grandes paixões da minha vida que, desde muito cedo, aprendi a cultivar. Inclusive, recordo-me que, nos meus tempos de escola primária, era tão viciado em leitura que, à falta de outros livros, pegava num dicionário e começava a lê-lo. Embora não me consiga recordar se cheguei ou não ao fim da insípida trama do dicionário, o vício da leitura ficou enraizado e permaneceu até hoje como uma espécie de função biológica indispensável e inevitável. Por isso, comprar ou receber livros é sempre extremamente gratificante.

Ora, um dos últimos livros que recebi, simpaticamente oferecido pela família Brito, revelou-se uma verdadeira pérola, não só por se tratar de um livro com 84 anos (tendo eu uma adoração especial por livros antigos como aqui e aqui referi) e sendo parte de uma tiragem de 100 exemplares, mas também porque me permitiu revisitar com uma perspectiva completamente diferente alguns locais que visitei em França durante a minha viagem a solo em 2007.

Trata-se de um livro dedicado às cidades romanas do vale do Ródano nas quais inevitavelmente se incluem capítulos dedicados a Nimes e Orange, cidades que ainda hoje ostentam monumentos impressionantes da época romana, classificados pela UNESCO. É interessante comparar o estado de conservação dos monumentos em 1926, apresentados nas fotografias e ilustrações do livro, com o que encontrei em 2007.

O Arco de Triunfo, ou mais propriamente, o Arco Comemorativo consagrado a Tibério é uma verdadeira banda-desenhada dos feitos de armas da legião II que fundaram esta cidade embora muitos elementos tenham desaparecido com o tempo, especialmente com a adaptação do arco a atalaia durante a Idade Média. As diferenças entre 1926 e 2007 são pouco evidentes até porque o Arco foi completamente recuperado em... 1811, em plena época napoleónica.


É contudo na comparação com a sua configuração na Idade Média, em que foi adaptado a torre de vigia como já referi, que as diferenças saltam à vista. Este não foi um caso virgem em termos de adaptação pois existem vários outros casos de arcos romanos incorporados em fortificações. A reconstituição hipotética ajuda a dar uma ideia provável do que seria o seu aspecto original.

(clicar para ampliar)

Já o Teatro Romano de Orange é o melhor conservado da Europa, mantendo de pé o seu imponente muro de cena de 103 metros de comprimento por 37 de altura desde o século I d.C., descrito por Luís XIV como sendo "a mais bela muralha do Reino".

Tendo sido "preenchido" com habitações que entretanto foram demolidas a partir de 1825, o aspecto do teatro revelava em 1926 algum abandono em forte contraste com a actualidade.



Contudo, um dos aspectos mais interessantes do livro prende-se com a descrição dos monumentos da cidade de Arles, cidade que ainda não tive ocasião de visitar, especialmente com o seu imponente anfiteatro, um dos monumentos romanos melhor conservados no Mundo.

Inicialmente utilizados para jogos (combates, representações,...) que divertiam os 25.000 espectadores que se podiam sentar nas bancadas, após o advento do cristianismo e a decadência do Império Romano, o edifício foi readaptado a fortificação na Idade Média, tendo sido construídas torres de vigia em pontos diametralmente opostos. Este foi aliás um destino partilhado por estruturas semelhantes como o anfiteatro de Nimes e o Coliseu de Roma.

Mais tarde, a fortificação foi substituída por um aglomerado de habitações que persistiram até ao Séc XIX, altura em que a estrutura foi desimpedida.

Este livro é realmente uma pequena pérola que, para além de me ter feito ver com outros olhos algo que eu pensava conhecer, me deixou com água na boca em relação a Arles que, inevitavelmente, será uma paragem obrigatória na minha próxima passagem por aquela zona.

Virada a última página, não pude deixar de ficar a matutar. Poderiam imaginar os Srs Sautel e Imbert que, 84 anos depois, o seu livro seria capaz de ter este efeito num leitor a cerca de 2.000 km, a ponto de lhe dar destaque numa coisa chamada "Blog do Katano" que pode ser encontrada num local etéreo e anárquico chamado "Internet"?

sábado, janeiro 02, 2010

Coisas que gosto de oferecer a mim próprio

Este ano acabei integrado no movimento social do Rush das compras de última hora, um movimento social que se caracteriza pelos seus participantes alternarem entre um sorriso pateta e um ar aflito e frenético, entre expressão de desejo pré-fabricado de um "santo Natal" aos caixas que já estão fartos da ladainha, mas sempre com uma base de expressão de esforço pelo peso que carregam, como quem diz "Eu cá gosto de me integrar à grande no santo espírito de Natal, como aliás estes 30 sacos bem o demonstram". Contudo, consegui ainda tempo para parar e apreciar os livros expostos nos escaparates.

A páginas tantas (aqui esta expressão até faz mais sentido), não resisti a trazer dois livros.

UM HOMEM BOM - De Rui Afonso, o livro debruça-se sobre Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus durante a 2ª Guerra Mundial que, contrariando as instruções de Salazar, concedeu o visto de entrada em Portugal a inúmero judeus que assim se salvaram do extermínio naquilo que foi a "maior acção de salvamento por um único indivíduo durante o Holocausto".


MITOS E LENDAS DA 2ª GUERRA MUNDIAL, de James Hayward. Este não conhecia e despertou-me a curiosidade. Mais contente fiquei quando ao pagar verifiquei que tinha um desconto de 50% no valor de capa. Por não conhecer o seu conteúdo, como acontecia com o último, embora apenas em termos gerais, optei por começar por ler este. Assim, ao longo do livro, o autor vais desmistificando vários lugares comuns e folclore que se contam acerca da 2ª Guerra Mundial e, para já, é curioso constatar que ao longo da história as mentalidades não mudaram assim tanto quanto isso em determinados aspectos.

Se não me surpreendeu saber que, na 1ª Guerra Mundial os cães de raça Daschund, uma raça alemã, era apedrejados e pontapeados pelos ingleses quando se cruzavam com eles, por outro lado chegou a ser cómico saber que, no meio da "caça às bruxas" que surgiu do receio de infiltração de agentes alemães por terras de sua majestade, um indivíduo inocente foi preso e interrogado após ter sido denunciado por uma rapariga que achou suspeito o facto de este nunca puxar o autoclismo quando usava o WC...

terça-feira, dezembro 15, 2009

O dia em que os romanos cruzaram o rio Lima

No último artigo dedicado a Ponte de Lima fiz referência ao episódio conturbado da travessia do rio Lima pelos legionários romanos comandados por Décimo Júnio Bruto que, numa primeira instância, julgaram ser este o rio Lethes, o Rio do Esquecimento, recusando-se a atravessá-lo.

Lembrei-me depois que João Aguiar, no seu romance histórico "Uma Deusa na Bruma", faz uma descrição interessante do que terá sido este episódio. Aqui fica um excerto do texto:



Do alto do seu cavalo, Décimo Júnio Bruto passeou o olhar pelas fileiras. Aquelas expressões fechadas, duras, falavam por si - conhecia bem de mais os legionários para ter ilusões. Conhecia bem demais aquele silêncio. Crescera gradualmente à medida que se aproximavam do Límia e que se espalhava entre eles a superstição semeada pelos prisioneiros calaicos e pela gente que aceitara comprar a paz com tributo. Na véspera, os comandantes dos manípulos tinham-no avisado que os homens se recusariam a atravessar. Agora, a recusa batia-lhe na cara como uma bofetada.

(...)

Bruto endireitou o corpo. Acicatou o cavalo, conduziu-o até junto do signífero. Com um gesto brusco, arrancou-lhe das mãos a insígnia e dirigiu-se para o rio.

Silêncio, silêncio mortal. Só o chapinhar das patas do cavalo quando feriam a água. Não se apressou, deixou que os homens sofressem na expectativa.

Estava a meio do rio, vencera três quartos de distância, estava na margem direita do Límia.

Forçou o cavalo a dar meia volta, para encarar as legiões. Então, tomou um largo fôlego e ergueu a voz, treinada para se fazer ouvir no campo de batalha. Não fez um discurso. Simplesmente, começou a chamar os comandantes dos manípulos pelos seus nomes - tinha todos os seus nomes na memória, era um bom general.

No outro lado, os homens ouviram-no. Bruto não precisou de terminar a chamada; muito antes disso, uma formidável aclamação abafou a sua voz. As trompas soaram dando a ordem de marchar.

Os romanos atravessavam o rio.

in "Uma Deusa na Bruma" por João Aguiar

terça-feira, novembro 24, 2009

Atenção à literatura no WC!

Na próxima vez que utilizarem a casa de banho de um amigo ou familiar e que esta contenha uma prateleira com literatura para os mais demorados terem algo com que se distrair, fiquem atentos!

Em Inglaterra, uma família foi alertada por um parente para o facto de, entre as várias publicações que tinham numa prateleira na casa de banho da sua habitação, se encontrar nada mais nada menos que um exemplar genuíno da primeira edição da obra máxima de Charles Darwin, "A Origem das Espécies".

O livro que havia sido adquirido há cerca de 40 anos pela família em causa, vai ser posto em leilão na Christies, sendo de esperar que possa render a módica quantia de 66.600 euros, quantia essa que, presumimos, não vai toda ser gasta em papel higiénico.

Habituados que estamos a reclamar da desactualização das revistas que encontramos nas salas de esperas dos consultórios e cabeleireiros, faz-nos com certeza reflectir este caso de uma família que tinha um livro com 150 anos à disposição no seu WC... É doentio!


sexta-feira, novembro 20, 2009

O Código da Vinci, um dos piores livros da década

O Times Online publicou recentemente o Top 5 dos que considera serem os piores livros da década. Entre esses títulos encontram-se "O Segredo" de Rhonda Byrne e "O Código Da Vinci" de Dan Brown.

As apreciações são contundentes:

"O Segredo" - Dizer-nos que precisamos de ter pensamentos positivos, ainda poderíamos aceitar. Mas vestir este conselho com teorias quânticas assimiladas de forma inadequada, juntamente com referências a Jesus, Newton, Beethoven e Einstein torna-se insuportável.

"Código da Vinci" - "O renomado curador Jacques Sauniere..." não é a introdução para uma notícia num tablóide mas para o romance mais vendido da década. A irrelevância da qualidade da prosa no volume de vendas nunca foi tão colocada em evidência.

Surpreendente? Eu acho que não.

Imagem: Wook

domingo, outubro 25, 2009

Como vai terminar esta nova aventura?

Depois da última aventura feita de terror, suspense e comédia, Portugal inteiro está em pulgas para saber como vai terminar esta nova história e para saber afinal a resposta para a dúvida do momento: há mais livros da colecção "Uma Aventura" ou professores descontentes com a actuação do Ministério da Educação nos últimos anos?

Fica também aqui uma vénia à Ministra da Educação que agora cessa funções, na certeza que vai deixar muitas saudades, especialmente aos noticiários e aos membros da ANAPO.

quinta-feira, julho 09, 2009

Sabias que...

Sabias que um Ultomato são últimas condições que se apresentam antes de dar uma joelhada nos tomates de alguém?
E já agora, sabias que um Sacrilégio é um pecado cometido pelo sacristão de um colégio?

Se respondeste "Não" a ambas as questões, e eventualmente até ficaste chocado(a), então isso significa que ainda não possuis um exemplar do diciOrdinário ilusTarado!

Descobre como podes colmatar esta grave carência pessoal clicando aqui:



Porque "ser ordinário, não significa ser inculto".

terça-feira, junho 23, 2009

Obra literária de vulto

Da co-autoria da São Rosas, Raim e Gotinha, o diciOrdinário IlusTarado é uma obra literária de vulto que vem preencher uma lacuna na cultura portuguesa e desmistificar corajosamente certos conceitos que os clássicos dicionários (pouco ilustarados, diga-se) persistiam em subverter.

É pois uma obra obrigatória, que fica bem em qualquer estante, utiliza uma linguagem simples intercalada com ilustrações de alta categoria e, diga-se de passagem, bastante explícitas.

Quem quiser finalmente saber o que significam palavras como "apitadela" e "vergasta" ou expressões como "falar pelos cotovelos", "um bico de dois paus", ou pretender simplesmente ter na estante da sua biblioteca a obra mais polémica desde os Versículos pouco católicos de Salman Rushdie, o diciOrdinário é uma obra obrigatória!

O diciOrdinário estará à venda a partir de dia 3 de Julho mas pode ser comprado antecipadamente nesta página.


Visita a página do «DiciOrdinário»

domingo, junho 07, 2009

Divulgação: Fundão Poético

Do Museu da Poesia recebemos o pedido de divulgação desta iniciativa:


Nuno Miguel Henriques, diseur com 22 anos de experiência a interpretar palavras de poetas portugueses, vai este ano 2009, homenagear da forma mais singela que existe, o poeta Luís Vaz de Camões, interpretando-o para o público.

Uns gostam outros não. Mas Portugal é sem dúvida um país de Poetas e grande Poeta é o Povo, para quem é feito o evento “Fundão Poético”, que conjuga a palavra escrita com a arte de dizer. Reúne textos dos mais conceituados poetas portugueses, da Cova da Beira e concelho de Fundão.

Dos mais eruditos aos mais populares, numa interpretação dinâmica com imagens e sons que ilustram a poesia, que é elaborada de coisas simples como o tecer num tear rústico e antigo das nossas aldeias. E porque as palavras são como as cerejas, a poesia voa no tempo do espectáculo como um sopro fugaz e súbito de uma brisa que sussurra a uma árvore em plena Gardunha, ou como a Barca flutua nas águas gélidas do Zêzere.

“Fundão Poético” não é um recital de poesia, não é um espectáculo de teatro. É um encontro de várias artes de charneira que transformam a literatura e a poesia numa forma de viver, sentir e amar.

“Fundão Poético”, é um espectáculo para todos, ricos, pobres, iletrados, intelectuais, analfabetos, jovens e idosos.

«Fundão Poético» é poesia que se assume numa tela opaca e transparente como a seiva que debota numa lentidão atormentadora e serena, como a flor.

Nuno Miguel Henriques e o Teatro Azul - Companhia Profissional, interpretam este espectáculo de uma forma ora comovente, ora divertida, ora simplesmente poética.

Este espectáculo tem o Patrocínio da Câmara Municipal de Fundão, que viabiliza a concretização de levar a poesia a todos, como as cerejas numa terra que viu nascer Eugénio de Andrade.No dia 10 de Junho, Dia de Camões, a sessão especial será no Auditório da Moagem - Cidade das Artes e Engenho, pelas 21.30 horas, na cidade de Fundão.

Realizam-se igualmente espectáculos especiais no dia 9 de Junho, na vila histórica de Alpedrinha, no Teatro Clube, no dia 11 na Capela da Misericórdia da vila de Soalheira e no dia 13 na Igreja Matriz da Aldeia de Telhado.

As sessões são sempre pelas 21.30 horas e de acesso livre a toda a população.

quarta-feira, abril 22, 2009

Sobre a Boa Hora e a Má Hora na tradição oral popular

Na sequência do artigo anterior, sobre a lenda da Boa Hora e da Má Hora, encontrei, quase por acaso, um artigo sobre a persistência dessa bipolaridade de adjectivação das horas na tradição popular, partindo da análise de um adágio popular. Este artigo foi incluído no volume XX da 1ª Série da Revista Lusitana, criada em 1887 pelo incontornável José Leite de Vasconcelos e que até 1943, foi publicada num total de 38 volumes.

Trata-se de uma recolha de adágios populares da qual faz parte o que interessa a este propósito:

"Em má hora nasce, quem má fama cobra"

A crença popular divide as horas em boas e más.

De entre as primeiras, ocorrem-me as
horas felizes, as horas de Deus e as horas bentas.

(…)

Nasceu em boa hora” – diz-se de quem é ditoso e a sorte lhe corre bem.
Veio a boa hora” ou “em boa hora” – a propósito, oportunamente, a tempo, no momento em que pode ser servido.

(…)

Das más horas o povo faz, entre outras, as seguintes distinções:

a)
Horas minguadas : “ a desditosa nascera em hora minguada” Camilo, Mistérios de Fafe (…)

b)
Horas aziagas

c)
Horas do diabo

d)
Horas danadas

e)
Horas arrenegadas

f)
Horas negras: “Uma hora, em certa noite, dezassete anos antes… hora negra essa que lhe innoitou a vida inteira.” (Camilo, Brilhantes do Brasileiro) (…)

g)
Horas infelizes ou infortunadas: “Tem outros muitos agouros, em tanto que nas horas que achão serem infortunadas não querem receber dinheiro, ho que abasta quanto a cerimónias” (Damião de Góis, Crónicas de D.Manuel, parte I, cap 42).

Há a locução
nascer em boa (ou má) hora e os esconjuros populares má hora vá contigo; em má hora venhas. Em contrário destes esconjuros, diz-se: em boa hora vás; em boa hora venhas.

O povo dos campos, para saudar quem encontra pelos caminhos, tem as expressões:
Vá em boa hora e vá nas horas de Deus.

De quem morreu, diz-se:
chegou a sua hora (isto é, a má hora) ou: tinha as horas contadas.

Às boas e às más horas se refere D. Francisco Manuel de Melo, nos Apólogos dialogais, pag 41: “… não há cousa na boca dos homens tão frequente, como
em boa hora, & má hora, hide com as horas más, vinde com as boas horas; huma hora muito fermosa, nas horas de Deus “.

Em vez de boa hora e má hora também se diz: nas boas horas e nas más horas.

Há ainda as horas abertas, que são três momentos da maior atenção popular: as “Avé-Marias” da manhã, as do meio-dia, e as da noite, momentos que, segundo o povo, coincidem com o nascimento, a morte e o enterro do sol.


in RETALHOS DE UM ADAGIÁRIO
(vid. REVISTA LUSITANA, vol XX, pág. 298-315)
Loures, 9 de Fevereiro de 1918
José Maria Adrião

Poderá residir aqui a/uma possível origem para a lenda. A conceptualização de Má Hora como o momento onde ocorre a soma de todos os infortúnios, dos quais o pior é sem dúvida a morte, e a sua persistência na tradição oral e nos aspectos da vida diária das populações, relativamente isoladas, terá levado a que esta tenha ganho uma forma e uma consciência próprias, tornando-se um ser, uma entidade, que traz o infortúnio a quem a encontra.

Em contraponto, surge a Boa Hora, como a manifestação do momento feliz que bafeja as pessoas com sorte, que as livra do infortúnio. Será uma manifestação inevitável decorrente da dualidade da relação entre o Bem e o Mal, onde a existência do Mal pressupõe a existência do Bem e vice-versa? Ou será simplesmente uma manifestação da Senhora da Boa Hora, que é venerada no politeísmo camuflado que é o Cristianismo?

Para consultar os 38 volumes da 1º Série da Revista Camões, podem aceder à Biblioteca Digital Camões.
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