Um gato canário! Nas Canárias, a fauna não é históricamente muito diversificada. Ao longo dos séculos e para além da pastorícia e da agricultura, os aborígenes também praticavam a pesca e a caça para se alimentarem. As espécies cinegéticas mais consumidas eram a pomba, o corvo, a pardela (ave marinha), o abutre, o lagarto gigante, a ratazana e... o gato! Este gato da foto foi o vizinho mais sociável, e também o mais atrevido, que encontrámos na nossa estadia na Gran Canária e revelou ser também muito fotogénico. Querem sugerir uma legenda para esta foto?
Como referi no artigo anterior sobre o Parque Nacional de las Cañadas del Teide (recordar aqui), a visita ao Teide foi o ponto alto da estadia nas Canárias, tanto no sentido figurativo como no sentido literal. Trata-se do ponto mais elevado de Espanha, erguendo-se a 3718m de altitude e, segundo dizem, ergue-se a 7.500m acima do fundo marinho, sendo o 3º maior vulcão do Mundo.
Os guanches, os primitivos habitantes da ilha de Tenerife (lá iremos num próximo artigo), acreditavam que o Teide, ao qual chamavam Echeyde, era o domínio do deus maligno Guayota, que ocasionalmente se manifestava soltando os poderes do seu reino no mundo dos homens. A memória das erupções do Teide está bem presente na lenda guanche que fala do dia em que Guayota capturou, e prendeu dentro do Echeyde, o deus Magec (o Sol), tendo este sido salvo pelo deus supremo Achamán, após as orações suplicantes dos guanches. É fácil compreender o fascínio que esta impressionante montanha terá gerado nos habitantes da ilha, muito semelhante, embora desprovida de sentido religioso, aos milhares de visitantes que visitam o local anualmente.
A nossa visita ao Teide divide-se em dois momentos. No primeiro deixámos o carro a 2.000m de altitude, altitude média da grande cratera do Parque, e subimos a pé pela encosta da Montanha Branca até aos 3.000m. O caminho de regresso acabou por se fazer já em plena noite e com temperaturas muito baixas, numa experiência que foi bastante interessante que desenvolveu em nós uma especial simpatia solidária para com os produtos alimentares ultracongelados.
O trilho nº7 percorrido em todo o seu esplendor (descendente)!
Na segunda vez, optámos por subir pelo teleférico até ao topo do Teide e descer depois pela sua encosta até à Montanha Branca e daí regressando pelo caminho que já conhecíamos. Bom, na verdade não foi bem ao topo uma vez que para cumprir o percurso entre a estação de topo do teleférico, a 3.500m de altitude e o cume do Teide, é necessário solicitar autorização prévia, já que o número de acessos diários permitidos é limitado (há vigilantes no local). Infelizmente, quando tentámos pedir autorização, uma semana antes da nossa ida, já estava tudo reservado para essa semana e para as duas seguintes!
Estação de base do teleférico a cerca de 2.300m de altitude
Um aspecto da encosta do Teide que se avista a partir do teleférico, já muito perto do topo
Da estação de topo do teleférico, e apesar da nebulosidade que limitava bastante o alcance da visão, a paisagem não deixou de ser espectacular. O cenário imediato é também impressionante, quase parecendo que de um momento para o outro fomos transportados para outro Mundo, havendo a todo o momento a possibilidade de nos depararmos com a sonda Curiosity, ou um ser extra-terrestre segurando um cartaz com os dizeres "Vai estudar... Relvas!".
A temperatura é também um choque: 25º na estação de base do teleférico para 9º no topo, com um ventinho assobiante e cortante! Desta vez, contudo, estávamos preparados. Curioso foi também experimentar na pele o facto de o cansaço de esforço ser ligeiramente maior a esta altitude.
Vista para a parte alta da grande cratera do Parque, com a Montanha Branca em evidência
Diferentes níveis de arrefecimento e tipos de erupção criaram materiais de diferentes cores e constituição
Mais cores...
Foi frustrante ver o limite da pequena cratera do topo do Teide a apenas 400m de distância...
Como já referi em artigos anteriores, os vulcões da ilha não estão extintos mas apenas inactivos e um dos sinais disso mesmo são as fumarolas que se encontram no topo e ao seu redor. Estas fumarolas são provocadas pela infiltração da água da chuva que, pelo calor do interior da montanha, evapora misturando-se com os gases do interior da mesma. É por isso que muitas das fumarolas exalam também um tremendo cheiro a enxofre, que acaba também por ficar depositado à volta delas.
Fumarolas sulfurosas
É pena a Internet ainda não permitir partilhar o cheiro destas fumarolas. Para quem não conhece as propriedades odoríferas do enxofre, o cheiro oscila entre o de ovos cozidos e o de uma indiscrição flatulenta
A partir da saída do teleférico, percorremos o trilho (nº12) que leva ao miradouro do Pico Viejo, que embora tenha esse nome, é na verdade mais novo que o Teide. O trilho, como aliás acontece em todos os que percorremos no Parque, está muito bem construído e não menos bem conservado, integrando-se perfeitamente na paisagem.
A cor escura de uma antiga escorrência de lava contrasta com os mineirais amarelados em fundo
A caldeira do Pico Viejo impressiona pelas suas dimensões. No seu auge, esta caldeira era um gigantesco lago de lava relativamente estável. O desmoronar de uma das suas paredes acabou por esvaziar este lago, embora parte da sua superfície solidificada tenha permanecido e seja visível à esquerda da cratera.
O Pico Viejo!
Regressando em sentido inverso, e mais uma vez fingindo um total desinteresse pelo trilho que levava ao topo, embrenhámo-nos no trilho que leva ao miradouro da Fortaleza.
Rumo ao miradouro da Fortaleza!
Ao longo do percurso, passámos por vários antigos corredores de lava, caracterizados pelas suas paredes mais altas em relação ao interior. Isto deve-se ao facto de as margens do rio de lava terem solidificado e, quando a emissão da lava no vulcão cessou, a lava, ainda em estado líquido no interior deste corredor, ter continuado a correr rumo à base do monte, esvaziando-o.
Um corredor de lava
Já agora, convém também esclarecer que existem dois tipos de corrimentos de lava. O primeiro é o tipo "A a", que é a que mais por aqui se encontra, e que se caracteriza pela sua solidificação irregular e cortante, em forma de escória, devido à rápida perda de gases. O outro tipo é o tipo dito... (deixem-me consultar a cábula num instante)... "Pahoehoe", que forma uma superfície lisa ao solidificar.
Formação lávica
Pormenor do trilho rumo ao miradouro da Fortaleza
O miradouro da Fortaleza, uma enorme arriba que se avista no horizonte, permite também uma vista privilegiada para a parte Norte de Tenerife. À volta do miradouro é possível encontrar várias fumarolas, estas sem cheiro a enxofre.
A "Fortaleza", uma escorrência de lava e algumas fumarolas.
Sim, exactamente, outra fumarola!
Momento em que uma pessoa não identificada é surpreendida utilizando a fumarola da foto anterior para contrariar os efeitos da temperatura ambiente
A partir do miradouro começa (ou acaba, conforme a perspectiva) o trilho nº7, trilho que liga o topo do Teide à estrada alcatroada que atravessa a grande cratera do Parque Nacional, passando pela Montanha Branca. Esta parte do percurso é "especial", impressionando pela paisagem e, sobretudo pelo silêncio que, longe das pessoas que chegam e partem pelo teleférico, chega a ser esmagador.
O trilho!
Um indivíduo não identificado no trilho
A 3260m encontra-se o Refúgio Altavista, o único dentro do Parque Nacional. Trata-se de um local de paragem privilegiada para quem sobe ao Teide, especialmente para quem quer assistir ao nascer do Sol no topo do Teide, devendo para isso pernoitar no refúgio, mediante reserva prévia, para prosseguir de madrugada em direcção ao pico.
No nosso caso, em sentido inverso, aproveitámos para almoçar no alpendre do refúgio, antes de prosseguir rumo à Montanha Branca.
À vista do refúgio, com a Montanha Branca como fundo
Momento em que o trilho deixa de seguir pela escorrência de lava para passar a seguir pelos piroclastos
Um olhar para trás...
Aproximação à Montanha Branca (embora seja mais alaranjada), já com a parte superior da parede da grande cratera à vista
O raro verde como fronteira entre o negro da lava (rica em obsidiana) e os tons acastanhados dos piroclastos
A par do basalto, a lava do Teide é riquíssima em obsidiana, material que, a par do sílex, era uma matéria prima privilegiada para o fabrico de armas e ferramentas pelos guanches. Ambos de cor negra, ajudam a que, na zona da Montanha Branca, a lava do Teide contraste com as cores claras da pedra-pomes que cobre maior parte da paisagem.
Outro fenómeno geológico interessante que aqui se verifica é o dos chamados "Huevos del Teide", os Ovos do Teide, enormes bolas de lava que nasceram por um processo semelhante ao de uma bola de neve. Pedaços de lava solidificaram em zonas superior das escorrências e começaram a rolar, acumulando lava durante o seu percurso e, deste modo, tornando-se maiores enquanto aumentavam de velocidade. Acabaram por ultrapassar o limite da escorrência, detendo-se em pleno campo de pedra-pomes da Montanha Branca. Alguns exemplares chegam a ter 4 a 5m de diâmetro!
Escorrência de lava medieval do Teide, nas encostas da Montanha Branca
Um dos Ovos do Teide não resistiu ao impacto da chegada
Ovos do Teide bastante afastados da escorrência de lava que lhes deu origem. O trilho serpenteia entre eles.
Um pequeno exemplar com cerca de 2,5m de diâmetro
A Montanha Branca terá sido criada por uma erupção explosiva, dado que se trata de um domo vulcânico arredondado. Eventualmente, uma nuvem piroclástica, a manifestação mais mortífera de um vulcão, terá coberto toda a paisagem de pedra-pomes. Para terem uma ideia, fica aqui um vídeo sobre o assunto, relativo ao monte de Santa Helena, nas Caraíbas:
Pormenor do solo da encosta da Montanha Branca, coberto de piroclastos
Uma escorrência de lava sobre uma encosta de pedra pomes
Vista para o Norte, com a "Fortaleza" em destaque
À vista da extensão da dispersão da pedra-pomes, uma dúvida assaltou a minha mente: quanta epiderme morta seria possível raspar com todo este material?
Fim da Montanha Branca
Último segmento do trilho, em aproximação à estrada
No outro lado do pequeno vale dá para imaginar a lava de elevada viscosidade que deu origem à elevação que se avista. Ao longe vislumbra-se o Observatório Astronómico do Teide.
Uma paisagem digna do planeta Marte
Bifurcação do trilho, levando o da foto a percorrer a planície rumo à Fortaleza
A descrição que me ocorre para esta foto é "Anita no Planeta Marte"
O último domo antes da estrada...
... reservava-nos uma surpresa! Dois exemplares de muflão, espécie introduzida no Parque durante os anos de 1970. Fica a dúvida: o que comem estes animais?!
Cansados mas de "alma lavada" chegámos finalmente ao fim do percurso, depois de 5 horas passadas no Teide. O que vimos mas, principalmente, o que ficou por ver, deixaram-nos cheios de vontade de voltar aqui. Aquele percurso entre o Pico Velho e o Pico do Teide não ficará certamente por fazer, nem o assistir do nascer do Sol no topo deste último. Quem quer vir?
A visita ao Parque Nacional del Teide, ou Parque Nacional de las Cañadas del Teide, foi sem dúvida e por vários motivos o ponto alto da estadia nas Canárias. Em primeiro lugar porque se tratou da nossa primeira visita a uma paisagem moldada pelo vulcanismo e onde este ainda está bem presente, porque o vulcão Teide, com 3718m de altitude, é o ponto mais elevado de Espanha e, last but not the least, porque esta visita nos permitiu passear por paisagens não raras vezes surreais, dando muitas vezes a impressão de estarmos noutro planeta; isto dito com a experiência própria de alguém que nunca esteve efectivamente noutro planeta mas que já visionou diversos filmes de ficção científica, nomeadamente o Total Recall original, todos os da série Star Trek e o documentário "Ainda há pastores".
A grande caldeira do Parque Nacional. À direita erguem-se o Pico do Teide e o Pico Velho, com a sua cratera. Foto: Viaje Jet
O Parque é constituído por uma gigantesca cratera situada a cerca de 2.000m de altitude, rodeada por uma cintura florestal de pinheiros, sendo que numa das suas extremidades se erguem dominantes o Pico do Teide e o Pico Velho. Dos dois, o Pico Velho foi o último a entrar em erupção.
Pico Viejo (à esquerda) e o Pico de Teide (à direita)
O Pico Velho entrou em erupção pela última vez em 1789. A erupção foi antecedida por 2 anos de intensa actividade sísmica até que, finalmente, o flanco da montanha explodiu, abrindo uma fenda de 700m (que hoje é conhecida como Nariz do Teide), da qual foram projectados gases e lava durante 3 meses.
Já o Teide terá entrado em erupção durante a Idade Média. Cristóvão Colombo, nos registos do seu diário durante a viagem que o haveria de levar à descoberta da América em 1492, descreveu uma erupção em Tenerife que muitos atribuem ao Teide.
É fácil estabelecer uma cronologia de antiguidade para as escorrências de lava que preenchem a paisagem. As mais recentes caracterizam-se por ser mais escuras enquanto as mais antigas possuem tons castanhos.
O Pico Velho e, a preto, a lava libertada durante a erupção de 1789
O "Nariz do Teide" visto de frente
Como referi atrás, tanto o Pico Velho como o Pico do Teide estão situados no limite de uma enorme cratera, vestígio remanescente do gigantesco vulcão que outrora dominou o centro da ilha. Contudo, há cerca de 180.000 anos atrás, mais ou menos a época em que Portugal não estava em crise, parte deste enorme maciço rochoso colapsou devido à erosão e deslizou para o mar. Este deve ter sido um acontecimento geológico fantástico já que, associado ao colapso da montanha, a câmara magmática do vulcão terá explodido devido à súbita descompressão, isto para além do tsunami que este evento terá provocado. A parede da caldeira remanescente é inconfundível na paisagem do Parque, erguendo-se a centenas de metros de altura.
Formações magmáticas e, ao fundo, a parede da caldeira
Mais uma vez a parede da caldeira e, em primeiro plano, os picos ditos fonolíticos. Já lá iremos.
Quando chove, forma-se na parte baixa da caldeira um lago efémero que pode dura apenas alguns dias ou algumas semanas. É o chamado "Llano de Ucanca", a planície de Ucanca. Esta zona foi também uma zona de transumância uma vez que os aborígenes para aqui traziam sazonalmente os seus rebanhos de cabras e ovelhas sem lã, abrigando-se nos muitos abrigos e grutas das imediações.
O Llano de Ucanca e os vestígios sedimentares do lago efémero
Sim, exacto, é a parede da caldeira
Não sei se identificaram mas lá ao fundo avista-se a parede da caldeira. Ao meio avistamos uma antiga escorrência de lava e, em primeiro plano, um grande monte de piroclastos
Vista da parte superior da caldeira a partir da estação de base do teleférico que leva ao topo do Teide
O limite de uma das escorrências de lava mais recentes mas agora de mais perto
Algumas das formações mais características desta enorme cratera são os chamados picos fonolíticos, curiosas formações rochosas abruptas que parecem por vezes desafiar a gravidade.
Estes picos, que no caso do conhecido como "A Catedral" chega a ter 100m de altura, são os últimos vestígios de antigas chaminés vulcânicas, dentro das quais a lava arrefeceu e solidificou. A erosão desgastou os cones, constituídos por materiais menos resistentes, deixando à vista as colunas de lava solidificada. Como os materiais e condições ambientais de solidificação foram diferentes, estas colunas acabam por ser constituídas por camadas de diferentes cores e resistência, o que lhes confere um aspecto muito peculiar. Os picos fonolíticos conhecidos como Roques de Garcia são a fronteira entre a zona mais baixa e a zona mais alta da grande cratera do Parque.
Alguns picos com as diferentes camadas de materiais bem evidentes
Roques de Garcia, agora de perfil
O pico fonolítico mais emblemático do grupo. A base é constituída por material menos resistente e, como tal, a erosão teve nela mais efeito
Outra das zonas mais interessantes (entre tantas) do espaço da grande cratera é a zona conhecida como Los Azulejos onde uma série de alterações hidrotermais conferiu um colorido muito característico às rochas, que vai do verde ao azul, passando pelo amarelo. A ilita e a caleonita são os minerais responsáveis pelas cores mais claras da "palete". Sinceramente, não faço ideia do que sejam estes minerais e estou apenas a reproduzir a informação constante do painel informativo no local só para impressionar.
Los Azulejos!
Junto aos Roques de Garcia encontra-se a pequena ermida de Nossa Senhora das Neves ou de Santa Maria Maior, o templo cristão espanhol situado a maior altitude, construída nos anos 1950/60 juntamente com o vizinho Hotel Parador. A título de serviço público, informo aqui que na ermida se celebra a santa missa todos os Domingos e dias festivos pelas 13h00.
A ermida de Nossa Senhora das Neves, na qual se celebra missa todos os Domingos e dias festivos pelas 13h00
A vegetação existente na cratera do Parque é claramente influenciada pela altitude a que esta se encontra, sendo exclusivamente rasteira ou arbustiva. Uma das plantas mais características deste espaço é o Tajinaste Rojo, Echium Wildpretii para os amigos. Quando chega a Primavera e floresce, esta planta que permanece até aí rasteira, desenvolve uma estaca que pode crescer até 2m. No final da floração, esta estaca seca, deixando um "esqueleto" que pode durar vários anos.