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sábado, dezembro 31, 2016

A Torre da Serra da Estrela em 1904


In Ilustração Portugueza, nº52 de 31 de Outubro de 1904 (ao que parece, numa Segunda-feira)

Salta à vista a falta de acabamento da "Torre" e a ausência de sacos de plástico e restos de trenós deixados pelos turistas.

terça-feira, outubro 25, 2016

Os misteriosos Fornos dos Mouros da Serra da Maúnça

A crista da Maúnça, com a aldeia do Açor à direita. 

A Serra da Maúnça está condenada a servir de fronteira. Quando caminhamos pela sua crista, o mais provável é que estejamos a caminhar sobre a linha que separa o concelho do Fundão do concelho de Castelo Branco. Chegou a ser até fronteira de um terceiro, o de Sarzedas que, apesar de hoje estar incorporado no da capital de Distrito, ficou preservado na toponímia de um dos locais de maior simbolismo da Maúnça: a Eira dos 3 Termos. 

Por esta Serra passaram inúmeros soldados nos tempos das Invasões Napoleónicas e muitos não chegaram sequer a deixá-la (conta-se que de uma só vez ficaram lá mais de 200 da Grande Armée). Desse tempo sobram nomes como os "Valados", o "cemitério dos franceses" e diz-se até que o intrigante fenómeno da Eira dos 3 Termos (ver aqui) será uma herança visível desse tempo.

Há num entanto outro mistério bem menos conhecido por explicar mas a que o povo já sentenciou a idade. Trata-se dos "Fornos dos Mouros", cavidades abertas nas rochas com uma finalidade desconhecida. Num deles, o que fica no concelho de Castelo Branco, a voz popular ousou até imaginar uma cama: "a Cama da Moura".



O Forno dos Mouros, que na sua parte superior terá a "Cama da Moura".
Foto de 2005

Esta cavidade foi aberta numa rocha em forma de esporão e o seu diâmetro é de quase 50cm. No interior, forma uma câmara onde cabe uma pessoa de cócoras. A referência é a de um indivíduo com a mesma altura do autor deste blogue mas com diâmetro de cintura versão 2005.




A rocha vista de um pouco mais longe. Foto de 2005

Embora um dos "fornos" tenha apenas uma cavidade e outro tenha duas, há várias semelhanças no local escolhido para a sua implantação. Em ambos os casos existe esporão rochoso visível ao longe e situam-se também junto a uma linha de água. Quanto às aberturas, nunca estão viradas para as partes superior ou inferior do vale, tendo pelo contrário uma orientação oblíqua. Será por acaso ou terá havido uma intenção propositada?


O esporão rochoso do outro "Forno dos Mouros", visível na encosta Este.



Só de perto se percebe o grande afloramento rochoso escondido pela vegetação



As duas cavidades, de menor dimensão (dois palmos de diâmetro) sob uma depressão da rocha. Terá havido intenção nesta simetria?


Não há, como referi, uma explicação sobre o propósito destes "fornos dos mouros", tendo pelo contrário recolhido muitas expressões de surpresa e desconhecimento. Há no entanto duas teorias abalizadas sobre o assunto. Uma delas sugere que se trataria de uma espécie de "cofres" proto-históricos, portanto pré-romanos, destinados a guardar bens preciosos. A outra, mais recente, sugere que se trataria de santuários rupestres, feitos para adorar uma qualquer divindade por ora sem forma nem nome. 

No que a mistérios diz respeito, a Serra da Maúnça parece de facto não querer ficar atrás da sua vizinha Gardunha.

domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



quarta-feira, setembro 02, 2015

Em Almeida, como há 200 anos, o castelo medieval voltou a explodir

No último fim-de-semana, a vila de Almeida, a histórica estrela de pedra sentinela da fronteira, foi palco de mais uma recriação do cerco pela tropas napoleónicas de1810. O espaço dentro das muralhas voltou ao passado, enchendo-se de comerciantes e soldados trajados a rigor e, como sempre acontece, houve lugar à encenação dos combates. No Sábado fomos até lá para assistir à batalha nocturna mas, quando menos esperávamos, o foco da nossa atenção acabou por se virar para algo totalmente inesperado.




Os comerciantes eram em grande número junto ao antigo quartel militar


Todos os anos, a vila fortificada de Almeida regressa ao século XIX. Trata-se da recriação histórica que evoca a 3ª Invasão Francesa, que aqui teve um dos seus palcos principais, desde o Combate do Côa, com a retirada quase desastrosa das tropas luso-britânicas, pela ponte que ficou intransitável devido ao amontoado de cadáveres, até ao Cerco de Almeida que, em poucos dias e graças à catastrófica explosão do antigo castelo, frustrou os planos que previam uma resistência mínima de 1 mês.

Em anos anteriores já tínhamos assistido à recriação do Combate do Côa (ver artigo e vídeo) e aos combates sobre as muralhas (ver aqui) e este ano decidimos assistir ao espectáculo nocturno. Sendo assim, lá fomos nós até Almeida e, após um jantar ligeiro, dirigimos-nos até à porta de Santo António, junto à qual iriam decorrer as actividades.

Embora os "soldados" estivessem algo distantes e, quanto a mim, numa posição pouco favorável para os espectadores (creio que uma formatura perpendicular a estes teria permitido uma melhor percepção das refregas corpo-a-corpo), o início até foi promissor. Um poderoso sistema de som permitia que os combates tivessem música de fundo e ainda alguns apontamentos por parte de um narrador que, muito bem, foi explicando o contexto da invasão e revelando alguns detalhes do armamento e das tácticas militares da época.


Os combates sobre o baluarte da porta de Santo António. Sucederam-se as salvas de mosquete, os tiros de canhão e as cargas de cavalaria.



Os disparos antes da carga sobre o inimigo.


O pior foi quando, entre as suas intervenções, o narrador se esqueceu de desligar ou, pelo menos, de baixar o volume do microfone, permitindo que os espectadores ouvissem as suas conversas paralelas como banda sonora dos combates.


Uma banda sonora... sui generis

Assim, ao mesmo tempo que franceses e luso-britânicos iam disparando uns sobre os outros, ficámos a saber que a recriação já estava a demorar muito mais que o previsto: -"Isto já devia ter acabado mas começando a dar ao gatilho eles entusiasmam-se e é isto! No ano passado só durou 40 minutos. Daqui a 10 ou 15 minutos deve terminar", ou ainda que havia uma gritante falta de realismo na recriação, facto esse devidamente comprovado graças ao acervo fotográfico pertença do próprio narrador -"Esta malta não tem cuidado e isto acaba por não ter realismo nenhum. Tenho lá em casa um grande arquivo fotográfico e numa das fotos vê-se aquele frade que está ali em baixo, em luta acesa com um cavaleiro mas com ambos a rirem-se que nem uns perdidos". -"Olha, lá vai outra vez o frade! Não pára!", complementou uma conhecida. Falta de um encenador, segundo outro companheiro do narrador, para dirigir a batalha -"Isto sem uma voz de comando é complicado...!".

Após a batalha e a saudação mútua dos participantes, o narrador anunciou o espectáculo pirotécnico evocativo da explosão do castelo que se iria seguir. Ainda assim, o aviso não foi ouvido por alguém da organização que questionou -"Olha lá, já avisaste o pessoal que vai haver explosão do castelo? Ah bom!".


Desaparecido numa explosão que destruiu maior parte da vila, tornando-a indefensável, o castelo medieval foi vítima do desleixo que permitiu que um tiro certeiro incendiasse o paiol aí instalado. A tradição popular transformou esta história, manifestamente pouco abonatória para a honra da vila, numa outra em que um traidor vendeu aos franceses o segredo da existência de um túnel secreto que levava ao castelo.



O certo é que, se o impacto da batalha acabou por se diluir entre risadas dos espectadores devido aos diálogos, a explosão do castelo lá aconteceu e foi  impressionante, embora não tanto como o espectáculo musical e pirotécnico, logo a seguir, que culminou na apoteótica Overture 1812 de Tchaikovsky.



A apoteose final.

Em resumo, vale bem a pena visitar Almeida durante esta altura (aliás, qualquer altura do ano é boa) mas, em termos de recriação histórica, há ainda algumas arestas a limar de forma a permitir que, um dia, um frade e um cavaleiro se possam afrontar sem achar piada a isso.

quarta-feira, julho 30, 2014

Memórias de Verdun - 100º aniversário do início da I Guerra Mundial

Numa altura em que se assinala o 100 aniversário do início da I Guerra Mundial, recordo a minha visita a Verdun, então palco de uma encarniçada batalha que durou 10 meses e vitimou quase 700.000 soldados mas que hoje enverga o epíteto de "Capital Mundial da Paz". Este é um túmulo colectivo gigantesco no qual estão sepultados não só soldados mas também povoações e os sonhos de várias gerações. 

A Batalha de Verdun

Uma aldeia de Verdun. Antes e depois.
A Batalha de Verdun é o paradigma da irracionalidade de quem decidiu e dirigiu a I Guerra Mundial. Quando a mobilização geral foi decretada em cada país à medida que as declarações de guerra se iam sucedendo, todos os soldados, comandantes e governantes estavam convencidos de terem a razão e a superioridade do seu lado e de que estariam de regresso a casa antes do Natal. Só que a guerra mudou, prolongou-se, tornou-se uma trituradora de corpos e em 1916 não se via o seu fim.

Usando a racionalidade dos números, o general alemão Falkenhein propôs um plano simples pela sua lógica: se os alemães tinham mais soldados que os franceses, então numa batalha de atrito, havendo igual número de baixas em ambos os lados, os vencedores seriam inevitavelmente os alemães. Escolheu-se o palco para pôr em prática este plano: seria Verdun, espinho cravado na frente de batalha e local sagrado do ideário nacional da França, como Guimarães o é para Portugal. 

A 21 de Fevereiro iniciou-se o ataque alemão com fogo concentrado de 1200 peças de artilharia sobre 10km das linhas francesas. Em 2 dias apenas, caíram sobre o estas mais de 2 milhões de projécteis! Decidido a não ceder, o general Pétain ordenou a resistência a todo o preço, celebrizando a frase "Não passarão!", isto apesar de fortalezas-chave da região terem sido tomadas, algumas delas sem resistência, tal era a desorganização.

Fazendo de Verdun um prelúdio de Estalinegrado, reforços foram sendo continuamente enviados para a linha da frente através da única via de comunicação que não tinha sido cortada pelos alemães, a estrada que receberia a partir daí o nome de "Via Sagrada". Um veículo com tropas a 14 segundos, segundo dizem.

10 meses depois, após inúmeros avanços e recuos, tinham sido restabelecidas de grosso modo as posições do início da batalha. Por nada, tinham morrido cerca de 350.000 franceses e 320.000 alemães e várias povoações tinham sido apagadas do mapa para sempre.

A necrópole e o ossário de Douaumont

Partindo de Douaumont, local dominado pela torre do Ossário, descobre-se a Necrópole Nacional, formada pelo grupo principal de sepulturas individuais e por outros grupos mais pequenos e memoriais que se encontram dispersos um pouco por todo o lado. A torre tem a forma de um projéctil de artilharia e à noite funciona como farol simbólico, sendo visível a muitos quilómetros de distância. Do seu topo domina-se o cenário do antigo campo de batalha

Ao todo e sem distinção de nacionalidades ou religiões encontram-se no ossário restos de cerca de 130.000 soldados recolhidos no campo de batalha até muito depois do fim da Guerra. Sepulturas individuais são mais de 16.000. É difícil explicar o peso que se sente especialmente neste local mas também em cada memorial ou sepultura que se descobre no silêncio da floresta que rodeia o local.

Vista do edifício principal do Ossário para lá do cemitério.


O edifício do Ossário, simbolizando a forma como os soldados franceses deram o peito às balas, formando a barreira que deteve os alemães.


Outra vista do cemitério


Outra ainda


Metade do cemitério vista do alto da torre do Ossário. Há 98 anos atrás todo este cenário era uma paisagem lunar, pintada em cinza e castanho e os bosques tinham desaparecido.

Uma volta pelas redondezas

Partindo do Ossário, sem nenhum objectivo concreto, caminhei pelos bosques dos arredores durante algumas horas. A primeira coisa que notei foi a irregularidade do terreno devido às marcas, já algo esmorecidas, do bombardeamento indiscriminado a que esta zona foi sujeita.
Marcas de crateras sobre uma fortificação subterrânea da qual se avista um respiradouro já bastante exposto.

No meio da vegetação, tropeça-se frequentemente em ferro e betão. É preciso ter em conta que esta era uma região fortificada e que o espaço entre os fortes principais estava preenchido com fortins, abrigos e trincheiras.

A fortificação de Thiaumont é bom um exemplo disso. Situada no ponto máximo do avanço alemão, esta fortificação mudou de mãos mais de 20 vezes antes de ser definitivamente reconquistada em Outubro de 1916. Já pouco sobrava da sua estrutura nessa altura.


Campânula de observação em aço da fortificação de Thiaumont, arrancada da sua base pelo impacto directo de um projéctil de artilharia. 


Outro aspecto da fortificação de Thiaumont, com dois monumentos em memória de soldados que aí perderam a vida.


Um abrigo de infantaria semi-enterrado mostra o resultado do impacto directo de um projéctil de artilharia. A espessa couraça de betão armado foi insuficiente para proteger os soldados que ali estavam abrigados.

Mais à frente um conjunto de 4 respiradouros chamou a minha atenção. Tratava-se do "Abrigo das 4 chaminés", destinado a acolher temporariamente feridos antes de serem enviados para a rectaguarda e a proporcionar abrigo e descanso aos soldados. Não chegou a ser conquistado pelos alemães, pelo menos não inteiramente já que a dada altura, os alemães conseguiram estabelecer uma posição sobre o abrigo que albergava no seu interior muitos soldados franceses.

Os relatos dão conta desse momento delicado. Tendo tomado posição sobre o abrigo, os alemães começaram a lançar granadas e gás pelos respiradouros e tentaram entrar pelas duas entradas do abrigo. Encurralados, os franceses acederam fogueiras sob as chaminés e junto das escadarias para tentar fazer sair o gás pela acção do ar quente e ripostaram com as suas espingardas e metralhadoras às investidas alemãs.

Nem todos tinham infelizmente máscaras de gás e aqueles que as tinham tiveram de ver os seus camaradas agonizar no chão frio das galerias. Os alemães acabaram por ser desalojados pela artilharia francesa que se encontrava no monte oposto e que, ao aperceber-se da situação, disparou sobre o abrigo.


Uma das quatro "chaminés"


Uma das duas entradas do abrigo flanqueadas por sua vez por duas casamatas


Embora o aspecto e os avisos de segurança fossem desencorajadores, a curiosidade foi mais forte e acabei por me aventurar no interior do abrigo


No interior a escuridão é total. Sem lanterna, avancei graças ao flash da máquina fotográfica.


As galerias onde se acumulavam os soldados franceses

O Forte de Douaumont

O forte de Douaumont antes e depois da batalha
Construído para, em conjunto com os fortes próximos de Vaux e Souville servir de ferrolho da região fortificada de Verdun, o caso do forte de Douaumont é bem a prova da desorganização do exército francês perante a ofensiva alemã de 1916, tendo sido tomado sem esforço 4 dias depois do início da ofensiva.

Perante o maciço ataque alemão, o forte que tinha capacidade para 800 homens encontrava-se apenas guarnecido com 60 que, sem conhecimento da situação operacional e sem qualquer comunicação com o restante dispositivo de defesa, se limitavam a disparar os poucos canhões sobre alvos pré-estabelecidos antes dos combates.

Um pequeno grupo de alemães que tinha conseguido escalar a escarpa e chegar ao fosso do forte, percebeu que não havia grande oposição e voltou atrás para chamar reforços. A pequena guarnição foi apanhada de surpresa e rendeu-se sem oposição. 

Em Outubro, o forte voltaria a mudar de mãos sem oferecer resistência quando, após um violento incêndio no seu interior provocados por projécteis de artilharia que tinham conseguido perfurar a sua espessa couraça, os poucos alemães que haviam ficado para trás foram surpreendidos por soldados marroquinos do exército francês e renderam-se por sua vez.


O corpo central do forte em 2007 


A torre eclipsante de canhão de 155mm.


Corredor de acesso ao interior do forte, com chicane de metralhadoras (os dois muros com abertura no centro)


Secção selada após uma explosão provocada por um lança-chamas. Atrás da parede ficaram sepultados quase 700 alemães mortos por essa explosão.

As aldeias "mortas pela França"

Outros monumentos existentes nas redondezas recordam que as vítimas da guerra não são apenas militares. No sector de Verdun a batalha apagou do mapa nada mais nada menos que 9 localidades, 6 das quais nunca voltariam a ser construídas em parte pela dimensão da destruição mas também pela poluição provocada pelas munições utilizadas e pelo risco de existência de projécteis por detonar (ver 1ª imagem deste artigo).

Visitei dois locais onde outrora tinham existido aldeias. A primeira foi Fleury-devant-Douaumont, aldeia que antes da batalha tinha mais de 422 habitantes e que no decurso desta mudou de mãos 16 vezes, tendo por isso ficado em completa ruína. Hoje o local consiste essencialmente numa floresta cujo solo, onde abundam vestígios de materiais de construção, é extremamente irregular devido às crateras resultantes dos constantes bombardeamentos. O único edifício que ali se encontra é a capela de Nossa Senhora da Europa e a povoação continua a ser sede de comuna e tem também um maire (presidente de Câmara), nomeado a título simbólico, embora não tenha qualquer habitante. 


Marco junto à estrada recorda a aldeia desaparecida de Fleury-devant-Douaumont. Este marco foi construído com recurso a restos das casas da aldeia.

No local onde outrora se situavam os principais edifícios da aldeia, encontram-se pequenos marcos a recordar esse facto, neste caso o edifício que servia de câmara municipal e escola. 

 Indicação da orientação da antiga Rua de São Nicolau. No solo irregular são visíveis os restos de materiais de construção daquilo que foi outrora a aldeia.



A outra aldeia que visitei foi a de Douaumont, situada em frente ao forte com o mesmo nome, cuja recordação se fez pela colocação de marcos com os nomes dos habitantes e respectivas profissões ao longo da estrada. Também os edifícios mais importantes e as fontes são evocadas nesta alameda de memórias.

Uma capela, único edifício actualmente existente no local, ergue-se para assinalar o local onde outrora existiu a igreja da aldeia e é aqui que anualmente, no 2º Domingo de Outubro, se realiza uma missa em memória dos caídos à qual assistem os descendentes dos antigos habitantes de Douaumont.


Entrada em Douaumont, outra "aldeia morta pela França"



A rua onde se recordam alguns dos seus 288 habitantes

Em memória do Sr. Théophile Lamorlette, tecelão de profissão.


A Trincheira das Baionetas, da lenda à realidade

A certa altura fui parar a um memorial invulgar, a Trincheira das Baionetas. Trata-se de uma estrutura em betão armado construída por iniciativa estado-unidense como memorial em honra dos soldados mortos na I Guerra Mundial neste local como refere a inscrição sobre a entrada.

"Em memória dos soldados franceses que dormem de pé com a espingarda na mão nesta trincheira, (pel)os seus irmãos da América"

Um panfleto que tinha recolhido num museu ali perto conta a história desta trincheira. Os soldados franceses estavam aqui prontos, com a espingarda na mão, para carregarem sobre os alemães quando um tiro certeiro de artilharia alemã os enterrou vivos, deixando apenas as baionetas expostas como marcas de uma sepultura imprevista.

Na verdade a história é muito menos heróica e situa-se num nível diferente de tragédia. Tratava-se afinal de uma vala comum na qual foram enterrados alguns soldados, tendo as espingardas sido usadas para marcar o local de enterramento de cada um deles. A evocação heróica e patriótica da valentia dos soldados franceses encarregou-se depois de dar um tom romântico à história.


As sepulturas da Trincheira das Baionetas. Estas últimas entretanto já desapareceram e apenas se vê a ponta da espingarda perto de cada cruz. Ao todos havia nesta vala 21 soldados. 14 foram trasladados para a necrópole de Douaumont.

O memorial não é só local de morte mas também de vida, tendo em conta a pequena colónia de morcegos que aqui encontrou as condições ideais para se abrigar.

Outros monumentos

Como referi, na região de Verdun abundam os locais de memória dos que tombaram durante a I Guerra Mundial. É claro que Verdun é um local emblemático pelo seu significado na construção da identidade francesa e por isso terá um valor simbólico acrescido mas também é importante referir que não faltam cemitérios e monumentos noutras paragens do Nordeste. Isto para não falar dos monumentos em honra dos mortos da I Guerra que existem em praticamente todas as localidades de França, com maior ou menor modéstia, aos quais foi depois acrescentada a referência aos mortos da II Guerra.

Dos memoriais que encontrei à volta do Ossário, eis os que me pareceram mais interessantes:


Monumento em memória dos 28.000 soldados muçulmanos mortos em combate, principalmente forças coloniais magrebinas e senegalesas. Construído em apenas 3 meses de 2006, foi no entanto necessário proceder previamente à desminagem do terreno. Nesse trabalho foram encontradas 219 munições (balas, obuses e granadas) assim como os restos mortais de um soldado cuja identidade (e religião) se desconhece.



Inaugurado em 1938, o memorial domina a secção do cemitério onde estão sepultados alguns dos muitos soldados judeus caídos no campo de batalha. Judeus e muçulmanos morreram e foram aqui sepultados de igual forma e não constam que se dêem mal.



Monumento a André Thome, deputado que abdicou da possibilidade de não ser incorporado conferida pelo seu estatuto de político para se voluntariar para a frente de combate. Morreu em Verdun a 10 de Março de 1916 com 36 anos de idade.



Monumento a André Maginot, deputado de Bar-le-Duc e ministro, que se alistou voluntariamente como soldado raso tendo sido ferido num joelho em combate. Como Ministro da Guerra, foi grande defensor da construção de uma fronteira fortificada com a Alemanha que viria a ser chamada de Linha Maginot. De pouco serviria durante a II Guerra Mundial (ver aqui artigo sobre a visita ao impressionante forte Hackenberg).


Um covilhanense morto em Verdun

Nos arquivos do Ministério da Defesa de França, é possível encontrar uma relação dos soldados mortos em Verdun. Entre eles encontram-se muitos portugueses mas um deles chamou-me a atenção. Trata-se de um tal de Jean Georges Haudecoeur, cabo do 165º Regimento de Infantaria, falecido no hospital militar de Verdun na sequência de ferimentos sofridos em combate 4 em Setembro de 1914, portanto logo nos primeiros combates da I Guerra. Curiosamente, embora tenha um nome francês, o registo de óbito aponta-o como tendo nascido em Portugal, mais precisamente em "Covilhan". 



Imagem aérea: Fórum AR15.com, Strange Military
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