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segunda-feira, dezembro 09, 2013

"Cart ruts", as misteriosas marcas na paisagem de Malta

No passado mês de Junho tive a oportunidade de visitar aquele que será, muito provavelmente, um dos mais intrigantes enigmas arqueológicos da bacia do Mediterrâneo, gerando ainda hoje um intenso debate sobre quem foram os seus autores e qual seria a sua finalidade. Estou a falar dos "cart ruts", as misteriosas linhas rasgadas na superfície rochosa do arquipélago de Malta.


O último dia da nossa estadia em Malta começou bem cedo e, ainda antes do pequeno-almoço, peguei na máquina fotográfica e subi pelas intrincadas ruas de Kalkara, a localidade piscatória onde estávamos alojados, decidido a não partir sem admirar uma das ocorrências dos "cart ruts", as misteriosas marcas de que tanto havíamos ouvido falar.

Tendo consultado um livro dedicado a elas e tendo ainda feito alguma pesquisa no Google Maps, fiquei a saber da existência de um conjunto dessas marcas que não muito longe do hotel. Àquela hora, via-se ainda pouco movimento nas ruas enquanto as portas dos estabelecimentos comerciais iam abrindo aos poucos. Alguns minutos depois, cheguei finalmente ao muro que delimitava a propriedade onde os "cart ruts" se encontrariam.

O muro era alto e uma porta trancada fechava a única passagem visível. Enquanto ponderava sobre se devia ou não invadir o terreno, de uma casa em frente saiu um homem que ia iniciar a sua jornada laboral. Abordei-o e, apresentando-me e explicando-lhe o porquê de estar ali, pedi-lhe que me confirmasse se realmente existiam "cart ruts" atrás daquele muro e, se sim, como poderia eu fazer para os fotografar.

Num inglês com característico sotaque italiano, tipicamente maltês, confirmou que efectivamente existiam ali as ditas marcas mas explicou-me também que o terreno era privado mas que ele conhecia o dono do terreno e que ele costumava andar por ali durante o dia. Dito isto, aproximou-se do muro gritando "Laurie! Laurie!". Do outro lado não veio resposta. Depois de alguma insistência, e de um aceso diálogo em maltês com um casal que por ali passou, do qual só consegui perceber "portoghese" enquanto apontava para mim, pediu-me que aguardasse um pouco e trepou o muro, desaparecendo do outro lado. Pouco depois, a porta abriu-se, saíndo dela o Mário na companhia de um casal de sexagenários, Laurie e a sua esposa.


Dos estaleiros navais à falta de chuva

Lawrence, reformado após 46 anos de trabalho administrativo nos outrora frenéticos estaleiros navais do Grande Porto, posa junto aos "cart ruts". 

Feitas as apresentações, assim como as despedidas, fiquei a sós com o meu cicerone que se mostrou extremamente satisfeito pelo meu interesse no seu tesouro histórico. Convidou-me a acompanhá-lo até às marcas, por um percurso que se fez por um terreno relativamente plano mas predominantemente rochoso, com algumas árvores, onde as esporádicas bolsas de terra eram aproveitadas para cultivo.

Laurie, diminutivo de Lawrence, foi-me explicando que passava os seus dias naquele terreno, onde aproveitara todas as zonas cultiváveis para plantação, sobretudo de batatas. O maior problema era a irrigação, dado que estávamos naquela que era normalmente a época das chuvas em Malta e até então muito pouco chovera. A preocupação era evidente. O único poço da propriedade, escondido sob uma alfarrobeira, apresentava um nível de água muito baixo e as depressões no afloramento rochoso, que Laurie limpara para recolher água da chuva, tinham apenas restos de água lamacenta.

Foi com a confissão destas preocupações que chegámos aos "cart ruts".

O enigma dos "cart ruts"

A origem e a razão de ser destas marcas são actualmente motivo de acesso debate, até porque, logo à partida é difícil relacioná-las com qualquer outro elemento arqueológico de Malta. Há quem atribua a sua autoria aos construtores dos grande templos que começaram a ser erigidos há 6.000 anos atrás mas outros defendem uma data mais recente, atribuíndo a sua autoria aos Fenícios, no século VII a.C.. No entanto, há túmulos fenícios foram construídos em pleno traçado de alguns destes trilhos, o que leva a pensar que não serão contemporâneos. A ajudar à discussão, há "cart ruts" que contornam estruturas de origem romana ou... será que as estruturas romanas é que contornam os "cart ruts"?



Uma característica bifurcação. Segundo Laurie, um dos trilhos levaria para a Baía de Rinela, enquanto outro tomaria a direcção da costa mais a Norte.

Quando à finalidade das marcas, é já comumente aceite que se tratará de trilhos de carros de transporte. Mas que tipo de carros? Seriam rodados ou de arrasto? Teriam tracção animal ou humana? O que transportavam? São questões que permanecem em aberto relativamente a estas marcas, em média espaçadas por 1,4m e chegando a atingir em determinadas zonas 60cm de profundidade.

Uma característica muito peculiar é a profusão de marcas que se encontram pelas ilhas, formando verdadeiras malhas com bifurcações e intersecções que lembram as linhas de caminho-de-ferro. Um dos locais onde isso é mais evidente foi até baptizado de "Clapham Junction", em alusão à estação ferroviária londrina que é uma das mais movimentadas da Europa.


Ver mapa maior
Sítio de Misrah Ghar il-Kbir, conhecido popularmente por Clapham Junction. Cliquem no link acima para abrir o mapa numa janela maior.

As marcas eram na época da sua utilização sem dúvida bem visíveis na paisagem, sendo provavelmente as autoestradas destas ilhas. A sua formação deu-se pelo uso repetido dos mesmos percursos, algo que foi desgastando o solo que se encontrava sobre o afloramento rochoso, desgastando este em seguida.

Essa é aliás a opinião partilhada também por  Laurie -"Não se deixe enganar pelo aspecto dos cart ruts. Antigamente a pedra estava coberta de terra e era sobre ela que as pessoas puxavam os carros que fizeram as marcas." e apontando para uma depressão na rocha onde as marcas parecem terminar: -"Está a a ver aqui? Isto não foi escavado, estava era cheio de terra que eu retirei para aproveitar a água da chuva. Tive de pedir autorização para o fazer às autoridades porque eles são muito rigorosos em relação a isto."


As marcas junto a uma depressão de onde a terra foi retirada para aproveitar a água da chuva. 

A preocupação com a preservação das marcas vem aliás de longe. -"Há aqui mais marcas que estão cobertas pela terra. Uma vez perguntei ao meu pai se ele queria que eu limpasse a terra, para deixar os cart ruts todos à vista, mas ele disse que era melhor não o fazer porque pelo menos assim ficavam protegidos. Hoje em dia é isso que as autoridades nos pedem, que não os destapemos para não desaparecerem por causa da erosão."

Já em direcção à saída acrescentou -"Às vezes vêm cá pessoas, como você, a pedir para verem os cart ruts. Eu gosto que vejam. É bom que as pessoas se interessem por isto, para conhecerem a nossa História.". Na despedida, Laurie chamou-me para junto do limoeiro, onde colheu dois limões para me oferecer. -"Quer levar mais? Infelizmente só tenho limões. Se tivesse vindo em Agosto eu oferecia-lhe uns frutos deste cacto.", referindo-se aos frutos que conhecemos como figos da Índia, "Também poderia levar alfarrobas mas de momento só tenho mesmo limões".

Despedimo-nos com um caloroso aperto de mãos e desejando mutuamente felicidades. Regressei ao hotel levando na bolsa dois limões mas, mais importante que isso, um sorriso proporcionado pela inestimável simpatia  e hospitalidade com que fora recebido.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Parece que desta vez Nelson Mandela morreu mesmo



Depois de um primeiro ameaço há uns meses atrás, que levou à publicação do obituário em órgãos de comunicação social, a luz de Nelson Mandela apagou-se ontem de vez. Não fiquei mais triste ontem do que fiquei quando ele se retirou da vida pública em 2004. Aí sim, fechou-se a era de Mandela, uma das figuras mais inspiradoras da minha relativa curta existência, de tal forma que, se me lembro perfeitamente onde e com quem estava no momento em que soube do embate dos aviões nas torres gémeas e do momento em que soube da queda do muro de Berlim, também isso acontece com o momento em que vi o casal Mandela caminhar de mão dada rumo à liberdade, à frente de uma multidão

É evidente que não havendo santos, Mandela também não o seria, teve no entanto o fantástico condão de ser conciliador como ninguém quando a hora chegou. Deixou de lado qualquer ressentimento que pudesse ter por ter passado 26 anos da sua vida em cativeiro - que coragem foi preciso ter!-, e com isso limpou uma das nódoas mais vergonhosas do século XX, que por sinal foi apoiada até para além do limite do razoável pelos EUA e Reino Unido, com Portugal a aparecer também nessa história, como a pequena rémora nas costas dos dois grandes "tubarões".

Por duas vezes Portugal alinhou declaradamente com o Apartheid. A primeira em 1987, quando votou contra a aprovação de uma moção nas Nações Unidas pedindo a incondicional libertação de Mandela e a segunda em 1989, quando votou contra a aprovação de medidas em prol das crianças vítimas da mesma política de segregação racial. Nada que tenha impedido o Sr Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro, de vir manifestar o seu profundo pesar pela perda de quem  cujo "exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade." considerando ainda que o prémio Nobel e a eleição para presidente da África do Sul foi um  "simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo" (sic). Prefiro pensar que não haverá aqui hipocrisia e que Nelson Mandela conseguiu até mudar as convicções daquele que disse um dia que "raramente se enganava e nunca tinha dúvidas".

segunda-feira, dezembro 02, 2013

De Badajoz ao santuário do grande deus Endovélico

Aproveitando um dia de folga, fomos até Badajoz, cidade espanhola situada nas margens do rio Guadiana sob a vigilância atenta de Elvas. Embora no geral pouco saibamos acerca de Badajoz, para além de, como diz a canção, estar à vista de Elvas e também de ter uma maternidade onde as portuguesas da zona raiana do Alto Alentejo têm de ir dar à luz, o que é certo é que esta cidade mudou a nossa história, ou não tivesse sido aqui que Afonso Henriques, o 1º rei de Portugal, tivesse sido forçado a terminar a sua carreira militar.

Para lá da Ponte de Palmas (séc XVI) sobre o Guadiana, rio que atravessa a cidade antes de receber as águas do rio Caia e de marcar a fronteira luso-espanhola, avista-se ao longe a cidade de Elvas. É caso para dizer, "Badajoz, Badajoz, oh Elvas à vista!". 

Badajoz foi em tempos capital de um dos muitos reinos islâmicos da Península Ibérica e palco de intensos períodos de guerra não só com os reinos cristãos vizinhos, como também com outros reinos islâmicos. A Alcáçova, o castelo de Badajoz, é a maior fortificação construída em taipa (terra batida) da Península Ibérica, e data do século XII, sucedendo a uma primeira fortificação do século IX construída por Ibn Marwan, o líder rebelde que fundou também Marvão. As sucessivas reparações e ampliações, acabaram entretanto por incluir outros materiais nas muralhas.

Badajoz entrou na nossa História quando, em 1169, Geraldo Geraldes "o sem pavor", que era uma espécie de canhão desgovernado da cristandade, decidiu tomar a cidade. Tendo conseguido tomar a muralha exterior, não conseguiu no entanto vencer a guarnição islâmica que se refugiou na Alcáçova. Vai daí, Geraldes pediu ajuda a Afonso Henriques para quebrar a última resistência dos infiéis, ao que o rei respondeu afirmativamente, comandando pessoalmente as suas tropas.

Porta do Capitel, com o típico arco de ferradura. A torre à direita é feita em taipa, com decoração a imitar silhares de pedra.

Quem não gostou da perspectiva de ver mais uma praça, da região que lhe caberia a si, cair em mãos portuguesas, foi Fernando II de Leão. Sendo assim, o rei leonês, que até era genro de Afonso Henriques, atacou os portugueses sitiantes, que não tiveram outro remédio senão retirar. Infelizmente para o rei português, ao passar a galope por uma das portas, bateu violentamente com uma perna num ferrolho e caiu ao chão. Com uma fractura (provavelmente exposta) não foi capaz de retomar a fuga e foi capturado, só voltando a ser libertado em troco de um resgate, da devolução de várias praças, entre elas Cáceres e Trujillo, e a promessa da renúncia a outras aventuras semelhantes. A partir daí, nunca mais Afonso Henriques foi capaz de montar a cavalo (há até quem diga que passou a deslocar-se numa carreta de madeira) e a regência foi passada para o seu filho, o futuro D.Sancho I. Diz a tradição que muitas vezes o 1º rei de Portugal terá recorrido às águas termais de São Pedro do Sul para aliviar as dores que passou a sentir.

Este episódio entrou na nossa História com o nome de "Desastre de Badajoz". Pelo menos foi essa a designação com que me foi contado na escola primária.


Aspecto das muralhas Oesta em taipa.

Vista sobre a Plaza Alta a partir da Alcáçova.

Entre vários edifícios de construção recente existentes na Alcáçova, desde a Biblioteca da Extremadura à Faculdade de Biblioteconomia de Badajoz, encontra-se um mais arruinado e de acesso um pouco mais difícil, a Torre de Calatrava, onde se encontra ainda aquilo que foi a sala de autópsias do antigo hospital militar. Já o primeiro piso está ocupado, segundo parece por uma sem-abrigo de origem portuguesa..


De regresso a Portugal, para prestar homenagem ao grande deus Endovélico

Cumprida a visita a Badajoz e a velha máxima de "Em Espanha, compra caramelos", regressámos ao nosso lado da fronteira para ir visitar um local que já estava há muito na nossa lista: o santuário de Endovélico, perto do Alandroal.

Chegar ao local revelou-se bem complicado. Tivemos numa primeira fase de ignorar os sinais que proibiam o trânsito pela N373 e, numa segunda fase, os avisos de propriedade privada e de aviso de perigo por haver gado à solta, já na entrada da propriedade onde se situa o sítio arqueológico. Pedimos mentalmente protecção ao grande deus lusitano e palmilhámos os últimos metros que nos separavam do sítio arqueológico.

Mais à frente demos de caras com o guardião do local, um macho bovino de apreciáveis dimensões, parado junto ao caminho e que nos fixava atentamente. Pareceu bastante indeciso quanto a deixar-nos passar mas, após os nossos pedidos insistentes, lá se afastou. No regresso já não seria assim.

O monte onde se encontram os vestígios do santuário e, mais abaixo à direita, o guardião do local.


Foi neste monte, tanto no topo como na encosta Este, que os romanos terão construído um templo dedicado ao deus Endovélico, uma divindade indígena tida como deus da medicina e da segurança e cujo culto se difundiu pelo próprio Império. Aqui foram encontradas no século XIX mais de 800 inscrições latinas e, mais recentemente em 2002, encontraram-se várias estátuas e inscrições nas valas de enchimento dos alicerces da desaparecida Ermida de São Miguel da Mota que ali se ergueu em tempos mais recentes, seguindo a tradição cristã os cultos a divindades pagãs pelo culto às figuras do seu próprio panteão.
Este templo terá sido um importante local de peregrinação da região romana da Lusitânia e incontáveis peregrinos, tanto de origem indigena como romana, aqui vieram cumprir os seus votos ao grande deus Endovélico. O local, tanto pela monumentalidade como pela paisagem que dele se avista, deve ter causado uma forte impressão a todos eles. Atrevo-me a dizer, por experiência própria, que ainda causa.

Fotografia do momento da descoberta das estátuas nas escavações de 2002. Foto: Portugal Romano


Vestígios de muros, junto ao marco geodésico no qual se encontra um texto que evoca o santuário de Endovélico.

As surpresas ainda estavam longe de ter terminado. No caminho de regresso, voltámos a encontrar o boi, que se aproximara ainda mais de nós e desta vez ocupava o próprio caminho. Para complicar as coisas, não foi possível convencê-lo novamente a deixar-nos passar e, por isso e por respeito ao animal, que provavelmente teve alguns dos seus antepassados sacrificados a Endovélico, optámos por encontrar um caminho alternativo.

O guardião do santuário de Endovélico, firme e imóvel no caminho de acesso.

De volta ao carro e à estrada, desta vez encontrando um desvio por terra batida para contornar o ponto em que a estrada N373 estava mesmo fechada, voltámos a Alandroal onde parámos para uma bela merenda, não sem antes dar um saltinho ao castelo da vila, recentemente alvo de obras de requalificação, que valorizaram realmente o espaço.

A partir daqui foi sempre viajar rumo ao Norte, apenas fazendo breves paragens em Vila Viçosa e Estremoz, local onde até as pedras da calçada são em mármore.


O interior do Castelo do Alandroal, com a igreja matriz.

Antigo perímetro amuralhado de Vila Viçosa, visitado pouco depois de termos bebido cafés que nos foram vendidos a 70 cêntimos cada, por um senhor que tivemos dificuldade em perceber por estar a comer uma sandes com mais conduto que pão e por o sotaque alentejano ser difícil de perceber quando usado com a boca mais cheia que a de um hamster com mais olhos que barriga.

Paço dos Duques de Bragança em Vila Viçosa.

Antiga estação de comboios de "Villa Viçoza", actualmente transformada em Museu do Mármore.

Centro histórico de Estremoz, correspondente ao antigo castelo. Tirando a parte caiada, o resto é mármore. Confesso que nunca tinha visto tanto mármore junto mas sendo Estremoz terra de renome na produção desta pedra (consta que até Saddam Hussein tinha uma enorme mesa feita com mármore de Estremoz) não será de estranhar.

Fotos das escavações e da cabeça de Endovélico: Portugal Romano

terça-feira, novembro 05, 2013

Em Malta, Portugal está em todo o lado!

Se perguntarmos o que têm em comum Malta e Portugal, aos mais desavisados possa ocorrer a resposta "Brucelose!". Embora essa seja uma resposta à qual eu não posso ficar indiferente, uma vez que cheguei a padecer dessa maleita durante alguns segundos (recordar aqui), ela não poderia estar mais longe da realidade. Na verdade, uma das coisas que mais nos surpreendeu em Malta foi a quantidade de alusões a Portugal, fruto da importância do nosso rectângulo na História deste arquipélago, que chegou a ter inclusive alguns governantes de nacionalidade portuguesa.  


Uma história que começa no século XIII

Desde a sua fundação como Ordem dos Cavaleiros Hospitalários em Jerusalém, a Ordem dos Cavaleiros de São João (de Malta) teve "apenas" 79 Grão Mestres. Nesta lista surgem 4 portugueses, sendo o primeiro D.Afonso de Portugal (no séc. XIII quando a sede da Ordem era ainda na Palestina), filho bastardo de D. Afonso Henriques. Desta lista de portugueses, aquele que mais relevância ganhou, sendo ainda hoje recordado na toponímia e em alguns monumentos de Malta, foi D.António Manoel de Vilhena (podem admirá-lo no retrato ao lado), Grão-Mestre entre 1722 e 1736.

Durante a sua governação, fomentou activamente a fortificação de Malta, enquadrando-se na "febre paranóica" que se seguiu ao Grande Cerco de 1565 e que transformou por completo o arquipélago. A ilha Manoel, junto a Valletta, é disso um bom exemplo, tendo herdado o nome do Grão-Mestre. Já agora, convém recordar que a capital maltesa foi também ela construída com um contributo avultado de 30.000 cruzados por parte do "nosso" D.Sebastião.

Vista da fortaleza da Ilha Manoel, junto a Valletta.

Ironicamente, como as pedras pouco valem sem os homens, quando o ainda general Napoleão chegou a Malta no final do século XVIII, a população acolheu-o como libertador, já que os Cavaleiros da Ordem se tinham tornado extremamente impopulares e eram vistos como opressores, e Malta entregou-se praticamente sem resistência. O pior viria depois.

Mas nem só de fortificações se ocupou Manoel de Vilhena. Teve ainda tempo para mandar construir o Teatro que ainda hoje tem o seu nome, o Teatro Manoel, e que é nem mais nem menos o 3º mais antigo teatro da Europa ainda em funcionamento. Realizou ainda várias obras de vocação caridosa. Tendo começado na sua governação a construção do subúrbio de Floriana, mandou que aí se construísse uma casa de acolhimento para mulheres solteiras pobres e outra para doentes incuráveis

Esquina do Teatro Manoel, o 3º mais antigo teatro da Europa ainda em funcionamento.



Sempre prontos a incomodar Napoleão!

No contexto da ocupação napoleónica, tal como aconteceria mais tarde em Portugal, os franceses anunciaram-se à população local em 1798 como libertadores. Bem acolhidos pelos malteses, tomaram o arquipélago praticamente sem resistência mas cedo começaram a mostrar que a promessa de liberdade era apenas uma ilusão.

Ora, sendo por natureza um povo temperamental, os malteses não acharam piada à ideia de trocar um opressor por outro, ainda por cima estrangeiro a viver à grande e à francesa, e revoltaram-se em massa,  depressa circunscrevendo os franceses à zona de Valletta.

Ao apelo maltês por ajuda internacional responderam os ingleses e... Portugal! Uma esquadra portuguesa foi despachada de Lisboa sob o comando de D.Domingos Xavier de Lima, Marquês de Nisa, tendo bloqueado os franceses em Valletta, fornecendo ao mesmo tempo armas e oficiais aos desorganizados revoltosos. A acção do Marquês, ignorando mesmo a dada altura as ordens do regresso da esquadra a Lisboa, foi fundamental para o sucesso da revolta, tendo merecido palavras de elogio dos malteses e ainda do Almirante Nelson. Uma lápide descerrada nos Upper Barrakka Gardens de Valletta, em 2008, é o símbolo desse reconhecimento.

Em Malta ficaram os ingleses, tendo abandonado o arquipélago apenas em 1964! 

Como uma Pedra de Roseta dos tempos modernos, este memorial trilingue recorda o papel dos portugueses na revolução maltesa que resultou na expulsão das forças napoleónicas, abrindo caminho ao estabelecimento da soberania britânica sobre o arquipélago. 


O Albergue de Castela (e Portugal, já agora).

A Ordem dos Cavaleiros Hospitalários era uma organização multinacional. Para harmonizar o seu funcionamento, dividiu-se a sua estrutura em agregações baseada nas línguas faladas pelos seus membros. As Langues (Línguas) como ficaram conhecidas essas agregações, eram inicialmente 8, tantas quanto as pontas da  Cruz de Malta, sendo cada uma delas responsável por um determinado aspecto de gestão da Ordem (Finanças, Justiça, Defesa, etc...). Inicialmente as línguas eram a Língua da Provença (França), a Língua da Alvérnia (Auvergne, em França), a Língua de França, a Língua de Itália, a Língua da Alemanha, a Língua de Aragão, a Língua de Inglaterra e a Língua de Castela e Portugal.

Cada uma destas Línguas tinha a sua própria sede em Valletta, os Albergues, para que aí ficassem alojados os membros da Ordem que não tivessem residência própria em Malta. O mais imponente destes edifícios é precisamente o Albergue de Castela (e Portugal), cuja construção se iniciou em 1574, 6 anos antes da efectivação da união política filipina de Portugal e Espanha. Na fachada vêem-se lado a lado as armas portuguesas e espanholas, sem dúvida uma declaração política que transcendia a própria Ordem de Malta.

O magnífico Albergue de Castela, antiga residência dos Cavaleiros da Língua de Castela e actual residência do Primeiro-Ministro de Malta, ostenta na fachada as armas portuguesas. Vejamos um pouco mais de perto. 


Lado a lado, as armas de Castela de Portugal.

O Albergue de Castela impressionou quem passou (e ainda hoje quem passa) por Malta após a sua construção, tendo sido escolhido para quartel-general das forças francesas e, após a expulsão destas, do governo inglês de Malta. Actualmente é a residência oficial do Primeiro-Ministro maltês.


Elementos dispersos

Para além da toponímia e da monumentalidade, encontrámos outros elementos avulsos que aludem de forma directa ou indirecta a Portugal. Aqui ficam dois exemplos.

Em Malta, existe o hábito generalizado de baptizar as casas, um pouco à semelhança daquilo que por cá se vê esporadicamente por aí. Junto às portas de entrada das casas, é frequente avistar-se uma pequena placa de cerâmica mais ou menos elaborada, com o nome da casa. Neste expositor há um portuguesismo que salta à vista. 


Este é um exemplo perfeitamente tendencioso e só para quem percebe do jogo da bola. Embora indirectamente, ninguém pode dizer que isto não faz parte da História do desporto português, pois não?

Retrato de António Manoel de Vilhena: Wikipédia

quarta-feira, outubro 30, 2013

Os Portugueses que foram a Malta II - Valletta, a singular capital de Malta

Valletta - Google Maps.


Valletta, a capital maltesa, é uma cidade que foi construída de raíz, a partir de 1566, para cimentar em definitivo o estabelecimento da Ordem de São João (os antigos Cavaleiros Hospitalários) no arquipélago. É uma cidade singular e, tendo quase 450 anos, o limite da cidade permanece praticamente inalterado desde a sua fundação. Mas nem só os 7.000 habitantes se escondem atrás das muralhas. Ao caminhar pelas ruas de Valletta, descobrimos várias histórias e factos curiosos como por exemplo o laço profundo que une as raízes desta cidade a Portugal. Houve ainda tempo para momentos de convívio com um animado grupo de pessoas de várias nacionalidades com o Geocaching como actividade comum. 

Valletta. A heterogeneidade da altura das construções faz a cidade parecer caótica quando na verdade as ruas seguem uma planta ortogonal, como acontece com a Baixa Pombalina de Lisboa.


Uma cidade construída com o apoio de Portugal

Para compreender Valletta (em maltês pronuncia-se "Valéta") é preciso em primeiro lugar conhecer o que levou à sua construção. Resumidamente, depois de ter testemunhado a passagem de fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos, árabes, normandos, angevinos, suábios, aragoneses e espanhóis, e antes da chegada da França napoleónica e ainda da Commonwealth britânica, o arquipélago de Malta foi cedido à Ordem dos Cavaleiros de São João, a antiga Ordem dos Hospitalários (que nos deixaram por exemplo, aqui bem perto, o Castelo de Belver) em troca do pagamento simbólico anual de um falcão à coroa espanhola.

A Ordem estabeleceu o seu quartel general na cidade portuária de Birgu (ver artigo anterior) em  1530 e pouco tempo teve de sossego. Depois de várias ameaças, em 1565 chegou à ilha um exército turco de 40.000 homens, disposta a erradicar este espinho cristão no centro do Mediterrâneo, então defendido por 8.000 homens. O Grande Cerco, como é conhecido, durou 4 meses e os turcos acabaram por retirar. A situação dos vencedores não ficou contudo muito risonha pois toda a zona do grande porto não passava de uma amálgama de ruínas, incluíndo Birgu.

A Ordem decidiu construir uma nova cidade-sede, numa península desabitada diante de Birgu onde apenas existia o Forte de Sant'Elmo, que durante o cerco tinha sido tomado pelos turcos, e que se encontrava reduzido a um amontoado de pedras. Lançado o apelo à Cristandade, depressa começaram a chegar donativos para as obras necessárias, inclusive de Portugal. D.Sebastião, que na altura já sonhava com a grande empreitada de construção de um império cristão no Norte de África (que haveria de chocar de frente com a realidade em Alcácer-Quibir), enviou a soma de 30.000 cruzados

A nova capital foi baptizada em homenagem ao herói Grande Cerco, o Grão-Mestre da Ordem, Jean de La Vallette.

O reconstruído e melhorado Forte de Sant'Elmo, na extremidade da península de Valletta.


Uma subida a pique com 58 metros!

Usufruindo dos fundos de coesão da União Europeia, Malta requalificou inúmeros locais históricos, reabilitando-os e dotando-os de novas infraestruturas. Para além das omnipresentes muralhas e da persistente tonalidade do calcário, nesta altura também as gruas e os andaimes são uma constante da paisagem.  

Junto ao cais, é possível ver vários navios de cruzeiro alinhados à volta dos quais circulavam os minúsculos barcos-táxi, tanto os mais modernos, de cor amarelo, como os mais tradicionais "Dgħajsa", que como as restantes embarcações pesqueiras típicas, são decorados com olhos, um hábito herdado dos fenícios, segundo consta.

O Dgħajsa no qual atravessámos o Grande Porto, junto a um dos paquetes ancorados no cais de Valletta.


Junto ao cais, a altura das casas é ultrapassada pela dos paquetes que, temporariamente, ganham o estatuto de edifícios mais altos de Valletta.

Para quem chega pelo cais, o acesso mais fácil e rápido à cidade é através do impressionante elevador construído no fosso das fortificações. Curiosidade: para aceder ao elevador é preciso adquirir um bilhete de 1€ que refere "Ida e volta". No entanto, quem abordar o elevador a partir do topo descobre que afinal não tem de pagar nada para descer. Afinal no bilhete deveria constar "Ida e volta (se quiser)". A viagem de estreia, sobretudo no sentido descendente, causa algum "frisson", dada a súbita aceleração inicial mas a vista compensa bem.

O elevador permite o acesso directo aos Upper Barrakka Gardens, uma zona ajardinada e polvilhada de memoriais, situada na parte mais alta das muralhas e com vista privilegiada para o Grande Porto. 

Visão nocturna do impressionante elevador que liga a cidade de Valletta à zona do cais. Uma estrutura de betão e alumínio com 58 metros de altura, com duas cabines com capacidade para 21 pessoas cada.


Dos jardins de Barrakka, avista-se o Forte de Sant'Ângelo na extremidade da península de Birgu, cidade rebaptizada de Vittoriosa após a resistência ao Grande Cerco. O forte é hoje propriedade da Soberana Ordem Militar de São João, descendente indirecta dos antigos governantes de Malta. É o único território do arquipélago sobre o qual o governo maltês não tem jurisdição.


Num patamar inferior, encontra-se a Bateria de Saudação de onde, um pouco à semelhança do que acontece em Edimburgo (recordar aqui) todos os dias ao meio-dia é disparada uma salva de canhão.


As ruas de Malta, que seguem um traçado ortogonal, são muito peculiares. As principais, que seguem no sentido longitudinal da península, parecem intermináveis ao passo que as perpendiculares usam e abusam dos degraus, sobretudo nas zonas mais periféricas.

Antes de nos embrenharmos a sério nas ruas, vale a pena passar pela zona mais nobre de Valletta, onde é possível encontrar os vários edifícios governamentais e a grande co-catedral de São João, o patrono da Ordem.

A longa Rua de São Paulo ou, como se diz em Malta, Triq San Pawl.

A Co-Catedral de São João nasceu com a cidade, tendo funcionado como igreja conventual da Ordem de São João. É um enorme edifício em estilo barroco cujo interior está luxuosamente decorado e contém uma impressionante colecção de pinturas de Caravaggio. No seu interior jazem cerca de 400 cavaleiros e outros membros da Ordem.

A fachada principal da Co-Catedral domina a bela Praça de São João ou, como se diz em maltês, Misrah San Gwann.

A nave central da Catedral, ricamente decorada. Tem tanto dourado que quase justifica o uso de óculos escuros, se bem que a senhora que se encontra à entrada, distribuíndo lenços e saiotes para as senhoras mais destapadas e ainda recomendando que os turistas mais distraídos tirem o chapéu ou boné, não iria certamente aprovar o dito acessório.


O chão da catedral está repleto de sepulturas magnificamente decoradas com mármores de várias cores. 


Saíndo da Catedral, os edifícios estatais sucedem-se. O maior é o antigo Palácio do Grão Mestre, actual residência do Presidente da República e sede do Parlamento maltês.

Balcão corrido do Palácio do Grão Mestre.

Pormenor de uma das esquinas do Palácio do Grão Mestre.


Valletta: ruas, becos e balcões. Muitos balcões!

Disse uma vez Lord Byron que Malta "é uma ilha de gritos, sinos e cheiros". Ao passear pelas ruas de Valletta fica-se com a certeza de que essa descrição, feita no século XIX, continua actual, embora talvez com maior ruído de fundo da presença de tantos turistas do que então. Os malteses são geralmente abertos e descomplexados nas suas conversas, muitas vezes feitas de janela para janela, até de um lado ao outro da rua, e se há coisa que é digna de se ver e ouvir, pela gestualidade e sonoridade, isso será sem dúvida uma discussão entre malteses. É claro que não se percebe nada da conversa, afinal o maltês é muito semelhante a árabe falado com entoação italiana e um ou outro apontamento de inglês.


Saíndo das ruas principais, entra-se noutro Mundo, muito mais típico e genuíno, rico em pormenores. Neste caso uma senhora, num terceiro andar provavelmente sem elevador, recolhe uma encomenda que lhe foi deixada por dois jovens.


Um estacionamento improvável num beco.

Em termos arquitectónicos não há nada mais típico em Malta que o inconfundível balcão maltês ou, como se diz por lá, "Il-Gallarija Maltija". Diz-se que o primeiro exemplar terá sido instalado no Palácio do Grão Mestre, popularizando-se a partir daí o seu uso mas ainda há dúvidas sobre a sua origem, sendo possivelmente o resultado da influência dos inúmeros escravos de origem turca que por aqui viveram. Certo é que estes balcões definem a paisagem urbana de Malta de tal forma que existem subsídios estatais destinados a apoiar os particulares que decidam restaurá-los.


Os balcões de madeira e vidro podem ser turcos ou não mas nas portas parece nitidamente haver influência britânica.


Vira-se a esquina e -surpresa!- descobrem-se mais balcões.


Um edifício relativamente recente cheio de balcões.

Passando para o outro cais, no lado oposto da cidade, o panorama é bastante diferente. Do outro lado do porto, avista-se um aglomerado de prédios mais "modernos" da localidade de Sliema, logo atrás de uma pequena ilha fortificada que é também ela (mais) uma evocação de Portugal. No próximo artigo direi porquê. Aos pés das muralhas de Valletta, descobre-se um pequeno cais de ferries, uma zona de recreio e uma piscina de pólo aquático.

Entretanto, com o chegar da noite, chegou também a hora de regressar ao cais do Grande Porto. Esperava-nos lá um animado grupo de desconhecidos com o qual nos iríamos encontrar graças ao GPS.


As muralhas do lado Noroeste de Valletta, com a catedral anglicana e a igreja das Carmelitas em destaque. Junto ao cais dos ferries que ligam a cidade ao outro lado deste porto, o porto dito de Marsamxett, avista-se a piscina de polo aquático do Valletta United.



No regresso ao centro cidade, agora pela entrada principal, fica bem visível a dimensão das muralhas (actualmente em obras). Os dois cubículos sanitários ajudam a fazer a escala.


O nosso primeiro encontro internacional de Geocachers 

O Geocaching (se não sabem o que é isto, cliquem aqui) não é só acerca de procurar "tesouros" escondidos, acontecendo também muitas vezes encontros de geocachers. A organização é simples e assemelha-se em certos aspectos a uma flash mob. Qualquer praticante pode organizar um evento. Basta definir o dia, a hora e as coordenadas geográficas do mesmo e publicá-las para conhecimento dos outros praticantes.


Neste caso, uma vez que tomámos conhecimento da ocorrência de um encontro durante a nossa estadia em Malta, decidimos ir até lá. As circunstâncias ditaram que o encontro fosse peculiar já que o encontro decorreu no cais dos navios de cruzeiro, nos quais muitos dos participantes viajavam. Como há um gradeamento a separar o cais da rua, muitos dos participantes acabaram por ficar do outro lado desse gradeamento, o que não obstou a um belo momento de convívio e uma animada conversa (a possível vá, dadas algumas limitações que os participantes alemães mais velhos em termos de inglês). 


Uma troika à maneira, com representação da Dinamarca, Malta e Portugal e um lancil de passeio a definir escalas.

Alemães nos dois lados da barricada.

Foi uma bela hora de conversa, com troca de experiência, grandes risadas e, claro está, troca de objectos e assinatura do livro do evento. Curiosamente, não havia nenhum checo no encontro. Segundo um hilariante participante alemão, os checos são um povo fanático por geocaching e quando um bebé nasce, traz já no currículo pelo menos 10.000 caches encontradas.


A seguir: Portugal, uma presença constante e estimada em Malta


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