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segunda-feira, julho 16, 2018

14 de Julho, Dia Nacional de França... na Bélgica

Liège, 14 de Julho de 2018

Liège, ou melhor dizendo a Valónia, tem uma ligação muito estreita com a França. É a consequência de uma História feita de proximidade, especialmente do período da Revolução Francesa que teve eco na chamada Revolução de Liège que, não só pôs termo ao Principado de Liège governado pelos príncipes-bispos, como ainda resultou na integração do seu território na França, com o nome de Departamento do Ourte (do nome do 2º maior rio da região: o Ourthe já que em França já existia um departamento do Mosa). De salientar que esta integração foi decidida por voto popular em 1793.


Espaço para publicação de editais públicos do Departamento do Ourte.


Devido a essa proximidade, o 14 de Julho, o dia nacional de França, é celebrado em Liège com pompa e circunstância com um grande fogo de artificio seguido de um grande arraial com música, comes e bebes à beira do Mosa, onde as bandeiras francesas se destacam.

Desta vez contudo, parece que o ânimo para a festa não era muito, quiçá devido à desilusão nacional que foi a derrota da selecção belga de futebol diante da França alguns dias antes. Isso foi visível quando, numa pausa do fogo de artifício, uma rapariga que passava gritou "Viva a França! Vivam os franceses!" e a resposta ter sido o silêncio absoluto quebrado aqui e ali por um comentário menos simpático ou uma gargalhada perante o atrevimento.


Um encontro com um clube de Castelo Branco

Seja como for, festa é festa e, sendo assim, o arraial encheu-se para o concerto que se seguiu ao fogo de artifício. Ora, coincidência das coincidências, dei de caras com um grupo de dezenas de jovens ginastas com t-shirts a dizer "Portugal". Pedido de esclarecimento atendido, fiquei a saber que se tratava de parte da representação portuguesa no Eurogym, um meeting bianual de ginástica para ginastas com idades entre os 12 e os 18 anos, que decorre esta semana em Liège, mas o mais curioso é que neste grupo estava representado o Albi Gym, de Castelo Branco, sendo que a responsável com que falei era fundanense. Para a edição deste ano são esperados cerca de 5000 jovens, sendo que Portugal é o país com a maior representação: cerca de 600 jovens atletas.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



quarta-feira, julho 30, 2014

Memórias de Verdun - 100º aniversário do início da I Guerra Mundial

Numa altura em que se assinala o 100 aniversário do início da I Guerra Mundial, recordo a minha visita a Verdun, então palco de uma encarniçada batalha que durou 10 meses e vitimou quase 700.000 soldados mas que hoje enverga o epíteto de "Capital Mundial da Paz". Este é um túmulo colectivo gigantesco no qual estão sepultados não só soldados mas também povoações e os sonhos de várias gerações. 

A Batalha de Verdun

Uma aldeia de Verdun. Antes e depois.
A Batalha de Verdun é o paradigma da irracionalidade de quem decidiu e dirigiu a I Guerra Mundial. Quando a mobilização geral foi decretada em cada país à medida que as declarações de guerra se iam sucedendo, todos os soldados, comandantes e governantes estavam convencidos de terem a razão e a superioridade do seu lado e de que estariam de regresso a casa antes do Natal. Só que a guerra mudou, prolongou-se, tornou-se uma trituradora de corpos e em 1916 não se via o seu fim.

Usando a racionalidade dos números, o general alemão Falkenhein propôs um plano simples pela sua lógica: se os alemães tinham mais soldados que os franceses, então numa batalha de atrito, havendo igual número de baixas em ambos os lados, os vencedores seriam inevitavelmente os alemães. Escolheu-se o palco para pôr em prática este plano: seria Verdun, espinho cravado na frente de batalha e local sagrado do ideário nacional da França, como Guimarães o é para Portugal. 

A 21 de Fevereiro iniciou-se o ataque alemão com fogo concentrado de 1200 peças de artilharia sobre 10km das linhas francesas. Em 2 dias apenas, caíram sobre o estas mais de 2 milhões de projécteis! Decidido a não ceder, o general Pétain ordenou a resistência a todo o preço, celebrizando a frase "Não passarão!", isto apesar de fortalezas-chave da região terem sido tomadas, algumas delas sem resistência, tal era a desorganização.

Fazendo de Verdun um prelúdio de Estalinegrado, reforços foram sendo continuamente enviados para a linha da frente através da única via de comunicação que não tinha sido cortada pelos alemães, a estrada que receberia a partir daí o nome de "Via Sagrada". Um veículo com tropas a 14 segundos, segundo dizem.

10 meses depois, após inúmeros avanços e recuos, tinham sido restabelecidas de grosso modo as posições do início da batalha. Por nada, tinham morrido cerca de 350.000 franceses e 320.000 alemães e várias povoações tinham sido apagadas do mapa para sempre.

A necrópole e o ossário de Douaumont

Partindo de Douaumont, local dominado pela torre do Ossário, descobre-se a Necrópole Nacional, formada pelo grupo principal de sepulturas individuais e por outros grupos mais pequenos e memoriais que se encontram dispersos um pouco por todo o lado. A torre tem a forma de um projéctil de artilharia e à noite funciona como farol simbólico, sendo visível a muitos quilómetros de distância. Do seu topo domina-se o cenário do antigo campo de batalha

Ao todo e sem distinção de nacionalidades ou religiões encontram-se no ossário restos de cerca de 130.000 soldados recolhidos no campo de batalha até muito depois do fim da Guerra. Sepulturas individuais são mais de 16.000. É difícil explicar o peso que se sente especialmente neste local mas também em cada memorial ou sepultura que se descobre no silêncio da floresta que rodeia o local.

Vista do edifício principal do Ossário para lá do cemitério.


O edifício do Ossário, simbolizando a forma como os soldados franceses deram o peito às balas, formando a barreira que deteve os alemães.


Outra vista do cemitério


Outra ainda


Metade do cemitério vista do alto da torre do Ossário. Há 98 anos atrás todo este cenário era uma paisagem lunar, pintada em cinza e castanho e os bosques tinham desaparecido.

Uma volta pelas redondezas

Partindo do Ossário, sem nenhum objectivo concreto, caminhei pelos bosques dos arredores durante algumas horas. A primeira coisa que notei foi a irregularidade do terreno devido às marcas, já algo esmorecidas, do bombardeamento indiscriminado a que esta zona foi sujeita.
Marcas de crateras sobre uma fortificação subterrânea da qual se avista um respiradouro já bastante exposto.

No meio da vegetação, tropeça-se frequentemente em ferro e betão. É preciso ter em conta que esta era uma região fortificada e que o espaço entre os fortes principais estava preenchido com fortins, abrigos e trincheiras.

A fortificação de Thiaumont é bom um exemplo disso. Situada no ponto máximo do avanço alemão, esta fortificação mudou de mãos mais de 20 vezes antes de ser definitivamente reconquistada em Outubro de 1916. Já pouco sobrava da sua estrutura nessa altura.


Campânula de observação em aço da fortificação de Thiaumont, arrancada da sua base pelo impacto directo de um projéctil de artilharia. 


Outro aspecto da fortificação de Thiaumont, com dois monumentos em memória de soldados que aí perderam a vida.


Um abrigo de infantaria semi-enterrado mostra o resultado do impacto directo de um projéctil de artilharia. A espessa couraça de betão armado foi insuficiente para proteger os soldados que ali estavam abrigados.

Mais à frente um conjunto de 4 respiradouros chamou a minha atenção. Tratava-se do "Abrigo das 4 chaminés", destinado a acolher temporariamente feridos antes de serem enviados para a rectaguarda e a proporcionar abrigo e descanso aos soldados. Não chegou a ser conquistado pelos alemães, pelo menos não inteiramente já que a dada altura, os alemães conseguiram estabelecer uma posição sobre o abrigo que albergava no seu interior muitos soldados franceses.

Os relatos dão conta desse momento delicado. Tendo tomado posição sobre o abrigo, os alemães começaram a lançar granadas e gás pelos respiradouros e tentaram entrar pelas duas entradas do abrigo. Encurralados, os franceses acederam fogueiras sob as chaminés e junto das escadarias para tentar fazer sair o gás pela acção do ar quente e ripostaram com as suas espingardas e metralhadoras às investidas alemãs.

Nem todos tinham infelizmente máscaras de gás e aqueles que as tinham tiveram de ver os seus camaradas agonizar no chão frio das galerias. Os alemães acabaram por ser desalojados pela artilharia francesa que se encontrava no monte oposto e que, ao aperceber-se da situação, disparou sobre o abrigo.


Uma das quatro "chaminés"


Uma das duas entradas do abrigo flanqueadas por sua vez por duas casamatas


Embora o aspecto e os avisos de segurança fossem desencorajadores, a curiosidade foi mais forte e acabei por me aventurar no interior do abrigo


No interior a escuridão é total. Sem lanterna, avancei graças ao flash da máquina fotográfica.


As galerias onde se acumulavam os soldados franceses

O Forte de Douaumont

O forte de Douaumont antes e depois da batalha
Construído para, em conjunto com os fortes próximos de Vaux e Souville servir de ferrolho da região fortificada de Verdun, o caso do forte de Douaumont é bem a prova da desorganização do exército francês perante a ofensiva alemã de 1916, tendo sido tomado sem esforço 4 dias depois do início da ofensiva.

Perante o maciço ataque alemão, o forte que tinha capacidade para 800 homens encontrava-se apenas guarnecido com 60 que, sem conhecimento da situação operacional e sem qualquer comunicação com o restante dispositivo de defesa, se limitavam a disparar os poucos canhões sobre alvos pré-estabelecidos antes dos combates.

Um pequeno grupo de alemães que tinha conseguido escalar a escarpa e chegar ao fosso do forte, percebeu que não havia grande oposição e voltou atrás para chamar reforços. A pequena guarnição foi apanhada de surpresa e rendeu-se sem oposição. 

Em Outubro, o forte voltaria a mudar de mãos sem oferecer resistência quando, após um violento incêndio no seu interior provocados por projécteis de artilharia que tinham conseguido perfurar a sua espessa couraça, os poucos alemães que haviam ficado para trás foram surpreendidos por soldados marroquinos do exército francês e renderam-se por sua vez.


O corpo central do forte em 2007 


A torre eclipsante de canhão de 155mm.


Corredor de acesso ao interior do forte, com chicane de metralhadoras (os dois muros com abertura no centro)


Secção selada após uma explosão provocada por um lança-chamas. Atrás da parede ficaram sepultados quase 700 alemães mortos por essa explosão.

As aldeias "mortas pela França"

Outros monumentos existentes nas redondezas recordam que as vítimas da guerra não são apenas militares. No sector de Verdun a batalha apagou do mapa nada mais nada menos que 9 localidades, 6 das quais nunca voltariam a ser construídas em parte pela dimensão da destruição mas também pela poluição provocada pelas munições utilizadas e pelo risco de existência de projécteis por detonar (ver 1ª imagem deste artigo).

Visitei dois locais onde outrora tinham existido aldeias. A primeira foi Fleury-devant-Douaumont, aldeia que antes da batalha tinha mais de 422 habitantes e que no decurso desta mudou de mãos 16 vezes, tendo por isso ficado em completa ruína. Hoje o local consiste essencialmente numa floresta cujo solo, onde abundam vestígios de materiais de construção, é extremamente irregular devido às crateras resultantes dos constantes bombardeamentos. O único edifício que ali se encontra é a capela de Nossa Senhora da Europa e a povoação continua a ser sede de comuna e tem também um maire (presidente de Câmara), nomeado a título simbólico, embora não tenha qualquer habitante. 


Marco junto à estrada recorda a aldeia desaparecida de Fleury-devant-Douaumont. Este marco foi construído com recurso a restos das casas da aldeia.

No local onde outrora se situavam os principais edifícios da aldeia, encontram-se pequenos marcos a recordar esse facto, neste caso o edifício que servia de câmara municipal e escola. 

 Indicação da orientação da antiga Rua de São Nicolau. No solo irregular são visíveis os restos de materiais de construção daquilo que foi outrora a aldeia.



A outra aldeia que visitei foi a de Douaumont, situada em frente ao forte com o mesmo nome, cuja recordação se fez pela colocação de marcos com os nomes dos habitantes e respectivas profissões ao longo da estrada. Também os edifícios mais importantes e as fontes são evocadas nesta alameda de memórias.

Uma capela, único edifício actualmente existente no local, ergue-se para assinalar o local onde outrora existiu a igreja da aldeia e é aqui que anualmente, no 2º Domingo de Outubro, se realiza uma missa em memória dos caídos à qual assistem os descendentes dos antigos habitantes de Douaumont.


Entrada em Douaumont, outra "aldeia morta pela França"



A rua onde se recordam alguns dos seus 288 habitantes

Em memória do Sr. Théophile Lamorlette, tecelão de profissão.


A Trincheira das Baionetas, da lenda à realidade

A certa altura fui parar a um memorial invulgar, a Trincheira das Baionetas. Trata-se de uma estrutura em betão armado construída por iniciativa estado-unidense como memorial em honra dos soldados mortos na I Guerra Mundial neste local como refere a inscrição sobre a entrada.

"Em memória dos soldados franceses que dormem de pé com a espingarda na mão nesta trincheira, (pel)os seus irmãos da América"

Um panfleto que tinha recolhido num museu ali perto conta a história desta trincheira. Os soldados franceses estavam aqui prontos, com a espingarda na mão, para carregarem sobre os alemães quando um tiro certeiro de artilharia alemã os enterrou vivos, deixando apenas as baionetas expostas como marcas de uma sepultura imprevista.

Na verdade a história é muito menos heróica e situa-se num nível diferente de tragédia. Tratava-se afinal de uma vala comum na qual foram enterrados alguns soldados, tendo as espingardas sido usadas para marcar o local de enterramento de cada um deles. A evocação heróica e patriótica da valentia dos soldados franceses encarregou-se depois de dar um tom romântico à história.


As sepulturas da Trincheira das Baionetas. Estas últimas entretanto já desapareceram e apenas se vê a ponta da espingarda perto de cada cruz. Ao todos havia nesta vala 21 soldados. 14 foram trasladados para a necrópole de Douaumont.

O memorial não é só local de morte mas também de vida, tendo em conta a pequena colónia de morcegos que aqui encontrou as condições ideais para se abrigar.

Outros monumentos

Como referi, na região de Verdun abundam os locais de memória dos que tombaram durante a I Guerra Mundial. É claro que Verdun é um local emblemático pelo seu significado na construção da identidade francesa e por isso terá um valor simbólico acrescido mas também é importante referir que não faltam cemitérios e monumentos noutras paragens do Nordeste. Isto para não falar dos monumentos em honra dos mortos da I Guerra que existem em praticamente todas as localidades de França, com maior ou menor modéstia, aos quais foi depois acrescentada a referência aos mortos da II Guerra.

Dos memoriais que encontrei à volta do Ossário, eis os que me pareceram mais interessantes:


Monumento em memória dos 28.000 soldados muçulmanos mortos em combate, principalmente forças coloniais magrebinas e senegalesas. Construído em apenas 3 meses de 2006, foi no entanto necessário proceder previamente à desminagem do terreno. Nesse trabalho foram encontradas 219 munições (balas, obuses e granadas) assim como os restos mortais de um soldado cuja identidade (e religião) se desconhece.



Inaugurado em 1938, o memorial domina a secção do cemitério onde estão sepultados alguns dos muitos soldados judeus caídos no campo de batalha. Judeus e muçulmanos morreram e foram aqui sepultados de igual forma e não constam que se dêem mal.



Monumento a André Thome, deputado que abdicou da possibilidade de não ser incorporado conferida pelo seu estatuto de político para se voluntariar para a frente de combate. Morreu em Verdun a 10 de Março de 1916 com 36 anos de idade.



Monumento a André Maginot, deputado de Bar-le-Duc e ministro, que se alistou voluntariamente como soldado raso tendo sido ferido num joelho em combate. Como Ministro da Guerra, foi grande defensor da construção de uma fronteira fortificada com a Alemanha que viria a ser chamada de Linha Maginot. De pouco serviria durante a II Guerra Mundial (ver aqui artigo sobre a visita ao impressionante forte Hackenberg).


Um covilhanense morto em Verdun

Nos arquivos do Ministério da Defesa de França, é possível encontrar uma relação dos soldados mortos em Verdun. Entre eles encontram-se muitos portugueses mas um deles chamou-me a atenção. Trata-se de um tal de Jean Georges Haudecoeur, cabo do 165º Regimento de Infantaria, falecido no hospital militar de Verdun na sequência de ferimentos sofridos em combate 4 em Setembro de 1914, portanto logo nos primeiros combates da I Guerra. Curiosamente, embora tenha um nome francês, o registo de óbito aponta-o como tendo nascido em Portugal, mais precisamente em "Covilhan". 



Imagem aérea: Fórum AR15.com, Strange Military

quarta-feira, julho 17, 2013

E porque o "nosso" Rui Costa ganhou ontem a etapa da Volta a França

A brilhante vitória de Rui Costa, na etapa de ontem da Volta a França, teve grande eco nos meios de comunicação social. Até quem não liga particularmente ao ciclismo exultou com esta vitória, que acabou por ser interpretada como um lampejo de optimismo na depressão geral nacional dos últimos tempos, fazendo de cada cidadão comum português também ele um vencedor da 16ª etapa da Volta a França.

Qual seria no entanto a sensação real de vencer uma etapa da Volta a França? Foi essa experiência que o infame humorista Rémi Gaillard proporcionou a vários ciclistas de Domingo que, ao fazerem uma curva, se viram subitamente metidos num ambiente digno da prova rainha do ciclismo internacional. Vale a pena ver.



Se isto vos acontecesse, como reagiriam?

terça-feira, maio 07, 2013

Pelos trilhos dos Pirinéus II

Ao segundo dia de caminhada, o percurso foi significativamente reduzido, tendo em conta que desta vez íamos acompanhados por dois camaradas mais jovens, consistindo desta vez num circuito de cerca de 9km com passagem por duas aldeias em encosta e por um interessante castelo em ruínas, num monte que ainda esconde alguns segredos.

A primeira parte do percurso foi feita junto ao rio Vicdessos até à vila próxima de Auzat (já referida anteriormente devido à importância que a produção de alumínio aqui teve). Esta povoação, situada na confluência de 2 vales, é encantadora até pelo cuidado que houve em harmonizar a sua arquitectura com os cursos de água que a atravessam.

Ribeiro de Sailex atravessando a vila de Auzat

Em Auzat, tal como acontece praticamente em todas (senão mesmo todas) as localidades de França, com maior ou menor monumentalidade, também em Auzat se ergue um monumento que recorda os filhos desta terra que deram a vida pela França na I Guerra Mundial, tendo depois sido acrescentados os nomes dos desaparecidos na II Guerra Mundial e nos conflitos do Magrebe. A quantidade de apelidos idênticos nesta estela (há até um apelido que se repete 12 vezes!) faz-nos pensar no terrível drama que deve ter sido o 1º conflito mundial para as comunidades locais.

Monumento aos "filhos de Auzat" mortos pela Pátria, vestido de gala por uma cerejeira brava.

Este percurso tem o condão de oferecer cenários que regalam a vista. É ou não é uma paisagem fantástica?

Para lá de Auzat, o trilho é encantador, delimitado por muretes e atravessando um enorme prado. O cuidado na preservação dos trilhos e das suas marcações é aliás uma constante por estas bandas, valorizando ainda mais a experiência do percurso. Após o prado, o trilho entrou na floresta e começou a subida de 500m que nos haveria de levar a Goulier, com uma paragem a meio.



O trilho antes da entrada na floresta...


...e o início da subida.

Finalmente, o "ataque final" ao castelo de Montreal de Sos! Note-se a determinação dos valentes caminheiros.

Após algum tempo de subida, a floresta abriu subitamente permitindo avistar o monte onde outrora se erguia o castelo de Montreal de Sos, um dos mais importantes castelos da região, hoje em ruínas. A história deste castelo é bastante interessante. Erigido no século XII pelos condes de Foix, destinava-se não apenas a controlar esta zona estratégica de confluência de vales mas sobretudo a produção de ferro, metal em que esta zona era rica. Com o passar dos séculos, a sua localização remota no condado e o medo que fosse tomado pelos inimigos dos condes de Foix levaram a que fosse desmantelado no século XV, tendo a pedra sido empregue pelos aldeões de Olbier, aldeia que se situa na base do esporão do castelo, na construção das suas casas.

A aldeia de Olbier na base do esporão de Montreal de Sos, muitas destas casas foram construídas com as pedras do antigo castelo



As ruínas do castelo de Montreal de Sos, destacando-se à esquerda o que resta da torre do "Campanal", deixando presumir que a torre terá em tempos sido usada como torre sineira



O monte sobre o qual se situa o castelo tem algumas grutas nas quais se encontram algumas pinturas que suscitam muita discussão, já que alguns vêem nelas representações do próprio Graal. Estas grutas foram também usadas como locais de enterramento e, o percurso para aceder ao castelo passa até por algumas delas.

O sítio tem vindo a ser alvo de escavações arqueológicas desde o ano 2000, com resultados surpreendentes. O achado mais relevante da última campanha foi mesmo uma sepultura com restos mortais que permitiram a recolha de ADN que agora está a ser comparado com o dos habitantes mais idosos da aldeia de Olbier, com vista a detectar possíveis descendentes dos habitantes do castelo. Será que alguém ainda se vai lembrar de reclamar o castelo para si?



Feita uma pausa para almoçar e apreciar a paisagem, retomámos a subida, desta vez em direcção à aldeia de Goulier, situada na base da estação de esqui com o mesmo nome, nas faldas do Pic d'Endron. Os prados que se encontram imediatamente antes da aldeia eram demasiado tentadores e por isso resolvemos fazer uma pausa para apreciar a paisagem e o Sol quentinho que se fazia sentir.


Uma caminheira aproveita para jiboiar, ajudando a completar o cenário.


Vista do Pic d'Endron (2472m)

A aldeia de Goulier é relativamente grande, certamente tirando dividendos da proximidade das pistas de esqui. Um idoso que se encontrava sentado, também ele aproveitando o Sol, tranquilizou-nos em relação à segurança da água da fonte que dominava a praceta. Despedimo-nos e seguimos pela rua principal, para começar a descida de regresso a Vicdessos. Aparentemente, nem tudo é pacífico em Goulier, como o prova este aviso na entrada de um pequeno quintal zelosamente cercado: "Atenção, zona armadilhada!".


Pelo sim, pelo não, mantivemos a distância. Este quintal parecia mais protegido que o primeiro-ministro português em dia de visita a uma universidade.


Os telhados tradicionais também são uma presença constante em Goulier. Imaginem a paciência necessária para talhar a lousa em peças redondas como estas!


A Câmara e a igreja de Goulier, dominam a maior praça da aldeia

Na saída de Goulier, encontra-se um abrigo de pastor recuperado. Trata-se de um orri, uma habitação sazonal que era empregue pelos pastores nas épocas estivais da transumância. Muitas vezes eram construídas verdadeiras aldeias de orris, havendo construções para habitação dos pastores e respectiva família, outras com cerca para o gado e outros animais domésticos como as galinhas, outras ainda destinadas a servir de armazém. Estas aldeias ficavam desertas no Inverno. 

Um orri, uma construção muito típica desta região, recuperado para ornamentar o acesso principal de Goulier.


O percurso de regresso, em descida acentuada, permitiu-nos olhar de forma diferente para a aldeia de Olbier e para as ruínas do castelo de Montreal de Sos onde havíamos estado cerca de 1h30 antes. Com um pouco de esforço, é possível imaginar uma muralha de pedra, entre o bege e o cinza, flanqueada por duas torres, a do Campanal e a de Menagem, coroando o monte.



Olbier e Montreal de Sos



Finalmente, regressámos a Vicdessos onde uma deliciosa recompensa nos aguardava na padaria da aldeia. Afinal, havia que compensar as calorias perdidas!


A ponte sobre o Vicdessos, à entrada da povoação com o mesmo nome. Ponto final na jornada.


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