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quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



sexta-feira, outubro 31, 2014

Grandes mudanças e regresso à escrita!

Há já algum tempo que por aqui não escrevia umas linhas mas a vertigem dos acontecimentos dos últimos meses a isso levou. Em questão de apenas 3 meses, a minha realidade alterou-se radicalmente e fez já de 2014 um ano memorável, embora ainda faltem 2 meses para o seu termo e a publicação dos resultados de uma sondagem dando a maioria absoluta ao Passos Coelho e sus muchachos nas próximas legislativas, assim como o anúncio do regresso de José Sócrates às lides políticas, possam ainda acontecer mas eu duvido. Murphy era apenas um pessimista inveterado e não um sádico extremista.

Assim, já casado, com novo emprego e tio de uma sobrinha ansiosa por trocar os Teletubbies pelo visionamento das gloriosas campanhas do FêCêPê na Europa e no Mundo, tenho finalmente algum tempo para debitar umas quantas linhas e até já sei por onde começar.

Nos próximos artigos vou escrever sobre motoristas desenfreados, encontros com animais selvagens, campos de minas, cenários de guerra e sobre uma base militar abandonada na Europa de Leste. Sim, já adivinharam. Vou falar sobre a minha lua-de-mel. 


quinta-feira, julho 11, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Conclusão!

Mapa do percurso
(Clicar para ampliar)


Dia 6 - De Carlisle a Bowness-on-Solway (20,5km + 1,5km para formalidades)
[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Último dia! Ao começarmos a caminhada foi difícil evitar um certo sentimento de saudade antecipada perante a iminência do fim daquilo que tinha sido uma fantástica aventura. Antes disso, tomámos o nosso último "english breakfast" na sala de bar do hotel, servidos por uma senhora simpática que começava todas as suas interpelações com "my dears". Deixando as mochilas numa arrecadação do hotel, levámos connosco apenas o essencial para o que faltava do trilho. Bowness-on-Solway, a aldeia situada onde outrora terminava a Muralha de Adriano, era "já ali".


O hotel Vallum House, situado na linha do aqui desaparecido Vallum da Muralha de Adriano, um hotel confortável, com boa comida e gente simpática.

A primeira tarefa era regressar ao Trilho que havíamos deixado ao entrar em Carlisle. Consultado o mapa, deduzimos que seguindo a estrada que passava frente ao hotel para Oeste, haveria certamente uma ligação, o que acabou por se confirmar após pouco mais de 500m de caminhada. Entre Carlisle e Bowness-on-Solway, o Trilho segue de grosso modo o curso do rio Eden, percorrendo inicialmente prados e quintas para terminar num larguíssimo estuário na foz do mesmo rio, depois de atravessar uma zona de pântanos. Pelo meio o Trilho passa por várias aldeias sendo as mais importantes Burgh-by-Sands, Drumbrugh, Port Carlisle e, obviamente, Bowness. Ao contrário do dia anterior, nesta etapa o Trilho segue sempre a linha da Muralha.


A ligação ao trilho, a partir de uma via mista ciclo-pedestre, muito bem assinalada. 




Uma imagem já familiar da passagem do Trilho por um prado verde e amarelo. Apesar de passar por zonas extremamente bonitas com a filosofia e equipamentos habituais, este troço do Trilho pareceu mais descuidado e a precisar de manutenção em algumas zonas.



Uma passagem simpática dentro de um bosque, não muito longe da aldeia de Grinsdale.

Ao chegarmos à 2ª aldeia do trilho, a povoação de Kirkandrews-Upon-Eden, um aviso ali afixado informou-nos que devido a um deslizamento de terras, teríamos de fazer um desvio. Acabámos pois por ter de fazer um percurso de alguns minutos junto à berma de uma estrada que, felizmente, era pouco movimentada.

Em Beaumont, uma aldeia pequena na margem do Eden, a Igreja de Santa Maria é o edifício que mais se destaca. Não muito longe dele, encontrámos mais uma "honesty box", esta com a particularidade de ter o conteúdo envolvido em bolsas de gelo e ser, segundo o que estava escrito no seu exterior, gerida por um miúdo de 8 anos chamado Drew. Que bem que soube um sumo fresquinho, nesta altura em que o calor do Sol ainda se fazia sentir! 

A Igreja de Santa Maria, em Beaumont, foi construída pelos Normandos no final do século XIII, no local exacto de uma torre de vigia da Muralha de Adriano. Nos casamentos aqui realizados, é costume trancar-se a porta com um cordel que o noivo tem de cortar pois, isso garante boa sorte para o casal. Muito mais garantias de sorte oferece a outra tradição de as crianças esticarem uma corda de um lado ao outro da estrada, deixando apenas passar os carros dos convidados do casamento que lhes derem dinheiro. 



Mais uma "caixa de honestidade" cujo conteúdo fresquinho veio bem a calhar. Obrigado Drew!


Uma belíssima passagem do trilho que até deu para praticar geocaching. Adivinhem lá onde está a caixinha...!

Entretanto encontrámos novamente as senhoras que tínhamos visto pela primeira vez no início da 2ª etapa, no Robin Hood Inn (lembram-se?), agora reduzidas a apenas duas. Entretanto, como já se criara alguma familiaridade devido aos encontros frequentes, os sorrisos e os diálogos já aconteciam com relativa naturalidade.


Burgh-by-Sands, uma povoação que todos os fãs do filme Braveheart deviam conhecer


A indicação das distâncias na sinalização rodoviária britânica foi sem dúvida feita por uma criança que era viciada em jogar às escondidas. Lembram-se de como se fazia a contagem? 


Pouco depois de Beaumont e seguindo a linha do Vallum, chegámos a aldeia de Burgh-by-Sands. A primeira coisa a dizer sobre esta povoação é que o seu nome se deve pronunciar "Bruff"-by-Sands. Historicamente é uma povoação relavante, começando pelo facto de estar localizada no traçado da Muralha de Adriano (actualmente sob a estrada), o seu centro se situar sobre o local onde outrora se erguia o forte romano de Aballava, cuja guarnição era de origem magrebina.

Foi também junto a esta aldeia que morreu o rei Eduardo I, o "Hammer of the Scots" (martelo do escoceses) ou "Longshanks" (pernas longas) que no filme "Braveheart" é retratado como um rei tirânico, opressor dos escoceses. O outro lado da história é bem diferente e Eduardo I é visto pelos ingleses como um dos seus maiores monarcas de sempre (ao contrário do seu filho que, de tão impopular que era, acabou assassinado com recurso à inserção de um ferro em brasa pelas partes pudendas da rectaguarda). (Foto de Eduardo I obtida em Mariner Museum)

Foi no decurso de mais uma expedição contra os escoceses que Eduardo I morreu, após contrair desinteria. No local onde isso aconteceu, num pântano a cerca de 3km a Norte da aldeia, ergue-se um memorial e na própria aldeia uma estátua eterniza a sua memória. Segundo a tradição, Eduardo pediu no seu leito de morte que fervessem o seu cadáver para separar a carne dos ossos, de modo a que estes fossem levados como relíquia à frente do seu exército nas campanhas contra os escoceses. Não lhe fizeram a vontade, talvez por terem chegado à conclusão que um cofre com ossadas não acrescentava grandes vantagens tácticas em batalha.


Estátua de Eduardo I em Burgh by Sands.


Os pântanos do estuário do Eden

Praticamente a partir de Burgh by Sands, começa uma enorme recta com cerca de 5km, que atravessa uma zona pantanosa do estuário do rio Eden. Em Longburgh existe um aviso com horários de marés para que os caminheiros possam estar informados das alturas do dia em que a estrada fica submersa devido à subida das águas do estuário.


5 quilómetros dos grandes para Oeste e sempre a direito!



Usando a elevação da antiga linha de caminho-de-ferro, que ajudou também a controlar as águas das marés que amiúde submergem a estrada, foi possível fazer a grande recta em terra batida. O pior foi o vento, que sopra predominantemente de Oeste para Este e que, neste dia, estava particularmente intenso. Foi também curioso ver a quantidade de caminheiros que circulavam neste corredor, tanto no mesmo sentido que nós como no sentido oposto.



Uma coisa é certa, pode acontecer muita coisa a quem passeia pelos pântanos do estuário do Eden mas perder-se não é certamente uma delas.



O caminheiro que passeia pelos pântanos do estuário do Eden também não corre o risco de se afogar nos prados por onde abundam os bovinos. 


Drumburgh 

A grande recta dos pântanos liga a aldeia de Burgh by Sands à de Drumbrugh (que se deve ler como algo parecido com "Drumbró"). Também esta povoação se situa sobre um antigo forte romano da Muralha de Adriano, neste caso o forte de Concavata, que albergou uma guarnição de 500 soldados. Infelizmente, o único vestígio da existência deste forte é a curva apertada que a rua principal da povoação faz na saída para Oeste, seguindo o percurso do antigo fosso do forte e denunciando a forma deste.

De romano propriamente dito, apenas avistámos a forma muito ténue do Vallum à entrada da povoação e um altar romano, junto a uma porta do rés-do-chão do edifício conhecido como Castelo de Drumbrugh. Esta construção é na verdade uma casa fortificada, com origem numa torre de vigia, construída para resistir às incursões dos temíveis salteadores de fronteira, bandos que puseram durante séculos a zona de fronteira entre a Inglaterra e a Escócia a ferro e fogo mas que tinha um código de conduta bem estabelecido.

O Castelo de Drumburgh, uma casa fortificada no local de uma antiga torre de vigia do século XIV, cujo aspecto actual deriva de obras feitas nos séculos XVI e XVII, usando pedras da Muralha de Adriano. A porta do rés-do-chão (junto à qual se encontra um altar romano) e a escadaria são adições recentes. Em caso de ataque, os moradores retirariam uma escada de madeira amovível, trancando-se no primeiro piso para aí resistirem (e insultarem quanto baste) os atacantes.


Os "Border Reivers", os salteadores da fronteira

Entre o século XIV e o século XVII, a vida foi difícil para quem vivia na fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, devido aos constantes conflitos entre os dois países. Os exércitos que por aqui passavam, saqueavam e destruíam a esmo, deixando os moradores em situação de miséria. 

Para sobreviverem, muitos optaram por praticar actos de banditismo, atacando e saqueando as propriedades do outro lado da fronteira. Nasciam assim os "Border reivers" e não tardou muito para que esta prática fosse cada vez mais vista como uma profissão e não um crime, sendo praticada por nobres, governantes locais e deixando até de ser exclusivamente de antagonismo para com o reino vizinho, para passar também a ser praticada entre compatriotas.

O caos atingiu tais proporções que chegaram a ser instituídas leis, não para acabar com os saques, mas para os regulamentar! Assim, se alguém fosse vítima dos saqueadores, poderia optar por uma de duas soluções a que tinha direito: apresentar queixa às autoridades e esperar pelo resultado ou então, como acontecia na esmagadora maioria dos casos, organizar também um bando de salteadores e perseguir aqueles que o tinham atacado para recuperar os seus bens. Isto tinha de ser feito no prazo de 24h pois, decorrido esse prazo, o grupo original de atacantes garantia o direito definitivo de posse sobre o saque. Todo aquele que se deparasse com um destes grupos de contra-ataque tinha obrigação de se juntar a ele, sob pena de ser acusado de cumplicidade com os atacantes originais. 

Esta prática só chegaria ao fim com a união das coroas escocesa e britânica sob Jaime VI (I de Inglaterra), rei que legislou com mão de ferro sobre esta matéria ao mesmo tempo que expropriou as famílias de salteadores que por aqui viviam. Já agora, a título de curiosidade, foi este rei que Guy Fawkes tentou assassinar na chamada Conspiração da Pólvora, celebrizada pelo recente filme "V for Vendetta".


Laal bite, o "barracão da honestidade"

Tendo decidido fazer uma paragem em Drumbrugh, seguimos a sinalética que prometia uma cafetaria ao virar da esquina. Qual não foi a nossa surpresa quando, ao entrarmos numa pequena construção, que mais parecia um barracão, verificámos que era afinal uma instalação self-service não vigiada, aplicando aqui à escala de um barracão o conceito já conhecido da caixa da honestidade. Tratava-se do Laal bite que no dialecto local significa "pequeno sítio (de pesca)".

Dentro desta cafetaria, com snacks, gelados, máquina de café e casa de banho, encontrámos um casal de ciclistas que nos explicou como funcionava a máquina do café. É óbvio que simpatizámos logo com eles! Na conversa que se seguiu, ficámos a saber que estavam reformados e que se divertiam agora viajando de bicicleta. Já tinham percorrido boa parte da Grã-Bretanha em diversas ocasiões, e tinham chegado inclusive a percorrer a França de Norte a Sul, entre Calais e Montpellier. Também já tinham viajado de Burgos, em Espanha, e La Rochelle. Ficou o desafio para um dia virem a Portugal.


Outro encontro fortuito no Trilho, desta vez com um casal de reformados que se diverte a percorrer longas distâncias em bicicleta. Quando nos contavam as suas aventuras, a ex-professora olhou para o seu marido e perguntou retoricamente "Somos um bocado malucos, não somos?".


Os últimos quilómetros

Deixando Drumbrugh para trás, seguimos por um caminho de terra batida até perto de Port Carlisle, outrora pensado para ser o porto de mar da cidade de Carlisle, projecto que, com o advento do caminho de ferro, acabou por ser abandonado, embora ainda sejam visíveis algumas construções portuárias. Do outro lado do estuário, avista-se já a Escócia!

O que impressiona mesmo, quando o Trilho regressa à margem do estuário do rio Eden, seguindo outra vez o percurso de uma antiga linha férrea, é a extensão do estuário propriamente dito, uma área classificada como Área de Excepcional Beleza Natural que é também um santuário de vida selvagem, sobretudo aves.



O estuário do rio Eden, um areal a perder de vista quando a maré está baixa. Junto a este local uma placa pregada numa árvore refere que "Gracey May dormiu aqui". Não fazendo a mínima ideia de quem era esta pessoa, ficámos agradados em saber que teve a ocasião de pôr o sono em dia num local tão aprazível.



Resto do paredão e do canal do porto de Port Carlisle, projectados para estimular a economia da região. O projecto morreu por causa do caminho-de-ferro e este morreu devido ao declínio económico da região. Há alturas em que acho que as dinâmicas da economia e a lógica são duas coisas mutuamente exclusivas.


A chegada a Bowness-on-Solway

2km depois de Port Carlisle, avistámos finalmente a aldeia de Bowness-on-Solway, povoação onde o trilho chega ao fim (ou começa, para quem o fizer no sentido Oeste-Este). Quase poderíamos jurar que a placa toponímica à entrada da localidade tem excelentes propriedades analgésicas, isto porque bastou a simples visão da mesma para subitamente fazer desaparecer as dores musculares e de tendinites que tínhamos coleccionado pelo caminho.



A famosa placa com efeito analgésico. Ideal para dores musculares e inflamações!


Também Bowness se encontra sobre um antigo forte romano, o forte de Maia. Este era o 2º maior forte da linha da Muralha (o maior era o forte de Uxelodonum, na actual Stanwix, na margem direita do Eden, junto ao forte de Luguvalium), tendo sido construído sobre o antigo 80º fortim de milha. Actualmente nada resta deste forte que terá possivelmente albergado perto de 1.000 soldados auxiliares. A Muralha terminava aqui mas as fortificações prolongavam-se para Sul, junto à costa, na forma de torres de vigia e fortins de milha isolados. 

Há alguns episódios curiosos na História das relações de Bowness com os vizinhos escoceses, dos quais partilho aqui dois. 


O roubo dos sinos

Pela sua localização Bowness também foi vítima de raides de saqueadores da fronteira. Em 1626, um grupo de "Border Reivers" vindos da Escócia atacou a aldeia e, entre outros bens, roubou os sinos da igreja de Bowness. Quis o destino que, durante a travessia de regresso à Escócia, os sinos caíssem às águas do estuário do Eden, perdendo-se para sempre.

Em retaliação, os habitantes de Bowness que atacaram a vizinha povoação escocesa de Annan, roubando naturalmente os sinos da igreja local que depois foram instalados na torre da igreja de Bowness. Desde então, numa tradição que hoje se mantém, sempre que um novo vigário assume funções na paróquia de Annan, envia à paróquia de Bowness um pedido formal de devolução dos sinos.


O viaduto mortal

Em 1869, a construção da linha de caminho-de-ferro entre Bowness a Annan levou a que fosse erguida uma ponte sobre o estuário do Eden. A linha acabaria por ser desactivada em 1921 e a ponte foi mesmo demolida 13 anos mais tarde. A sua demolição deveu-se ao facto de muitos dos vizinhos escoceses que, ao Domingo, dia em que o consumo de álcool lhes estava vedado, vinham tirar (ou meter?) o fígado de misérias ao lado inglês e depois regressavam bastante embriagados, terem ido fazer companhia aos sinos nas águas do estuário.




O fim do trilho!

Mal entrámos em Bowness, a sinalética indicando o fim do Trilho gerou um certo nervoso miudinho. Uma curva à direita, para um caminho estreito entre o casario, depois uma curva à esquerda, e ali estava finalmente o pequeno abrigo de madeira, à vista do Mar da Irlanda, com o emblemático letreiro de boas-vindas em latim! 



Quase, quase lá! 130 jardas para o fim do trilho!


E finalmente, 6 dias e 160km depois (desvios incluídos), tínhamos completado o trilho da Muralha de Adriano! 



A triunfante foto da praxe, antes de nos sentarmos por longos minutos num banco a apreciar a vista.


O Solway Firth, ou baía de Solway, que abre para o Mar da Irlanda. 


Após longos minutos nos quais também saboreámos a sensação de "dever cumprido", cumprimos a formalidade de colocar o último carimbo nos nossos Passaportes, na caixa que se encontrava no abrigo. Era tempo de nos dirigirmos a outro local emblemático de Bowness, o Kings Arms, para aí adquirirmos os nossos certificados. Trata-se de um pub, que também oferece alojamento em regime Bed and Breakfast, situado no exacto centro do desaparecido forte de Maia.

O último carimbo do Passaporte ou o selar da conclusão do Trilho da Muralha de Adriano, para depois obter o respectivo certificado. Estes Passaportes fazem parte do esforço de conservação da Muralha de Adriano, estando apenas disponíveis no Verão para desencorajar as pessoas a viajar no Inverno, altura em que o solo que cobre os vestígios arqueológicos está mais fragilizado. 


O Kings Arms é um pub extremamente acolhedor. Em conversa com o dono, também ele chamado David, ficámos a saber que éramos os primeiros portugueses de que ele se lembrava de atender e que ele próprio já trabalhara numa fábrica com outros dois. Ofereceu-se para nos tirar esta foto, enquanto o senhor que nela aparece também, foi simpático em emprestar o copo à Ana para ajudar a enriquecer a pose de forma desinteressada, apesar de podermos achar que há ali uma certa expressão de expectativa.


Instalados no Kings Arms e ao sabor de uma bela "pint" de cerveja (o dono fez uma cara de reprovação sentida quando lhe pedi um copo pequeno), obtivémos os nossos certificados e aproveitámos para nos refazer das emoções recentes, recuperando as memórias daquilo que tinha sido uma memorável caminhada. Pouco depois chegavam também as nossas já bem conhecidas amigas caminheiras do Robin Hood Inn, com quem finalmente tivemos uma conversa decente e com quem partilhámos as novidades de última hora.

A chuva a fechar a despedida de Bowness-on-Solway.


Fomos depois dar um curto passeio pela aldeia antes de apanharmos o autocarro de regresso a Carlisle (e antes de descobrirmos que já se andava a falar de nós em Bowness), a partir de onde viajaríamos em comboio para Glasgow, iniciando um périplo de uma semana pela Escócia. Seriam 7 dias divertidos e, como não podia deixar de ser, com um episódio inacreditável pelo meio. Isso será uma história para contar depois.


Já agora...

Havia uma boa razão para estarem a falar de nós em Bowness-on-Solway e que acho que me esqueci de mencionar lá atrás. Enquanto apreciávamos a paisagem do Solway Firth, sentados no banco junto ao abrigo de madeira do fim do Trilho, pedi a Ana em casamento e ela aceitou




O ano 2014 ainda está demasiado longe mas já promete ser memorável. Acredito que tenhamos sido dos poucos caminheiros, que aqui concluíram o Trilho da Muralha de Adriano, para quem o letreiro na fachada oposta do abrigo também terá tido algum significado. Eu gosto de pensar que foi um augúrio para a nova caminhada que aí iniciámos. Não concordam?



[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

quarta-feira, julho 10, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 5


Nota introdutória: 
Cumpre-se hoje o 1875º aniversário da morte do imperador Adriano, ocorrida a 10 de Julho de 138 na sua villa de Baiae perto da actual cidade de Nápoles. (foto: Wikipédia)


Mapa do percurso
(Clicar para ampliar)


Dia 5 - De Walton a Carlisle (22km incluíndo a voltinha obrigatória pelo centro de Carlisle)
 [Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]


A inspiradora vista matinal. Lá bem ao fundo, avista-se o início dos montes Peninos.

Acordámos bem cedo com a luz a entrar pelas janelas (mais uma vez sem cortinas ou persianas) e aprontámo-nos para a penúltima etapa da nossa caminhada, que nos levaria à cidade de Carlisle, a 2ª maior cidade do Trilho e outrora o centro nevrálgico das operações militares de toda a Muralha de Adriano . 

Antes de sair, reparei que na sala de estar das camaratas existia uma interessante colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial, desde capacetes a pequenas publicações, juntamente com outros itens de cariz mais etnográfico. Esta colecção deixou-me curioso e seria o mote para uma pequena conversa com os donos da casa após o pequeno-almoço. Sobre a lareira encontrei duas publicações que mais não eram que manuais com regras de comportamento para soldados, um para soldados britânicos em solo francês e outro para soldados americanos em solo britânico.


A sala de estar do barracão das camaratas, decorada com uma colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial. Sobre a lareira encontravam-se duas publicações que tive a ocasião de folhear.


Um manual de regras de comportamento para soldados estado-unidenses estacionados no Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial. Um verdadeiro tesourinho cheio de regras que são um regalo de leitura!

Bastou uma pequena leitura em diagonal pelo manual para soldados americanos estacionados em solo britânico para perceber o tom de superioridade e condescendência do Tio Sam em relação aos seus aliados. Eis algumas passagens que achei por bem partilhar convosco:
Os britânicos são reservados e não antipáticos. (...) Numa pequena e populosa ilha onde vivem 45 milhões de habitantes, cada homem aprende a guardar cuidadosamente a sua privacidade e é igualmente cuidadoso quando se trata de não invadir a privacidade alheia. Por isso, se os britânicos se sentarem num autocarro ou num comboio sem meter conversa consigo, isso não significa que estão a agir de forma altiva ou antipática. Provavelmente estão a prestar-lhe mais atenção do que pensa. (...)
Não procure dizer aos britânicos que a América ganhou a última guerra nem faça piadas acerca da dívida de guerra ou das derrotas britânicas nesta guerra.
NUNCA critique o Rei ou a Rainha. Não critique a comida, cerveja ou cigarros. Lembre-se que eles [os britânicos] estão em guerra desde 1939.

O pequeno-almoço (mais uma vez um belo english breakfast com tudo a que tínhamos direito) foi servido na enorme mesa de uma sala decorada com objectos do século XIX cujas paredes estavam cobertas de quadros e fotografias da família dos donos da casa. Sentados à mesa estavam os nossos companheiros de camarata, para além de outros caminheiros que tinham optado por acampar no relvado frente à casa. Tivemos de esperar um pouco até sermos servidos já que tinha havido um erro de contas relacionado com o número de pessoas que tinham pedido pequeno-almoço mas valeu bem a pena esperar por aquele bem recheado prato acabado de confeccionar.

A residência dos donos da quinta é uma bela construção vitoriana que dá uma ideia da antiguidade deste local.

Após o pequeno-almoço, enquanto acertávamos contas, fiquei a saber que Richard Sutcliffe, dono da quinta, é um fervoroso coleccionador de objectos relacionados com a 2ª Guerra Mundial, embora não tenha participado no conflito. Um dos seus 3 irmãos, contudo, não teve a mesma sorte e acabou mesmo por ser morto em combate. Fiquei também a saber de uma história curiosa: embora esta região tenha passado ao lado dos efeitos directos da 2ª Guerra Mundial, em contraste com o Sul de Inglaterra e sobretudo Londres, num dia fatídico também por aqui houve vítimas. Um bombardeiro que tentava regressar à base acabou por se despenhar sobre o canil que pertencia ao avô de Richard, matando todos os cães que aí se encontravam.

Richard e Margaret Sutcliffe, os nossos anfitriões na quinta Sandysike.


A caminho de Carlisle

Já sabíamos de antemão que pouco veríamos da Muralha de Adriano nesta etapa. Para além de visões esporádicas do fosso e do Vallum a Muralha estaria mais presente na toponímia do que na paisagem, havendo até uma altura a partir da qual o Trilho se afasta do traçado da própria Muralha (facto bem visível no mapa). Seria portanto um percurso para apreciar principalmente a beleza natural e, se possível, visitar alguma coisa na chegada a Carlisle.

Continuando nos moldes em que tinha terminado a etapa do dia anterior, vimo-nos a caminhar por quintas, passando até pelo meio de algumas. Claro, voltámos a apanhar chuva mas desta vez nada mais que uns chuviscos esporádicos no início do trilho. Seria aliás o mote para uma graçola por parte de um membro de um grupo de caminheiros, com quem nos cruzámos mais à frente vindo em sentido contrário que, depois de informado que tínhamos apanhado chuva lá atrás, nos agradeceu: -"Obrigado por terem tratado disso por nós.". - "De nada. Disponham sempre!". É impossível ficar indiferente ao humor desta gente.


À saída da quinta Sandysike, passamos novamente pelo portão por onde chegámos no dia anterior, vindos do bosque. Junto a ele encontra-se uma caixa com os dizeres "Espreite para dentro :)" e, dentro dela, um bilhete a pedir donativos para a Igreja de Walton, assim como várias moedas que os caminheiros foram deixando ao passarem por aqui.


A paisagem permite alguns "bonecos" como este. Prados verdes cheios de borbotos.

Por falar em ovinos, eis um exemplar temerário que parece estar a tentar perceber por que carga de água lhe estão a invadir o território, provando ao mesmo tempo que, como dizem os nossos "irmãos" brasileiros, tamanho não é documento.

Um ponto do trilho que pode constituir um desafio para os caminheiros que, por uma questão de precaução, acumularam mais gorduras antes de iniciar a caminhada. A chegada a Newtown é feita por uma estreita passagem entre a cerca de madeira e o barracão/muro que se vêem nas fotos.


Chegada ao sítio de "Oldwal". Eis a persistência da Muralha na toponímia.



Agraciados por um decreto do Imperador Adriano!

O último vislumbre da Muralha acontece em Bleatarn, local onde se caminha sobre ela, embora esteja sob o solo, sendo também visível o fosso e o Vallum este de forma muito ténue mais a Sul. O mais interessante deste local acaba por ser o resultado visível da acção de construção da Muralha cuja matéria prima foi obtida no próprio local, sendo visíveis ainda as marcas da pedreira de onde os romanos extraíram a pedra, assim como da rampa que serviu para o transporte da mesma. Intrigantes são também uns sulcos em ziguezague diante do fosso, não se sabendo no entanto qual seria o seu propósito.

O sulco, o monte onde a Muralha ainda se esconde sob o nível do solo e a cova onde outrora funcionou a pedreira para a construção da fronteira fortificada do Império. Há quem seja da opinião que, aquando do abandono da pedreira, esta terá sido inundada para aí se fazer um viveiro de peixes para alimentar a guarnição da Muralha. Teorias.

No final desta passagem pela Muralha, ao chegarmos ao sítio conhecido como Stall-in-the-Wall, fomos confrontados pela primeira vez com o conceito de "honesty box", literalmente a caixa de honestidade. Trata-se basicamente de uma caixa cheia de barras de cereais, chocolates, sumos e águas, mantida por um habitante local anónimo, da qual podemos tirar o que quisermos, deixando dentro de um pequeno tupperware o pagamento correspondente, de acordo com o preçário ali afixado. No dia seguinte teríamos o prazer de encontrar uma extrapolação radical deste conceito, num momento que proporcionou (mais) um encontro agradável. Mas disso falarei no próximo artigo.

A Caixa de Honestidade do Stall-on-the-Wall, "por decreto do Imperador Adriano", segundo o que está escrito num papel no exterior! Mais alguém acha que uma coisa destas teria uma vida muito curta aqui pelo nosso rectângulo à beira-mar plantado?

A chegada a Carlisle

Continuando o nosso caminho, chegámos a Crosby-on-Eden, povoação situada junto à estrada que hoje substitui a antiga "Stanegate" (recordar aqui). A chegada a esta aldeia coincide com a chegada ao rio Eden, cujo curso serviu de orientação para a construção do extremo Oeste da Muralha e que seria também o curso que seguiríamos até ao final do Trilho no dia seguinte. Ao sairmos da povoação recomeçou a chuva mas, felizmente, foi de pouca dura. Quanto ao percurso, durante cerca de uma hora foi pouco interessante, fazendo-se primeiro por caminhos de terra batida junto a quintas, sendo que uma delas foi um verdadeiro desafio de resistência para o nosso olfacto e para a nossa agilidade de pés na prática do "Evitar-o-líquido-escuro-mal-cheiroso-que-cobre-o-caminho".  

Ultrapassado a simpática zona residencial de Linstock, o piso passou a ser exclusivamente em alcatrão até Rickersby, já nos subúrbios de Carlisle.


O rio Eden perto de Crosby-on-Eden, visto sob uma chuvada de boas-vindas. O Trilho terminaria na foz deste rio no dia seguinte e com um episódio sensacional!

Ao chegarmos a Rickerby, local onde se situa uma espécie de palácio/hotel/moradia, avista-se uma torre octogonal no meio de um prado. Trata-se de uma "Folly tower", ou seja, um torre vitoriana puramente decorativa, construída no século XIX, pelo então mayor de Carlisle (e também magistrado e banqueiro). Esta excentricidade combina com a excentricidade do nome deste mesmo homem: George Head Head (assim mesmo).

Após atravessarmos o parque vitoriano de Rickersby, onde percebemos que já estamos perto de uma grande cidade quando as pessoas com quem nos cruzávamos já não nos cumprimentavam, chegámos novamente à margem direita do rio Eden e à ponte de ferro pedestre que permite a sua travessia rumo a Carlisle. O trilho levou-nos a percorrer uma zona verde, junto a escolas e um campo de golfe, acompanhando as sinuosidades do rio até finalmente avistarmos o Sands Centre, um complexo de desportos e eventos bastante concorrido.

O trilho na aproximação a Carlisle. Um regalo para os olhos e o pesadelo para qualquer indivíduo alérgico a pólens.



Uma vez que era aqui que tínhamos de carimbar o nosso Passaporte, fizemos uma paragem para comer e beber alguma coisa, até porque nos últimos quilómetros o Sol voltara a aparecer em força. Apesar de não termos visto ainda construções por causa da cintura verde que rodeia o centro da cidade, o ruído dos automóveis denunciava a sua proximidade. Era também a partir de aqui que tínhamos previsto fazer um desvio para visitarmos o castelo de Carlisle e o centro histórico da cidade. 

E assim chegámos a Carlisle, logo após o Sands Centre! Só faltou mesmo a banda e uma mesa com croquetes e sumos de fruta porque o tapete, neste caso verde e de alta qualidade, estava bem estendido à nossa frente


O Castelo de Carlisle, o castelo recordista de cercos.

A primeira paragem foi o castelo de Carlisle, uma impressionante fortaleza em arenito avermelhado. Deixando as mochilas na recepção (que alívio para as cruzes!), demos uma volta pelas muralhas e pela torre de menagem cujas salas foram todas musealizadas.

O castelo de Carlisle ocupa parte do espaço onde outrora se situava Luguvalium, o forte romano de turfa e madeira que aqui foi construído no ano de 72 e junto ao qual surgiu aquilo que viria a ser a cidade de Carlisle. O primeiro castelo foi construído pelos ingleses em 1072, depois de expulsarem os escoceses da região, e depressa se tornou a principal fortificação do Noroeste do reino de Inglaterra e centro de disputas constantes com o vizinho reino da Escócia.  Os escoceses voltaram e reconquistaram o castelo no século XII, liderados por uma das grandes figuras históricas com "David" no nome, neste caso o Rei David I que acabaria por falecer neste castelo alguns anos mais tarde. Até à união entre os dois reinos, em 1603, o castelo voltaria a mudar de mãos várias vezes. Os constantes cercos fazem deste castelo o recordista de cercos do Reino Unido.

Durante as revoltas Jacobitas o castelo voltaria a ser palco de combates, quando os Highlanders tomaram o castelo e, por sua vez, acabaram por ser derrotados e executados de forma pouco agradável pelo Governo, através de métodos variados como enforcamento, afogamento, esquartejamento entre outros.


O castelo de Carlisle e a torre de menagem, datada do século XII. Cada piso conta uma história sobre o castelo.

A entrada da cidadela, sobre um bastião em meia lua construído para aumentar a defensabilidade do fosso.

Subida para o piso superior da porta de entrada, antiga morada do governador do castelo.

Um dos canhões do castelo, por coincidência apontado para a Escócia.


Na base da torre de menagem encontram-se as masmorras onde os Highlanders derrotados foram postos a ferros, sem comida, água ou acesso a instalações sanitárias. Os que sobreviveram hidrataram-se lambendo a humidade de algumas pedras da parede em frente, sendo hoje conhecidas como "Licking stones" (Pedras de Lamber)

Ser guarda no castelo em períodos pacíficos era uma actividade que proporcionava algum aborrecimento, daí que alguns guardas tenham aproveitado para rabiscar as paredes, deixando aí gravadas figuras como estas.

Neste pequeno oratório, entalado entre uma cozinha e uma sala grande da torre de menagem, deu o seu último suspiro o rei David I da Escócia (uma das grandes figuras históricas com "David" no nome).

Pelas ruas de Carlisle

Uma vez que saímos do castelo já em cima das 18h, já não foi possível visitar o museu situado mesmo em frente, para grande pena nossa. Tivemos pois de nos cingir a dar uma pequena volta pelo centro histórico da cidade, antes de prosseguirmos para Oeste, rumo ao hotel onde iríamos passar a noite. O arenito vermelho é uma presença constante nas ruas, desde os passeios aos próprios edifícios, dando um tom muito particular à cidade.

O passeio junto ao museu de Carlisle, o Tullie House Museum & Art Gallery, evoca a Muralha de Adriano e os seus fortes, tanto os que faziam parte dela como os da rectaguarda.

A Castle Street, que liga o Castelo à praça principal do centro histórico de Carlisle, o Market Cross.

A Catedral de Carlisle, construída a partir do século XII.

À chegada ao hotel, o Vallum House já na saída Oeste da cidade, tivemos direito a um delicioso jantar numa sala a rebentar pelas costuras. O atendimento foi muito simpático e essa simpatia estendeu-se à permissão que nos foi dada para, no dia seguinte, podermos deixar no hotel as nossas mochilas após o check-out. Iríamos assim poder cumprir a nossa última etapa sem o peso da bagagem, uma etapa que terminaria com um episódio simplesmente memorável!

A seguir: o fim do Trilho da Muralha de Adriano e o episódio que fez de nós o tema de conversa entre os habitantes de Bowness.

 [Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

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