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quarta-feira, novembro 18, 2015

Caminho Inca - A chegada a Machu Picchu!

Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4

4ª etapa: de Wiñay Wayna a Machu Picchu (e Wayna/Huayna Picchu)


Ao quarto dia, acordámos mais cedo que nunca para o que faltava da nossa caminhada. Seria um dia emocionante e aquilo que vimos da Porta do Sol ficará para sempre na nossa memória. Contudo, a aventura não se esgotou em Machu Picchu, havendo quem tenha decidido ir um pouco mais além.


O dia começou bem cedo, logo pelas 3h30 da manhã! Seguindo as instruções do dia anterior, já tínhamos a maior parte do material arrumado dentro das mochilas pelo que depressa saímos das nossas tendas, a caminho da tenda de refeições para o nosso pequeno-almoço. Enquanto comíamos e nos preparávamos para o grande dia, a azáfama era grande já que, como contei no artigo anterior, mal partíssemos, os carregadores e cozinheiros iriam correr por um trilho até ao fundo do vale para apanharem o comboio de volta a casa.

O acordar tão cedo era bem justificado. O objectivo era entrar na fila do último checkpoint para Machu Picchu, que abriria por volta das 4h30, para chegarmos o mais cedo possível à cidade perdida dos Incas. Despachado o pequeno almoço, lá nos dirigimos até à fila para o checkpoint, iluminando o caminho com as nossas lanternas.




No último checkpoint antes de Machu Picchu, Nilo trata de todas as formalidades para podermos passar e iniciar a última etapa.



Depois de uma longa espera, em que aproveitámos para dormir mais um pouco, esticados na berma do trilho, finalmente abriram-se as portas do checkpoint e iniciámos a última parte da nossa caminhada. Machu Picchu estava a poucas horas de distância.

O trilho prosseguiu numa encosta íngreme do vale do Urubamba, com vegetação mas escassa que no dia anterior. À medida que a luz aumentava e a neblina se dissipava, íamos percebendo mais e mais pormenores daquela bela paisagem. 

A dada altura chegámos a uma escadaria que sem dúvida estabeleceu o padrão das escadarias íngremes. Era a temível "gringo killer" de que Toni nos tinha falado no jantar do dia anterior, acrescentando "Gringo killer, escadas do inferno, escadas de macaco... se não gostarem do nome podem chamar-lhe outra coisa qualquer que nós não nos importamos". Era o último obstáculo antes do Inti Punku, a porta do Sol, obstáculo que foi vencido mesmo que alguns tenham abdicado do bipedismo para o fazerem.




Gringo killer, monkey steps, steps from hell... As escadas mais íngremes que alguma vez havíamos visto, o último obstáculo antes da Porta do Sol


Quando já tínhamos a passagem do Inti Punku à vista, o deus Inti resolveu mostrar-se em todo o seu esplendor, inundando tudo de luz e calor. Ficámos ali longos minutos a admirar aquele fabuloso nascer do Sol, antes de continuarmos até à porta do Sol para pela primeira vez contemplarmos a fabulosa cidade inca de Machu Picchu!



A chegada do deus Inti, no quarto dia da caminhada.



Paragem para apreciar o nascer do Sol. O Inti Punku, a Porta do Sol, é já ali naquela passagem à direita.



Machu Picchu, finalmente!

É difícil explicar aquilo que sentimos ao vencer aquelas últimas escadas, passar pelo antigo posto de controlo inca do Inti Punku e contemplar Machu Picchu pela primeira vez. À nossa volta as expressões de admiração sucediam-se e havia quem não se conseguisse conter e desatasse a chorar. Pessoalmente, a imagem quase irreal daquelas ruínas e socalcos era muito forte. Tão forte que, por momentos, voltei a ser aquele miúdo de 11 ou 12 anos, com um livro de História aberto no colo, que olhava fascinado para a fotografia de uma cidade perdida nas montanhas do Peru, e que prometeu a si próprio que um dia a visitaria. Essa cidade estava agora à vista e a apenas 30 minutos de distância!


Machu Picchu à vista, a partir do Inti Punku. À direita o monte Huayna Picchu no topo do qual os incas construíram socalcos e casas! Crê-se que ali residiam sacerdotes.


Após algum tempo para as inevitáveis e indispensáveis fotografias e também para recuperarmos a compostura, começámos a descer para Machu Picchu. Era necessário validarmos os nossos bilhetes e, a título de medalha, poderíamos carimbar o nosso passaporte com um carimbo disponível para o efeito junto à bilheteira. Só depois entraríamos em definitivo na cidade.



A pose triunfal a partir do sector agrícola da cidade, antes de irmos tratar das formalidades para o resto da visita.


A cidade de Machu Picchu

Parte do sector urbano de Machu Picchu


A cidade está dividida em dois sectores principais: o sector agrícola e o sector urbano, separados por um muro extenso com estreita porta a garantir o acesso ao reservado segundo sector. Machu Picchu na verdade significa "Velha Montanha" em quechua, o nome da montanha onde a cidade se situa, estando atrás desta o monte pontiagudo da Huayna (ou Wayna) Picchu, a "Jovem Montanha".

Estas fabulosas ruínas foram oficialmente descobertas por Hiram Bingham, em 1911, quando procurava a última capital dos Incas. Organizou uma expedição, aventurou-se no vale do Urubamba, seguindo rumores e recolhendo informações dos habitantes que iam encontrando. Ao chegar ao local onde se situa hoje a vila turística de Águas Calientes, no sopé de Machu Picchu, soube a troco de alguns dólares que havia ruínas naquela montanha. 
Com um jovem local como guia, subiu a montanha e deparou-se com as ruínas, então bem diferentes do que hoje vemos, cobertas pela selva e bastante mais degradadas. A cidade não estava contudo abandonada já que alguns socalcos eram ainda cultivados e nas próprias ruínas moravam dois quechuas.


Aglomerado de casas no sector urbano


O caminho que havíamos feito para ali chegar seria descoberto por Bingham apenas no ano seguinte, quando encontrou vestígios de uma estrada que saía da cidade rumo a Sudeste e resolveu desbravá-la, descobrindo muitos dos sítios arqueológicos pelos passámos.

O que ainda ninguém sabe com toda a certeza é qual terá sido o papel desta cidade. Supõe-se hoje que terá sido construída pelo 9º Sapa Inca, Pachacutec, no século XV, para servir de retiro ao soberano. Acredita-se até que o túmulo de Pachacutec se encontra aqui, ainda à espera de ser descoberto, coisa que recentemente um arqueólogo francês anunciou ter conseguido (ver aqui). 


O templo do Sol e, sob este, o que Bingham baptizou como Túmulo Real, onde descobriu várias múmias e concluiu que teria pertencido a alguém de grande importância.


Também se diz que terá sido uma cidade-universidade, onde os sacerdotes aprendiam os segredos da religião e astronomia. Certo é que a cidade, estrategicamente situada na transição dos Andes para Amazónia, terá sido um importante centro de administração política e religiosa.

Com a chegada dos espanhóis em 1532, com grandes obras ainda em curso, a cidade terá sido abandonada durante a retirada dos Incas para zonas mais remotas, onde mantiveram a sua independência por mais 40 anos, até à captura e execução do último Sapa Inca, Tupac Amaru, em 1572. A capital mudara-se nesse período para Vilcabamba, a cidade que Bingham verdadeiramente procurava. No processo de retirada, para impedirem o avanço dos espanhóis no seu encalço, os Incas também destruíram estradas e pontes



Interior do templo do Sol. Nos nichos seria colocados objectos ou ídolos que também podiam ser pendurados nas saliências entre os nichos.



Não se encontram referências a esta cidade nas primeiras crónicas do período colonial mas presume-se que tenha sido saqueada algumas vezes até à sua descoberta oficial. Ainda assim, foram descobertos centenas de túmulos por Bingham, assim como milhares de cacos de peças de cerâmica deliberadamente partida (no abandono da cidade ou para efeitos rituais, não se sabe). Sob o edifício mais importante, o templo do Sol, o explorador encontrou um túmulo que chamou de túmulo real, pela quantidade e riqueza do espólio. Várias múmias estavam alinhadas nos nichos das paredes. De ouro e prata é que não havia grande coisa em toda a cidade. 



O templo do Sol, o edifício com melhor acabamento na cidade. Possui duas janelas, uma virada para Oriente (bem visível na foto) e outra virada mais para Sudoeste (à esquerda), para o Inti Punku. No Solstício de Inverno (21 de Junho), os primeiros raios de Sol entram pela primeira janela, enquanto que no Solstício de Verão (21 de Dezembro), entram pela segunda.





O nosso companheiro Nilo, o cicerone da nossa visita a Machu Picchu. Ao longo dos quatro dias travámos conversas bastante interessantes e fiquei também a conhecer a sua notável história de vida. Ficou órfão de pai aos 15 anos e assumiu a responsabilidade de o substituir no sustento do lar. A convite de um tio, que era cozinheiro, começou a trabalhar como carregador no Trilho Inca e conseguiu poupar o suficiente para poder ir para a universidade para aprender línguas estrangeiras. Deixei-lhe o convite para vir a Portugal.



A escadaria que dá acesso à Praça Principal, mais longe para a esquerda.




Um interessante bloco de pedra na área dos templos. Como provado por Nilo, os 4 vértices encontram-se alinhados com os 4 pontos cardeais. Muitos acreditam ver nela uma representação estilizada da constelação do Cruzeiro do Sul.



Ao longe avista-se o sector agrícola.




Num recanto do sector urbano, esta rocha esculpida assinala o chamado Templo do Condor



A subida ao Huayna Picchu

A aventura não terminou contudo em Machu Picchu. A Ana ainda se aventurou na subida ao Huayna Picchu, no que eu não a consegui acompanhar. O percurso é extremamente desafiante e passível de provocar vertigens. A subida é íngreme, cheia de degraus e, depois de se chegar aos últimos patamares, o acesso ao topo é feito por uma estreita gruta, que mais parece uma fissura. A vista que se tem do topo é fabulosa. Ora vejam:



O Max a liderar a tropa em direcção ao topo


A vista quase vertical para o Urubamba!



Machu Picchu vista do Huayna Picchu. Clicando na foto para a ampliar, é possível ver à esquerda o trilho que leva ao Inti Punku, por onde chegámos. Lá atrás, mais à direita, situa-se  Abra Phuyupatamarca, local por onde passámos na véspera. 

Vídeo:




Despedida e regresso

A artéria ferroviária de Águas Calientes


Terminada a exploração de Machu Picchu, o grupo reuniu-se pela última vez num restaurante em Águas Calientes, a povoação que se desenvolveu no sopé da montanha à conta dos mais de 2 milhões de visitantes anuais que a cidade inca recebe. A única forma de chegar a esta povoação é de comboio ou a pé.

Águas Calientes tem este nome devido às fontes termais que possui, algo que alguns do grupo aproveitaram para relaxar após a longa caminhada, em vez de subirem a Huayna Picchu. As lojas são mais que muitas e a avenida principal oferece a singular visão de ser uma via ferroviária. 

Após o almoço, seguiu-se a despedida emocionada de vários dos nossos companheiros de caminhada, para apanharmos o comboio de regresso a Cusco. Embora lento (e caro!), possui um serviço interessante, com café e snacks gratuitos. O tecto transparente é perfeito para admirar as montanhas quase verticais ao longo do percurso (enquanto há luz do dia) e, ao longe, avistámos alguns dos locais por onde tínhamos passado na nossa caminhada.


No comboio regressando a Cusco


Tinha chegado ao fim uma aventura inesquecível, a mais espectacular caminhada que fizemos até agora. Descobrimos paisagens de cortar a respiração, locais misteriosos e fascinantes e conhecemos pessoas extremamente interessantes: o Neil e a Lucy, o James e a Carolyn, a Debby, o Steve e a Debra, o Michael e o seu filho Max, os nossos guias Nilo e Toni, aquele incansável grupo de carregadores e cozinheiros, entre eles o Marciel e o Wilfred. Será impossível esquecê-los

Entretanto, e à medida que subíamos pela margem direita do Urubamba e as oscilações do comboio nos embalava, revisitava mentalmente todas as etapas da nossa caminhada até à cidade perdida dos Incas. Cá dentro, aquele miúdo de 11 ou 12 anos, que sonhara visitar Machu Picchu, ainda saltitava sem parar.

Todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 



A seguir:
O fim da aventura peruana. 
A viagem pelo deserto até às ruínas da mais antiga cidade de todo o continente americano

quinta-feira, outubro 29, 2015

Caminho Inca - O segundo dia no Trilho

Etapa 2: de Llulluchapampa a Caquicocha
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Depois de um primeiro dia extremamente exigente, o percurso para o segundo dia, apesar de um pouco mais curto, não prometia menos dificuldades. Esperavam-nos duas subidas exigentes, começando logo pelo culminar da ascensão ao ponto mais alto de todo o trilho, passagens por sítios arqueológicos que pareciam saídos das páginas de um livro de aventuras e a entrada na floresta de nuvens, que fez verdadeiramente jus ao seu nome.

O dia começou cedo, por volta das 5h30 da manhã, com a oferta de chá e café tenda a tenda. Para além da simpatia do gesto, soube mesmo bem beber daquela chávena quentinha enquanto contemplávamos a vista para o vale que tínhamos subido no dia anterior, dominado pelo maciço nevado do Wayanay. Até deu para esquecer por minutos o frio intenso que ainda se fazia sentir.



O nascer do Sol com vista para o pico do Wayanay, com quase 5.500m de altitude (ver vídeo)


Depois de nos equiparmos e prepararmos as mochilas, reunimos-nos na tenda de refeições para um belo pequeno-almoço. A jornada prometia até porque, de acordo com o briefing do dia anterior, iríamos enfrentar duas subidas exigentes, descidas acentuadas e o resto seria plano, não de acordo com o nosso conceito de planura mas antes "inca flat", segundo os nossos guias, que faziam repetidos movimentos para cima e para baixo com a mão para ilustrar o conceito.

Com toda a gente pronta e o acampamento já a desaparecer para dentro das mochilas-saco da equipa Enigma, retomámos a caminhada para concluir a subida iniciada no dia anterior.



Uma caminheira, nitidamente motivada e envergando orgulhosamente um gorro de lã de alpaca, indica a primeira meta do dia: Abra Warmiwañusca ou a passagem da Mulher Morta, lá ao fundo.



A passagem da Mulher Morta
(ou o ponto mais alto a que alguma vez um Caetano subiu pelo seu próprio pé)

Embora inicialmente o facto de começarmos a subir tenha ajudado a contrariar o frio que se fazia sentir, com a chegada do Sol tudo mudou. Depressa tivemos de despir os casacos, gorros e luvas para podermos continuar, até porque também já não tínhamos a protecção da sombra das árvores.

Ao olhar para trás percebemos a grande quantidade de gente que percorria também o trilho. As linhas formadas pelos carregadores, vestidos de amarelo, verde, vermelho ou cinza, consoante a agência a que pertenciam, emprestavam um bonito colorida à paisagem e ajudavam-nos a identificar o trilho na paisagem.




O nome daquela passagem não evoca uma caminheira menos afortunada mas, dada a dificuldade da subida, não seria de admirar se assim fosse.


A subida foi-se complicando porque, para além da inclinação e dos degraus, o efeito do oxigénio rarefeito se fazia sentir mas, degrau a degrau, chegámos finalmente ao ponto mais alto da nossa caminhada: Abra Warmiwañusca, a passagem da Mulher Morta, a 4215m de altitude. Fiquem no entanto descansados porque o nome do local não se deve a uma caminheira mais infeliz mas sim ao facto de, quando visto ao longe, o local lembrar a forma de uma mulher deitada. 

Ao chegarmos, sentamos-nos a olhar para trás durante algum tempo, saboreando a sensação de triunfo de termos subido tanto, desde aquele local agora tão pequenino no fundo do vale. Depois, enquanto o resto do grupo não chegava, aproveitámos para subir um pouco mais para procurar uma geocache que por ali estava escondida (clicar aqui para saber o que é isto), o que nos deu uma perspectiva diferente da passagem. Podem ver neste vídeo: 


Vídeo - A passagem vista de cima.



Após terem terminado a subida, dois grupos de carregadores descansam antes de continuarem o caminho


À medida que os restantes elementos da equipa iam chegando, reagindo com maior ou menor efusividade ao final da subida (um sonoro e teatral "F### you, Dead Woman!!!" estabeleceu o padrão), iam sendo felicitados por aqueles que os esperavam. Já com toda a gente, foi tempo de tirar a inevitável fotografia de grupo para eternizar o momento. Foi então tempo de voltar a pôr as mochilas às costas para começar a descer para o próximo vale.



A melhor equipa composta por quatro cidadãos estado-unidenses, dois irlandeses, dois britânicos, uma canadiana e dois portugueses que alguma vez alcançou os 4215m de altitude no Trilho Inca.




A descida para o vale de Pacaymayo

À medida que começámos a descer para o vale do rio Pacaymayo, o nevoeiro cerrado começou a recuar à nossa frente até que a certa altura foi possível ver a totalidade do vale. Lá ao fundo avistava-se o acampamento onde iríamos almoçar enquanto que, na encosta da montanha, se distinguia claramente o serpentear do trilho. Foi uma descida tremenda, exigente para os joelhos, que nos levou a pensar em como terá sido difícil a vida dos mensageiros que tinham de correr por estes caminhos. 



O início da descida para o vale do Pacaymayo, um verdadeiro "rebenta-joelhos" mas que seria realmente uma chatice se tivesse de ser percorrido no sentido inverso.


À medida que nos aproximávamos do fundo do vale, íamos também tomando consciência da tarde complicada que nos esperava, dada a bela subida que se ia tornando cada vez mais nítida no flanco da montanha para lá do acampamento. Não admirou portanto que muitos aproveitassem a pausa após o almoço para dormir um pouco, já que iríamos mais uma vez precisar de todas as nossas energias.



O acampamento de Pacaymayo e, para lá dele, a subida para Runkurakay. Com algum esforço é possível avistar o Tambo, mais acima. Se não forem de grandes desafios, podem sempre clicar na fotografia para ampliar.




Momento de descontracção após o almoço, antes de enfrentarmos a subida íngreme da tarde.



Runkurakay e os Chasquis, os mensageiros do Império

A subida até à passagem de Runkurakai, o 2º ponto mais alto do trilho, foi tudo o que esperávamos dela: bastante exigente mas não tanto quanto a subida até à passagem de Warmiwañusca, embora também tivesse muitos degraus.

A meio da subida passámos pelo interessante conjunto de ruínas de Runkurakay, mais uma vez um Tambo, um local onde os mensageiros se revezavam. Mas quem eram afinal estes mensageiros, que tinham um papel fundamental no Império Inca? O nosso guia Toni deu-nos uma explicação interessante.



O Tambo de Runkurakay (do quechua "Runku"=cesto e "rakay"=ruína), onde os mensageiros ficavam alojados. Possui alguns socalcos de cultivo e oferece uma vista fantástica para a passagem da Mulher Morta e para o vale do Pacamayo


Os Chasquis eram uma classe à parte no Império. Considerados nobres, não tinham no entanto os mesmos privilégios tradicionais da nobreza propriamente dita. O cronista Inca Guamán Poma refere que, estando comprometidos com o seu trabalho todos os dias, durante todo o ano, não lhes era permitido ter esposas nem filhos.

Os mensageiros eram escolhidos através de uma prova anual de corrida, em que qualquer cidadão podia participar, sendo esta a única via que os mais pobres tinham para escaparem à miséria, já que o Inca garantia aos Chasquis comida, dormida e roupa. Como já mencionei, como os Incas não tinham sistema de escrita, as mensagens eram memorizadas pelos Chasquis. O único registo físico portátil de informação existente era o quipu, um sistema de cordéis e nós destinado a registos numéricos.

Quando lhes era transmitida uma mensagem, tinham de correr grandes distâncias, o que significava um esforço muito violento. Para contraria os efeitos desse esforço, mascavam folhas de coca que, misturada com uma cinza (de composição desconhecida), potenciava a resistência e imunidade à dor. Quando chegavam a um tambo, transmitiam a sua mensagem a um dos Chasqui que aí se encontravam que continuava a corrida, enquanto que o Chasqui acabado de chegar poderia aqui ficar a descansar, até chegar a sua vez de revezar o próximo mensageiro.

Saíndo do Tambo, o nosso guia Toni chamou-nos a atenção para algo importantíssimo: -"A partir daqui, o trilho é praticamente original. Nunca foi restaurado". De facto a diferença era notória. 

Retomámos a subida pela escadaria irregular e, pouco depois, chegámos à passagem de Runkurakay, o segundo ponto mais alto da caminhada a 3950m de altitude. Aí, vários montinhos de pedras enfeitavam o local. O seu significado é muito profundo e revelador do respeito que os actuais andinos, no contexto do sincretismo religioso herdado dos tempos da colonização, têm pelos deuses da montanha, pois trata-se de oferendas simbólicas, pedindo bênção e passagem segura.  




Subida para a passagem de Runkurakay, o 2º ponto mais alto da nossa caminhada. As escadas precisam de alguma manutenção mas estão apesar de tudo num admirável estado de conservação. É o que distingue as construções dos Incas das construções dos Inca-pazes, referência popular às reconstruções de fraca qualidade.




Algumas pedras amontadas sobre um altar. Estas pedras eram oferendas rituais às montanhas, adoradas como divindades. Os caminheiros tinham de trazer uma pedra consigo desde a base da montanha para aqui deixar, aquando da sua passagem.





Saída do túnel Inca após a passagem de Runkurakay. Esperava-nos um intenso nevoeiro.


A caminhada continuou com a passagem por um túnel, escavado por aproveitamento de uma falha natural da rocha durante a construção da estrada. À saída deste, revelou-se outro vale nublado, no qual era possível verificar o regresso da floresta, agora ainda mais densa. Estávamos a entrar no domínio da "floresta das nuvens", a floresta que se desenvolve em altitudes elevadas com muita humidade. Fomos descendo sem grande visibilidade até que, de repente, uma abertura do nevoeiro revelou-nos as espectaculares ruínas de Sayaqmarca, a nossa próxima paragem.



Sayaqmarca, um prodígio de engenharia

Embora ainda se discuta o propósito deste local, a teoria mais aceite aponta Sayaqmarca como um importante santuário no caminho para a cidade sagrada de Machu Picchu, onde os viajantes podiam parar para prestar homenagem às divindades e descansar. Acessível apenas por uma estreita escadaria, junto ao precipício, este local faz jus ao seu nome de "local (ou povoação) inacessível" e terá sido construído na primeira metade do século XV. 

Já agora, ainda não o tinha referido nos artigos anteriores mas a esmagadora maioria dos locais arqueológicos incas (senão mesmo todos) foram baptizados muito recentemente. Não havendo sistema de escrita para registar a sua memória e tendo sido sujeitos à devastação e política de reescrita da História pelos invasores espanhóis, o nome original dos locais perdeu-se. À medida que iam sendo redescobertos, os exploradores e investigadores iam-nos baptizando, de forma politicamente correcta, com nomes em língua nativa quechua, incluindo Machu Picchu. 




Sayaqmarca (do quechua "Sayaq"=inacessível" + "marca"=local, povoação") numa localização que faz jus ao seu nome. Passar por aquela escadaria de acesso foi um verdadeiro desafio. Mais abaixo vê-se a continuação do trilho, por onde iríamos passar.


Sayaqmarca é um prodígio de engenharia. Na encosta, os socalcos não se destinavam apenas à agricultura pois também serviam para garantir a estabilidade das casas e templos da parte superior. Quanto ao fornecimento de água, este era assegurado por um aqueducto que trazia a água desde uma nascente, na zona mais alta da montanha, através de canalização subterrânea (uma constante na engenharia Inca, segundo dizem para evitar envenenamento da água). A água entrava em Sayaqmarca pela parte mais alta, circulando em seguida por todo o complexo até terminar nos banhos cerimoniais da zona mais baixa. Na zona mais alta, situava-se o templo mais importante de Sayaqmarca, possivelmente dedicado ao Sol. 

O único senão da visita foi mesmo o nevoeiro que nos impediu de ver a vista que deve ser impressionante.





Entre os vários muros, um elemento destaca-se em primeiro plano. Trata-se do equivalente Inca das nossas bolhas de nível, utilizado para assegurar a horizontalidade das construções.


De Sayaqmarca conseguimos ainda assim avistar outro local arqueológico pelo qual iríamos pouco depois passar: tratava-se de Conchamarka, outro Tambo já em plena floresta. É difícil descrever a beleza do local à qual as fotos não fazem a mínima justiça. Recordo-me sobretudo do assombro que tomou conta de nós e que nos fez caminhar bem devagar por aquela calçada.


Conchamarka (do quechua "panela"), mais um Tambo na estrada Inca para Machu Picchu.



Passagem por Conchamarka. Simplesmente fantástico!


Pouco depois de Conchamarka, chegámos ao acampamento de Chaquicocha, onde iríamos passar a noite. Este acampamento estava bastante concorrido, ao contrário dos anteriores mas, fruto da corrida generosa dos nossos carregadores, iríamos ficar num local mais sossegado.

Depois de mais um excelente jantar, mais uma vez o sentido de humor de Toni foi protagonista, sobretudo quando teceu algumas considerações pouco abonatórias sobre chilenos. Um ressentimento que, segundo diz, teve origem numa guerra travada entre peruanos e chilenos, que os primeiros quase venceram, acabando no entanto por "ficar em segundo lugar".

Com o cansaço a fazer-se finalmente sentir, foi tempo de ir dormir para atacar no dia seguinte a mais bela secção do Caminho Inca.



O acampamento de Chaquicocha, imerso em nevoeiro a 3500m de altitude.

Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4



A seguir:

Flores, ruínas e vertigens!

quarta-feira, outubro 14, 2015

Caminho Inca, Parte 4 - Do tesouro de Chinchero ao ouro branco de Maras

À medida que o dia do início da caminhada pelo trilho inca até Machu Picchu se aproximava, a ansiedade ia crescendo mas íamos aproveitando o tempo disponível da melhor forma. Depois da visita ao Vale Sagrado dos Incas no ter aberto o apetite, regressámos a Chinchero e descobrimos dois locais espectaculares que mudaram radicalmente a nossa visão do Império Inca.

Ainda entusiasmados com tudo o que tínhamos visto na recente visita ao Vale Sagrado, decidimos ir explorar o planalto de Chinchero com dois destinos bem definidos em mente: Moray e Maras. Logo pela manhãzinha, saímos de Cusco conduzidos pelos Sr. Jesus, uma pessoa extremamente simpática e com uma bagagem de conhecimento exemplar que não se cansou de partilhar connosco.

A saída de Cusco fez-se por uma zona mais pobre, que já conhecíamos do regresso da viagem pelo Vale Sagrado no dia anterior. As casas amontoadas, parecendo favelas, as ruas em terra batida e o muito lixo que se acumulava aqui e ali, formavam um cenário deprimente. Segundo a nossa guia, era uma consequência do súbito e incontrolado afluxo de pessoas que procuravam fugir, não só da pobreza da zona rural, como também da insegurança provocada pela organização terrorista Sendero Luminoso, que nas zonas mais remotas do Peru continua teimosamente a existir.


Ao cenário já por si caótico do bairro pobre junta-se o caótico trânsito peruano que pode ser descrito em duas palavras: tangentes e buzinadelas.


O colorido tesouro de Chinchero

A nossa primeira paragem foi em Chinchero. Ao contrário do dia anterior, onde pouco tínhamos visto, descobrimos desta feita algo que nos tinha então passado ao lado: a actividade têxtil tradicional que as artesãs desta comunidade mantêm bem viva na forma de associações locais. Logo à entrada de um dos vários centros de produção, fomos recebidos por um simpático grupo de alpacas, camelídeos muito parecidos com os lamas mas mais dóceis, mais pequenos e com uma lã muito mais suave e, por isso, muito apreciada. A diferença reflecte-se bem no preço das peças!


Um bicho com mais simpatia que bom gosto, a crer pelo penteado.

Fomos em seguida convidados a sentar sob um dos telheiros de colmo onde uma das senhoras nos serviu um chá de folha de coca acabado de fazer (e que até soube bem dado que estava assim para o frescote) e, enquanto bebericávamos esse chá, assistimos a uma pormenorizada explicação sobre o processo de fabrico artesanal dos tecidos andinos.

Sendo já claro que provinha de lamas, alpacas e ovelhas, ficámos a conhecer os processos de corte, lavagem, com "champô inca" que, segundo ela, -"Deixa a lã bem branquinha e mantém o cabelo das senhoras sempre preto." e, finalmente, a fiação. 

Já em fio, a lã pode ser tingida com várias cores, a maior parte de origem vegetal, havendo ainda outras de origem mineral e... até animal. A cor vermelha, por exemplo, é obtida a partir da cochonilha, o pequeno insecto parasita que não serve só para tingir tecidos. Também é usado como corante alimentar (quando encontrarem um tal de aditivo "E120" no rótulo de um alimento, já sabem do que se trata) e até como corante para cosmética, como aliás a Jessica fez questão de demonstrar, esmagando um pequeno grupo de cochonilhas e passando o resultado pelos lábios. -"Por aqui é um batom bem barato e fácil de obter. Dura 24 horas ou 100 beijos!", disse-nos, provocando uma risada geral.  


Para tingir a lã é necessário que esta ferva durante algum tempo numa infusão do corante que lhe dá o tom desejado. Após a secagem, a cor torna-se permanente, por muito que a lã seja lavada.


Concluído o processo, os fios são ordenados já tendo em mente o padrão de cores que se vai dar ao tecido, usando-se para isso duas estacas cravadas no chão. Daí sai directamente para o tear, um bem diferente daqueles a que estamos habituados, visto que uma das extremidades do tear é amarrada a um poste ou uma árvore enquanto a outra é amarrada à cintura da própria tecedeira. O resultado final é um tecido colorido com padrões diversos, cujo conhecimento é transmitido oralmente de geração em geração, simbolizando sempre algo relacionado com o universo andino, material ou não.



Preparação dos fios antes da passagem ao tear.



O tear típico, bem diferente dos nossos. os padrões são obtidos intercalado os fios do conjunto, conjugando devidamente a posição das ripas de madeira. Para evitar que os fios fiquem embaraçados, usa-se um osso pontiagudo, normalmente de lama. -"Este é de um turista que não nos quis comprar nada." atirou a Jessica com ar grave.



Na explicação pormenorizada dos padrões de uma peça que acabámos por comprar (nem poderia ser de outra forma, dado o amor que temos ao nosso esqueleto), descobrimos condores, lamas, garras de puma entre outros. 


Moray, um sofisticado laboratório de investigação agrícola


Pouco depois de termos saído de Chinchero com destino a Moray, trocámos a estrada de alcatrão por uma de terra batida que percorre o planalto à vista dos montes nevados envolventes. O sítio de Moray não se avista senão de perto, dado que foi construído aproveitando algumas depressões naturais do terreno. Isso faz com que o impacto visual do sítio seja bastante forte, mesmo que saibamos o que vamos ali ver. A dimensão e organização dos vários socalcos em círculos concêntricos, num total de quatro grupos, um maior e três mais pequenos, é impressionante!

Mas pare que servia afinal este local? A hipótese mais comummente aceite é que se tratava de um laboratório agrícola, destinado a testar a adaptabilidade das várias espécies cultivadas a diferentes climas e altitudes, permitindo seleccionar as melhores sementes para as diferentes zonas do Vale Sagrado. Esta tese apoia-se em parte na diferença de temperatura que é possível registar entre socalcos do mesmo grupo.

Nestes socalcos foi construído um elaborado sistema de irrigação, cujos canais chegavam a todas as plataformas de cultivo, sem excepção.


O impacto visual do sítio é tremendo! Ampliando a foto (com um clique) é possível ver algumas pessoas junto aos socalcos, o que dá uma noção da escala.


Quanto à drenagem, o próprio solo já por si era bastante poroso, o que facilitava o processo. Ainda assim, os Incas aplicaram aqui o sistema habitual de construção dos socalcos com camadas de diferentes tipos de solos. As primeiras camadas eram de materiais que facilitavam a drenagem (pedra e areão) e sobre estas era colocado o solo fértil para cultivo.



Outra perspectiva do maior grupo de socalcos, com vista das montanhas para lá do Vale Sagrado.


O ouro branco de Maras

Deixando Moray para trás, seguimos viagem rumo a Maras, para visitar um local cuja importância sobreviveu ao passar dos séculos sendo ainda hoje fundamental para a economia local. Trata-se das Salinas de Maras, um local de extracção de sal por evaporação da água, a mais de 3.000 m de altitude!



Depois de passarmos pela pequena comunidade de Maras, chegámos à vista das Salinas por uma estrada estreita e com dois sentidos de circulação, sem qualquer barreira de protecção que nos separasse da ravina, o que fez com que alguns dos passageiros soltassem algumas expressões de inquietação quando o Sr Jesus tinha de conduzir mais próximo da berma.

As Salinas de Maras, com o Vale Sagrado em segundo plano

As Salinas de Maras funcionam ininterruptamente há já alguns séculos. Presume-se que o sal já seria aqui explorado antes da chegada dos Incas, que continuaram a actividade mas aperfeiçoando o processo, implementando um sistema de pequenos tanques escalonados. A exploração é sazonal, fazendo-se somente na época seca, de Maio a Novembro. Durante a estação das chuvas, o caudal da água destrói muitos dos tanques, obrigando à sua reconstrução antes do retomar dos trabalhos na época seguinte. 

É interessante constatar que todo este conjunto é alimentado por um pequeno curso de água que brota na zona mais alta do vale e que depois percorre o intrincado sistema de canaletas entre os tanques de extracção de sal, sendo redireccionado conforme as necessidades. A salinidade desta água resulta do contacto de um lençol freático com um depósito salino subterrâneo, gerado pelo aprisionamento de grandes quantidades de água do mar durante o processo de formação das montanhas, há cerca de 110 milhões de anos atrás. 


A nascente do curso de água que alimenta as Salinas de Maras. Na foto percebe-se bem seu o teor de sal, que quase provoca hipertensão só de olharmos para ela.

Às famílias de Maras cabe ainda hoje a responsabilidade de explorar o sal deste local, o que não quer dizer que um forasteiro não possa também aqui trabalhar. Para tal, tem de pedir autorização à comunidade local que depois decide sobre a concessão ou não de um tanque que esteja livre.

A beleza deste local, com os tons brancos e rosados (resultantes dos vários minerais que a água transporta) que contrastam com o ocre predominante no meio envolvente, é quase hipnótica.



Um trabalhador transporta o sal para o topo do vale.



Momento de pausa, tanto no pequeno abrigo como ao longe, entre montes de sal.



Os canais de circulação de água entre os tanques são aqui bem visíveis.


A postos para o Trilho!

Com as visitas ao Vale Sagrado e aos arredores de Cusco, rapidamente chegámos ao dia da véspera da nossa partida. Como combinado, ao fim da tarde fomos até à sede da agência que tínhamos contratado para nos acompanhar ao longo do trilho, para o briefing prévio.

Tratou-se do primeiro contacto com o grupo e com um dos guias, que nos deu as informações essenciais sobre o percurso e sobre como iriam decorrer as etapas. O primeiro contacto com aqueles que viriam a ser os nossos companheiros permitiu-nos perceber que ali tínhamos todos algo em comum: estávamos ansiosos pelo início da caminhada!



A seguir:


O início do trilho!

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