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quarta-feira, fevereiro 07, 2018

3 semanas e várias ameaças depois, eis a neve!

Depois de ter assistido a várias ameaças, a última das quais no passado Domingo (recordar aqui), desta vez nevou a sério sobre Liège e com reforçada intensidade na área onde trabalho, que fica a pouco menos de 300m de altitude mas, ainda assim, claramente acima da cota da cidade, que se fica por uns modestos 60m.

O habitual trajecto entre a empresa e a paragem onde apanho o autocarro para regressar a Liège fez-se desta vez num cenário radicalmente diferente. Se a zona já é bonita, pelos bosques de bétulas, faias e pinheiros silvestres que rodeia as estradas e as vivendas dispersas, agora com o branco da neve ficou-o ainda mais.

A neve não interrompeu o trânsito mas condicionou-o fortemente, o que tornou a normal meia-hora de viagem numa hora. Partilho aqui alguns dos "bonecos" de ontem registados entre a zona alta do Sart Tilman e o centro de Liège.

Olhando para trás, a EVS estava com este aspecto



A estrada do Parque Científico



Pormenor de um dos bosques



A recta entre o Parque Científico e a Igreja de Sart Tilman



Um caminho que desemboca na estrada



Uma das muitas vivendas que ladeiam o acesso ao Parque Científico



Pormenor de um dos vários jardins



A Igreja do Sart Tilman, um dos cenários de uma encarniçada batalha em 1914.



A Ópera Real da Valónia com a estátua de Grétry, um grande compositor nascido em Liège no século XVIII



Olhando na direcção da Catedral de Liège

terça-feira, fevereiro 06, 2018

O maior e mais antigo mercado da Bélgica

Vista parcial d'O Marché de la Batte

Se queremos conhecer o carácter e a identidade de um local, é indispensável visitar os mercados locais e, no caso de Liège, essa máxima aplica-se - e de que maneira!-. 

Todos os Domingos, entre as 8h00 e as 14h30 na margem esquerda do rio Mosa, realiza-se o "Marché de La Batte", o grande mercado da cidade. Este mercado é o maior e mais antigo de todo o território belga e um dos mais importantes da Europa, tendo começado a ser realizado em 1561.

Estende-se ao longo de cerca de um quilómetro mas articulado em duas vias paralelas, ou seja, se quisermos percorrer todas as barraquinhas, num total de cerca de 350 vendedores fixos e cerca de meia-centena mais de vendedores ocasionais, será necessário caminhar um total de 2km! Estima-se também que seja visitado anualmente por quase 5 milhões de pessoas.

As duas vias paralelas que formam o mercado



Banca de especiarias. Há de tudo um pouco e inclusive oferecem um cartão-cliente que permite usufruir de ofertas e descontos após um determinado volume de compras.



O mercado diante do grande museu Curtius, um dos museus mais emblemáticos da cidade. A oferta museal irá merecer um artigo dedicado.


O mercado sob a neve no último Domingo, aqui junto a uma das pontes sobre o Mosa


Neste mercado encontra-se de tudo um pouco e sem nenhum tipo de organização ou agrupamento em função do tipo de produto, desde alimentos a vestuário, passando por produtos de higiene e beleza, electrónica, livros, produtos de cozinha, aves (de canários a galinhas), roulottes de alimentação asiática ou fast-food, entre outros, por vezes numa apresentação que, não deixando de ter excelente aspecto, provocaria arrepios a alguns membros mais púdicos da nossa ASAE. Também é curioso ver o nível de requinte de alguns pontos de venda, nomeadamente de queijo, carne ou peixe, que têm um sistema de senhas para atendimento por ordem de chegada.

Apesar de pela cidade existirem muitas lojas de venda de legumes e fruta, vir a este mercado já faz parte da minha rotina, dado que por pouco mais de 10€ consigo mantimentos suficientes para uma semana. O percurso começa sempre com uma paragem na mini-banca que vende o melhor e mais barato café de Liège, apenas 0,90€, e termina, já com as compras feitas, com uma passagem por uma das barraquinhas de alimentação para comer algo à vista do Mosa e das suas pontes. Só é preciso ter cuidado com alguma pomba ou gaivota mais atrevida.

A melhor banca de todas! Café expresso a 0,90€!



Uma das muitas bancas de frutas e legumes



Outra banca de frutas e legumes que permite levar 3 sacos à escolha por apenas 5€. O senhor do gorro mostrou toda a sua capacidade de cativar o público ao pôr as crianças todas a entoar o seu pregão.


Facto digno de registo: quando o mercado chega ao fim e os feirantes partem, pouco ou nenhum lixo fica espalhado, bem pelo contrário. Fica tudo devidamente acondicionado em sacos que depois são recolhidos pelos serviços de limpeza. Um bom exemplo a ser seguido.


Flores de mimosa a bom preço!

Para mim foi a banca que mais me chamou a atenção, por aquilo que a planta representa em Portugal. Nela, uma senhora equipada a condizer, vendia ramos de flores de mimosa e produtos de higiene e beleza com extracto de mimosa. Não resisti à curiosidade e perguntei quanto custavam os ramos de flores: grandes a 5€ e pequenos a 3€. Para quem quiser cultivar a planta, também estavam à venda em pequenos vasos.



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Primeiras impressões de Liège

Praça de São Lamberto, o local onde nasceu a cidade de Liège e que hoje é dominado pelo palácio dos príncipes-bispos. No canto inferior direito é possível ver o memorial das vítimas do atentado de 13 de Dezembro de 2011 durante o mercado de Natal.


A primeira semana em Liège foi algo estranha já que durante esse tempo nunca consegui ver a cidade durante o dia. O facto de trabalhar a mais de 7km do centro de Liège e de começar às 8h30, obrigava-me a apanhar um autocarro por volta das 7h40, antes do nascer do Sol, regressando já depois do pôr-do-Sol. Entretanto, 4 semanas depois, a luz do dia já dura mais uma hora do que há 3 semanas atrás, e a diferença começa a fazer-se sentir de forma notória.

Foi preciso, na sequência do que disse atrás, esperar pelo fim-de-semana seguinte para poder explorar a cidade à luz do dia e aprender algo sobre ela. A primeira constatação desse fim-de-semana foi que o café é em geral vendido a um preço bem puxadinho. Felizmente, andando pelas ruas deu para perceber que nem tudo é mau na cidade e as pessoas até gostam de comunicar. As primeiras frases que me foram dirigidas pelos transeuntes foram, por esta ordem, "Desculpe, tem uns trocos que me possa dispensar?", "Não tens por aí uma mortalha a mais?" e "Desculpe incomodar mas percebe alguma coisa de rum? Tenho de comprar uma garrafa mas não sei qual será o melhor."



Organização da cidade

Apesar da sua história milenar, não sobra muita coisa dos primeiros tempos da cidade e, no centro histórico, quase todos os edifícios são posteriores ao século XVI. Isto é fruto de uma história tumultuosa ao longo da qual a cidade foi destruída várias vezes, a última das quais durante a II Guerra Mundial. Sobre isto falarei em próximos artigos.

Sendo banhada pelo rio Mosa (Meuse em francês e Maas em holandês) a cidade deve muito daquilo que é hoje ao rio. A própria organização urbana da cidade foi definida pelo Mosa. Se recuarmos até aos primórdios da Idade Média, a zona à volta do núcleo onde se desenvolveu a cidade ainda era uma área pantanosa onde se espraiavam vários braços do rio. Muitas das ruas da actual Liège seguem escrupulosamente o curso de alguns desses braços que, ao longo dos séculos, foram sendo aterrados e transformados em vias de circulação terrestre.

Comparação entre um mapa da área de Liège no final da presença romana exposto no museu Curtius e o mapa actual de Liège via Google Maps

À volta do centro histórico de Liège, desenvolvem-se bairros com diferentes identidades. Os mais característicos serão provavelmente o bairro Hors-Chateau (literalmente, "fora do castelo"), com os seus típicos e bem bonitos becos sem saída, e o bairro de Outremeuse (literalmente "Ultra Mosa", "Além do Mosa") situado na grande ilha no meio do rio e que se intitula a si próprio como República Livre de Outremeuse.

Vista do bairro de Outremeuse, a partir do centro histórico de Liège


Falando novamente do centro de Liège, ao andar pelas ruas, fica-se com a nítida sensação que a cidade está em processo de renovação. Muitas casas devolutas do centro estão a ser recuperadas e vários espaços estão a ser devolvidos à fruição dos cidadãos. Parece que há uma nova cidade a tomar lentamente o lugar antes ocupado por outra menos interessante. Infelizmente, durante a noite é complicado perceber os detalhes arquitectónicos por força da falta de iluminação ou da sua pouca eficácia no que diz respeito ao evidenciar de edifícios mais importantes. 

Não me pareceu apesar de tudo uma cidade insegura, pelo menos nas zonas em que já caminhei. Houve até uma altura em que fiquei bem impressionado quando, ao entrar em áreas de ruas mais estreitas a deambulações tantas, as senhoras que ali estavam àquela hora da noite me dirigiam todas um cordial "Boa noite" pontuado com um sorriso.

Em termos de limpeza, encontra-se pouco ou nenhum lixo pelas ruas. As pessoas parecem respeitar escrupulosamente essa regra básica de civismo e, a ajudar, encontram-se papeleiras e contentores, estes uns cones muito engraçados com as cores da cidade, um pouco por todo o lado. As ruas ficam sim cheias de lixo no dia da recolha semanal de lixo doméstico. Então as pessoas deixam os seus sacos à porta, amarelos para lixo indistinto e azuis para garrafas de plástico, embalagens tipo PET e embalagens metálicas. Cada zona tem o seu próprio dia para recolha e os sacos, com o símbolo da cidade vendem-se em qualquer supermercado, sendo que para os cidadãos residentes em Liège são gratuitos.



Falando das lojas, os horários também se estranham ao início. No que diz respeito ao comércio dito "tradicional", a abertura é em geral entre as 8h00 e as 8h30 da manhã e o fecho entre as 18h00 e as 18h30. Só os supermercados do tipo "Carrefour Express" se mantêm abertos até às 20h00, e destes há às dezenas. Para lá disso, é sempre possível recorrer às lojas de conveniência geridas por asiáticos que, essas, fecham muito mais tarde. Ao Domingo, as lojas abrem embora num horário mais reduzido mas, nesse dia, vale mesmo a pena fazer compras no grande mercado junto ao rio mas sobre ele publicarei um artigo em breve. Bem o merece.

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Chegada a Liège

De repente, eis-me em Liège! Trata-se de uma mudança de vida radical, na sequência de uma proposta de emprego tremendamente aliciante, tanto pelo desafio técnico que representa, como pela remuneração oferecida (que também é um aspecto mais ou menos importante). Certo é que não é todos os dias que se tem a hipótese de trabalhar para um gigante que, por exemplo, está na base das transmissões televisivas dos maiores eventos desportivos a nível mundial, desde Liga dos Campeões aos Jogos Olímpicos.






Não deixou, no entanto, de ser difícil deixar para trás a família e os amigos. Felizmente, a possibilidade de viajar com frequência a Portugal permite mitigar as saudades e também dessa forma, aliado ao facto de estes contarem com uma equipa muito sólida que torna quase insignificante a distância a que me encontro, continuar a dirigir os Caminheiros da Gardunha e participar nas suas actividades.


 Liège, Valónia e o Reino da Bélgica 




A minha primeira imagem de Liège: a estação ferroviária Liège-Guillemins, um projecto da autoria de Santiago Calatrava, arquitecto que projectou também a "nossa" Gare do Oriente


Liège é a capital económica não oficial da Valónia, uma das 3 regiões belgas federadas que compõem a Bélgica, quero dizer, o Reino da Bélgica. As outras duas são a Flandres ou região Flamenga e, mais ou menos encravada entre as anteriores, a região de Bruxelas. De forma simplista podemos dizer que a Bélgica se divide entre os que falam holandês a Norte, os que falam francês a Sul e os tipos que são de Bruxelas, mas em rigor não é bem assim. Se na Valónia predomina o francês, também o alemão é língua oficial, como reflexo da presença da comunidade germanófona da faixa oriental da região.

A Bélgica tem algumas particularidades na sua organização, e não me refiro ao facto notável e já comprovado de conseguirem sobreviver e funcionar sem Governo, como aconteceu durante 541 dias entre 2010 e 2011, batendo o seu próprio recorde anterior de 194 dias, apenas 3 anos antes, facto pelo qual já tive ocasião de felicitar alguns belgas. Não. Refiro-me à organização administrativa plasmada na Constituição que, para além das 3 regiões, define também a existência de 3 comunidades no conjunto do território: a francesa, a flamenga e a germanófona, comunidades essas com fronteiras que não coincidem com as das regiões.

Voltando à Valónia, Liège é a segunda maior cidade da região, apenas um pouco atrás de Namur, que é a capital e tem pouco mais de 200.000 habitantes. É interessante ver que apesar de a Valónia ter uma área superior à da Flandres, esta última bate de longe os vizinhos do Sul em termos de habitantes: quase o dobro! Estamos a falar de mais de 6 milhões de pessoas a falar holandês e estes números não são como os dos 6 milhões de benfiquistas em Portugal. São mesmo a sério.  

Liège é uma cidade muito peculiar em termos históricos, arquitectónicos, nos costumes e na própria organização da cidade. Tudo isto é o resultado de Liège e a sua província, estarem entalados em pleno caminho entre Paris e Berlim, o que historicamente não foi sempre necessariamente bom, e de Liège ter sido a capital de um principado independente durante mais de 800 anos.

Será sobre estes temas, e com base na minha experiência diária na cidade, que irei desenvolver os próximos artigos.


Uma rua do centro histórico da cidade

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