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domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



terça-feira, agosto 25, 2015

Postais de Viana do Castelo - Sra d'Agonia 2015

Houve chuva e vento e até ameaça de tourada mas nem isso conseguiu evitar que a Romaria da Sra d'Agonia voltasse a encher a cidade de Viana do Castelo com música, cor, animação e (muita!) gente para celebrar as tradições únicas desta região. Embora este ano não tenhamos podido participar na procissão ao mar como no ano passado (recordar aqui), foi extremamente gratificante rever família e amigos e esticar as pernas entre o a cidade e o monte de Santa Luzia.

Aqui ficam alguns registos desses dois dias:


Junto ao santuário do Sagrado Coração de Jesus, no monte de Santa Luzia, os fotógrafos "do antigamente" continuam a marcar presença. 


Pode não parecer, pelo manto de nevoeiro que coroava o santuário, mas estamos em Agosto. Por estes lados há um ditado que diz que "quando Santa Luzia tem touca (o nevoeiro) vem água e não é pouca". Cumpriu-se.


Na Praça da República, a azáfama era grande. Balões, brinquedos, cadeiras, tudo se vende durante as festas. Foi fascinante ver também a capacidade de adaptação do negócio quando, às primeiras gotas de uma grande chuvada, uma bancada deste género deu em pouco menos de 5 minutos lugar a um belo mostruário de guarda-chuvas. Quando no Domingo as nuvens ainda só ameaçavam, um comerciante passou por nós e, porque o negócio dos guarda-chuvas não corria muito bem, soltou uma praga: "Havia de chover que era para aprenderem". A "touca" de santa Luzia não falha, principalmente se tiver uma praga de cigano a ajudar. 




Um dos ex-libris da romaria é a Revista de Gigantones e Cabeçudos na qual, secundados pelo vários grupos de "Zés Pereiras", estas figuras se passeiam pela Praça da República, dançando ao som dos bombos.



Com a chegada dos Gigantones e Cabeçudos, terminou a actuação da Banda Clube Pardilhoense sob a direcção sempre enérgica do maestro Martinho.



A praça da República sempre cheia para assistir à Revista dos Gigantones e Cabeçudos.



À noite, todos os lugares eram bons para assistir ao desfile de Zés Pereiras, ranchos folclóricos e demais grupos que animaram a festa ao longo dos vários dias, entre a estação de caminhos-de-ferro e o jardim da marginal.



Viana é isto.


quinta-feira, agosto 21, 2014

A Procissão ao Mar - Viana do Castelo

A Romaria da Senhora da Agonia já começou! Sendo uma romaria com raízes nas tradições piscatórias da região, tendo começado a ser celebrada a partir do século XVIII, é pois natural que um dos seus momentos altos seja mesmo a Procissão ao Mar, uma procissão na qual os andores são transportados em barcos até ao mar e depois pelo estuário do Lima para finalmente, já novamente em terra, percorrerem as ruas da zona ribeirinha de Viana do Castelo sobre os tapetes de sal construídos durante a noite anterior.


Os espectadores vão-se aglomerando ao longo das margens e pelas praias da foz do Rio Lima.



À hora marcada, enquanto decorre a missa, as embarcações vão-se concentrando à saída do porto de pesca. A estátua que simboliza Viana, junto ao forte de Santiago da Barra (século XVI), parece indicar o caminho que vai ser seguido.


Também a zona à volta do Forte de Santiago se vai enchendo de espectadores para assistir à saída da procissão enquanto vão sendo lançados foguetes assinalando os momentos determinantes como o carregar dos andores para as respectivas embarcações. Na foto avista-se a Torre da Roqueta, a primeira fortificação a ser construída neste local e mais tarde incorporada no novo Forte construído no reinado de D.Sebastião e ampliado durante o domínio filipino. Mais atrás avista-se a torre sineira da Igreja de São Domingos.



Mais e mais embarcações vão chegando, algumas bem carregadas como se pode ver nesta foto...



...e também nesta, junto à torre de vigia na entrada do porto de pesca.



Nem só de barcos de pesca e de recreio se faz a procissão.



À medida que o tempo vai passando, os barcos continuam a chegar.



Alguns aproveitam para acostar e promover um animado convívio.



Finalmente, os barcos mais importantes começam a sair do porto. O esmero com que são decorados diz bem do orgulho que a população tem nas suas tradições, e são símbolos da sua própria identidade.



Atrás do primeiro barco, que geralmente transporta as "figuras" da região, seguem as embarcações com os andores que por norma são 4, todos eles de santos ligados à tradição vianense do mar: Senhora de Monserrate, Senhora dos Mares, São Pedro e Senhora da Agonia. Este ano, excepcionalmente e por ocasião do 500º aniversário do seu nascimento, foi incluída a figura de Frei Bartolomeu dos Mártires.



A figura da Senhora da Agonia é sempre a última a sair.



Mal as embarcações que transportam as imagens acabam de passar, são imediatamente seguidas pelas restantes em direcção ao mar. Algumas têm decorações que aludem a um outro tipo de "religião", por assim dizer.



Rumo ao mar! Aparentemente o número de passageiros por embarcação é controlado pelas autoridades. Segundo ouvi, quando os barcos estavam prestes a sair e se abria o acesso às pessoas, havia quem se atirasse para garantir um lugar na procissão, colocando em risco a estabilidade das embarcações pelo elevado número de passageiros.



A procissão segue rumo ao mar, onde um rebocador age como ponto de referência a ser contornado para inflectir rumo ao rio Lima.



Não há icebergues no caminho mas é sempre necessária muita concentração por parte dos pilotos para evitar colisões com outros barcos.



Um dos dois rebocadores da procissão.



A maior ondulação provocada pelo vento diminui quando se entra no Lima.



A falta de um barco a motor não é desculpa para a não participação. Não havendo motor, rema-se! Seja de pé...


...ou sentado.



A visão mais impressionante do porto comercial na entrada do Lima, a corveta NRP Afonso Cerqueira que se fez ouvir à passagem da procissão. Os tripulantes vieram todos à amurada registar o momento para a posteridade.



A ponte Eiffel marcou para nós o fim da procissão. Lançando âncora, aproveitámos para fazer uma simpática merenda ali mesmo no meio do rio Lima.



Para a posteridade fica o registo da tripulação do nosso iate que competiu mano-a-mano com outros iates, catamarãs, traineiras e rebocadores graças ao seu poderoso motor de 8 cavalos pilotado com mestria pelo Capitão Cadilha. Vê-se também quem mais, para além de mim, leva a sério as questões de segurança, apesar de ninguém ter feito a indispensável demonstração inicial das práticas a seguir em caso de emergência.

terça-feira, agosto 19, 2014

Porque hoje é o dia mundial da fotografia...

...decidi ir fazer o gosto ao dedo esta manhã pelas ruas de Viana do Castelo, juntando ao resultado um ou outro apontamento registado nos últimos dias pelas redondezas. Aqui estão os "bonecos".


Passagem pedonal do Viaduto de Santo António



Antigo mosteiro de Santa Ana (século XVI), adaptado a edifício da Congregação da Caridade após a morte da última freira em 1895.


Capela das Malheiras (século XVIII), mandada construir por D. António Malheiro, bispo do Rio de Janeiro.




A antiga Casa da Câmara e o Chafariz (século XVI) , dois dos elementos dominantes da Praça da República, outrora Campo do Forno, ambos construídos diante da Porta de Santiago das desaparecidas muralhas de Viana do Castelo.



Embora as instalações já mostrem pouco do esplendor de outrora, Mercúrio continua a cumprir com determinação a sua missão de vigiar a rua.


Rosácea entre as flores. A Catedral de Viana do Castelo, construída a partir do século XIV, é a sede da mais recente diocese portuguesa (1977).



Carranca na fachada da Casa dos Arcos ou Casa de João Velho, homem que distinguiu militarmente na Guiné durante o século XV. Nesta casa terá pernoitado o rei D. Manuel I na sua peregrinação a Santiago de Compostela. 



Sim, um cogumelo! Clathus archeri.




Moinho de rodízio junto à ribeira de Portuzelo




A chaminé de uma fábrica abandonada e a vegetação em luta pelas alturas.

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