quinta-feira, janeiro 05, 2017

Da palavra do ano aos perigosos muçulmanos, passando pelas caneladas do Pepe

"Geringonça" foi eleita a palavra do ano, numa iniciativa que a Porto Editora tem vindo a promover desde 2009 e que põe a votação um conjunto de palavras, supostamente mais usadas e recolhidas pela análise de frequência e distribuição de uso, inclusive nas pesquisas nos dicionários desta editora. Portanto, em vez de meterem também a palavra "ignorância" na lista, metem palavras de que muita gente desconhecia o significado. 

Conhecida a votação, há que dar mérito a Paulo Portas, conselheiro da Mota Engil, que no queixume do seu apeamento do poder deu visibilidade à palavra vencedora. Paulo Portas parece aliás ter o dom de fornecer palavras à Porto Editora já que, no concurso de 2013, "Irrevogável" foi uma das palavras a concurso. 

Olhando para a lista de palavras deste ano, fico surpreendido por ver "racismo" num modesto 7º lugar e por não ver "xenofobia", "terrorismo" ou "refugiado" na lista, dado que 2016 foi um ano de muita discussão à volta da questão dos refugiados e da automática e persistente conotação com o terrorismo que lhes foi feita. E que dizer da vitória de Donald Trump nas Presidenciais dos EUA, que fez da xenofobia um dos pilares da sua campanha? De repente todos os muçulmanos passaram a terroristas. 

Sempre que oiço comentários de rotulagem automática de terrorista ou, a outra tese de sanguessugas sociais, a tudo o que é muçulmano, só por se atrever a ser muçulmano e estar fora do seu país de origem, recordo-me sempre de um episódio que vivi há alguns anos.


Torcer pela vitória de Portugal, em nome de Alá

Estávamos em Junho de 2010, com o campeonato do Mundo de futebol a decorrer na África do Sul ao som das vuvuzelas. Portugal estava a poucos dias de disputar com o Brasil um jogo que decidia o apuramento para os oitavos de final da prova.

Na altura, tive de me deslocar a Castelo Branco, para uma intervenção nas instalações de um cliente da empresa onde eu então trabalhava. Como ainda tinha algum tempo, parei na área de serviço de Castelo Branco para beber um café, já que ainda não tinha atingido a quota normal de cafeína para aquela hora do dia. Enquanto bebia o café, aproveitei para ir assistindo ao resumo dos últimos jogos do Mundial que nesse momento passavam na televisão.

Foi nessa altura que entraram na cafetaria alguns indivíduos de tez mais escura, o mais velho com turbante e barba comprida. Precisamente este último quedou-se junto a mim, também a assistir ao resumo dos jogos. O futebol tem muito de irracional mas consegue ao mesmo tempo ser uma ponte entre pessoas e foi precisamente isso que aconteceu.

A dada altura o homem virou-se para mim e, num português rudimentar mas esforçado, afirmou: -"O jogo de Portugal com o Brasil vai ser um grande jogo. Quero que Portugal ganhe e vou rezar para que isso aconteça." e colocando as mãos em jeito de súplica aos céus, rematou com -"Insha'Allah!" ("se Deus/Alá quiser"). Esta interpelação acabou por ser o mote para uma breve conversa sobre futebol. 

Depois de algumas considerações mais, fiquei curioso e quis saber um pouco sobre a sua vida, de onde viera e em que trabalhava. Fiquei a saber que era paquistanês, - muçulmano, pois claro!- e que, ele e os seus filhos, tinham vindo para Portugal para trabalhar como operários de construção civil porque a vida no Paquistão era muito difícil. Perguntei-lhe estava a gostar de Portugal e há quanto tempo tinha chegado ao nosso país, ao que me respondeu afirmativamente e que chegara havia já dois anos.

Respondi-lhe de forma ligeira -"Dois anos? Então já é português!"

Instantaneamente, seu rosto abriu-se num largo e radiante sorriso e, dando-me leves mas sentidas palmadas nas costas, limitou-se a repetir -"Obrigado. Obrigado. Muito obrigado" enquanto me fitava com emoção no olhar. Pouco mais disse, limitando-se a ficar ao meu lado em silêncio, ambos olhando para a televisão. Terminei o café e despedimos-nos, desejando mutuamente felicidades.

Alguns dias mais tarde, Portugal e Brasil empataram a zero. Foi um jogo sem grande história mas que aumentou em muito as despesas da comitiva brasileira em produtos farmacêuticos, tal deve ter sido a quantidade de Hirudoid necessária para tratar das recordações, deixadas com afinco pelo Pepe, nas canelas dos nossos irmãos de além-Atlântico. Ambos os países se apuraram, felizmente.

Escusado será dizer que no fim do jogo me lembrei do Hassan, o paquistanês que viera para Portugal em busca de trabalho e de uma vida melhor, para quem ser chamado de português era um motivo de imensa satisfação.

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