terça-feira, novembro 24, 2015

De Lima a Caral, a mais antiga cidade do continente americano

Deixando Cusco e Machu Picchu para trás, voámos até Lima, a segunda maior cidade da América do Sul. Tendo explorado uma ínfima parte da capital peruana, decidimos viajar 200km para Norte, ao longo do deserto peruano, até às ruínas da mais antiga cidade de todo o continente americano, uma viagem inesquecível e -claro está!- cheia de peripécias. Vale a pena ler!

Adeus Cusco!


A despedida de Cusco foi um pouco triste. Afinal, a "Ciudad Imperial" ficaria para sempre ligada à aventura da caminhada até Machu Picchu (recordar aqui) e, para além disso, tínhamos ali tido verdadeiras aulas vivas de História, descobrindo o legado dos Incas na cidade e nos seus arredores.

Após uma rápida viagem de avião desembarcámos em Lima, a gigantesca capital do Peru e que nada tem a ver com Cusco. Desde logo, o céu azul fora substituído por uma camada cinzenta deprimente, mistura de neblina e fumo, e as casas eram a perder de vista. Convém não esquecer que Lima tem mais de 8,5 milhões de habitantes, praticamente um terço da população do Peru!

Enquanto viajávamos de táxi a caminho do nosso hotel de Miraflores, o distrito mais seguro da capital, aproveitámos para apreciar toda a confusão de pessoas e veículos à nossa volta, assim como a grande preocupação com segurança em todas as casas, bem visível nos seus gradeamentos e cercas electrificadas.

Em Miraflores, abundam os carros de grande cilindrada e são muitas as casas com porteiro. Como disse, apesar do que acontece em outros distritos de Lima, em Miraflores andámos sempre à vontade, mesmo à noite. É um distrito muito turístico, cheio de lojas e restaurantes e onde se encontra o centro comercial da moda: o Larcomar, construído numa falésia com uma vista espectacular para o Pacífico.

Sem nada previamente planeado, decidimos começar a nossa exploração de Lima por um dos monumentos mais relevantes que ficava ali perto: a Huaca Pucllana.



Huaca Pucllana, o santuário dos adoradores do mar


A grande pirâmide de Huaca Pucllana


Este enorme complexo foi construído algures por volta do ano 500 durante o período da cultura "Lima", que dominou este território entre os anos 200 e 700. Trata-se de uma enorme estrutura piramidal, com 7 patamares, junto à qual existiam outras estruturas amplas de uso público. Seria dedicado ao culto da Mama Cocha (o mar) cujo animal mais sagrado seria o tubarão, peixe do qual foram descobertos inúmeros vestígios em Pucllana. Para além de banquetes com alimentos de origem marinha, havia outro tipo de rituais: o quebrar simbólico de enormes peças cerâmicas e o sacrifício humano, principalmente de crianças. Mais tarde, a partir do século IX e com o desaparecimento da cultura Lima, os Wari impuseram-se na região e a pirâmide foi durante 200 anos utilizada como cemitério, até voltar a ser espaço de culto, embora sem a importância de outrora, a partir do século XI.


Os vestígios dos edifícios públicos, vistos a partir da pirâmide. Ao fundo, a actual cidade de Lima

O que mais impressiona é o facto de todo o conjunto ter sido construído com paredes feitas de pequenos tijolos de adobe moldados à mão, os "adobitos", sendo o espaço entre as mesmas preenchido com seixos e entulho. Foi precisamente por causa deste tipo de material de construção que os espanhóis não saquearam o local, permitindo que os arqueólogos encontrassem aqui um riquíssimo espólio.Quando os colonizadores chegaram, os adobitos superficiais tinham-se desagregado e todo o conjunto era agora uma grande colina artificial barrenta e inóspita.


El Cercado de Lima, o Centro Histórico da capital

A Plaza de Armas, o coração do Cercado de Lima, dominada pela grande catedral


No segundo dia, fomos até ao centro histórico de Lima, a antiga capital do vice-reino espanhol do Peru, fundada em  1535 pelo infame conquistador Francisco Pizarro. Uma vez que os táxis e autocarros facilmente ficam retidos nos constantes engarrafamentos de trânsito, optámos pelo "Metropolitano", um autocarro articulado que viaja por uma via reservada, com estações próprias. Foi necessário caminhar um bocado para chegar à estação mais próxima mas justifica-se plenamente o esforço. Apesar de tudo, é pouco para uma cidade desta dimensão.

Já no centro daquilo que se denomina por "Cercado de Lima", fomos até à Plaza de Armas e visitámos a grande catedral de Lima, onde se encontra o túmulo do fundador da cidade, espreitando as catacumbas e a exposição de obras de arte. Espreitámos depois a opulência do palácio arcebispal e tivemos ainda a oportunidade de assistir ao render da guarda diante do palácio presidencial ao som da banda militar que a dada altura tocou "El Condor Pasa".


O túmulo de Pizarro. Ironicamente, no pavimento lê-se a palavra "PAX". Este aventureiro aproveitou a guerra civil que dilacerava o Império Inca para conquistar o "Tawantinsuyu". Atraíndo o imperador Atahualpa para um encontro diplomático, emboscou e capturou o soberano para o obrigar a pagar de um resgate avultado: uma sala cheia de ouro e prata. Conseguido pagamento pela delapidação dos templos e espaços sagrados, Pizarro mandou executar Atahualpa e iniciou a conquista definitiva do Império Inca. A ambição acabou por provocar disputas entre os conquistadores espanhóis vitimando o próprio Pizarro, cuja lista de lesões peri mortem é digna de um tratado de anatomia forense (ver aqui)


Militares de guarda nas traseiras do palácio presidencial. Não sabemos se os cães trajados estão também de guarda ou a ser guardados.



Um autocarro já com alguma rodagem.

O Cerro de San Cristóbal com a sua favela, visto a partir do parque das muralhas


A voltas tantas, já com fome, fomos até ao Barrio Chino onde, apesar da abundante simbologia chinesa, poucos chineses vemos em comparação com nativos peruanos. No entanto, por meia dúzia de euros sai-se de qualquer Chifa, como aqui se chamam os restaurantes chineses, com o estômago a rebentar pelas costuras.

Vídeo:




Terminada a nossa visita com uma caminhada até à Plaza San Martin, decidimos que era hora de regressar a Miraflores, apanhando mais uma vez o Metropolitano, e aí terminámos o dia com um café bebido a admirar o pôr-do-Sol sobre o Oceano Pacífico.


Pôr-do-Sol sobre o oceano Pacífico



Viagem pelo deserto peruano

No último dia completo em Lima decidimos visitar as ruínas da milenar cidade de Caral. Afinal, tratava-se da cidade mais antiga de todo o continente americano e, dadas as circunstâncias, não era assim tão longe. O único problema é que não fazíamos a mínima ideia de como percorrer os 200km que nos separavam de Caral.

Após alguma pesquisa descobrimos onde se situavam as empresas de autocarros que faziam as carreiras para Norte, embora isso implicasse ir até La Victoria, um dos distritos menos seguros de Lima. A ideia era apanhar um autocarro até à vila de Supe, mais a Norte, onde depois procuraríamos encontrar um transporte que nos levasse a Caral.

Primeiro de Metropolitano, depois de táxi e finalmente a pé, acabámos por chegar à garagem da empresa de transportes, a transportes Paramonga (espreitem só o aspecto!). Por sorte, estava prestes a sair um autocarro. Bem velho e sujo mas não podíamos ser esquisitos.


Avenida Luna Pizarro, em La Victoria


Outro "boneco" de La Victoria. Acolhedor q.b.


O mais difícil foi mesmo sair de Lima. O trânsito e a senhora que na paragem do grande terminal Norte não queria deixar o autocarro partir porque irmão que esperava deveria supostamente estar entre os passageiros, não ajudaram nada.

Fora de Lima, circulando pela mítica Pan-americana (a estrada internacional que liga o Alasca ao extremo Sul da Argentina), entrámos no deserto costeiro peruano. À medida que passávamos por pequenos lugarejos perdidos naquela imensidão de areia, era impossível não nos interrogarmos sobre de que viveriam aquelas comunidades. Nas várias paragens (e portagens), entravam vendedores ambulantes no autocarro, tentando vender os seus snacks e bebidas aos passageiros até saírem na paragem seguinte, tudo isto em aparente acordo com os motoristas que não se opunham a este negócio.


O Serpentin Pasamayo, parte da estrada que seguimos na costa peruana


Uma aldeia à beira da estrada.


A cidade de Huacho, a maior cidade entre Lima e Supe


Finalmente, após 4h de viagem e tendo chegado a Supe, saímos do autocarro após um debate com o motorista e vários passageiros sobre qual seria para nós o melhor sítio para nos apearmos. Dirigimos-nos em seguida até uma rua perpendicular à via principal onde apanhámos boleia num carro ligeiro de passageiros de 5 lugares que, com 6 passageiros nos bancos e um miúdo no porta-bagagens, se fez à estrada de terra batida rumo a Caral.



Caral, a mais antiga cidade das Américas


As pirâmides de Caral


Um a um os passageiros foram saindo até ficarmos só nós e o motorista. Após 20km de viagem desde Supe, o carro parou num local ermo junto a um rio que serpenteava entre montanhas rochosas sem qualquer vegetação. Feito o pagamento dos 10 soles, indicou-nos o caminho: -"Atravessem a ponte e caminhem durante 15 minutos naquela direcção", partindo em seguida e deixando-nos sozinhos a olhar para aquelas montanhas despidas.



Nas margens do rio Supe, a caminho de Caral


Encolhemos os ombros e começámos a caminhar. Após a ponte, caminhámos durante algum tempo por um caminho poeirento, tranquilizados por uma placa que indicava que aquele era mesmo o caminho certo.

A pouco e pouco o topo de algumas construções revelou-se no horizonte. Eram as pirâmides de Caral! Chegados ao sítio, ficámos pasmados. Aquela era uma paisagem diferente de tudo o que tínhamos visto até então, toda pintada em tons de castanho. Espalhadas por uma planície que até ali estivera escondida, erguiam-se grandes pirâmides escalonadas assim como vestígios de outras estruturas adjacentes.


Planta da cidade de Caral no primeiro painel detalhado que encontrámos




Duas das sete pirâmides de Caral, na paisagem em tons de castanho


Encaminhámos-nos para o centro de recepção para pagar os bilhetes de entrada e, juntamente com uma pequena família peruana, iniciámos uma visita guiada ao local.

Em Caral sente-se o peso da História, escuta-se a voz distante dos primórdios da civilização. Esta é a cidade mais antiga de todo o continente americano, contemporânea da egípcia Mênfis, a cidade dos faraós, e das cidades da Mesopotâmia, tendo sido construída a partir do ano 3.000 a.C.. Foi um centro religioso de grande importância e também o centro de poder de uma civilização que se impôs na região de forma pacífica. Isso é aliás destacado pelos arqueólogos, que fazem questão de dizer que nos locais escavados até agora não se encontraram estruturas defensivas ou armas.

Ao longo do vale, existem mais 19 núcleos populacionais menores que estariam dependentes de Caral mas o alcance desta civilização era bem maior. Ao longo de uma faixa costeira de mais de 400km foram encontradas estruturas contemporâneas de Caral. A própria cidade estende-se por uma área de 60 hectares!

As pirâmides, sete ao todo, destinavam-se sobretudo a funções religiosas mas não só. Também cumpriam funções políticas e administrativas, embora estas não fossem dissociadas do aspecto religioso. No complexo, vêem-se duas estruturas circulares correspondentes a dois anfiteatros que seriam palco de rituais. Um desses espaços circulares situa-se mesmo em frente à Pirâmide Maior, o edifício mais impressionante de Caral.


 O grande anfiteatro à frente do templo/pirâmide ao qual dá nome


O anfiteatro da Pirâmide Maior


Vista para o rio Supe, o rio que possibilitou a existência da cidade e que ainda hoje é o motor de toda a exploração agrícola do vale. As construções do lado direito são do período Wari, do século VI, sem qualquer ligação com a cidade.


Pirâmide de la Huanca

Esta era uma sociedade que não conhecia a cerâmica mas era avançada o suficiente para conseguir realizar construções resistentes a sismos. As pirâmides eram construídas patamar a patamar, erguendo-se as paredes destes e sendo o espaço entre elas preenchido com pedras envolvidas em redes têxteis. Estas redes conferiam propriedades elásticas às estruturas, permitindo amortecer o efeito dos abalos sísmicos.

Para além das pirâmides, havia vários templos de diferentes dimensões e importância e um extenso sector habitacional. Todos os edifícios importantes tinham um local onde ardia permanentemente uma fogueira, sendo o calor conduzido por canalizações para as diferentes partes das construções.

Apesar de todo o conhecimento e engenho dos seus habitantes, uma série de catastróficas alterações climáticas selou o destino desta civilização, tendo Caral sido abandonada por volta de 1.900 a.C., pondo termo a uma ocupação contínua de cerca de 1.000 anos!



O regresso

Com o fim da visita, com um pedido encarecido do nosso guia para que divulgássemos o sítio para o dar a conhecer ao Mundo, foi tempo de pensar numa forma de regressar. Já que a família peruana que tinha feito a visita connosco tinha um transporte à sua espera no estacionamento, pedimos para regressar com eles. Perante a perspectiva de ganhar uns "Soles" extra, o motorista também não expressou qualquer objecção e foi assim, por um caminho diferente, mais irregular, que regressámos a Supe.

Travessia do rio Supe


Um moto-táxi saindo da comunidade de El Molino, já perto de Supe


Não tivemos de esperar muito já que, mal saímos da pequena loja onde entrámos para comprar algo para comer durante as próximas 4h de viagem até Lima, apareceu um autocarro que nos fez sinais de luzes, o sinal típico dos transportes públicos peruanos que significa "Precisam de transporte?".



O autocarro da viagem de regresso a Lima. Divisória entre a dianteira e o compartimento de passageiros, abertura do tecto presa por arames e um sistema de som de fazer inveja à aparelhagem sonora de qualquer bailarico de Verão que se preze


Foi pois num autocarro não necessariamente em bom estado, com uma curiosa divisória opaca que separava os passageiros da dianteira do autocarro e com a passagem de um filme cujo som excedeu largamente o número de decibéis suportáveis pelo ouvido humano, valendo-nos uns tampões de ouvido improvisados com lenços de papel, que regressámos a Lima.

No dia seguinte, despedimos-nos do Peru e voámos de regresso a casa, trazendo na bagagem as maravilhosas recordações da nossa melhor viagem de sempre.

A todos os amigos que deixámos por lá, muchas gracias amigos

quarta-feira, novembro 18, 2015

Caminho Inca - A chegada a Machu Picchu!

Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4

4ª etapa: de Wiñay Wayna a Machu Picchu (e Wayna/Huayna Picchu)


Ao quarto dia, acordámos mais cedo que nunca para o que faltava da nossa caminhada. Seria um dia emocionante e aquilo que vimos da Porta do Sol ficará para sempre na nossa memória. Contudo, a aventura não se esgotou em Machu Picchu, havendo quem tenha decidido ir um pouco mais além.


O dia começou bem cedo, logo pelas 3h30 da manhã! Seguindo as instruções do dia anterior, já tínhamos a maior parte do material arrumado dentro das mochilas pelo que depressa saímos das nossas tendas, a caminho da tenda de refeições para o nosso pequeno-almoço. Enquanto comíamos e nos preparávamos para o grande dia, a azáfama era grande já que, como contei no artigo anterior, mal partíssemos, os carregadores e cozinheiros iriam correr por um trilho até ao fundo do vale para apanharem o comboio de volta a casa.

O acordar tão cedo era bem justificado. O objectivo era entrar na fila do último checkpoint para Machu Picchu, que abriria por volta das 4h30, para chegarmos o mais cedo possível à cidade perdida dos Incas. Despachado o pequeno almoço, lá nos dirigimos até à fila para o checkpoint, iluminando o caminho com as nossas lanternas.




No último checkpoint antes de Machu Picchu, Nilo trata de todas as formalidades para podermos passar e iniciar a última etapa.



Depois de uma longa espera, em que aproveitámos para dormir mais um pouco, esticados na berma do trilho, finalmente abriram-se as portas do checkpoint e iniciámos a última parte da nossa caminhada. Machu Picchu estava a poucas horas de distância.

O trilho prosseguiu numa encosta íngreme do vale do Urubamba, com vegetação mas escassa que no dia anterior. À medida que a luz aumentava e a neblina se dissipava, íamos percebendo mais e mais pormenores daquela bela paisagem. 

A dada altura chegámos a uma escadaria que sem dúvida estabeleceu o padrão das escadarias íngremes. Era a temível "gringo killer" de que Toni nos tinha falado no jantar do dia anterior, acrescentando "Gringo killer, escadas do inferno, escadas de macaco... se não gostarem do nome podem chamar-lhe outra coisa qualquer que nós não nos importamos". Era o último obstáculo antes do Inti Punku, a porta do Sol, obstáculo que foi vencido mesmo que alguns tenham abdicado do bipedismo para o fazerem.




Gringo killer, monkey steps, steps from hell... As escadas mais íngremes que alguma vez havíamos visto, o último obstáculo antes da Porta do Sol


Quando já tínhamos a passagem do Inti Punku à vista, o deus Inti resolveu mostrar-se em todo o seu esplendor, inundando tudo de luz e calor. Ficámos ali longos minutos a admirar aquele fabuloso nascer do Sol, antes de continuarmos até à porta do Sol para pela primeira vez contemplarmos a fabulosa cidade inca de Machu Picchu!



A chegada do deus Inti, no quarto dia da caminhada.



Paragem para apreciar o nascer do Sol. O Inti Punku, a Porta do Sol, é já ali naquela passagem à direita.



Machu Picchu, finalmente!

É difícil explicar aquilo que sentimos ao vencer aquelas últimas escadas, passar pelo antigo posto de controlo inca do Inti Punku e contemplar Machu Picchu pela primeira vez. À nossa volta as expressões de admiração sucediam-se e havia quem não se conseguisse conter e desatasse a chorar. Pessoalmente, a imagem quase irreal daquelas ruínas e socalcos era muito forte. Tão forte que, por momentos, voltei a ser aquele miúdo de 11 ou 12 anos, com um livro de História aberto no colo, que olhava fascinado para a fotografia de uma cidade perdida nas montanhas do Peru, e que prometeu a si próprio que um dia a visitaria. Essa cidade estava agora à vista e a apenas 30 minutos de distância!


Machu Picchu à vista, a partir do Inti Punku. À direita o monte Huayna Picchu no topo do qual os incas construíram socalcos e casas! Crê-se que ali residiam sacerdotes.


Após algum tempo para as inevitáveis e indispensáveis fotografias e também para recuperarmos a compostura, começámos a descer para Machu Picchu. Era necessário validarmos os nossos bilhetes e, a título de medalha, poderíamos carimbar o nosso passaporte com um carimbo disponível para o efeito junto à bilheteira. Só depois entraríamos em definitivo na cidade.



A pose triunfal a partir do sector agrícola da cidade, antes de irmos tratar das formalidades para o resto da visita.


A cidade de Machu Picchu

Parte do sector urbano de Machu Picchu


A cidade está dividida em dois sectores principais: o sector agrícola e o sector urbano, separados por um muro extenso com estreita porta a garantir o acesso ao reservado segundo sector. Machu Picchu na verdade significa "Velha Montanha" em quechua, o nome da montanha onde a cidade se situa, estando atrás desta o monte pontiagudo da Huayna (ou Wayna) Picchu, a "Jovem Montanha".

Estas fabulosas ruínas foram oficialmente descobertas por Hiram Bingham, em 1911, quando procurava a última capital dos Incas. Organizou uma expedição, aventurou-se no vale do Urubamba, seguindo rumores e recolhendo informações dos habitantes que iam encontrando. Ao chegar ao local onde se situa hoje a vila turística de Águas Calientes, no sopé de Machu Picchu, soube a troco de alguns dólares que havia ruínas naquela montanha. 
Com um jovem local como guia, subiu a montanha e deparou-se com as ruínas, então bem diferentes do que hoje vemos, cobertas pela selva e bastante mais degradadas. A cidade não estava contudo abandonada já que alguns socalcos eram ainda cultivados e nas próprias ruínas moravam dois quechuas.


Aglomerado de casas no sector urbano


O caminho que havíamos feito para ali chegar seria descoberto por Bingham apenas no ano seguinte, quando encontrou vestígios de uma estrada que saía da cidade rumo a Sudeste e resolveu desbravá-la, descobrindo muitos dos sítios arqueológicos pelos passámos.

O que ainda ninguém sabe com toda a certeza é qual terá sido o papel desta cidade. Supõe-se hoje que terá sido construída pelo 9º Sapa Inca, Pachacutec, no século XV, para servir de retiro ao soberano. Acredita-se até que o túmulo de Pachacutec se encontra aqui, ainda à espera de ser descoberto, coisa que recentemente um arqueólogo francês anunciou ter conseguido (ver aqui). 


O templo do Sol e, sob este, o que Bingham baptizou como Túmulo Real, onde descobriu várias múmias e concluiu que teria pertencido a alguém de grande importância.


Também se diz que terá sido uma cidade-universidade, onde os sacerdotes aprendiam os segredos da religião e astronomia. Certo é que a cidade, estrategicamente situada na transição dos Andes para Amazónia, terá sido um importante centro de administração política e religiosa.

Com a chegada dos espanhóis em 1532, com grandes obras ainda em curso, a cidade terá sido abandonada durante a retirada dos Incas para zonas mais remotas, onde mantiveram a sua independência por mais 40 anos, até à captura e execução do último Sapa Inca, Tupac Amaru, em 1572. A capital mudara-se nesse período para Vilcabamba, a cidade que Bingham verdadeiramente procurava. No processo de retirada, para impedirem o avanço dos espanhóis no seu encalço, os Incas também destruíram estradas e pontes



Interior do templo do Sol. Nos nichos seria colocados objectos ou ídolos que também podiam ser pendurados nas saliências entre os nichos.



Não se encontram referências a esta cidade nas primeiras crónicas do período colonial mas presume-se que tenha sido saqueada algumas vezes até à sua descoberta oficial. Ainda assim, foram descobertos centenas de túmulos por Bingham, assim como milhares de cacos de peças de cerâmica deliberadamente partida (no abandono da cidade ou para efeitos rituais, não se sabe). Sob o edifício mais importante, o templo do Sol, o explorador encontrou um túmulo que chamou de túmulo real, pela quantidade e riqueza do espólio. Várias múmias estavam alinhadas nos nichos das paredes. De ouro e prata é que não havia grande coisa em toda a cidade. 



O templo do Sol, o edifício com melhor acabamento na cidade. Possui duas janelas, uma virada para Oriente (bem visível na foto) e outra virada mais para Sudoeste (à esquerda), para o Inti Punku. No Solstício de Inverno (21 de Junho), os primeiros raios de Sol entram pela primeira janela, enquanto que no Solstício de Verão (21 de Dezembro), entram pela segunda.





O nosso companheiro Nilo, o cicerone da nossa visita a Machu Picchu. Ao longo dos quatro dias travámos conversas bastante interessantes e fiquei também a conhecer a sua notável história de vida. Ficou órfão de pai aos 15 anos e assumiu a responsabilidade de o substituir no sustento do lar. A convite de um tio, que era cozinheiro, começou a trabalhar como carregador no Trilho Inca e conseguiu poupar o suficiente para poder ir para a universidade para aprender línguas estrangeiras. Deixei-lhe o convite para vir a Portugal.



A escadaria que dá acesso à Praça Principal, mais longe para a esquerda.




Um interessante bloco de pedra na área dos templos. Como provado por Nilo, os 4 vértices encontram-se alinhados com os 4 pontos cardeais. Muitos acreditam ver nela uma representação estilizada da constelação do Cruzeiro do Sul.



Ao longe avista-se o sector agrícola.




Num recanto do sector urbano, esta rocha esculpida assinala o chamado Templo do Condor



A subida ao Huayna Picchu

A aventura não terminou contudo em Machu Picchu. A Ana ainda se aventurou na subida ao Huayna Picchu, no que eu não a consegui acompanhar. O percurso é extremamente desafiante e passível de provocar vertigens. A subida é íngreme, cheia de degraus e, depois de se chegar aos últimos patamares, o acesso ao topo é feito por uma estreita gruta, que mais parece uma fissura. A vista que se tem do topo é fabulosa. Ora vejam:



O Max a liderar a tropa em direcção ao topo


A vista quase vertical para o Urubamba!



Machu Picchu vista do Huayna Picchu. Clicando na foto para a ampliar, é possível ver à esquerda o trilho que leva ao Inti Punku, por onde chegámos. Lá atrás, mais à direita, situa-se  Abra Phuyupatamarca, local por onde passámos na véspera. 

Vídeo:




Despedida e regresso

A artéria ferroviária de Águas Calientes


Terminada a exploração de Machu Picchu, o grupo reuniu-se pela última vez num restaurante em Águas Calientes, a povoação que se desenvolveu no sopé da montanha à conta dos mais de 2 milhões de visitantes anuais que a cidade inca recebe. A única forma de chegar a esta povoação é de comboio ou a pé.

Águas Calientes tem este nome devido às fontes termais que possui, algo que alguns do grupo aproveitaram para relaxar após a longa caminhada, em vez de subirem a Huayna Picchu. As lojas são mais que muitas e a avenida principal oferece a singular visão de ser uma via ferroviária. 

Após o almoço, seguiu-se a despedida emocionada de vários dos nossos companheiros de caminhada, para apanharmos o comboio de regresso a Cusco. Embora lento (e caro!), possui um serviço interessante, com café e snacks gratuitos. O tecto transparente é perfeito para admirar as montanhas quase verticais ao longo do percurso (enquanto há luz do dia) e, ao longe, avistámos alguns dos locais por onde tínhamos passado na nossa caminhada.


No comboio regressando a Cusco


Tinha chegado ao fim uma aventura inesquecível, a mais espectacular caminhada que fizemos até agora. Descobrimos paisagens de cortar a respiração, locais misteriosos e fascinantes e conhecemos pessoas extremamente interessantes: o Neil e a Lucy, o James e a Carolyn, a Debby, o Steve e a Debra, o Michael e o seu filho Max, os nossos guias Nilo e Toni, aquele incansável grupo de carregadores e cozinheiros, entre eles o Marciel e o Wilfred. Será impossível esquecê-los

Entretanto, e à medida que subíamos pela margem direita do Urubamba e as oscilações do comboio nos embalava, revisitava mentalmente todas as etapas da nossa caminhada até à cidade perdida dos Incas. Cá dentro, aquele miúdo de 11 ou 12 anos, que sonhara visitar Machu Picchu, ainda saltitava sem parar.

Todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 



A seguir:
O fim da aventura peruana. 
A viagem pelo deserto até às ruínas da mais antiga cidade de todo o continente americano

sexta-feira, novembro 06, 2015

Caminho Inca - O terceiro dia no Trilho

3ª etapa: de Chaquicocha a Wiñay Wayna
Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4


Ao terceiro dia despedimos-nos da cota dos 3.000m, para descobrir duas cidades Incas notáveis, isto depois de descermos por escadarias vertiginosas, cravadas no flanco da montanha. Foi um dia inesquecível, durante o qual percebemos o porquê das montanhas terem sido consideradas deuses pelos Incas. Aliás, eu próprio acabei por descobrir entre as montanhas o meu Apu, o meu espírito protector. 



A paisagem matinal com que fomos brindados à saída da tenda, com o sítio de Sayaqmarca (no centro da fotografia) a revelar-se finalmente na sua totalidade.



O dia começou novamente bem cedo, com mais uma chávena de chá ou café a motivar o despertar. O nevoeiro do dia anterior tinha desaparecido, o que nos permitiu finalmente apreciar a paisagem à nossa volta e avistar as ruínas de Sayaqmarca empoleiradas num monte. Depois do pequeno-almoço e da habitual distribuição de snacks para comer ao longo do caminho, deixámos o acampamento para trás e continuámos a nossa jornada.



A estrada Inca num notável estado de conservação. Mais à frente, um pequeno caminho Inca recém-descoberto leva até um altar, situado no topo daquela elevação à direita. Mais à frente, à esquerda, outra estrada foi recentemente descoberta perdendo-se na floresta no fundo do vale.



Após algumas centenas de metros, onde a dado momento Toni nos apontou uma abertura na vegetação como sendo um novo troço da estrada Inca recentemente descoberto, entrámos numa zona de floresta com vegetação extremamente densa e com o solo cheio de musgo. As próprias árvores serviam de suporte ao musgo e a outras espécies vegetais, compondo um cenário que parecia tirado de uma daquelas histórias de aventuras na selva, embora aqui o caminho estivesse já aberto e empedrado.




A entrada na zona de floresta mais densa onde tivemos direito a uma bela aula de botânica peruana


Ao longo do caminho, Toni foi-nos dando explicações sobre as espécies vegetais mais interessantes que íamos encontrando no caminho, nomeadamente as orquídeas. Só no Peru haverá mais de 3.000 espécies de orquídeas e, ao longo do trilho, encontram-se centenas delas, embora poucas estivessem floridas nesta altura do ano.

Outra espécie que nos foi apresentada foi a Q'oya Icchu, a planta com a qual os Incas construíam as suas pontes suspensas, entrançando as fibras para produzir as cordas da ponte. Ainda hoje esta técnica se repete anualmente na cerimónia de substituição do cordame da ponte de Q'eswachaka, evento classificado como Património da Humanidade pela UNESCO (ver aqui).

Toni, o musgo e o feto com mais de 100 anos.


Algumas flores do Caminho Inca, para não dizerem que não tenho sensibilidade.




Toni mostra a sua habilidade no entrançar da Q'oya Icchu, a planta a partir da qual os Incas produziam as cordas para as suas pontes. Estas cordas eram de tal forma grossas e resistentes que suportavam o peso de vários homens e animais de carga, tendo de ser no entanto substituídas anualmente, em cerimónias de grande significado religioso.



O caminho continuou sob um denso manto de nevoeiro que só a espaços nos deixava ver alguma coisa para além da calçada que tínhamos à nossa frente e, pouco depois, chegámos ao primeiro dos 2 túneis pelos quais iríamos passar nesse dia. Era mais uma vez o resultado do aproveitamento de uma fenda natural que tinha sido alargada pelos construtores desta estrada, não necessariamente Incas mas provavelmente povos conquistados por estes e que haviam ousado resistir. 

O percurso tinha sido geralmente "inca flat", ou seja, aos altos e baixos mas começou a certa altura a subir, até chegarmos ao 3º ponto mais alto da nossa caminhada, Abra Phuyupatamarca, a pouco mais de 3.600m de altitude. Cumprido o ritual da oferenda ao deus da montanha, (lembram-se?) seguiu-se um troço fácil até ao primeiro conjunto de ruínas do dia: Phuyupatamarca.




 O primeiro túnel do dia, que reforçou a nossa certeza de não ter havido problemas de obesidade no Império Inca



À saída do túnel, a vista da floresta perde-se no nevoeiro



Phuyupatamarca, a cidadela das nuvens

A pose heróica à chegada a Phuyupatamarca (do quechua "Phuyu"=nuvem + "pata"=escadas, socalcos + "marca"=local, povoação)

A localização e arquitectura de Phuyupatamarca, à semelhança de Sayaqmarca, impressionam quem por ali passa. O conjunto seria também um local de grande importância religiosa e encontra-se num admirável estado de conservação. É composto por várias construções sobre socalcos irrigados por um intrincado sistema de canais, que ainda hoje alimenta várias fontes rituais. 

A proximidade da selva contribui para a presença constante de nuvens, fruto da elevada humidade do ar. Por isso foi-nos impossível apreciar a vista para o fundo do vale, onde corre o Urubamba, e montanhas circundantes. 

Phuyupatamarca foi o local escolhido por Toni para nos dar uma pequena aula sobre a religião e mitologia dos Incas.


A entrada em Phuyupatamarca, passando por fonte e canais.


Uma paisagem com mil e um deuses

A religião Inca, como qualquer outra religião extinta ou actual, baseou-se em crenças pré-existentes, assimilando mitos e personagens. Muitas vezes até, os Incas mantinham os cultos dos povos que iam assimilados, para facilitar a sua integração no Império.

Os Incas dividiam a sua realidade em três níveis: o nível superior, onde moravam os deuses, o nível intermédio, onde eles próprios habitavam, e o nível inferior, o mundo dos mortos. Também acreditavam que havia canais e mensageiros que ligavam estes níveis. As grutas e nascentes, por exemplo, era canais de comunicação com o nível inferior. Quanto ao papel de mensageiros, este era desempenhado pelo condor, o puma e a serpente, os 3 animais sagrados dos Incas.

Os Incas acreditavam na continuidade da vida, não na reencarnação. Acreditavam que os que morriam renasciam noutro nível e era por isso que os mortos (devidamente mumificados) eram colocados em posição fetal (e no seio da Pacha Mama, em covas ou grutas). Afinal, se era nesta posição que nasciam neste nível, essa teria de ser a posição em que entrariam no próximo.

Sendo uma religião fundamentalmente animista e uma sociedade com economia baseada na agricultura, viam naquilo que os rodeava os seus deuses, havendo no entanto, por trás de tudo, um deus criador supremo: Viracocha (lembram-se dele?). As principais divindades eram Inti (o Sol), Mama Quilla (a Lua) e a Pacha Mama (a mãe-Terra) mas também prestavam culto a deuses menores como o relâmpago, o arco-íris, os rios, as montanhas e o milho, por exemplo. Em cultos pré-incaicos, adorava-se também o deus Tunupa e era dele que provinha a chuva e os relâmpagos, com os quais fertilizava a mãe-Terra.

Soltando o artista que há em si, Toni ilustrou de forma bastante eficaz a sua pequena aula sobre religião Inca. Um senão: o destaque dado à chakana ou cruz Inca que, na verdade, não terá feito parte da simbologia Inca visto que nem sequer é mencionada pelos cronistas do período colonial.


Geralmente designado como "Apus", os deuses das montanhas, dos rios e outros acidentes geográficos eram espíritos protectores, cujo culto era observado pelo povo, ao passo que o culto aos deuses maiores era reservado às elites. Também apenas as elites podia usar o ouro e a prata, não porque lhe dessem valor monetário mas antes porque eram metais sagrados, que não se degradavam e reflectiam a luz do Sol e da Lua. 

Com a chegada dos Espanhóis e da sua mensagem evangelizadora apoiada nos ferros da Inquisição, os Incas abandonaram a velha religião mas não por completo. Verificou-se um sincretismo religioso em que os deuses maiores foram interpretados como sendo as divindades maiores do panteão cristão. Os rituais fundiram-se e actualmente é possível assistir a manifestações como aquela que acontece nas montanhas, num local cujo nome me escapa, em que se faz uma procissão até uma igreja no alto de um monte e, quando o Sol nasce, todos se ajoelham diante dele para pedir um bom ano agrícola.



A vertiginosa descida

Terminada a nossa aula teológica, retomámos a caminhada para iniciar uma descida verdadeiramente vertiginosa. O trilho passou a ser na forma de degraus bastante estreitos e a inclinação era tal que muitos sentiam dificuldade em descer. A solução: esticar ao máximo os bastões de caminhada e descer de lado, para os pés assentarem completamente nos degraus. Foi assim o percurso durante uma longa distância, havendo apenas algumas secções em patamar para respirar um pouco.



O início da descida...



...e a continuação da descida, para alegria dos joelhos dos caminheiros.


A dada altura olhei para trás e uma forma rochosa chamou a minha atenção. Achei curiosa a forma e apontei-a aos guias que, pelos vistos, nunca tinham reparado nela. -"Acho que encontrei o meu Apu: o Cuy!", afirmei com convicção. 

Todos se riram, sobretudo porque na noite anterior, ao jantar, Toni tinha feito uma extensa apologia das qualidades gastronómicas do Cuy (porquinho-da-Índia),  rebatendo a argumentação de um dos presentes de forma brilhante: -"Porra, mas vocês comem porquinhos-da-Índia? Não têm McDonalds, é?" ao que Toni respondeu: -"Nós não gostamos de McDonalds, só de KFC.". A surpresa gerou a inevitável pergunta: -"O quê? Kentucky Fried Chicken?", com Toni a rematar: -"Não. Kentucky Fried Cuy!".

Realmente, se houve coisa que não faltou nesta aventura, para além de degraus, foi boa disposição.


O meu Apu, el Cuy, vigiando a nossa marcha.


Aos poucos fomos descendo cada vez mais a encosta, com mais uma passagem por um túnel e avistando mais uns quantos colibris a beijar as poucas flores que por ali havia, até nos afastarmos definitivamente do manto de nuvens.

Com os degraus já vencidos, fomos premiados com o regresso do Sol após quase 24h de ausência. Foi a forma que o deus Inti encontrou de nos dar as boas-vindas ao próximo e fantástico sítio arqueológico e, para lá dele, a montanha Machu Picchu! Estávamos já próximos da nossa meta. 

Finalmente abaixo do tecto de nuvens mas ainda com degraus.



A entrada no 2º túnel do dia.



Finalmente o Sol, na parte mais baixa do trilho.



Os socalcos de Intipata e, para lá dele, a emblemática montanha Machu Picchu. A cidade lendária fica logo ali, a seguir àquela elevação.


Intipata, os degraus do deus Sol

Quando se avista, Intipata não percebe logo toda a sua monumentalidade. Apenas se vislumbram alguns socalcos no meio da vegetação. Só quando chegamos ao local se percebe a sua verdadeira dimensão. Foi assim connosco, com a chegada ao local a ser brindada com um uníssono "Uau!". 


A chegada ao complexo agrícola de Intipata (do quechua "Inti" = Sol + "Pata" = Socalcos, escadas), com o já familiar rio Urubamba lá ao fundo. A Amazónia fica para lá daquelas montanhas!


Em Intipata, tudo é de cortar a respiração: os socalcos moldados na forma da montanha e que parecem não ter fim, a sua forma de escadaria a pique que nos faz suster a respiração, a vista para o de novo visível vale do rio Urubamba enquadrado pelas encostas rugosas das montanhas à volta. 

O local mereceu bem os longos minutos de contemplação que lhe dedicámos, sentados na relva, a tentar absorver toda aquela grandiosidade. Mais impressionados ficámos quando Toni nos revelou que o que hoje está visível é apenas uma pequena parte das ruínas, dado que estas continuam encosta acima, onde só se vê floresta. A razão para não terem sido postas totalmente a descoberto, embora haja algumas escavações a decorrer actualmente, prende-se com a necessidade de preservar o ecossistema de certas espécies vegetais endémicas muito frágeis.



No momento em que nos sentámos maravilhados a contemplar uma das mais bonitas paisagens que tínhamos visto até então, foi impossível não nos sentirmos pequeninos.


Por muito que nos custasse, foi necessário prosseguir o nosso caminho. O acampamento já se avistava e, como bem nos lembrou Toni, já estávamos com alguma fome. Descemos mais um belo lanço de escadas, passando junto a um grupo de construções na base dos socalcos agrícolas, e depressa chegámos às nossas tendas, sendo mais uma vez recebidos com palmas.

Não foi no entanto o fim da etapa pois, após o almoço e sem o peso das mochilas, iríamos ainda visitar um sítio maravilhoso: Wiñay Wayna ou Wiñay Huayna.



Descendo pela escadaria central de Intipata, com o acampamento à vista.




Um último olhar para Intipata, com os socalcos moldados pela forma da encosta



Já no acampamento, após a habitual calorosa recepção, com Marciel e Wilfred, sempre sorridentes e incansáveis. 

Marciel é um jovem com 20 anos, oriundo de uma família agrícola pobre. Segundo me contou, a família possui alguma terra de cultivo e ovelhas mas o seu sonho é mesmo ser cozinheiro. Por intermédio de Nilo, fiquei a saber mais tarde que, no regresso a casa, o cozinheiro-chefe da equipa prometeu a Marciel o cargo de ajudante de cozinheiro na próxima expedição. Imagino o quão largo terá sido o seu sorriso ao saber da novidade.





Wiñay Wayna, a Juventude Eterna

Após o almoço, já com Nilo de regresso (tinha ficado para trás para apoiar uma pessoa em dificuldade), atravessámos o acampamento para tomar um pequeno trilho que seguia para Sudeste. Foi possível perceber a quantidade de gente que estava ali acampada, à espera para entrar na lendária cidade de Machu Picchu no dia seguinte.

Continuámos o nosso caminho e, quando passámos por um tosco portal de madeira, a visão de dezenas de socalcos e ruínas de construções revelou-se aos nossos olhos. Escondida num recanto daquela montanha, entre árvores e cascatas, estava a cidade agrícola de Wiñay Wayna.

A pose triunfal da chegada a Wiñay Wayna ou Wiñay Huayna, (do quechua "wiñay"= eternamente + "wayna"=jovem)


Esta cidade agrícola foi descoberta na década de 1940, quase 30 anos depois de Machu Picchu. Divide-se em dois núcleos construídos, um na parte superior com uma tipologia de construção que sugere ter sido um local de grande importância (mais um templo e residências nobres), e um outro, mais abaixo, que terá sido zona residencial de menor nível social. Tal como Intipata, este terá sido um centro de produção agrícola destinado a abastecer Machu Picchu.

Na parte superior, atrás do templo, um aqueducto alimenta uma fonte a partir da qual a água é canalizada por todo o complexo, contornando o templo antes de ir alimentar várias fontes que se encontram ao longo da escadaria principal de Wiñay Wayna.



A descida para o núcleo habitacional inferior



A canalização de água vinda das traseiras do templo, no momento em que abastece a primeira das várias fontes que se situam junto à escadaria principal da cidade.




Uma outra perspectiva dos socalcos, com uma caminheira a tentar ganhar motivação para regressar lá acima.


Depois de exploradas as ruínas, ficámos em amena cavaqueira com Nilo e alguns dos restantes membros da equipa, sentados num dos socalcos. Falou-se de tudo um pouco, desde política e economia até História e foi interessante perceber como pode ser diferente a visão sobre determinadas  personagens e factos, quando há um oceano de permeio. 

Com a luz já a desaparecer, regressámos ao acampamento para lanchar e esperar pela hora do jantar.


A despedida

O jantar marcou a despedida oficial dos nossos carregadores que no dia seguinte, quando tomássemos o caminho de Machu Picchu, desceriam rumo à localidade próxima de Aguas Calientes para aí apanharem o comboio de regresso a casa.

A nossa sobremesa, mais uma obra do engenho dos nossos cozinheiros. (Foto: Debby Brosko)


O último jantar foi memorável, com o toque final a ser dado com um belo bolo como sobremesa. No final, todos os membros do staff compareceram na tenda, apresentando-se um a um e sendo então eles brindados com uma merecida salva de palmas.

Tínhamos entretanto feito uma colecta para dar uma gorjeta aos carregadores, cozinheiros e guias. Trata-se de uma prática habitual no Caminho Inca embora a nossa agência tenha deixado bem claro, quer no momento da contratação quer depois, ao longo do caminho pela voz dos nossos guias, que os carregadores eram bem pagos e que não éramos obrigados a dar nada. Bem diferente de uma conversa que tinha ouvido durante a tarde no acampamento, com um guia de outra agência a dizer aos seus clientes qual era o valor mínimo esperado da gorjeta.

Por mais ninguém falar espanhol no grupo, coube-me por decisão unânime a honra de entregar a nossa oferta aos chefes do staff e de fazer também um pequeno mas sentido discurso de agradecimento pelo esforço desenvolvido em prol do nosso conforto ao longo daqueles inesquecíveis dias.

Depois, recolhemos às nossas tendas para ir dormir. No dia seguinte entraríamos finalmente na lendária Machu Picchu!

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A seguir 


Finalmente Machu Picchu!

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