quinta-feira, outubro 29, 2015

Caminho Inca - O segundo dia no Trilho

Etapa 2: de Llulluchapampa a Caquicocha
Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4


Depois de um primeiro dia extremamente exigente, o percurso para o segundo dia, apesar de um pouco mais curto, não prometia menos dificuldades. Esperavam-nos duas subidas exigentes, começando logo pelo culminar da ascensão ao ponto mais alto de todo o trilho, passagens por sítios arqueológicos que pareciam saídos das páginas de um livro de aventuras e a entrada na floresta de nuvens, que fez verdadeiramente jus ao seu nome.

O dia começou cedo, por volta das 5h30 da manhã, com a oferta de chá e café tenda a tenda. Para além da simpatia do gesto, soube mesmo bem beber daquela chávena quentinha enquanto contemplávamos a vista para o vale que tínhamos subido no dia anterior, dominado pelo maciço nevado do Wayanay. Até deu para esquecer por minutos o frio intenso que ainda se fazia sentir.



O nascer do Sol com vista para o pico do Wayanay, com quase 5.500m de altitude (ver vídeo)


Depois de nos equiparmos e prepararmos as mochilas, reunimos-nos na tenda de refeições para um belo pequeno-almoço. A jornada prometia até porque, de acordo com o briefing do dia anterior, iríamos enfrentar duas subidas exigentes, descidas acentuadas e o resto seria plano, não de acordo com o nosso conceito de planura mas antes "inca flat", segundo os nossos guias, que faziam repetidos movimentos para cima e para baixo com a mão para ilustrar o conceito.

Com toda a gente pronta e o acampamento já a desaparecer para dentro das mochilas-saco da equipa Enigma, retomámos a caminhada para concluir a subida iniciada no dia anterior.



Uma caminheira, nitidamente motivada e envergando orgulhosamente um gorro de lã de alpaca, indica a primeira meta do dia: Abra Warmiwañusca ou a passagem da Mulher Morta, lá ao fundo.



A passagem da Mulher Morta
(ou o ponto mais alto a que alguma vez um Caetano subiu pelo seu próprio pé)

Embora inicialmente o facto de começarmos a subir tenha ajudado a contrariar o frio que se fazia sentir, com a chegada do Sol tudo mudou. Depressa tivemos de despir os casacos, gorros e luvas para podermos continuar, até porque também já não tínhamos a protecção da sombra das árvores.

Ao olhar para trás percebemos a grande quantidade de gente que percorria também o trilho. As linhas formadas pelos carregadores, vestidos de amarelo, verde, vermelho ou cinza, consoante a agência a que pertenciam, emprestavam um bonito colorida à paisagem e ajudavam-nos a identificar o trilho na paisagem.




O nome daquela passagem não evoca uma caminheira menos afortunada mas, dada a dificuldade da subida, não seria de admirar se assim fosse.


A subida foi-se complicando porque, para além da inclinação e dos degraus, o efeito do oxigénio rarefeito se fazia sentir mas, degrau a degrau, chegámos finalmente ao ponto mais alto da nossa caminhada: Abra Warmiwañusca, a passagem da Mulher Morta, a 4215m de altitude. Fiquem no entanto descansados porque o nome do local não se deve a uma caminheira mais infeliz mas sim ao facto de, quando visto ao longe, o local lembrar a forma de uma mulher deitada. 

Ao chegarmos, sentamos-nos a olhar para trás durante algum tempo, saboreando a sensação de triunfo de termos subido tanto, desde aquele local agora tão pequenino no fundo do vale. Depois, enquanto o resto do grupo não chegava, aproveitámos para subir um pouco mais para procurar uma geocache que por ali estava escondida (clicar aqui para saber o que é isto), o que nos deu uma perspectiva diferente da passagem. Podem ver neste vídeo: 


Vídeo - A passagem vista de cima.



Após terem terminado a subida, dois grupos de carregadores descansam antes de continuarem o caminho


À medida que os restantes elementos da equipa iam chegando, reagindo com maior ou menor efusividade ao final da subida (um sonoro e teatral "F### you, Dead Woman!!!" estabeleceu o padrão), iam sendo felicitados por aqueles que os esperavam. Já com toda a gente, foi tempo de tirar a inevitável fotografia de grupo para eternizar o momento. Foi então tempo de voltar a pôr as mochilas às costas para começar a descer para o próximo vale.



A melhor equipa composta por quatro cidadãos estado-unidenses, dois irlandeses, dois britânicos, uma canadiana e dois portugueses que alguma vez alcançou os 4215m de altitude no Trilho Inca.




A descida para o vale de Pacaymayo

À medida que começámos a descer para o vale do rio Pacaymayo, o nevoeiro cerrado começou a recuar à nossa frente até que a certa altura foi possível ver a totalidade do vale. Lá ao fundo avistava-se o acampamento onde iríamos almoçar enquanto que, na encosta da montanha, se distinguia claramente o serpentear do trilho. Foi uma descida tremenda, exigente para os joelhos, que nos levou a pensar em como terá sido difícil a vida dos mensageiros que tinham de correr por estes caminhos. 



O início da descida para o vale do Pacaymayo, um verdadeiro "rebenta-joelhos" mas que seria realmente uma chatice se tivesse de ser percorrido no sentido inverso.


À medida que nos aproximávamos do fundo do vale, íamos também tomando consciência da tarde complicada que nos esperava, dada a bela subida que se ia tornando cada vez mais nítida no flanco da montanha para lá do acampamento. Não admirou portanto que muitos aproveitassem a pausa após o almoço para dormir um pouco, já que iríamos mais uma vez precisar de todas as nossas energias.



O acampamento de Pacaymayo e, para lá dele, a subida para Runkurakay. Com algum esforço é possível avistar o Tambo, mais acima. Se não forem de grandes desafios, podem sempre clicar na fotografia para ampliar.




Momento de descontracção após o almoço, antes de enfrentarmos a subida íngreme da tarde.



Runkurakay e os Chasquis, os mensageiros do Império

A subida até à passagem de Runkurakai, o 2º ponto mais alto do trilho, foi tudo o que esperávamos dela: bastante exigente mas não tanto quanto a subida até à passagem de Warmiwañusca, embora também tivesse muitos degraus.

A meio da subida passámos pelo interessante conjunto de ruínas de Runkurakay, mais uma vez um Tambo, um local onde os mensageiros se revezavam. Mas quem eram afinal estes mensageiros, que tinham um papel fundamental no Império Inca? O nosso guia Toni deu-nos uma explicação interessante.



O Tambo de Runkurakay (do quechua "Runku"=cesto e "rakay"=ruína), onde os mensageiros ficavam alojados. Possui alguns socalcos de cultivo e oferece uma vista fantástica para a passagem da Mulher Morta e para o vale do Pacamayo


Os Chasquis eram uma classe à parte no Império. Considerados nobres, não tinham no entanto os mesmos privilégios tradicionais da nobreza propriamente dita. O cronista Inca Guamán Poma refere que, estando comprometidos com o seu trabalho todos os dias, durante todo o ano, não lhes era permitido ter esposas nem filhos.

Os mensageiros eram escolhidos através de uma prova anual de corrida, em que qualquer cidadão podia participar, sendo esta a única via que os mais pobres tinham para escaparem à miséria, já que o Inca garantia aos Chasquis comida, dormida e roupa. Como já mencionei, como os Incas não tinham sistema de escrita, as mensagens eram memorizadas pelos Chasquis. O único registo físico portátil de informação existente era o quipu, um sistema de cordéis e nós destinado a registos numéricos.

Quando lhes era transmitida uma mensagem, tinham de correr grandes distâncias, o que significava um esforço muito violento. Para contraria os efeitos desse esforço, mascavam folhas de coca que, misturada com uma cinza (de composição desconhecida), potenciava a resistência e imunidade à dor. Quando chegavam a um tambo, transmitiam a sua mensagem a um dos Chasqui que aí se encontravam que continuava a corrida, enquanto que o Chasqui acabado de chegar poderia aqui ficar a descansar, até chegar a sua vez de revezar o próximo mensageiro.

Saíndo do Tambo, o nosso guia Toni chamou-nos a atenção para algo importantíssimo: -"A partir daqui, o trilho é praticamente original. Nunca foi restaurado". De facto a diferença era notória. 

Retomámos a subida pela escadaria irregular e, pouco depois, chegámos à passagem de Runkurakay, o segundo ponto mais alto da caminhada a 3950m de altitude. Aí, vários montinhos de pedras enfeitavam o local. O seu significado é muito profundo e revelador do respeito que os actuais andinos, no contexto do sincretismo religioso herdado dos tempos da colonização, têm pelos deuses da montanha, pois trata-se de oferendas simbólicas, pedindo bênção e passagem segura.  




Subida para a passagem de Runkurakay, o 2º ponto mais alto da nossa caminhada. As escadas precisam de alguma manutenção mas estão apesar de tudo num admirável estado de conservação. É o que distingue as construções dos Incas das construções dos Inca-pazes, referência popular às reconstruções de fraca qualidade.




Algumas pedras amontadas sobre um altar. Estas pedras eram oferendas rituais às montanhas, adoradas como divindades. Os caminheiros tinham de trazer uma pedra consigo desde a base da montanha para aqui deixar, aquando da sua passagem.





Saída do túnel Inca após a passagem de Runkurakay. Esperava-nos um intenso nevoeiro.


A caminhada continuou com a passagem por um túnel, escavado por aproveitamento de uma falha natural da rocha durante a construção da estrada. À saída deste, revelou-se outro vale nublado, no qual era possível verificar o regresso da floresta, agora ainda mais densa. Estávamos a entrar no domínio da "floresta das nuvens", a floresta que se desenvolve em altitudes elevadas com muita humidade. Fomos descendo sem grande visibilidade até que, de repente, uma abertura do nevoeiro revelou-nos as espectaculares ruínas de Sayaqmarca, a nossa próxima paragem.



Sayaqmarca, um prodígio de engenharia

Embora ainda se discuta o propósito deste local, a teoria mais aceite aponta Sayaqmarca como um importante santuário no caminho para a cidade sagrada de Machu Picchu, onde os viajantes podiam parar para prestar homenagem às divindades e descansar. Acessível apenas por uma estreita escadaria, junto ao precipício, este local faz jus ao seu nome de "local (ou povoação) inacessível" e terá sido construído na primeira metade do século XV. 

Já agora, ainda não o tinha referido nos artigos anteriores mas a esmagadora maioria dos locais arqueológicos incas (senão mesmo todos) foram baptizados muito recentemente. Não havendo sistema de escrita para registar a sua memória e tendo sido sujeitos à devastação e política de reescrita da História pelos invasores espanhóis, o nome original dos locais perdeu-se. À medida que iam sendo redescobertos, os exploradores e investigadores iam-nos baptizando, de forma politicamente correcta, com nomes em língua nativa quechua, incluindo Machu Picchu. 




Sayaqmarca (do quechua "Sayaq"=inacessível" + "marca"=local, povoação") numa localização que faz jus ao seu nome. Passar por aquela escadaria de acesso foi um verdadeiro desafio. Mais abaixo vê-se a continuação do trilho, por onde iríamos passar.


Sayaqmarca é um prodígio de engenharia. Na encosta, os socalcos não se destinavam apenas à agricultura pois também serviam para garantir a estabilidade das casas e templos da parte superior. Quanto ao fornecimento de água, este era assegurado por um aqueducto que trazia a água desde uma nascente, na zona mais alta da montanha, através de canalização subterrânea (uma constante na engenharia Inca, segundo dizem para evitar envenenamento da água). A água entrava em Sayaqmarca pela parte mais alta, circulando em seguida por todo o complexo até terminar nos banhos cerimoniais da zona mais baixa. Na zona mais alta, situava-se o templo mais importante de Sayaqmarca, possivelmente dedicado ao Sol. 

O único senão da visita foi mesmo o nevoeiro que nos impediu de ver a vista que deve ser impressionante.





Entre os vários muros, um elemento destaca-se em primeiro plano. Trata-se do equivalente Inca das nossas bolhas de nível, utilizado para assegurar a horizontalidade das construções.


De Sayaqmarca conseguimos ainda assim avistar outro local arqueológico pelo qual iríamos pouco depois passar: tratava-se de Conchamarka, outro Tambo já em plena floresta. É difícil descrever a beleza do local à qual as fotos não fazem a mínima justiça. Recordo-me sobretudo do assombro que tomou conta de nós e que nos fez caminhar bem devagar por aquela calçada.


Conchamarka (do quechua "panela"), mais um Tambo na estrada Inca para Machu Picchu.



Passagem por Conchamarka. Simplesmente fantástico!


Pouco depois de Conchamarka, chegámos ao acampamento de Chaquicocha, onde iríamos passar a noite. Este acampamento estava bastante concorrido, ao contrário dos anteriores mas, fruto da corrida generosa dos nossos carregadores, iríamos ficar num local mais sossegado.

Depois de mais um excelente jantar, mais uma vez o sentido de humor de Toni foi protagonista, sobretudo quando teceu algumas considerações pouco abonatórias sobre chilenos. Um ressentimento que, segundo diz, teve origem numa guerra travada entre peruanos e chilenos, que os primeiros quase venceram, acabando no entanto por "ficar em segundo lugar".

Com o cansaço a fazer-se finalmente sentir, foi tempo de ir dormir para atacar no dia seguinte a mais bela secção do Caminho Inca.



O acampamento de Chaquicocha, imerso em nevoeiro a 3500m de altitude.

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A seguir:

Flores, ruínas e vertigens!

domingo, outubro 25, 2015

Caminho Inca - O primeiro dia no Trilho!

1ª etapa: do Km82 a Llulluchapampa
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Finalmente tinha chegado o grande dia! Saímos do nosso hotel bem cedo para a viagem de autocarro que haveria de nos levar ao início do Trilho. Após um belo-pequeno almoço nas margens do Urubamba, foi tempo de pôr as mochilas às costas e começar a caminhar. Machu Picchu estava a poucos dias de distância e as nossas expectativas eram elevadas mas depressa percebemos que, o que nos esperava, era muito melhor do que poderíamos ter imaginado.


Como combinado, pouco passava das 4h20 da manhã quando saímos do nosso hotel para embarcar no autocarro que já estava à nossa espera. A viagem até ao início do trilho iria ainda demorar 2h pelo que aproveitámos para dormir mais um pouco, acordando apenas quando mais alguém entrava no autocarro para se juntar ao grupo.

Finalmente estávamos a caminho do Caminho Inca mas a preparação tinha começado uns meses antes, mais precisamente em Maio. Uma vez que o acesso ao trilho é bastante controlado, sendo apenas permitida a entrada diária de 500 pessoas, 200 caminheiros e, os restantes, o staff das agências que obrigatoriamente devem acompanhar os primeiros, é necessário reservar as entradas com meses de antecedência.

Optámos pelos serviços da Enigma Peru (ver aqui) e não nos arrependemos. O serviço teve muita qualidade e todo o staff foi extremamente profissional e simpático, tanto os guias como os carregadores. Sim, porque há carregadores! Dado que não há acessos para veículos automóveis, todo o material necessário para os 4 dias (tendas, material de cozinha, alimentos, etc) é transportado às costas pelos carregadores e, acreditem, é impressionante vê-los a trabalhar e a correr montanha acima com aquela carga toda. Por uma taxa extra, os caminheiros podem entregar até 7kg de bagagem aos carregadores para não irem eles tão carregados. Nós, no entanto, optámos por transportar toda a nossa carga.


Últimos preparativos nas margens do Urubamba.

A última paragem do nosso autocarro foi em Ollantaytambo (recordam-se?) para deixar entrar os últimos carregadores. A partir daí o alcatrão terminou e fizemos os derradeiros 14 quilómetros numa estrada de terra batida até Piscacucho e à estação ferroviária do mítico Km82, onde se encontra o checkpoint de entrada no Trilho.

Assim que saímos do autocarro, enfrentámos pela primeira vez os vorazes mosquitos, que nos iriam perseguir ao longo da caminhada, o que nos obrigou logo ali a fazer uso do repelente (o nosso melhor amigo ao longo dos 4 dias!). Após os últimos preparativos, assim como um belo pequeno almoço servido ali à vista do rio Urubamba, dirigimos-nos finalmente ao checkpoint  onde tivemos de mostrar os bilhetes e os passaportes. Uma formalidade que não se aplica aos residentes locais que habitam em pequenas comunidades ao longo do trilho. Com o passaporte carimbado, franqueámos o portal da ponte sobre o Urubamba. A caminhada tinha começado!


O Trilho Inca


A foto da praxe, antes do checkpoint



Passaporte carimbado e o portal de início do trilho logo ali, a apenas meia dúzia de passos

Os primeiros quilómetros do trilho foram feitos junto à margem esquerda do Urubamba, numa paisagem algo árida. Pelo caminho, foi necessário desviarmos-nos de um grupo de cavalos que transportavam carga sozinhos para um destino incerto, primeiro na ida e mais tarde no regresso, já sem carga. Foi uma visão bem curiosa.

Mais à frente, Nilo, o nosso guia,  chamou-nos a atenção para um conjunto de ruínas que se avista do outro lado do rio. Trata-se do Tambo de Sallapunku, um dos muitos locais construídos ao longo da rede de estradas do Império Inca, onde os mensageiros que asseguravam a comunicação entre as diferentes partes do Império, eram revezados. O trabalho destes mensageiros tinha várias peculiaridades de que falarei num dos próximos artigos.

Ficámos também a saber que havia ali duas estradas Incas, uma em cada margem. A nossa levando a Machu Picchu, o caminho da peregrinação, e a outra que bifurcava uns quilómetros mais à frente, levando um ramo também para Machu Picchu enquanto o outro dava acesso à selva amazónica.

Enquanto admirávamos as ruínas, um comboio passou na linha férrea junto a estas, facto que mereceu um comentário encorajador por parte de Nilo: -"Aquilo é para turistas. Vocês são aventureiros!


Um Tambo, um local onde os mensageiros Incas, os Chaskis, passavam a sua mensagem em modo de estafeta ao mensageiro seguinte. Dado que os Incas não tinham sistema de escrita, a mensagem tinha de ser memorizada. 


Pouco depois do Tambo, chegámos a uma pequena comunidade agrícola onde os habitantes aproveitam o trilho para fazer algum dinheiro extra, vendendo suprimentos aos caminheiros, junto a telheiros em colmo que convidam a parar para descansar. Também disponibilizam a utilização de WCs por apenas 1 Sole (menos de 30 cêntimos).

Ali perto, um grupo de homens trabalhava afincadamente na produção de tijolos de adobe, amassando a terra e a palha com os pés, moldando os tijolos e pondo-os a secar ao Sol.


Trabalho de produção de tijolos de adobe. A terra, palha e água são amassados com os pés antes de serem moldados.

Depois de uns minutos de pausa para hidratar, retomámos a caminhada para enfrentar a primeira subida digna desse nome. Nesta altura já tínhamos assimilado a rotina a seguir aquando da ultrapassagem por carregadores (a quem deve ser sempre facilitada a passagem). À aproximação de carregadores, o último do grupo gritava "Porter!" e ia-se passando a palavra, encostando ao mesmo tempo, sempre para o lado da montanha, para o deixar passar.

O que não estávamos à espera era que, a meio de uma subida com traçado algo estreito, nos aparecessem em sentido contrário uns quantos cavalos carregados em passo apressado, seguidos de perto pelo dono que nos gritava "Cuidado amigos!". Tivemos de encostar o mais rapidamente possível para os deixar passar e não ganhámos para o susto.


A primeira subida. Consegue-se avistar um grupo de carregadores quase a chegar à plataforma. Com as recentes leis de protecção dos carregadores, cada um só pode transportar um máximo de 25kg mas, em situação de emergência, também transportam pessoas em dificuldades.


Vencida a subida, chegámos a o primeiro conjunto de ruínas do trilho. Trata-se de Wilkarakai , um local fortificado a partir do qual se domina a curva do vale do Urubamba e a foz do rio Kusichaka. Presume-se que tenha também sido um local onde os viajantes Incas, a caminho da cidade sagrada de Machu Picchu, poderiam parar para realizar rituais religiosos.

O que este sítio tem de fantástico é a vista que oferece para uma cidade situada no fundo do vale: Llactapata, um centro de produção agrícola com cerca de uma centena de construções e que terá sido o centro de um aglomerado populacional de aproximadamente 1.000 habitantes.

Entre o local onde nos encontrávamos e as ruínas de Llacatapata, ergue-se um monte com uma pequena plataforma no topo onde eram realizados sacrifícios. Era um local que se avistava facilmente de qualquer ponto do vale o que deixa supor a importância dos rituais aí levados a cabo.

Wilkarakai (do quechua Wilka="Neto", "da linhagem" + rakai ="ruína"), o primeiro conjunto de ruínas do trilho, oferece uma vista privilegiada para a cidade de Llactapata, na confluência dos rios Kusichaka e Urubamba. (Foto: Debby Brosko)


Um altar de sacrifícios no topo de um monte entre Wilkarakai e Llactapata. (Foto: Debby Brosko)




O nosso fantástico Nilo mostrando a cidade de Llactapata (do quechua "Llacta"=cidade + "pata"=local elevado, acima da margem do rio). Nesta cidade, agora ao abrigo de leis de protecção de património, foram encontradas mais de uma centena de construções


Ainda impressionados com aquela paisagem espectacular, e após as explicações pormenorizadas de Nilo, retomámos o caminho, descendo agora para a margem do rio Kusichaka. Já não faltava muito para o acampamento de Wayllabamba onde iríamos fazer a pausa para almoço.

Descida para o vale do Kusichaka. Conseguem ver o pequeno túmulo Inca na falésia?


O primeiro acampamento

Após alguns quilómetros, atravessámos o rio por uma ponte de madeira e avistámos de imediato a sinalética do local de acampamento. Sob ela, um dos membros da equipa Enigma agitava a bandeira para assinalar que ali seria o nosso local de paragem. 

Tinham sido uns primeiros quilómetros bem quentes e poeirentos mas a salva de palmas com que fomos recebidos por todos os membros do staff foi uma bela injecção de moral. Isso e o delicioso almoço que nos foi servido dentro da tenda de refeições.

A seguir ao almoço, durante a meia-hora de descanso que se lhe seguiu, estendemos-nos ao comprido na relva para relaxar e recuperar ao máximo as forças para a continuação da caminhada. Isto porque já sabíamos que nos esperava uma dura subida. Iríamos subir mais nos últimos 4km do que nos 11km que tínhamos feito até então, tudo isto agora acima dos 3.000 metros de altitude. Nada que uma bela chávena de chá de coca não ajudasse a superar.


A chegada a Wayllabamba, local de acampamento para almoço



A interminável escadaria!

Ao sinal dos nossos guias, e após a distribuição de água (fervida, claro) para encher os cantis, pusemos novamente as mochilas às costas e retomámos a caminhada, enquanto os carregadores ficavam para trás a desmontar o acampamento. Depressa pudemos experimentar uma subida íngreme, uma amostra daquilo que iríamos encontrar durante o resto do dia. Quem não pareceu muito incomodado foram os carregadores que, a dada altura e apesar de transportarem aquela carga toda às costas, nos ultrapassaram com facilidade.

À medida que subíamos, a vegetação que se concentrava inicialmente apenas no fundo do vale foi-se alargando cada vez mais. Lentamente, os arbustos foram dando lugar às árvores e a uma floresta lindíssima, facto que contribuiu para uma significativa queda de temperatura. Em contrapartida, o trilho transformou-se numa escadaria que parecia não ter fim.

Se o nosso grupo conseguiu apesar de tudo resistir às novas condições do trilho, a mesma sorte não teve outro grupo de cidadãos estado-unidenses que encontrámos no caminho e do qual alguns elementos estavam em nítidas dificuldades, levando-nos a partilhar água com eles e a "arrastá-los" connosco.

Foi já no início da floresta que vivemos um momento algo caricato. Quando menos esperávamos, dois lamas passaram a correr e em sentido descendente pelo nosso grupo, obrigado mais uma vez a improvisar uma escapatória e alguns mesmos a deitarem-se na encosta. Logo a seguir, e por ordem de altura, 3 crianças passaram igualmente por nós em perseguição aos lamas, sendo elas próprias perseguidas pela mãe, que não parecia muito satisfeita. Refeitos do susto, a risada foi geral.



O início da subida com alguns degraus só para aquecer. O pior viria depois.



Um bem-vindo momento de pausa, um pouco antes de entrarmos na floresta.



À medida que subimos, o trilho aproximava-se cada vez mais da floresta -e que floresta!-. Na vegetação luxuriante, destacavam-se as bromélias avermelhadas a crescer nas árvores. Segundo a explicação de Nilo, é costume no Peru usar-se as flores das bromélias para enfeitas as árvores de Natal: -"Venham ao Peru no Natal. É lindo!" rematou.





Já dentro da floresta, em plena escadaria, o autor deste blogue passando por uma cidadã estado-unidense de outro grupo, em nítidas dificuldades. Logo a seguir estava o guia desse grupo já com todas as mochilas do grupo às costas, tentando incentivá-los a continuar. Quando lhes perguntámos porque se tinham metido nesta aventura responderam com indignação -"Ficámos a saber deste trilho num blogue e lá diziam que era fácil!"


A chegada ao acampamento

Foi com o Sol já posto atrás das montanhas que alcançámos finalmente o acampamento onde iríamos passar a noite e onde já tudo estava pronto para nos receber. Mais uma vez fomos acolhidos com palmas e, sinal do espírito de grupo que entretanto se foi criando, recebemos da mesma forma os restantes membros da equipa à medida que iam chegando.

Vista parcial do acampamento com a tenda de refeições em primeiro plano. À chegada, tínhamos uma bacia com água e sabonete à porta de cada tenda e, antes de jantar, pudemos descontrair com um pequeno lanche com cacau quente ou chá (mas não de coca, que à noite não se recomenda).


Depois de nos terem sido atribuídas as tendas onde iríamos dormir, foi-nos servido um pequeno lanche onde o café e o chá caíram mesmo bem, para não falar das pipocas! À hora do jantar, mais uma vez delicioso, a conversa centrou-se sobre a proeza que tinha sido vencer aquela subida e a satisfação (tal como o cansaço) era indisfarçável. Toni, o nosso outro guia, lançou o briefing para o dia seguinte e também começou a revelar o seu apurado sentido de humor. -"Amanhã vamos continuar a subir até à Passagem da Mulher Morta". O nome intrigou-nos e levou-nos a perguntar o porquê do nome ao que, sem hesitar, Toni respondeu -"Ah, isso tem a ver com a primeira vez em que fui guia."

Foi pois um serão bem animado até à hora de ir dormir, não sem que antes nos fossem dadas algumas recomendações extra, relativas ao frio que se ia fazer sentir nessa noite, tal como o retirar todas as pilhas e baterias dos equipamentos electrónicos e guardá-los junto ao nosso corpo durante a noite para o frio não os descarregar.

Apesar de ansiosos pelo dia seguinte, adormecemos facilmente, vencidos pelo cansaço da subida. O dia seguinte seria igualmente exigente mas também seria memorável.


As tendas onde iríamos dormir. O nosso "chalet" era o segundo a contar da esquerda e, como podem imaginar, tinha uma vista magnífica.


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A seguir:

Da Mulher Morta ao santuário Inca de Sayacmarca

quarta-feira, outubro 14, 2015

Caminho Inca, Parte 4 - Do tesouro de Chinchero ao ouro branco de Maras

À medida que o dia do início da caminhada pelo trilho inca até Machu Picchu se aproximava, a ansiedade ia crescendo mas íamos aproveitando o tempo disponível da melhor forma. Depois da visita ao Vale Sagrado dos Incas no ter aberto o apetite, regressámos a Chinchero e descobrimos dois locais espectaculares que mudaram radicalmente a nossa visão do Império Inca.

Ainda entusiasmados com tudo o que tínhamos visto na recente visita ao Vale Sagrado, decidimos ir explorar o planalto de Chinchero com dois destinos bem definidos em mente: Moray e Maras. Logo pela manhãzinha, saímos de Cusco conduzidos pelos Sr. Jesus, uma pessoa extremamente simpática e com uma bagagem de conhecimento exemplar que não se cansou de partilhar connosco.

A saída de Cusco fez-se por uma zona mais pobre, que já conhecíamos do regresso da viagem pelo Vale Sagrado no dia anterior. As casas amontoadas, parecendo favelas, as ruas em terra batida e o muito lixo que se acumulava aqui e ali, formavam um cenário deprimente. Segundo a nossa guia, era uma consequência do súbito e incontrolado afluxo de pessoas que procuravam fugir, não só da pobreza da zona rural, como também da insegurança provocada pela organização terrorista Sendero Luminoso, que nas zonas mais remotas do Peru continua teimosamente a existir.


Ao cenário já por si caótico do bairro pobre junta-se o caótico trânsito peruano que pode ser descrito em duas palavras: tangentes e buzinadelas.


O colorido tesouro de Chinchero

A nossa primeira paragem foi em Chinchero. Ao contrário do dia anterior, onde pouco tínhamos visto, descobrimos desta feita algo que nos tinha então passado ao lado: a actividade têxtil tradicional que as artesãs desta comunidade mantêm bem viva na forma de associações locais. Logo à entrada de um dos vários centros de produção, fomos recebidos por um simpático grupo de alpacas, camelídeos muito parecidos com os lamas mas mais dóceis, mais pequenos e com uma lã muito mais suave e, por isso, muito apreciada. A diferença reflecte-se bem no preço das peças!


Um bicho com mais simpatia que bom gosto, a crer pelo penteado.

Fomos em seguida convidados a sentar sob um dos telheiros de colmo onde uma das senhoras nos serviu um chá de folha de coca acabado de fazer (e que até soube bem dado que estava assim para o frescote) e, enquanto bebericávamos esse chá, assistimos a uma pormenorizada explicação sobre o processo de fabrico artesanal dos tecidos andinos.

Sendo já claro que provinha de lamas, alpacas e ovelhas, ficámos a conhecer os processos de corte, lavagem, com "champô inca" que, segundo ela, -"Deixa a lã bem branquinha e mantém o cabelo das senhoras sempre preto." e, finalmente, a fiação. 

Já em fio, a lã pode ser tingida com várias cores, a maior parte de origem vegetal, havendo ainda outras de origem mineral e... até animal. A cor vermelha, por exemplo, é obtida a partir da cochonilha, o pequeno insecto parasita que não serve só para tingir tecidos. Também é usado como corante alimentar (quando encontrarem um tal de aditivo "E120" no rótulo de um alimento, já sabem do que se trata) e até como corante para cosmética, como aliás a Jessica fez questão de demonstrar, esmagando um pequeno grupo de cochonilhas e passando o resultado pelos lábios. -"Por aqui é um batom bem barato e fácil de obter. Dura 24 horas ou 100 beijos!", disse-nos, provocando uma risada geral.  


Para tingir a lã é necessário que esta ferva durante algum tempo numa infusão do corante que lhe dá o tom desejado. Após a secagem, a cor torna-se permanente, por muito que a lã seja lavada.


Concluído o processo, os fios são ordenados já tendo em mente o padrão de cores que se vai dar ao tecido, usando-se para isso duas estacas cravadas no chão. Daí sai directamente para o tear, um bem diferente daqueles a que estamos habituados, visto que uma das extremidades do tear é amarrada a um poste ou uma árvore enquanto a outra é amarrada à cintura da própria tecedeira. O resultado final é um tecido colorido com padrões diversos, cujo conhecimento é transmitido oralmente de geração em geração, simbolizando sempre algo relacionado com o universo andino, material ou não.



Preparação dos fios antes da passagem ao tear.



O tear típico, bem diferente dos nossos. os padrões são obtidos intercalado os fios do conjunto, conjugando devidamente a posição das ripas de madeira. Para evitar que os fios fiquem embaraçados, usa-se um osso pontiagudo, normalmente de lama. -"Este é de um turista que não nos quis comprar nada." atirou a Jessica com ar grave.



Na explicação pormenorizada dos padrões de uma peça que acabámos por comprar (nem poderia ser de outra forma, dado o amor que temos ao nosso esqueleto), descobrimos condores, lamas, garras de puma entre outros. 


Moray, um sofisticado laboratório de investigação agrícola


Pouco depois de termos saído de Chinchero com destino a Moray, trocámos a estrada de alcatrão por uma de terra batida que percorre o planalto à vista dos montes nevados envolventes. O sítio de Moray não se avista senão de perto, dado que foi construído aproveitando algumas depressões naturais do terreno. Isso faz com que o impacto visual do sítio seja bastante forte, mesmo que saibamos o que vamos ali ver. A dimensão e organização dos vários socalcos em círculos concêntricos, num total de quatro grupos, um maior e três mais pequenos, é impressionante!

Mas pare que servia afinal este local? A hipótese mais comummente aceite é que se tratava de um laboratório agrícola, destinado a testar a adaptabilidade das várias espécies cultivadas a diferentes climas e altitudes, permitindo seleccionar as melhores sementes para as diferentes zonas do Vale Sagrado. Esta tese apoia-se em parte na diferença de temperatura que é possível registar entre socalcos do mesmo grupo.

Nestes socalcos foi construído um elaborado sistema de irrigação, cujos canais chegavam a todas as plataformas de cultivo, sem excepção.


O impacto visual do sítio é tremendo! Ampliando a foto (com um clique) é possível ver algumas pessoas junto aos socalcos, o que dá uma noção da escala.


Quanto à drenagem, o próprio solo já por si era bastante poroso, o que facilitava o processo. Ainda assim, os Incas aplicaram aqui o sistema habitual de construção dos socalcos com camadas de diferentes tipos de solos. As primeiras camadas eram de materiais que facilitavam a drenagem (pedra e areão) e sobre estas era colocado o solo fértil para cultivo.



Outra perspectiva do maior grupo de socalcos, com vista das montanhas para lá do Vale Sagrado.


O ouro branco de Maras

Deixando Moray para trás, seguimos viagem rumo a Maras, para visitar um local cuja importância sobreviveu ao passar dos séculos sendo ainda hoje fundamental para a economia local. Trata-se das Salinas de Maras, um local de extracção de sal por evaporação da água, a mais de 3.000 m de altitude!



Depois de passarmos pela pequena comunidade de Maras, chegámos à vista das Salinas por uma estrada estreita e com dois sentidos de circulação, sem qualquer barreira de protecção que nos separasse da ravina, o que fez com que alguns dos passageiros soltassem algumas expressões de inquietação quando o Sr Jesus tinha de conduzir mais próximo da berma.

As Salinas de Maras, com o Vale Sagrado em segundo plano

As Salinas de Maras funcionam ininterruptamente há já alguns séculos. Presume-se que o sal já seria aqui explorado antes da chegada dos Incas, que continuaram a actividade mas aperfeiçoando o processo, implementando um sistema de pequenos tanques escalonados. A exploração é sazonal, fazendo-se somente na época seca, de Maio a Novembro. Durante a estação das chuvas, o caudal da água destrói muitos dos tanques, obrigando à sua reconstrução antes do retomar dos trabalhos na época seguinte. 

É interessante constatar que todo este conjunto é alimentado por um pequeno curso de água que brota na zona mais alta do vale e que depois percorre o intrincado sistema de canaletas entre os tanques de extracção de sal, sendo redireccionado conforme as necessidades. A salinidade desta água resulta do contacto de um lençol freático com um depósito salino subterrâneo, gerado pelo aprisionamento de grandes quantidades de água do mar durante o processo de formação das montanhas, há cerca de 110 milhões de anos atrás. 


A nascente do curso de água que alimenta as Salinas de Maras. Na foto percebe-se bem seu o teor de sal, que quase provoca hipertensão só de olharmos para ela.

Às famílias de Maras cabe ainda hoje a responsabilidade de explorar o sal deste local, o que não quer dizer que um forasteiro não possa também aqui trabalhar. Para tal, tem de pedir autorização à comunidade local que depois decide sobre a concessão ou não de um tanque que esteja livre.

A beleza deste local, com os tons brancos e rosados (resultantes dos vários minerais que a água transporta) que contrastam com o ocre predominante no meio envolvente, é quase hipnótica.



Um trabalhador transporta o sal para o topo do vale.



Momento de pausa, tanto no pequeno abrigo como ao longe, entre montes de sal.



Os canais de circulação de água entre os tanques são aqui bem visíveis.


A postos para o Trilho!

Com as visitas ao Vale Sagrado e aos arredores de Cusco, rapidamente chegámos ao dia da véspera da nossa partida. Como combinado, ao fim da tarde fomos até à sede da agência que tínhamos contratado para nos acompanhar ao longo do trilho, para o briefing prévio.

Tratou-se do primeiro contacto com o grupo e com um dos guias, que nos deu as informações essenciais sobre o percurso e sobre como iriam decorrer as etapas. O primeiro contacto com aqueles que viriam a ser os nossos companheiros permitiu-nos perceber que ali tínhamos todos algo em comum: estávamos ansiosos pelo início da caminhada!



A seguir:


O início do trilho!

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