domingo, setembro 27, 2015

Caminho Inca, Parte 2 - Da cabeça do Puma ao Templo dos Macacos.

Após dois dias no centro histórico de Cusco, decidimos que era altura de sair da cidade e enfrentar a encosta para explorar o planalto que dominava a cidade. Tínhamos como objectivo visitar dois sítios arqueológicos que sabíamos estarem ali mas, afinal, acabámos por descobrir que aquele planalto escondia muito mais que isso.


O percurso começou com a subida à "cabeça" do Puma de que a planta da antiga capital inca de Qosqo tem a forma, percorreu o planalto sobranceiro à cidade e terminou com o regresso pela antiga estrada real Inca do Antisuyu (a amarelo) que leva à actual Plaza de Armas, num circuito total de 8km entre os 3400 e 3650m de altitude.


A jornada começou com uma falsa partida. Saindo de San Blas, fomos caminhando em direcção à colina onde se situava o nosso primeiro objectivo, a cidadela de Saqsaywaman. A subida foi ficando mais inclinada até chegarmos a mais uma rua onde os passeios eram escadarias. Com o Sol já forte, chegámos ao ponto de entrada do sítio, apenas para descobrirmos que, não só não tínhamos dinheiro suficiente como, ainda por cima, não era possível pagar com multibanco. Foi pois necessário regressar a Cusco para levantar dinheiro, voltando depois a subir aquela mesma rua tipo "quebra-costas".


A partir da Plaza de Armas de Cusco, avistam-se os patamares de Saqsaywaman, no alto do monte situado para lá da igreja de São Cristóvão. Esta igreja foi ela própria construída sobre um antigo palácio Inca.

Percebeu-se então que aquela rua estreita tinha dois sentidos de trânsito, quando um carro que subia se deparou com uma pequena carrinha que vinha a descer e, acto contínuo, todos os ocupantes da carrinha saíram para a empurrar já que por si, dada a inclinação da rua, a carrinha não conseguia fazer marcha-atrás.

Chegando novamente à entrada do sítio, entrámos finalmente em Saqsaywaman, a grande cidadela a partir da qual se domina o vale de Cusco.


Saqsaywaman, a cidadela imperial


O recorte em ziguezague dos muros ciclópicos de Saqsaywaman.

A partir da entrada, que afinal era uma entrada secundária, um caminho levou-nos à recepção principal do sítio, onde, como é regra, os vendedores ambulantes de produtos "típicos" e as pessoas vestidas a rigor e com ovelhas bebé ao colo para a fotografia, a troco de uns soles, marcavam presença. Ao chegarmos, um homem abordou-nos oferecendo os seus préstimos como guia. Como não tínhamos grande informação sobre a cidadela, negociámos o valor e aceitámos a sua companhia, o que acabou por trazer algum valor acrescentado à visita. Já vão ver porquê.



José Luiz, o nosso guia em Saqsaywaman, junto à Porta do Sol (ao fundo à direita).


De acordo com a informação oficial, Saqsaywaman foi, durante o apogeu do Império Inca (Tahuantinsuyu), o local mais importante fora da capital Qosqo (Cusco). Foi consagrada por volta 1460 como Casa do Sol pelo 9º e maior Inca, Pachacutec embora a sua construção tenha sido apenas terminada após uma sucessão de 3 dos seus descendentes. Ao redor da cidadela foram ainda encontrados vários túmulos reais.

Convém referir que a religião oficial do Tahuantinsuyu tinha como divindade principal o Sol, sendo também adorados a Lua, as Montanhas, entre outros mas disso falarei mais em pormenor nos próximos artigos. Aqui, vários deles eram adorados já que  Saqsaywaman foi um grande centro cerimonial de carácter sagrado, cumprindo funções de sede central da religiosidade Inca. Para além disso, era também um local determinante da vida política e social do Império. Ainda hoje este local é o centro de cerimónias mais ou menos escondidas, como se pode deduzir da quantidade de folhas de coca que encontramos depositadas nas cavidades das zonas religiosas.

Subsistem no entanto várias dúvidas sobre a função de várias das estruturas que nos últimos anos foram encontradas, até porque quando os católicos espanhóis aqui chegaram, fizeram questão de saquear e destruir os locais sagrados dos Incas. A própria cidadela forneceu a pedra com que se construiu a Catedral de Cusco, para além de, depois disso, ter sido a pedreira predilecta da cidade. Diz-nos José Luiz que "havia pessoas encarregadas de vender a pedra deste local. Isto chegou ao cúmulo de, já com escavações arqueológicas em andamento, se estar ainda a vender pedra por 5 ou 6 soles". A destruição de Saqsawaman foi ainda potenciada pelo facto de, perplexos com a dimensão e qualidade da construção, os espanhóis não terem acreditado que a construção tinha sido feita pelos "índios", que eram tidos como primitivos e inferiores, mas antes por obra do Demónio. Hoje em dia, como o Demónio é um conceito ultrapassado, há quem acredite que foram na verdade seres extra-terrestres os responsáveis pela construção de Saqsaywaman.

Parece já afastada a hipótese de este local se tratar de uma fortaleza, pelo menos na sua função original. Segundo José Luiz "Vocês na Europa, vêem um grande muro no alto de um monte e pensam logo que é uma fortaleza. Quando os espanhóis aqui chegaram pensaram o mesmo mas não é nada disto que se trata. Vejam os muros, o recorte em forma de relâmpago. Faz sentido que isto seja uma fortaleza? Só o terá sido durante a revolta do Inca Manco Qapac contra os espanhóis, quando ele se entrincheirou aqui mas por pouco tempo. Este sítio não era fácil de defender."

Quanto à construção do sítio, José Luiz alinha com as teses mais defendidas: terão trabalhado neste local mais de 20.000 quechuas, divididos entre tarefas de talhe, transporte e colocação dos blocos. 

Enquanto falamos, Jose Luiz leva-nos até um aglomerado de rochas onde se distinguem plataformas talhadas cujo propósito se perdeu. Seriam locais para colocação de objectos de culto? Divindades? Múmias dos antepassados? Através de um corredor que se estreita cada vez mais, chegamos à entrada de um túnel toscamente talhado. 

José Luiz pergunta-nos -"São claustrofóbicos? Não? Então vamos entrar e percorrer o túnel. Não temos luz mas você (apontando para a Ana) agarra a minha camisa e o seu marido agarra em si e vamos entrar.". Enquanto percorremos o túnel, completamente às escuras, explica-nos que eram passagens usadas entre diferentes áreas, sendo que o local onde tínhamos estado antes, seria uma área de acesso reservado aos sacerdotes.

A Ana a confirmar a qualidade da construção dos túneis de Saqsaywaman


Chegamos a um novo espaço aberto e depois mais um túnel. -"Este é pequeno. Não chegamos a ficar às escuras.". Em poucos segundos estamos fora e contemplamos aquilo que parece ser um anfiteatro. Trata-se do Qocha, o templo principal do culto da água, um dos cultos mais importantes no tempo dos Incas, local onde tinham lugar as cerimónias fundamentais deste culto. Para lá deste espaço avistamos um grande afloramento rochoso que nos chama a atenção. José Luiz incita-nos a continuar na direcção dessa formação geológica.



O Qocha, o templo principal do culto da água.

Chegamos assim ao Suchuna ou Rodadero. Trata-se de uma formação de andesito, uma rocha assim chamada em alusão aos Andes, que se formou pela saída e solidificação de magma, o que explica as estrias que formam a mais peculiar característica deste bloco. As estrias mais compridas têm sido usadas desde há séculos como escorregas naturais e nós também não resistimos à tentação de experimentar aquilo que o cronista Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616) referiu como sendo um dos passatempos predilectos das crianças de então.



As estrias extremamente polidas por séculos de utilização do Rodadero formam um fantástico escorrega natural. É obrigatório experimentar, à semelhança daquilo que o cidadão português da foto está valentemente a fazer.


Depois de atravessarmos o grande espaço aberto da esplanada Maskabamba, chegamos finalmente junto das "muralhas" em ziguezague. A dimensão dos blocos de andesito, alguns pesando centenas de toneladas, é assombrosa e a perfeição do encaixe das suas formas irregulares. Só a título de exemplo, o maior bloco do conjunto mede 9 metros de altura por 5 de largura e tem um peso estimado de 360 toneladas. Um feito! Mas atenção que este tipo de construção só era empregue em locais realmente importantes. Voltarei e este tema nos próximos artigos.



Um dos blocos gigantescos dos muros inferiores de Saqsaywaman. 




A única porta intacta do complexo: a Inti Punku ou Porta do Sol (do quechua Inti=Sol, Punku=Porta). Na arquitectura inca, a inclinação dos muros e as formas trapezoidais das portas e janelas não eram meramente estéticas, já que isso tornava as construções resistentes a sismos. 


Vista da esplanada Maskabamba, onde anualmente se realiza o Inti Raymi, a Festa do Sol. Esta cerimónia celebra o solstício de Inverno (21 de Junho) e recria a antiga cerimónia Inca que pedia aos deuses a dádiva de boas colheitas e bom governo. O que já não é recriado é o sacrifício de lamas (havia preferência por animais de cor preta).


Entrando na cidadela subimos ao ponto mais importante, o Muyuqmarka, onde se situava o templo do Sol. Aqui erguia-se também uma torre que, segundo os cronistas, teria 4 andares e estaria inteiramente revestida de ouro. Nela situava-se um reservatório de água, com capacidade estimada de quase 50.000 litros, saindo dele uma série de canais que levavam a água às diferentes partes de Saqsaywaman. Os espanhóis destruíram estas construções até aos alicerces.


Muyuqmarka (do quechua Muyuk=circular, Marka=local) onde se erguia uma grande torre de 4 andares, num complexo que incluía ainda o Templo do Sol. Este era o sector mais importante de Saqsaywaman.

Antes de entrarmos na cidadela, despedimos-nos de José Luiz, não sem quem este nos desse umas últimas indicações sobre o caminho a seguir para chegar a outros sítios que havia ali por perto: Qenqo, o Templo da Lua e Kusilluchayoc. O objectivo inicial era ir apenas ate Qenqo mas ficámos curiosos em relação aos dois últimos e decidimos por isso prolongar o percurso.

À saída das ruínas, encontrámos um dos responsáveis pela corte da relva do sítio arqueológico de Saqsaywaman: um Lama. Serviço ininterrupto barato e ecológico. 


Qenqo, o labirinto de pedra

Depois de nos termos abastecido com barrinhas de cereais artesanais numa das vendedoras em Saqsaywaman, seguimos por um caminho de terra batida até uma estrada, seguindo depois por esta até Qenqo. Antes de chegarmos a Qenqo, avistámos um conjunto de ruínas que nos chamou a atenção. Tratava-se do sítio conhecido como Qenqo Chico, o Qenqo Pequeno.

Sobre este local pouca ou nenhuma informação encontrámos para além do que vimos. O que resta de um grande muro, delimitando uma zona oval onde as construções há muito desapareceram, ficando apenas os  cortes nos afloramento rochoso, alguns nichos e escadarias.


Qenqo Chico, um misterioso sítio a partir do qual se tem uma vista privilegiada para as zonas mais recentes de Cusco, incluindo o estádio Garcilaso de la Vega


As escadarias e altares de Qenqo Chico

Logo ali ao lado, encontra-se Qenqo, este sítio sim, com muito mais para contar. Este era um santuário que já existia antes da chegada dos Incas e a cuja utilização estes deram continuidade. No maciço rochoso encontram-se inúmeros canais, escadarias e cavidades, que estariam associados ao conjunto de ritos religiosos nos quais era usada a Chicha, uma bebida sagrada feita de milho e que hoje, de forma menos sagrada, se pode provar um pouco por todo o lado. Basta encontrar uma casa que tenha uma bandeira ou pano vermelho pendurado no exterior e bater à porta.


O complexo religioso de Qenqo (em quechua, "Labirinto")

Em Qenqo, destaca-se uma área semelhante a um teatro. Embora pareça um espaço semi-circular com 19 cadeiras, na verdade existia aqui uma área delimitada por um muro algo com 19 nichos onde eram colocadas representações de diferentes divindades. A dominar o espaço está um monólito tosco, provavelmente desfigurado pelos espanhóis, que deveria ter a forma de um animal, um puma ou um macaco.


O "teatro" de Qenqo e o monólito zoomórfico. 


Outra perspectiva do "teatro", a partir do exterior.

Contornando o espaço, chegamos à entrada do espaço interior, feito de passagens sinuosas e salas mais ou menos largas. Neste espaço extremamente fresco encontra-se um grande altar sobre o qual se acredita que fossem feitos sacrifícios, tanto de humanos como de animais



A prática de sacrifícios era comum durante o Império mas era sobretudo praticada com animais. Os sacrifícios humanos eram apenas realizados em situações mais extremas, quando os deuses precisavam de ser apaziguados, ou em ocasiões de grande importância, como no solstício ou no equinócio, e para os que se ofereciam ao sacrifício, isso constituía uma grande honra.



O altar de sacrifícios no interior do santuário de Qenqo, um local sagrado que seria de acesso reservado a sacerdotes.


Terminada a nossa visita a Qenqo e dado que não sabíamos exactamente qual o caminho a seguir para chegarmos ao Templo da Lua e a Kusilluchayoc, perguntámos às duas senhoras que estavam no guichet de recepção qual era o caminho. Para o templo a sua resposta foi pronta mas foi algo caricato perceber que elas não sabiam exactamente onde se situava o segundo local. Após alguma reflexão uma delas pareceu finalmente lembrar-se onde ficava mas não se coibiu de emitir um aviso "Mas olhem que isso fica ali no meio da floresta e aquilo é um bocado perigoso. É melhor não irem lá.".

Optámos por ignorar o aviso e continuar o nosso caminho, dirigindo-nos ao Templo da Lua.


Templo da Lua e Kusilluchayoc, o "Templo dos Macacos"


A partir de Qenqo, o caminho de terra batida transforma-se num trilho algo irregular que corre ao longo de uma pradaria. Como em Qenqo, Templo da Lua foi construído ao redor e sobre um maciço rochoso destacado na paisagem, contendo também grutas que foram adaptadas e onde se encontram altares, provavelmente também para sacrifícios. As características das grutas sugerem uma conotação feminina do local, sendo possivelmente um local onde decorriam rituais relacionados com a fertilidade.

Chegados ao local, subimos ao topo do maciço para nos sentarmos e descansar um bocado, afinal, o calor apertava já tínhamos algumas horas de caminhada nas pernas. 


A caminho do templo da Lua.



As construções adjacentes ao maciço rochoso do templo da Lua, indiciando trabalhos de restauro.


Ao descermos, encontrámos um dos guardas que patrulham regularmente a zona arqueológica e aproveitámos para lhe perguntar o caminho até Kusilluchayoc. Com um sorriso largo, uma constante por aquelas bandas, indicou-nos um caminho que passava ali perto, delimitado por dois muros. -"É a estrada Inca. O templo dos macacos fica lá à frente, à beira dele".

Seguimos até ao caminho, passando por uma seara de quinoa, o "trigo dos Incas", em cuja colheita estavam várias pessoas a trabalhar. A cor ocre da seara destacava-se -e de que maneira!- no amarelo-baço da pradaria.



A colheita em curso na seara de quinoa, a mais de 3600m de altitude.



Qapac Ñan, a Estrada Real dos Incas aqui admiravelmente conservada


Chegando a Kusilluchayoc, o cenário repete-se: um maciço rochoso, estruturas anexas, vestígios sobre as rochas e cavidades com altares. Na parte central do conjunto, numa ampla abertura, agora a céu aberto, encontra-se um monólito, semelhante ao de Qenqo no qual se encontram em relevo várias figuras: uma que poderia realmente corresponder a um macaco e algumas serpentes. As serpentes, juntamente com os condores e os pumas, faziam parte da trilogia dos animais sagrados dos Incas, sendo vistas como animais capazes de comunicar entre diferentes planos de existência, longe da aura maléfica que lhe passou a ser atribuída com a chegada dos europeus.


As estruturas exteriores do templo aqui com um tipo de construção radicalmente diferente daquilo que se encontra em Saqsaywaman e no centro de Cusco, por exemplo.



O monólito com as serpentes e o macaco (não visível) que também neste sítio se encontra em lugar de destaque mas igualmente com sinais de ter sido vandalizado aquando da purga de idolatria posta em prática pelos espanhóis.

Após as visitas, era finalmente hora de regressar a Cusco para algum descanso antes do jantar. Sabíamos que, pela lógica, se continuássemos a seguir o caminho, inevitavelmente chegaríamos ao centro de Cusco mas não conhecíamos o estado do caminho nem sabíamos se este tinha continuidade para lá do que conseguíamos ver.

Um habitante local que por ali passava com uma criança aos ombros desfez as dúvidas, confirmando-nos o bom estado do caminho. Seguindo-o (dentro do possível dado que, apesar de transportar uma criança, tinha um ritmo de caminhada de fazer inveja), depressa chegámos à periferia de Cusco e, após alguns minutos, estávamos de volta a San Blas.


À chegada aos bairros periféricos de Cusco, o traçado da estrada inca muda radicalmente.


Cansados, é certo, mas fascinados com tudo o que tínhamos visto e também intrigados por não termos encontrado o menor indício dos perigos para os quais tínhamos sido avisados em Qenqo. Entretanto, o melhor ainda estava para vir.


A seguir: 

O Vale Sagrados dos Incas e as cidades que desafiam a imaginação e a gravidade

quinta-feira, setembro 24, 2015

Caminho Inca, Parte 1 - Cusco, o Umbigo do Mundo

Cusco, com o Centro Histórico em primeiro plano.


"Bem-vindos à Cidade Imperial de Cusco"

A voz do comandante que se ouviu à chegada, através dos altifalantes do avião, deu logo a entender que esta não é uma cidade qualquer. Cusco é actualmente um dos pilares da identidade peruana e, tanto na Constituição da República como no coração dos andinos, esta é ainda a capital histórica do Peru, a Qosqo a partir da qual os Incas controlaram um império que se estendia da Colômbia à Argentina. Bem a propósito, o seu nome significava o Umbigo do Mundo.

Para além de querermos conhecer a cidade, também pretendíamos, com a nossa estadia de 6 dias, adaptar-nos à altitude de forma a podermos apreciar da melhor forma o Caminho Inca sem termos de lidar com o Soroche, o "mal das alturas". Afinal, Cusco situa-se a 3.400 m de altitude e muitos são os que aqui experimentam fortes dores de cabeça, náuseas e fadiga devido à falta de oxigénio. O plano passou por explorar apenas o centro histórico e os museus da cidade nos primeiros dois dias, alargando depois o nosso raio de acção a visitas guiadas e caminhadas autónomas pelos arredores.

Uma das formas de combater o Soroche passa pelo consumo de folhas de coca, mascadas ou em infusão, como manda a tradição local. Aliás, foi possível encontrar logo no hall de entrada do nosso hostel (ver aqui) um cestinho cheio destas folhas e um dispensador de água quente, do qual nos podíamos servir livremente. Certo é que a infusão de coca passou a fazer parte da nossa rotina matinal diária (sem abusar, claro, não fôssemos nós cair na tentação de encetar diálogos com lamas imaginários), tanto em Cusco como no próprio Caminho Inca, e em momento algum sentimos os efeitos nocivos da altitude.

Cusco é uma cidade de extremos. Com um centro histórico magnífico, classificado pela Unesco como Património da Humanidade, a cidade está ao mesmo tempo rodeada por bairros pobres, encavalitados nas encostas que rodeiam o vale de Cusco.

Para lá do centro histórico, estendem-se os bairros mais pobres, com ruas de terra batida entre outras infra-estruturas precárias. Um dos problemas mais graves de Cusco, que salta bem à vista, é o sistema de recolha de lixo, que faz com que este se vá amontoando nas ruas, tendo depois de ser retirado com escavadoras e camiões.


A dois passos do Centro Histórico, em San Blas, o cenário é bem menos monumental mas bastante pitoresco


Quando se passeia pelas suas ruas, o que salta imediatamente à vista são os inúmeros vendedores de rua, que oferecem desde peças de artesanato a visitas guiadas e massagens, e o trânsito caótico. De facto, no Peru não parece haver particular interiorização das regras de prioridade, tanto entre veículos como entre veículos e peões mas, pelo menos, isso permitiu que eu finalmente conhecesse com rigor o conceito de tangente. Outro aspecto significativo: os peruanos parecem ter a buzina ligada aos pedais. A todos. Talvez até à alavanca de mudanças. O não respeito pelas passadeiras é outro facto gritante, ficando-se com a impressão que estas se destinam simplesmente a assinalar o ponto onde os peões deverão atravessar a rua por sua conta e risco.

Por estas bandas é um hábito proteger o tablier dos carros com uma capa têxtil, tal como pendurar amuletos no retrovisor, sempre protegidos em plástico para não apanharem pó. A título de exemplo em relação à flexibilidade dos preços, à chegada, na nossa fase "maçaricos", uma viagem entre o aeroporto e o centro custou-nos 40 soles (cerca de 12 euros) mas no sentido inverso ficou-nos por apenas 10 soles (cerca de 3 euros).


Os táxis também são fáceis de detectar. Não temos de chamar por eles pois basta-lhes ver alguém à beira da estrada para logo darem uma curta buzinadela e fazerem sinais de luzes, à espera de uma resposta para encostarem. Claro que é aconselhável escolher táxis oficiais e não os veículos sem qualquer identificação, por uma questão de segurança. Quanto às tarifas, não possuem taxímetro. Como tudo o que se vende na rua e até nas lojas (ou até em restaurantes, como nos aconteceu), o preço é sempre negociável e convém fazê-lo antes de entrar no veículo.


O Centro Histórico de Cusco.

A Basílica Catedral da Virgem da Assunção domina a Plaza de Armas, a praça principal da cidade. A catedral, tal como quase todas as igrejas da cidade, foram construídas sobre edifícios de poder ou de culto dos Incas, neste caso sobre o templo-palácio de Viracocha e sobre o Suntur Wasi, o arsenal da cidade inca. Não, a bandeira da esquerda não é a bandeira do orgulho gay mas sim a bandeira de Cusco. Esta última tem 7 cores, contra 6 da primeira.


Como já foi dito atrás, Cusco foi em tempos a capital do Império Inca. Convém dizer que a generalização do termo "Inca" se deve aos invasores espanhóis aqui chegados no século XVI. Na verdade "Inca" era o nome que os súbditos davam aos seus governantes, sendo o governante máximo (o "imperador") chamado de "Sapa Inca". O império era designado por Tahuantinsuyu, literalmente "as 4 partes" ou "as 4 regiões".

Embora haja vestígios que fazem recuar a ocupação de Cusco a até 3.000 anos atrás, foi com o grande Inca Pachacutec que a cidade se tornou o centro do império. Do seu centro, a actual Plaza de Armas, saíam as 4 estradas reais que levavam aos 4 "suyus", Chinchasuyu a Norte, Kuntisuyu a Oeste, Qullasuyu a Sul e Antisuyu a Este, esta a região da qual fazia parte a cidade de Machu Picchu.

Estas estradas estão ainda hoje bem identificadas em Cusco e é possível percorrer uma considerável extensão das mesmas. Esta rede viária, que no seu auge cobriu mais de 30.000 km está também classificada como Património da Humanidade pela Unesco. Durante a nossa estadia, palmilhámos várias dezenas de quilómetros da estrada do Antisuyu, tanto em Cusco como a caminho de Machu Picchu.

Entre a Hatunrumiyoc e a Cuesta San Blas, vemos no chão um dos símbolos que assinalam a antiga rede viária inca, neste caso a estrada para o Antisuyu. O símbolo do Puma diz respeito ao formato da planta da cidade enquanto capital Inca, semelhante a este felino. Quanto à Cuesta San Blas, pelo incontável número de vezes que a subimos, podemos dizer que se tratou de um excelente local de treino para o Caminho Inca.


Em muitas das paredes exteriores e até interiores dos edifícios é possível ver ainda a marca construtiva dos Incas, contrastando o aparelho menor e regular dos períodos colonial e pós-colonial com as grossas paredes inclinadas de pedra irregular do período Inca.


Na Hatunrumiyoc, o impressionante aparelho construtivo inca da parede do actual Palácio Arcebispal não passa despercebido. Trata-se do que resta de um palácio Inca que se viu consideravelmente reduzido em altura para dar lugar ao edifício actual. O reduzido tamanho das pedras de base, os encaixes perfeitos e sem argamassa das maiores (com um segredo bem interessante do qual falarei depois) e a inclinação dos muros tinham um objectivo maior que ia para além do meramente estético: era uma construção à prova de sismos. Já agora, conseguem ver as protuberâncias nas bases das pedras maiores? Sabem para que serviam? Mais à frente também direi.


O Qurikancha (ou Qorikancha) era o mais importante espaço religioso da capital Inca. Fundado pelo grande Inca Pachacutec, era um conjunto de templos rodeados por um alto muro exterior coberto por folha de ouro. Quando os espanhóis chegaram, o ouro foi pilhado e sobre o complexo foi construído o Convento de São Domingos, visível na foto sobre o tal muro exterior do antigo complexo. No seu interior parte dos antigos templos foi devolvida à luz do dia.


Dentro do espaço do Qurikancha encontramos a mais pequena pedra do Tahuantinsuyu.


No interior do espaço do Qurikancha, revela-se o segredo da coesão dos muros incas. Para além de um talhe perfeito das pedras para encaixarem umas nas outras sem qualquer folga, eram trabalhadas como "legos" (para encaixar nos espaços côncavos na parte inferior haveria pedras talhadas com protuberâncias) e a ligação também podia ser reforçada com a aplicação de metal derretido, provavelmente cobre, em espaços como o que se vê na parte superior.



Em Cusco não nos sentimos de modo algum inseguros. Nas ruas há sempre várias forças polícias em patrulha: Polícia de Trânsito, Polícia Turística, Polícia Nacional, Polícia Municipal, etc. Falando desta última, é caricato assistir ao jogo do gato e do rato em que se envolve com os vendedores ambulantes. Sendo vistos como actores indesejáveis das ruas de Cusco, foi feita legislação para proibir a presença desses vendedores mas, no terreno, a lei não é totalmente posta em prática. Quando se aproxima de um vendedor que tem os seus produtos expostos ou está a tentar vender algo a um turista, o agente da polícia apita. Acto contínuo, o vendedor recolhe o seu produto ou cessa a venda com um ar de um certo constrangimento para, logo após a passagem do agente, voltar a expor os seus produtos ou retomar a negociação interrompida.



Um agente da Polícia de Trânsito e uma mota tipo "Famel" com aspecto de quem se prepara para "dar gás".


Por outro lado, a sensação de segurança é reforçada pela enorme simpatia dos habitantes locais, sempre com um sorriso na boca e disponíveis para ajudar quem quer que precise. Constatámos que até quando recusamos os produtos dos vendedores de rua, estes nunca se negam a dois dedos de conversa ou a dar indicações se lhas pedirmos. É impossível não gostar dos cusquenhos. Claro que na periferia há sempre zonas inseguras mas, durante toda a nossa estadia, não tivemos qualquer tipo de problema e também não temos qualquer razão de queixa do tratamento que nos foi dado, bem pelo contrário.


A Alimentação

Em Cusco descobrimos as delícias da gastronomia peruana. A partir de meia-dúzia de soles é possível comer uma boa refeição mas também não faltam locais para comida mais rápida. Pudemos provar as sopas -as crioulas e a de quinoa foram as nossas favoritas-  e alguns pratos mais picantes mas o ceviche, um prato de peixe cru marinado em limão e com picante, ficou nas papilas gustativas. Apesar de tudo, o nosso restaurante de eleição foi sem dúvida o Green Point, um restaurante vegan que, por sorte, ficava mesmo ao lado do nosso hostel (ver aqui). 

Os mercados típicos são também um local a considerar para comprar fruta fresca. Não tentámos nem aconselhamos as cantinas que aí se encontram, onde toda a gente come ao monte, em condições um pouco duvidosas. Tanto aí como na secção dos talhos e queijarias, vêem-se coisas que fariam qualquer agente da nossa ASAE ganhar o dia, embora me pareça que em certos aspectos somos realmente um bocado picuinhas. 


Um dos muitos locais de venda de sumos de fruta, este no mercado típico de San Blas. Por 4 ou 5 soles tivemos direito a dois grandes copos de sumo.


As bancadas de venda de fruta dão um colorido atractivo aos mercados.

Não nos furtámos no entanto aos sumos de fruta e é impressionante ver a quantidade de estabelecimentos que os servem, com as senhoras a acenarem-nos para chamar a nossa atenção. Nas ruas de Cusco também se podem comprar maçarocas de milho cozidas, bolos e, à noite, com a temperatura a cair drasticamente, sabe sempre bem uma infusão de ervas bem quentinha.  

Uma infusão de ervas serviu para aquecer na noite fria de Cusco. Continuo sem saber o que continha o copo. Apenas sei que tinha um pouco de cada uma das garrafas e que sabia muito bem.



Os Museus

Vasos Nasca (200 a.C. a 600 d.C) com representação de demónios, Museu de Arte Pré-Colombiana, um museu que aborda a evolução da expressão artística dos povos nativos nos mais variados materiais e objectos de uso quotidiano.


Durante a estadia em Cusco visitámos 3 dos vários museus da cidade: o Museu de Arte Pré-Colombiana, o Museu Inka e o Museu Histórico Regional. Para tirar o máximo partido destes e outros pontos de interesse é fundamental comprar o "Boleto Turístico", um bilhete geral válido por 10 dias e que permite a entrada num total de 16 sítios, a um preço bem mais reduzido do que aquilo que se pagaria por entradas individuais em cada um desses locais. Nós entrámos apenas em 9 e mesmo assim compensou largamente o valor pago.

Cada museu oferece uma visão diferente sobre o período pré-hispânico e sobre o período colonial, complementando-se de certa forma. Foi interessante constatar que, para os peruanos, o período colonial é encarado como um período de ocupação por uma potência estrangeira ao qual eles, descendentes dos Incas derrotados no século XVI, conseguiram pôr cobro após muito esforço . Trata-se ao fim e ao cabo do mesmo sentimento com que nós, portugueses, falamos do domínio Filipino de 1580-1640 e da consequente restauração. Os peruanos apenas demoraram mais tempo a restaurar a sua independência. 


A seguir: 

Por entre muralhas ciclópicas, altares de sacrifícios e túneis completamente às escuras.

quarta-feira, setembro 02, 2015

Em Almeida, como há 200 anos, o castelo medieval voltou a explodir

No último fim-de-semana, a vila de Almeida, a histórica estrela de pedra sentinela da fronteira, foi palco de mais uma recriação do cerco pela tropas napoleónicas de1810. O espaço dentro das muralhas voltou ao passado, enchendo-se de comerciantes e soldados trajados a rigor e, como sempre acontece, houve lugar à encenação dos combates. No Sábado fomos até lá para assistir à batalha nocturna mas, quando menos esperávamos, o foco da nossa atenção acabou por se virar para algo totalmente inesperado.




Os comerciantes eram em grande número junto ao antigo quartel militar


Todos os anos, a vila fortificada de Almeida regressa ao século XIX. Trata-se da recriação histórica que evoca a 3ª Invasão Francesa, que aqui teve um dos seus palcos principais, desde o Combate do Côa, com a retirada quase desastrosa das tropas luso-britânicas, pela ponte que ficou intransitável devido ao amontoado de cadáveres, até ao Cerco de Almeida que, em poucos dias e graças à catastrófica explosão do antigo castelo, frustrou os planos que previam uma resistência mínima de 1 mês.

Em anos anteriores já tínhamos assistido à recriação do Combate do Côa (ver artigo e vídeo) e aos combates sobre as muralhas (ver aqui) e este ano decidimos assistir ao espectáculo nocturno. Sendo assim, lá fomos nós até Almeida e, após um jantar ligeiro, dirigimos-nos até à porta de Santo António, junto à qual iriam decorrer as actividades.

Embora os "soldados" estivessem algo distantes e, quanto a mim, numa posição pouco favorável para os espectadores (creio que uma formatura perpendicular a estes teria permitido uma melhor percepção das refregas corpo-a-corpo), o início até foi promissor. Um poderoso sistema de som permitia que os combates tivessem música de fundo e ainda alguns apontamentos por parte de um narrador que, muito bem, foi explicando o contexto da invasão e revelando alguns detalhes do armamento e das tácticas militares da época.


Os combates sobre o baluarte da porta de Santo António. Sucederam-se as salvas de mosquete, os tiros de canhão e as cargas de cavalaria.



Os disparos antes da carga sobre o inimigo.


O pior foi quando, entre as suas intervenções, o narrador se esqueceu de desligar ou, pelo menos, de baixar o volume do microfone, permitindo que os espectadores ouvissem as suas conversas paralelas como banda sonora dos combates.


Uma banda sonora... sui generis

Assim, ao mesmo tempo que franceses e luso-britânicos iam disparando uns sobre os outros, ficámos a saber que a recriação já estava a demorar muito mais que o previsto: -"Isto já devia ter acabado mas começando a dar ao gatilho eles entusiasmam-se e é isto! No ano passado só durou 40 minutos. Daqui a 10 ou 15 minutos deve terminar", ou ainda que havia uma gritante falta de realismo na recriação, facto esse devidamente comprovado graças ao acervo fotográfico pertença do próprio narrador -"Esta malta não tem cuidado e isto acaba por não ter realismo nenhum. Tenho lá em casa um grande arquivo fotográfico e numa das fotos vê-se aquele frade que está ali em baixo, em luta acesa com um cavaleiro mas com ambos a rirem-se que nem uns perdidos". -"Olha, lá vai outra vez o frade! Não pára!", complementou uma conhecida. Falta de um encenador, segundo outro companheiro do narrador, para dirigir a batalha -"Isto sem uma voz de comando é complicado...!".

Após a batalha e a saudação mútua dos participantes, o narrador anunciou o espectáculo pirotécnico evocativo da explosão do castelo que se iria seguir. Ainda assim, o aviso não foi ouvido por alguém da organização que questionou -"Olha lá, já avisaste o pessoal que vai haver explosão do castelo? Ah bom!".


Desaparecido numa explosão que destruiu maior parte da vila, tornando-a indefensável, o castelo medieval foi vítima do desleixo que permitiu que um tiro certeiro incendiasse o paiol aí instalado. A tradição popular transformou esta história, manifestamente pouco abonatória para a honra da vila, numa outra em que um traidor vendeu aos franceses o segredo da existência de um túnel secreto que levava ao castelo.



O certo é que, se o impacto da batalha acabou por se diluir entre risadas dos espectadores devido aos diálogos, a explosão do castelo lá aconteceu e foi  impressionante, embora não tanto como o espectáculo musical e pirotécnico, logo a seguir, que culminou na apoteótica Overture 1812 de Tchaikovsky.



A apoteose final.

Em resumo, vale bem a pena visitar Almeida durante esta altura (aliás, qualquer altura do ano é boa) mas, em termos de recriação histórica, há ainda algumas arestas a limar de forma a permitir que, um dia, um frade e um cavaleiro se possam afrontar sem achar piada a isso.

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