terça-feira, dezembro 01, 2015

Željava - Nos subterrâneos da mais avançada base aérea da Guerra Fria

Numa zona mais recôndita dos Balcãs, na fronteira entre a Croácia e a Bósnia, situa-se o que resta da base aérea de Željava. Herança militar do marechal Tito e, à época da sua construção, provavelmente a base aérea mais avançada do Mundo, a base foi destruída e abandonada em 1992. Hoje ainda é possível ver as marcas dessa guerra, tanto nos edifícios destruídos como nos campos de minas que cercam o local. Há um ano atrás, aproveitando a nossa passagem pela zona, aventurámos-nos nos nas instalações e subterrâneos de Željava. Eis o relato dessa visita.

Já tínhamos passado por Herceg Novi (Montenegro), Dubrovnik, Mostar (Bósnia) e Split quando decidimos ir até ao Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, uma das jóias da Croácia classificada como Património da Humanidade.

Ficámos alojados na "House Izvor" em Čujića Krčevina, um pequeno lugarejo à entrada do Parque, formado por meia dúzia de casas, nem todas habitadas. Como viríamos a saber depois, tinha sido em tempos zona de férias de um dos generais mais destacados da Jugoslávia, que ali vinha passar as suas férias juntamente com o seu staff.


Čujića Krčevina, um pequeno lugarejo na orla da floresta do Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, outrora zona de férias de um destacado general do regime de Tito


Tomislav, o nosso anfitrião, cedo se revelou uma pessoa extremamente interessante, tanto pela sua história de vida como pela vasta cultura que demonstrou possuir. Durante a nossa estadia foi sempre ele que cozinhou, privilegiando produtos da sua horta e cogumelos apanhados na floresta ao redor da casa.


O nosso amigo Tomislav, um homem com uma vasta cultura que nos ensinou muito sobre a Croácia e a própria região de Plitvice. Trabalhava num hotel na região da Istria, uma das zonas mais turísticas do país, até que se fartou da agitação daquela vida e comprou este terreno, para o qual veio morar com a sua caravana. Os filhos e a esposa ficaram na Istria, onde Tomislav os reencontra quando não há hóspedes para alojar. Acabou por construir um bungalow e uma casa, alugando agora quartos a turistas que aqui acorrem todos os anos. É impossível não ter saudades daquelas conversas anglo-italianas e dos seus cozinhados.


Depois de uma bela noite de descanso, acordámos no dia seguinte prontos para percorrer o Parque de Plitvice, experiência que se revelou assombrosa, tal a beleza do lugar e o trabalho que foi feito para o valorizar. Mas sobre isto falaremos no próximo artigo.

Depois de passarmos maior parte do dia no Parque e uma vez que tínhamos carro, já no regresso decidimos fazer um desvio quase até à fronteira com a Bósnia, que não ficava muito longe. Tínhamos ficado a saber por acaso que existia por ali uma antiga base aérea abandonada, que se caracterizava por ter sido parcialmente construída no subsolo e decidimos ir satisfazer a nossa curiosidade.

Tomámos a estrada rumo a Bihać, na Bósnia, e não tardou muito para que chegássemos a Koreničko, a aldeia que se situa junto à antiga base aérea de Željava.


A primeira visita a Željava

A estrada para Bihać, que na altura estava em vias de ser asfaltada

O percurso até à base aérea foi um pouco inquietante. Tanto na aldeia de Ličko Petrovo como em Koreničko, esta já em terrenos da base, as marcas da guerra são mais que evidentes. Casas abandonadas, marcas de incêndios e buracos de balas nas fachadas e o olhar desconfiado dos habitantes que paravam para olhar para nós contribuíam para um ambiente um pouco sinistro.

Além do mais, foi precisamente nesta zona que, em 1991, começou a guerra que os croatas chamam de Guerra Patriótica e os sérvios conhecem simplesmente como Guerra da Croácia, quando milícias sérvias se revoltaram e abateram a tiro um polícia croata. Josip Jović é oficialmente considerado como a primeira baixa da guerra. Dado que a região tinha uma larga fatia de população sérvia, foi integrada na auto-proclamada República Sérvia de Krajina e, até à sua dissolução em 1995, foi palco de furiosos combates.


Casa em Ličko Petrovo com marcas de incêndio sobre as janelas do 1º piso



Outra casa em Ličko Petrovo, esta com várias marcas de balas


Parámos o carro à entrada da base e começámos a nossa exploração a pé. Em frente ao antigo portão, destacava-se da vegetação a carcaça de um antigo avião de transporte de pessoal, um Dakota C47. Passando por baixo deste, descobrimos que havia mais dois aviões semi-dissimulados pela floresta que tentava retomar o seu espaço. Tratava-se de dois aviões que depois ficámos a saber serem de fabrico americano. Eram dois Thunderjet F-84G, aviões mono-jacto que se tornaram muito populares após a 2ª Guerra Mundial, sendo até amplamente usados por Portugal na Guerra do Ultramar. A força aérea jugoslava teve mais de 230 destes aparelhos até 1974, altura em que foram retirados de serviço.



O Dakota C-47, um avião de transporte de pessoal abandonado em Željava



O símbolo inconfundível da Força Aérea Jugoslava sob a asa de um F-84G Thunderjet



A experimentar o (des)conforto do cockpit do F-84G



A alavanca de ejecção do piloto



O Dakota e o outro caça Thunderjet



Pormenor da exaustão do jato do F-84G


A Ana observando atentamente os pormenores da fuselagem do Dakota, até se aperceber que  caminhar em zonas pouco pisadas poderia ser uma ideia pouco saudável.


Depois de perdermos algum tempo com os aviões, passámos o portão e entrámos na zona dos edifícios de superfície da base: casernas, oficinas, campos de treino, etc. O cenário era desolador e não se via nem ouvia nada a não ser o vento nas árvores e um ou outro pássaro. Fomos percorrendo as antigas ruas entre os edifícios, entrando em alguns para tentar perceber a que se destinavam, já que os poucos letreiros de pouca utilidade eram, já que o nosso croata estava algo enferrujado.




Um dos edifícios da base



Uma chaminé despontando entre as copas das árvores



A via principal de acesso à zona edificada da base



Outro edifício de propósito desconhecido



As garagens da base



Sobre uma das portas, um letreiro "službeni ulaz", entrada dos oficiais (obrigado pela tradução Tomislav!)



A antiga área de treino físico





Finalmente a confirmação de que não era mesmo boa ideia caminhar em zonas pouco pisadas: um aviso de campo minado, uma das terríveis e persistentes heranças da guerra (ver aqui). Esta zona fortemente minada, usada como campo de treino para cães farejadores de explosivos, oferece um real risco de vida. Há alguns anos atrás, um oficial bósnio que por aqui procurava cogumelos, morreu após pisar uma destas minas.

Após mais de uma hora a deambular pela base, não tínhamos encontrado quaisquer indícios das supostas instalações subterrâneas. Dado que começava já a escurecer e um pouco desiludidos, decidimos que era hora de regressar a Čujića Krčevina. Estávamos convencidos que a visita à base aérea seria certamente uma boa forma de alimentar a conversa com o nosso anfitrião à hora de jantar. Estávamos longe de adivinhar a surpresa que nos aguardava.

Nessa noite, à hora de jantar e visto que éramos os únicos hóspedes, Tomislav juntou-se a nós numa conversa em que se percorreu o passado distante e recente da Croácia e se fizeram as inevitáveis comparações entre os nossos países.

Para facilitar ao máximo a comunicação, Tomislav falava em italiano e nós retorquíamos em inglês. À medida que aquele maravilhoso Dingać ia sendo vertido nos nossos copos, veio à baila o tema de Željava. Surpreendido por sabermos da existência da base, o nosso anfitrião tirou um dossier de uma gaveta e, sobre a mesa, expôs fotografias e plantas da base. Apoiado nesse material, forneceu-nos uma descrição pormenorizada da base, incluindo a localização da portas das instalações subterrâneas.

Decidimos por isso regressar a Željava no dia seguinte, agora equipados com uma lanterna cedida pelo Tomislav.



A segunda visita a Željava

No dia seguinte, regressámos a Željava pela estrada já nossa conhecida só que desta vez, em vez de pararmos na entrada da base, prosseguimos por uma estreita estrada de serviço. Depois de percorrermos cerca de 1,5km, a vegetação já não permitia a passagem do carro, pelo que continuámos a pé, até um antigo checkpoint do qual ainda existe uma cancela. Passado este posto de controlo, pisámos finalmente a pista nº 4 da base aérea. À nossa frente, a grande planície era interrompida pela elevação abrupta da montanha Plješevica, no sopé da qual se abriam duas das quatro entradas da base.




A cancela do checkpoint de acesso à base


À esquerda a pista nº4, ao centro a pista nº 3 e à direita a pista nº5



As portas de acesso ao interior da base, cujos túneis foram construídos no coração da montanha


Entusiasmados pela perspectiva de podermos explorar aqueles subterrâneos de uma das mais importantes bases do tempo da Guerra Fria, decidimos aventurar-nos pela porta nº1. Com a planta vista na véspera ainda na memória, sabíamos que o túnel iria descrever um arco até à porta nº2. A única preocupação da Ana era a possibilidade de nos depararmos com um urso dentro dos túneis, dado que estes animais existiam pela região em estado selvagem. Para a tranquilizar, apanhei do chão o pau mais ameaçador e resistente que encontrei e entreguei-lho. Não me pareceu mais confiante mas ainda assim lá entrámos no coração da montanha e no interior da base de Željava, o orgulho da outrora poderosíssima Força Aérea Jugoslava.




O aspecto exterior da porta nº1



O túnel de amortecimento de explosões nucleares do acesso nº1, bastante danificado pela explosão de 1992.


Uma obra-prima da engenharia militar

O interior de Zeljava quando a base ainda funcionava
Fonte: http://www.zeljava-lybi.com/

O interior de Zeljava quando a base ainda funcionava
Fonte: http://www.zeljava-lybi.com/


A base militar de Željava  foi construída no mais perfeito segredo entre 1957 e 1965, designada simples e misteriosamente por Objekat 505, o Objecto 505. Custou na altura 6.000 milhões de dólares, equivalente hoje em dia a aproximadamente o triplo dos orçamentos militares anuais da Croácia e da Sérvia somados. Diz-se até que anos houve em que concentrou sobre si cerca de 25% do Orçamento de Estado.

A base integrava-se num sistema de defesa vital da federação jusgolava, formado pela articulação de estações de radar de longo alcance com forças de resposta e intervenção rápida. No topo da montanha, existem ainda restos de uma importante estação de radar mas só mesmo em veículo TT se consegue lá chegar. Na altura, esta base era considerada uma das mais avançadas do Mundo, um título bem adequado para um equipamento pertencente à 4ª força militar mais poderosa do planeta.

Na base estavam estacionadas duas esquadrilhas de ataque e uma de reconhecimento e diz-se que os túneis poderiam albergar cerca de 100 aviões de combate, todos eles os temíveis Mig-21, o que não é de todo improvável embora, por razões funcionáveis, fossem certamente menos. A base dispunha, como já referi, de 4 saídas capazes de lançar caças para as 5 pistas exteriores, o que lhe conferia uma capacidade de resposta tremenda. O controlo do movimento dos aviões era feito a partir de uma torre de controlo mais semelhante a um bunker, na encosta da montanha, acessível por elevador a partir do interior da base.

O facto de ser subterrânea garantia já por si uma excelente protecção mas os túneis de entrada especialmente preparados e as espessas portas blindadas permitiam à base resistir ao impacto directo de uma bomba nuclear de 20 quilo-toneladas, o equivalente à bomba de Nagasaki. Com as portas fechadas, a base podia ser hermeticamente selada e, ainda por cima, pressurizada, o que inviabilizava também qualquer tentativa de ataque com armas químicas.

Os armazéns tinham capacidade para guardar mantimentos suficientes para 30 dias o que, aliado ao facto de ter uma fonte de água subterrânea e fornecimento de combustível a partir de um depósito situado a mais de 20km, através de condutas enterradas bem fundo, permitia que a base pudesse continuar a operar isoladamente durante largo período. Só a messe tinha capacidade para 1.000 pessoas!

O fim da base chegou com a desagregação da Jugoslávia, durante a década de 1990. Tendo sido inicialmente ocupada pelo exército federal, composto essencialmente por sérvios e montenegrinos, aquando da retirada deste as pistas foram destruídas, mediante a colocação de explosivos em locais pré-existentes e destinados a esse efeito (numa lógica de auto-destruição).

Mais tarde, já em 1992, o local foi ocupado pelas forças paramilitares da auto-proclamada República Sérvia de Krajina. Perante o avanço das reorganizadas forças croatas, os sérvios retiraram mais uma vez mas não sem antes detonarem 56 toneladas de TNT nos túneis de Željava, selando e pressurizando previamente a base para aumentar ainda mais o efeito da deflagração. A explosão foi tão forte que foi ouvida na cidade Bósnia de Bihać, a cerca de 20km dali. Diz-se também que saiu fumo da base durante vários meses.

Após o fim da guerra, que terminou com a total fragmentação da Jugoslávia, o destino da base ficou traçado. Com duas das pistas situadas em território bósnio, a base não pôde ser novamente ocupada militarmente, devido ao estipulado nos acordos de paz. Há actualmente planos para fazer daquele um aeroporto regional mas, para já, nada de concreto.

Nos subterrâneos

Apesar da lanterna, à qual juntámos a luz dos telemóveis, era difícil perscrutar aquela escuridão. Passada a primeira porta blindada ou, melhor dizendo, o que resta dela, o ambiente é assombroso. Sem ver nada para além de 20m à nossa frente, os únicos sons que se ouviam em todo aquele negrume eram os nossos passos e o esporádico gotejar da água em parte incerta. Tudo isto reverberava nos túneis contribuindo para um cenário inquietante.


O que resta da porta blindada completamente destruída de dentro para fora.



Rumo à escuridão!


À direita e à esquerda iam surgindo algumas passagens, levando às centrais eléctricas, oficinas e unidades de ar condicionado. 

Após longos minutos chegámos à intersecção com outro túnel, muito maior que aquele que tínhamos percorrido, sendo até difícil ver o tecto. Acresce a isto o facto de todas as paredes estarem negras devido à explosão de 1992 e, ainda por cima, em algumas zonas dos túneis se formar uma neblina que dá ao lugar uma aura ainda mais fantasmagórica.




Acesso a uma das estações geradoras de electricidade.



A neblina no interior dos túneis. Fantasmagórico!



Zona de sanitários, completamente destruída.

Porta intermédia de acesso ao túnel principal. A forma do acesso, para permitir a passagem dos aviões, resistiu à explosão de 1992 mas a porta propriamente dita não teve a mesma sorte, sobrando pouco menos de metade dela.


Entretanto chegámos finalmente à porta blindada do acesso nº2, junto à qual encontrámos um antigo depósito de rockets e bombas. Esta porta não estava tão danificada como a anterior pelo que foi possível apreciar a sua forma de T invertido, destinada a deixar passar os aviões no menor espaço possível. Na parede ao seu lado via-se também o espaço para o qual esta porta deslizava quando era aberta.




Acesso à área de teste e manutenção dos rockets e bombas, junto à porta.



Espaço para o qual deslizava a porta blindada quando aberta.



Depósito de bombas e rockets, junto à entrada nº2


Continuámos a caminhar em direcção à luz ténue que já se conseguia avistar e chegámos ao túnel curvo da entrada, construído para amortecer o efeito de uma explosão nuclear, impedindo o impacto directo com a porta blindada da base (vejam a planta abaixo para perceberem do que falo).

Passámos o acesso exterior, também ele em forma de T invertido e estávamos finalmente fora da base. 



Túnel em curva, para amortecer a força de uma explosão nuclear, desviando a força da deflagração da porta blindada interior. Algo que já tínhamos visto por exemplo no Forte de Hackenberg da Linha Maginot (recordar aqui)



Quase a sair da base...



Finalmente cá fora. O acesso nº2 está nitidamente em melhor estado que o nº1.



A porta exterior nº2



Planta parcial da base. Clicar sobre a imagem para ver a planta completa.



Ficámos com pena de não estarmos melhor preparados já que não sabíamos que o acesso ao interior da base era tão fácil. Ficaram por ver cerca de 2/3 das instalações, desde o núcleo em estrela ao centro de comando, passando pelo elevador de acesso à torre de controlo mas não era sensato arriscar mais do que já tínhamos feito até ali.

O pouco que vimos serviu no entanto para termos uma ideia da dimensão e nível de excelência desta base que teve um fim trágico num período também ele trágico da história da Europa. É de facto, como referiu alguém, um verdadeiro monumento à engenharia e... estupidez humana.

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