quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



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