terça-feira, novembro 24, 2015

De Lima a Caral, a mais antiga cidade do continente americano

Deixando Cusco e Machu Picchu para trás, voámos até Lima, a segunda maior cidade da América do Sul. Tendo explorado uma ínfima parte da capital peruana, decidimos viajar 200km para Norte, ao longo do deserto peruano, até às ruínas da mais antiga cidade de todo o continente americano, uma viagem inesquecível e -claro está!- cheia de peripécias. Vale a pena ler!

Adeus Cusco!


A despedida de Cusco foi um pouco triste. Afinal, a "Ciudad Imperial" ficaria para sempre ligada à aventura da caminhada até Machu Picchu (recordar aqui) e, para além disso, tínhamos ali tido verdadeiras aulas vivas de História, descobrindo o legado dos Incas na cidade e nos seus arredores.

Após uma rápida viagem de avião desembarcámos em Lima, a gigantesca capital do Peru e que nada tem a ver com Cusco. Desde logo, o céu azul fora substituído por uma camada cinzenta deprimente, mistura de neblina e fumo, e as casas eram a perder de vista. Convém não esquecer que Lima tem mais de 8,5 milhões de habitantes, praticamente um terço da população do Peru!

Enquanto viajávamos de táxi a caminho do nosso hotel de Miraflores, o distrito mais seguro da capital, aproveitámos para apreciar toda a confusão de pessoas e veículos à nossa volta, assim como a grande preocupação com segurança em todas as casas, bem visível nos seus gradeamentos e cercas electrificadas.

Em Miraflores, abundam os carros de grande cilindrada e são muitas as casas com porteiro. Como disse, apesar do que acontece em outros distritos de Lima, em Miraflores andámos sempre à vontade, mesmo à noite. É um distrito muito turístico, cheio de lojas e restaurantes e onde se encontra o centro comercial da moda: o Larcomar, construído numa falésia com uma vista espectacular para o Pacífico.

Sem nada previamente planeado, decidimos começar a nossa exploração de Lima por um dos monumentos mais relevantes que ficava ali perto: a Huaca Pucllana.



Huaca Pucllana, o santuário dos adoradores do mar


A grande pirâmide de Huaca Pucllana


Este enorme complexo foi construído algures por volta do ano 500 durante o período da cultura "Lima", que dominou este território entre os anos 200 e 700. Trata-se de uma enorme estrutura piramidal, com 7 patamares, junto à qual existiam outras estruturas amplas de uso público. Seria dedicado ao culto da Mama Cocha (o mar) cujo animal mais sagrado seria o tubarão, peixe do qual foram descobertos inúmeros vestígios em Pucllana. Para além de banquetes com alimentos de origem marinha, havia outro tipo de rituais: o quebrar simbólico de enormes peças cerâmicas e o sacrifício humano, principalmente de crianças. Mais tarde, a partir do século IX e com o desaparecimento da cultura Lima, os Wari impuseram-se na região e a pirâmide foi durante 200 anos utilizada como cemitério, até voltar a ser espaço de culto, embora sem a importância de outrora, a partir do século XI.


Os vestígios dos edifícios públicos, vistos a partir da pirâmide. Ao fundo, a actual cidade de Lima

O que mais impressiona é o facto de todo o conjunto ter sido construído com paredes feitas de pequenos tijolos de adobe moldados à mão, os "adobitos", sendo o espaço entre as mesmas preenchido com seixos e entulho. Foi precisamente por causa deste tipo de material de construção que os espanhóis não saquearam o local, permitindo que os arqueólogos encontrassem aqui um riquíssimo espólio.Quando os colonizadores chegaram, os adobitos superficiais tinham-se desagregado e todo o conjunto era agora uma grande colina artificial barrenta e inóspita.


El Cercado de Lima, o Centro Histórico da capital

A Plaza de Armas, o coração do Cercado de Lima, dominada pela grande catedral


No segundo dia, fomos até ao centro histórico de Lima, a antiga capital do vice-reino espanhol do Peru, fundada em  1535 pelo infame conquistador Francisco Pizarro. Uma vez que os táxis e autocarros facilmente ficam retidos nos constantes engarrafamentos de trânsito, optámos pelo "Metropolitano", um autocarro articulado que viaja por uma via reservada, com estações próprias. Foi necessário caminhar um bocado para chegar à estação mais próxima mas justifica-se plenamente o esforço. Apesar de tudo, é pouco para uma cidade desta dimensão.

Já no centro daquilo que se denomina por "Cercado de Lima", fomos até à Plaza de Armas e visitámos a grande catedral de Lima, onde se encontra o túmulo do fundador da cidade, espreitando as catacumbas e a exposição de obras de arte. Espreitámos depois a opulência do palácio arcebispal e tivemos ainda a oportunidade de assistir ao render da guarda diante do palácio presidencial ao som da banda militar que a dada altura tocou "El Condor Pasa".


O túmulo de Pizarro. Ironicamente, no pavimento lê-se a palavra "PAX". Este aventureiro aproveitou a guerra civil que dilacerava o Império Inca para conquistar o "Tawantinsuyu". Atraíndo o imperador Atahualpa para um encontro diplomático, emboscou e capturou o soberano para o obrigar a pagar de um resgate avultado: uma sala cheia de ouro e prata. Conseguido pagamento pela delapidação dos templos e espaços sagrados, Pizarro mandou executar Atahualpa e iniciou a conquista definitiva do Império Inca. A ambição acabou por provocar disputas entre os conquistadores espanhóis vitimando o próprio Pizarro, cuja lista de lesões peri mortem é digna de um tratado de anatomia forense (ver aqui)


Militares de guarda nas traseiras do palácio presidencial. Não sabemos se os cães trajados estão também de guarda ou a ser guardados.



Um autocarro já com alguma rodagem.

O Cerro de San Cristóbal com a sua favela, visto a partir do parque das muralhas


A voltas tantas, já com fome, fomos até ao Barrio Chino onde, apesar da abundante simbologia chinesa, poucos chineses vemos em comparação com nativos peruanos. No entanto, por meia dúzia de euros sai-se de qualquer Chifa, como aqui se chamam os restaurantes chineses, com o estômago a rebentar pelas costuras.

Vídeo:




Terminada a nossa visita com uma caminhada até à Plaza San Martin, decidimos que era hora de regressar a Miraflores, apanhando mais uma vez o Metropolitano, e aí terminámos o dia com um café bebido a admirar o pôr-do-Sol sobre o Oceano Pacífico.


Pôr-do-Sol sobre o oceano Pacífico



Viagem pelo deserto peruano

No último dia completo em Lima decidimos visitar as ruínas da milenar cidade de Caral. Afinal, tratava-se da cidade mais antiga de todo o continente americano e, dadas as circunstâncias, não era assim tão longe. O único problema é que não fazíamos a mínima ideia de como percorrer os 200km que nos separavam de Caral.

Após alguma pesquisa descobrimos onde se situavam as empresas de autocarros que faziam as carreiras para Norte, embora isso implicasse ir até La Victoria, um dos distritos menos seguros de Lima. A ideia era apanhar um autocarro até à vila de Supe, mais a Norte, onde depois procuraríamos encontrar um transporte que nos levasse a Caral.

Primeiro de Metropolitano, depois de táxi e finalmente a pé, acabámos por chegar à garagem da empresa de transportes, a transportes Paramonga (espreitem só o aspecto!). Por sorte, estava prestes a sair um autocarro. Bem velho e sujo mas não podíamos ser esquisitos.


Avenida Luna Pizarro, em La Victoria


Outro "boneco" de La Victoria. Acolhedor q.b.


O mais difícil foi mesmo sair de Lima. O trânsito e a senhora que na paragem do grande terminal Norte não queria deixar o autocarro partir porque irmão que esperava deveria supostamente estar entre os passageiros, não ajudaram nada.

Fora de Lima, circulando pela mítica Pan-americana (a estrada internacional que liga o Alasca ao extremo Sul da Argentina), entrámos no deserto costeiro peruano. À medida que passávamos por pequenos lugarejos perdidos naquela imensidão de areia, era impossível não nos interrogarmos sobre de que viveriam aquelas comunidades. Nas várias paragens (e portagens), entravam vendedores ambulantes no autocarro, tentando vender os seus snacks e bebidas aos passageiros até saírem na paragem seguinte, tudo isto em aparente acordo com os motoristas que não se opunham a este negócio.


O Serpentin Pasamayo, parte da estrada que seguimos na costa peruana


Uma aldeia à beira da estrada.


A cidade de Huacho, a maior cidade entre Lima e Supe


Finalmente, após 4h de viagem e tendo chegado a Supe, saímos do autocarro após um debate com o motorista e vários passageiros sobre qual seria para nós o melhor sítio para nos apearmos. Dirigimos-nos em seguida até uma rua perpendicular à via principal onde apanhámos boleia num carro ligeiro de passageiros de 5 lugares que, com 6 passageiros nos bancos e um miúdo no porta-bagagens, se fez à estrada de terra batida rumo a Caral.



Caral, a mais antiga cidade das Américas


As pirâmides de Caral


Um a um os passageiros foram saindo até ficarmos só nós e o motorista. Após 20km de viagem desde Supe, o carro parou num local ermo junto a um rio que serpenteava entre montanhas rochosas sem qualquer vegetação. Feito o pagamento dos 10 soles, indicou-nos o caminho: -"Atravessem a ponte e caminhem durante 15 minutos naquela direcção", partindo em seguida e deixando-nos sozinhos a olhar para aquelas montanhas despidas.



Nas margens do rio Supe, a caminho de Caral


Encolhemos os ombros e começámos a caminhar. Após a ponte, caminhámos durante algum tempo por um caminho poeirento, tranquilizados por uma placa que indicava que aquele era mesmo o caminho certo.

A pouco e pouco o topo de algumas construções revelou-se no horizonte. Eram as pirâmides de Caral! Chegados ao sítio, ficámos pasmados. Aquela era uma paisagem diferente de tudo o que tínhamos visto até então, toda pintada em tons de castanho. Espalhadas por uma planície que até ali estivera escondida, erguiam-se grandes pirâmides escalonadas assim como vestígios de outras estruturas adjacentes.


Planta da cidade de Caral no primeiro painel detalhado que encontrámos




Duas das sete pirâmides de Caral, na paisagem em tons de castanho


Encaminhámos-nos para o centro de recepção para pagar os bilhetes de entrada e, juntamente com uma pequena família peruana, iniciámos uma visita guiada ao local.

Em Caral sente-se o peso da História, escuta-se a voz distante dos primórdios da civilização. Esta é a cidade mais antiga de todo o continente americano, contemporânea da egípcia Mênfis, a cidade dos faraós, e das cidades da Mesopotâmia, tendo sido construída a partir do ano 3.000 a.C.. Foi um centro religioso de grande importância e também o centro de poder de uma civilização que se impôs na região de forma pacífica. Isso é aliás destacado pelos arqueólogos, que fazem questão de dizer que nos locais escavados até agora não se encontraram estruturas defensivas ou armas.

Ao longo do vale, existem mais 19 núcleos populacionais menores que estariam dependentes de Caral mas o alcance desta civilização era bem maior. Ao longo de uma faixa costeira de mais de 400km foram encontradas estruturas contemporâneas de Caral. A própria cidade estende-se por uma área de 60 hectares!

As pirâmides, sete ao todo, destinavam-se sobretudo a funções religiosas mas não só. Também cumpriam funções políticas e administrativas, embora estas não fossem dissociadas do aspecto religioso. No complexo, vêem-se duas estruturas circulares correspondentes a dois anfiteatros que seriam palco de rituais. Um desses espaços circulares situa-se mesmo em frente à Pirâmide Maior, o edifício mais impressionante de Caral.


 O grande anfiteatro à frente do templo/pirâmide ao qual dá nome


O anfiteatro da Pirâmide Maior


Vista para o rio Supe, o rio que possibilitou a existência da cidade e que ainda hoje é o motor de toda a exploração agrícola do vale. As construções do lado direito são do período Wari, do século VI, sem qualquer ligação com a cidade.


Pirâmide de la Huanca

Esta era uma sociedade que não conhecia a cerâmica mas era avançada o suficiente para conseguir realizar construções resistentes a sismos. As pirâmides eram construídas patamar a patamar, erguendo-se as paredes destes e sendo o espaço entre elas preenchido com pedras envolvidas em redes têxteis. Estas redes conferiam propriedades elásticas às estruturas, permitindo amortecer o efeito dos abalos sísmicos.

Para além das pirâmides, havia vários templos de diferentes dimensões e importância e um extenso sector habitacional. Todos os edifícios importantes tinham um local onde ardia permanentemente uma fogueira, sendo o calor conduzido por canalizações para as diferentes partes das construções.

Apesar de todo o conhecimento e engenho dos seus habitantes, uma série de catastróficas alterações climáticas selou o destino desta civilização, tendo Caral sido abandonada por volta de 1.900 a.C., pondo termo a uma ocupação contínua de cerca de 1.000 anos!



O regresso

Com o fim da visita, com um pedido encarecido do nosso guia para que divulgássemos o sítio para o dar a conhecer ao Mundo, foi tempo de pensar numa forma de regressar. Já que a família peruana que tinha feito a visita connosco tinha um transporte à sua espera no estacionamento, pedimos para regressar com eles. Perante a perspectiva de ganhar uns "Soles" extra, o motorista também não expressou qualquer objecção e foi assim, por um caminho diferente, mais irregular, que regressámos a Supe.

Travessia do rio Supe


Um moto-táxi saindo da comunidade de El Molino, já perto de Supe


Não tivemos de esperar muito já que, mal saímos da pequena loja onde entrámos para comprar algo para comer durante as próximas 4h de viagem até Lima, apareceu um autocarro que nos fez sinais de luzes, o sinal típico dos transportes públicos peruanos que significa "Precisam de transporte?".



O autocarro da viagem de regresso a Lima. Divisória entre a dianteira e o compartimento de passageiros, abertura do tecto presa por arames e um sistema de som de fazer inveja à aparelhagem sonora de qualquer bailarico de Verão que se preze


Foi pois num autocarro não necessariamente em bom estado, com uma curiosa divisória opaca que separava os passageiros da dianteira do autocarro e com a passagem de um filme cujo som excedeu largamente o número de decibéis suportáveis pelo ouvido humano, valendo-nos uns tampões de ouvido improvisados com lenços de papel, que regressámos a Lima.

No dia seguinte, despedimos-nos do Peru e voámos de regresso a casa, trazendo na bagagem as maravilhosas recordações da nossa melhor viagem de sempre.

A todos os amigos que deixámos por lá, muchas gracias amigos

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