quarta-feira, novembro 18, 2015

Caminho Inca - A chegada a Machu Picchu!

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4ª etapa: de Wiñay Wayna a Machu Picchu (e Wayna/Huayna Picchu)


Ao quarto dia, acordámos mais cedo que nunca para o que faltava da nossa caminhada. Seria um dia emocionante e aquilo que vimos da Porta do Sol ficará para sempre na nossa memória. Contudo, a aventura não se esgotou em Machu Picchu, havendo quem tenha decidido ir um pouco mais além.


O dia começou bem cedo, logo pelas 3h30 da manhã! Seguindo as instruções do dia anterior, já tínhamos a maior parte do material arrumado dentro das mochilas pelo que depressa saímos das nossas tendas, a caminho da tenda de refeições para o nosso pequeno-almoço. Enquanto comíamos e nos preparávamos para o grande dia, a azáfama era grande já que, como contei no artigo anterior, mal partíssemos, os carregadores e cozinheiros iriam correr por um trilho até ao fundo do vale para apanharem o comboio de volta a casa.

O acordar tão cedo era bem justificado. O objectivo era entrar na fila do último checkpoint para Machu Picchu, que abriria por volta das 4h30, para chegarmos o mais cedo possível à cidade perdida dos Incas. Despachado o pequeno almoço, lá nos dirigimos até à fila para o checkpoint, iluminando o caminho com as nossas lanternas.




No último checkpoint antes de Machu Picchu, Nilo trata de todas as formalidades para podermos passar e iniciar a última etapa.



Depois de uma longa espera, em que aproveitámos para dormir mais um pouco, esticados na berma do trilho, finalmente abriram-se as portas do checkpoint e iniciámos a última parte da nossa caminhada. Machu Picchu estava a poucas horas de distância.

O trilho prosseguiu numa encosta íngreme do vale do Urubamba, com vegetação mas escassa que no dia anterior. À medida que a luz aumentava e a neblina se dissipava, íamos percebendo mais e mais pormenores daquela bela paisagem. 

A dada altura chegámos a uma escadaria que sem dúvida estabeleceu o padrão das escadarias íngremes. Era a temível "gringo killer" de que Toni nos tinha falado no jantar do dia anterior, acrescentando "Gringo killer, escadas do inferno, escadas de macaco... se não gostarem do nome podem chamar-lhe outra coisa qualquer que nós não nos importamos". Era o último obstáculo antes do Inti Punku, a porta do Sol, obstáculo que foi vencido mesmo que alguns tenham abdicado do bipedismo para o fazerem.




Gringo killer, monkey steps, steps from hell... As escadas mais íngremes que alguma vez havíamos visto, o último obstáculo antes da Porta do Sol


Quando já tínhamos a passagem do Inti Punku à vista, o deus Inti resolveu mostrar-se em todo o seu esplendor, inundando tudo de luz e calor. Ficámos ali longos minutos a admirar aquele fabuloso nascer do Sol, antes de continuarmos até à porta do Sol para pela primeira vez contemplarmos a fabulosa cidade inca de Machu Picchu!



A chegada do deus Inti, no quarto dia da caminhada.



Paragem para apreciar o nascer do Sol. O Inti Punku, a Porta do Sol, é já ali naquela passagem à direita.



Machu Picchu, finalmente!

É difícil explicar aquilo que sentimos ao vencer aquelas últimas escadas, passar pelo antigo posto de controlo inca do Inti Punku e contemplar Machu Picchu pela primeira vez. À nossa volta as expressões de admiração sucediam-se e havia quem não se conseguisse conter e desatasse a chorar. Pessoalmente, a imagem quase irreal daquelas ruínas e socalcos era muito forte. Tão forte que, por momentos, voltei a ser aquele miúdo de 11 ou 12 anos, com um livro de História aberto no colo, que olhava fascinado para a fotografia de uma cidade perdida nas montanhas do Peru, e que prometeu a si próprio que um dia a visitaria. Essa cidade estava agora à vista e a apenas 30 minutos de distância!


Machu Picchu à vista, a partir do Inti Punku. À direita o monte Huayna Picchu no topo do qual os incas construíram socalcos e casas! Crê-se que ali residiam sacerdotes.


Após algum tempo para as inevitáveis e indispensáveis fotografias e também para recuperarmos a compostura, começámos a descer para Machu Picchu. Era necessário validarmos os nossos bilhetes e, a título de medalha, poderíamos carimbar o nosso passaporte com um carimbo disponível para o efeito junto à bilheteira. Só depois entraríamos em definitivo na cidade.



A pose triunfal a partir do sector agrícola da cidade, antes de irmos tratar das formalidades para o resto da visita.


A cidade de Machu Picchu

Parte do sector urbano de Machu Picchu


A cidade está dividida em dois sectores principais: o sector agrícola e o sector urbano, separados por um muro extenso com estreita porta a garantir o acesso ao reservado segundo sector. Machu Picchu na verdade significa "Velha Montanha" em quechua, o nome da montanha onde a cidade se situa, estando atrás desta o monte pontiagudo da Huayna (ou Wayna) Picchu, a "Jovem Montanha".

Estas fabulosas ruínas foram oficialmente descobertas por Hiram Bingham, em 1911, quando procurava a última capital dos Incas. Organizou uma expedição, aventurou-se no vale do Urubamba, seguindo rumores e recolhendo informações dos habitantes que iam encontrando. Ao chegar ao local onde se situa hoje a vila turística de Águas Calientes, no sopé de Machu Picchu, soube a troco de alguns dólares que havia ruínas naquela montanha. 
Com um jovem local como guia, subiu a montanha e deparou-se com as ruínas, então bem diferentes do que hoje vemos, cobertas pela selva e bastante mais degradadas. A cidade não estava contudo abandonada já que alguns socalcos eram ainda cultivados e nas próprias ruínas moravam dois quechuas.


Aglomerado de casas no sector urbano


O caminho que havíamos feito para ali chegar seria descoberto por Bingham apenas no ano seguinte, quando encontrou vestígios de uma estrada que saía da cidade rumo a Sudeste e resolveu desbravá-la, descobrindo muitos dos sítios arqueológicos pelos passámos.

O que ainda ninguém sabe com toda a certeza é qual terá sido o papel desta cidade. Supõe-se hoje que terá sido construída pelo 9º Sapa Inca, Pachacutec, no século XV, para servir de retiro ao soberano. Acredita-se até que o túmulo de Pachacutec se encontra aqui, ainda à espera de ser descoberto, coisa que recentemente um arqueólogo francês anunciou ter conseguido (ver aqui). 


O templo do Sol e, sob este, o que Bingham baptizou como Túmulo Real, onde descobriu várias múmias e concluiu que teria pertencido a alguém de grande importância.


Também se diz que terá sido uma cidade-universidade, onde os sacerdotes aprendiam os segredos da religião e astronomia. Certo é que a cidade, estrategicamente situada na transição dos Andes para Amazónia, terá sido um importante centro de administração política e religiosa.

Com a chegada dos espanhóis em 1532, com grandes obras ainda em curso, a cidade terá sido abandonada durante a retirada dos Incas para zonas mais remotas, onde mantiveram a sua independência por mais 40 anos, até à captura e execução do último Sapa Inca, Tupac Amaru, em 1572. A capital mudara-se nesse período para Vilcabamba, a cidade que Bingham verdadeiramente procurava. No processo de retirada, para impedirem o avanço dos espanhóis no seu encalço, os Incas também destruíram estradas e pontes



Interior do templo do Sol. Nos nichos seria colocados objectos ou ídolos que também podiam ser pendurados nas saliências entre os nichos.



Não se encontram referências a esta cidade nas primeiras crónicas do período colonial mas presume-se que tenha sido saqueada algumas vezes até à sua descoberta oficial. Ainda assim, foram descobertos centenas de túmulos por Bingham, assim como milhares de cacos de peças de cerâmica deliberadamente partida (no abandono da cidade ou para efeitos rituais, não se sabe). Sob o edifício mais importante, o templo do Sol, o explorador encontrou um túmulo que chamou de túmulo real, pela quantidade e riqueza do espólio. Várias múmias estavam alinhadas nos nichos das paredes. De ouro e prata é que não havia grande coisa em toda a cidade. 



O templo do Sol, o edifício com melhor acabamento na cidade. Possui duas janelas, uma virada para Oriente (bem visível na foto) e outra virada mais para Sudoeste (à esquerda), para o Inti Punku. No Solstício de Inverno (21 de Junho), os primeiros raios de Sol entram pela primeira janela, enquanto que no Solstício de Verão (21 de Dezembro), entram pela segunda.





O nosso companheiro Nilo, o cicerone da nossa visita a Machu Picchu. Ao longo dos quatro dias travámos conversas bastante interessantes e fiquei também a conhecer a sua notável história de vida. Ficou órfão de pai aos 15 anos e assumiu a responsabilidade de o substituir no sustento do lar. A convite de um tio, que era cozinheiro, começou a trabalhar como carregador no Trilho Inca e conseguiu poupar o suficiente para poder ir para a universidade para aprender línguas estrangeiras. Deixei-lhe o convite para vir a Portugal.



A escadaria que dá acesso à Praça Principal, mais longe para a esquerda.




Um interessante bloco de pedra na área dos templos. Como provado por Nilo, os 4 vértices encontram-se alinhados com os 4 pontos cardeais. Muitos acreditam ver nela uma representação estilizada da constelação do Cruzeiro do Sul.



Ao longe avista-se o sector agrícola.




Num recanto do sector urbano, esta rocha esculpida assinala o chamado Templo do Condor



A subida ao Huayna Picchu

A aventura não terminou contudo em Machu Picchu. A Ana ainda se aventurou na subida ao Huayna Picchu, no que eu não a consegui acompanhar. O percurso é extremamente desafiante e passível de provocar vertigens. A subida é íngreme, cheia de degraus e, depois de se chegar aos últimos patamares, o acesso ao topo é feito por uma estreita gruta, que mais parece uma fissura. A vista que se tem do topo é fabulosa. Ora vejam:



O Max a liderar a tropa em direcção ao topo


A vista quase vertical para o Urubamba!



Machu Picchu vista do Huayna Picchu. Clicando na foto para a ampliar, é possível ver à esquerda o trilho que leva ao Inti Punku, por onde chegámos. Lá atrás, mais à direita, situa-se  Abra Phuyupatamarca, local por onde passámos na véspera. 

Vídeo:




Despedida e regresso

A artéria ferroviária de Águas Calientes


Terminada a exploração de Machu Picchu, o grupo reuniu-se pela última vez num restaurante em Águas Calientes, a povoação que se desenvolveu no sopé da montanha à conta dos mais de 2 milhões de visitantes anuais que a cidade inca recebe. A única forma de chegar a esta povoação é de comboio ou a pé.

Águas Calientes tem este nome devido às fontes termais que possui, algo que alguns do grupo aproveitaram para relaxar após a longa caminhada, em vez de subirem a Huayna Picchu. As lojas são mais que muitas e a avenida principal oferece a singular visão de ser uma via ferroviária. 

Após o almoço, seguiu-se a despedida emocionada de vários dos nossos companheiros de caminhada, para apanharmos o comboio de regresso a Cusco. Embora lento (e caro!), possui um serviço interessante, com café e snacks gratuitos. O tecto transparente é perfeito para admirar as montanhas quase verticais ao longo do percurso (enquanto há luz do dia) e, ao longe, avistámos alguns dos locais por onde tínhamos passado na nossa caminhada.


No comboio regressando a Cusco


Tinha chegado ao fim uma aventura inesquecível, a mais espectacular caminhada que fizemos até agora. Descobrimos paisagens de cortar a respiração, locais misteriosos e fascinantes e conhecemos pessoas extremamente interessantes: o Neil e a Lucy, o James e a Carolyn, a Debby, o Steve e a Debra, o Michael e o seu filho Max, os nossos guias Nilo e Toni, aquele incansável grupo de carregadores e cozinheiros, entre eles o Marciel e o Wilfred. Será impossível esquecê-los

Entretanto, e à medida que subíamos pela margem direita do Urubamba e as oscilações do comboio nos embalava, revisitava mentalmente todas as etapas da nossa caminhada até à cidade perdida dos Incas. Cá dentro, aquele miúdo de 11 ou 12 anos, que sonhara visitar Machu Picchu, ainda saltitava sem parar.

Todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 



A seguir:
O fim da aventura peruana. 
A viagem pelo deserto até às ruínas da mais antiga cidade de todo o continente americano

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