quarta-feira, outubro 07, 2015

Legislativas 2015: quanto tempo durará este governo?

Como geralmente acontece em noite eleitoral, apenas o 2º classificado não cantou vitória mas, convenhamos, depois dos tremendos e sucessivos tiros nos pés dados desde o início da campanha, António Costa dificilmente poderia aspirar a outro resultado. Quem não se lembra da polémica com os outdoors, que começou com aqueles que pareciam cópias made in China da capa da revista "Despertai!", por exemplo? O pior foi contudo a incapacidade em apresentar propostas que convencessem os eleitores, perdendo diariamente terreno para Passos Coelho, ao longo da campanha.

Quando no fervor do triunfo começaram a cantar o hino nacional, veio-me à memória o trauma de ouvir a imitação de um caprino a cantar o "Grândola Vila Morena" feita por Miguel Relvas no Clube dos Pensadores. Podia ter sido pior, vá lá.


Realmente as coisas não podiam ter saído melhor à PAF. Apesar dos sucessivos escândalos que atingiram o Governo, desde a revelação dos históricos "esquecimentos" do primeiro-ministro em relação às obrigações contributivas (em contraste com as regras fiscais que foram sendo impostas), aos submarinos do vice-primeiro-ministro, o mesmo que reinventou o conceito de irrevogabilidade, passando pela ministra "SWAP", o caso Relvas, as ligações perigosas a instituições bancárias falidas por gestões de bradar aos céus (o que não invalidou que o Sr. Dias Loureiro fosse apresentado como "caso de sucesso" por Cavaco Silva), entre outros , a tudo isto o casamento de conveniência PSD-CDS conseguiu sobreviver. 

Claro que o caso Sócrates acabou por ser um conveniente alívio da pressão, conseguindo até o efeito colateral de atingir António Costa, pelo seu passado de proximidade ao recluso 44 mas, ainda assim, nada diminui o demérito do PS nesta derrota. Já a forma como Seguro foi afastado do PS poderá ter contribuído para afectar de alguma forma os socialistas mas, por si só, não me parece que este episódio tenha sido relevante no despique eleitoral, voltando a ser pertinente apenas na discussão à volta das consequências da derrota.

Fantasmas... Foto: 5dias

Apesar de tudo, usando agora uma terminologia futebolística para aumentar o interesse público deste artigo, entre seguir um caminho indefinido e um caminho que, não sendo o melhor, pelo menos era um caminho, o eleitorado optou por reeleger o binómio Passos-Portas mas não deixou de aproveitar para mostrar um valente cartão amarelo, sujeitando-os a ter de governar em minoria, ao perderem mais de 700.000 votos e 25 deputados, e ficando a depender de acordos prévios com os restantes partidos para poder governar. Foi por isso a pior vitória possível, sendo os festejos manifesta e deliberadamente exagerados.  

Passando agora para os partidos da esquerda, a CDU terá ficado algo desencantada com os seus resultados que, apesar de tudo, estão em linha com a lenta subida que tem vindo a registar nas últimas eleições. A desilusão de não ter sido a alternativa privilegiada de esquerda, em detrimento do BE, acabou por se fazer sentir. O PCP desempenha uma importante função social de defesa dos trabalhadores, algo que os distingue dos outros partidos, mas não pode continuar alheio à necessidade de renovação.

Uma das estrelas da noite. Foto: Esquerda.net

Por falar no BE, o partido de Catarina Martins acabou por ser estrela da noite eleitoral ao passar de 8 para 19 deputados. Acredito até que alguns destes novos deputados, apanhados de surpresa pelos resultados, estarão a fazer contas à vida para saber quem é que vai ficar com os miúdos enquanto estiverem no Parlamento. O mérito deste sucesso recai sem dúvida na qualidade de discurso da líder ao longo da campanha mas também terá a ver com a imagem positiva que o Bloco passou no termo da última legislatura. Quem não se lembra do autêntico fuzilamento de Zeinal Bava na comissão de inquérito parlamentar, às mãos de Mariana Mortágua, por exemplo? Nada mau para um partido que chegou a ser considerado como estando em vias de extinção.

À Assembleia chegou entretanto um novo partido, o PAN. De Lourenço e Silva confesso que pouco sei, a não ser que é engenheiro civil, pratica mergulho e tem uma horta cheia de erva porque se desleixou nos últimos dias. Que este mandato sirva para trazer algum ar fresco às discussões na AR. Sendo Portugal um país que tem fobia a novidades, preferindo o conforto bipolar da alternância PSD-PS, é um feito.

André Lourenço e Silva, o rosto do PAN na AR. Foto: PAN

A abstenção voltou entretanto a subir. Depois de todos se terem regozijado pela descida desta anunciada pelas primeiras projecções, verificou-se afinal que, não só não tinha descido, como acabou afinal por bater o recorde, ultrapassando os 43%. Continua a falar-se em "necessidade de reflexão", "cativar os cidadãos" mas isso continua invariavelmente a ser apenas um discurso que fica bem e não um discurso sentido. Importante, importante é ganhar, nem que haja apenas 2 ou 3 eleitores.



Cenas dos próximos capítulos

Os próximos dias serão sem dúvida muito interessante, com o PS a procurar situar-se no novo contexto político onde toda a gente lhe pisca o olho. Tornou-se de repente a solteira mais cobiçada da aldeia. A ajudar à festa, Cavaco Silva regressou da jornada da sua jornada de reflexão, na qual não atingiu o nirvana mas conseguiu chegar a uma brilhante conclusão: terá de haver consenso.  

A nós, contribuintes, resta-nos aguardar pelo desfecho desta história, se bem que o último governo minoritário que tivemos teve vida curta, tendo sido derrubado após a recusa do PSD em viabilizar mais um famigerado programa de estabilidade e crescimento (o PEC IV). A justificação dada então por Passos Coelho foi que não era necessário cortar mais salários nem despedir mais gente mas antes aplicar a austeridade ao Estado (recordar aqui). Enquanto aguardamos, sempre podemos ir assistindo ao desenrolar do caso BES e à discussão à volta dos números do défice, sabendo que Passos Coelho já assegurou que podemos ficar tranquilos. Obviamente.

PS (Post Scriptum, entenda-se) - Cá pelo burgo, repetiu-se o resultado de 2011: 2 deputados para a coligação e 2 para o PS, com a diferença de agora o número de votos ter sido favorável aos socialistas. Eu poderia dizer que alguém da coligação meteu água e que os eleitores não acharam grande piada a isso mas abstenho-me. Isto só diz respeito à queda de popularidade do primeiro-ministro. Obviamente.

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