quarta-feira, agosto 19, 2015

À descoberta de Beja!

Até agora, Beja era pouco mais que aquele aglomerado de casas que se avistava a partir da N18, sempre sem merecer uma paragem, e que sabíamos estar dotado de um moderno aeroporto, no qual às vezes até aterram aviões. E que tinha a Ovibeja, claro! Desta vez, aproveitando uma demorada viagem pelo Alentejo, houve finalmente tempo para parar em Beja e conhecer uma cidade que, a pouco e pouco, começa a valorizar e dar a conhecer um património de excelência.

A chegada a Beja fez-se já ao final da tarde, quando o calor abrasador do dia começa a dar lugar ao vento frio da noite, que indica que chegou a hora de trocar a manga curta por agasalhos mais confortáveis. Check-in feito no nosso alojamento, saímos para jantar e percorrer o centro histórico da cidade. Entretanto já tínhamos sido avisados que, sendo Domingo à noite, iríamos ter dificuldade em encontrar alguma coisa aberta e, já que no dia seguinte era Segunda-feira, nenhum museu iria estar aberto. Foi portanto uma sensação agridoce esta de sermos recebidos em Beja com grande simpatia e de, ao mesmo tempo, termos levado duas bofetadas psicológicas.

Assim, foi um centro histórico quase deserto o que encontrámos mas que serviu, ainda assim, para aguçar o apetite para um passeio mais atento no dia seguinte.

O castelo de Beja, com a torre de menagem em evidência.


Acesso à Praça da República, a praça central do centro histórico.


Pelas ruas de Pax Iulia

No dia seguinte, apesar de sabermos que os museus estavam fechados, decidimos começar o passeio precisamente pela zona do Museu Regional de Beja, não fosse dar-se o caso de este excepcionalmente estar aberto. Neste caso a teimosia não compensou. Mesmo assim, por alívio de consciência, insistimos em percorrer mais umas dezenas de metros até ao Núcleo Museológico da Rua do Sembrano, ali mesmo ao lado, onde acabámos por ter mais sorte. Aliás, até superou as expectativas.

Alertado pela nossa presença (não confirmo nem desminto um eventual ar de súplica), o homem que se encontrava atrás do balcão da entrada abriu-nos a porta e convidou-nos a entrar. Enquanto nos dava as boas-vindas, explicou-nos que o espaço estava de facto fechado à Segunda-feira mas, já que ele estava ali e ainda tinha serviço para fazer, não lhe custava nada deixar-nos visitar o sítio. Pela demonstração de simpatia e disponibilidade, vai daqui um grande abraço para o Sr. José Silva, um exemplo a seguir na promoção da sua cidade pela arte de bem receber.

Mas afinal, que sítio é este, o da rua do Sembrano? Nada mais nada menos que um espaço museológico que resultou da descoberta no local, durante obras efectuadas numa casa particular no final da década de 1980, de um conjunto de estruturas sobrepostas, cuja datação vai desde a Idade Contemporânea até à Pré-História! Foi aliás, graças a esta descoberta, que se ficou a saber que Beja é muito mais antiga do que se pensava, sendo muito anterior à Pax Iulia, romana. 

Todas as estruturas foram postas a descobertas e protegidas com um piso em acrílico, de forma a poderem ser admiradas, enquanto os objectos mais importantes foram expostos em vitrinas. Percorre-se assim, a olho nu, a milenar História da cidade de Beja. 


O Núcleo Museológico da rua do Sembrano


Os restos da larga muralha da Idade do Ferro (a partir dos séculos IX ou VIII a.C.) sobre os quais foram construídos edifícios romanos. Esta construção provou em definitivo a existência de uma povoação anterior à chegada dos romanos.


Feitas as despedidas, dirigimos-nos novamente até à Praça da República, para a admirarmos à luz do dia e também para bebermos um café. Aí, demos de caras com o pelourinho ou, melhor dizendo, com uma réplica aqui recolocada após a anterior ter sido destruída por um automóvel há 14 anos atrás. O pelourinho encontra-se hoje em dia completamente cercado pelo mobiliário de uma esplanada e desprovido dos 3 degraus octogonais que formavam a sua base, um triste cenário para um monumento que simboliza a autoridade municipal de uma cidade e que merecia mais respeito. 

O pelourinho e a esplanada ou "como admirar de perto um monumento nacional enquanto eventualmente se bebe um café, dependendo da disposição dos proprietários do estabelecimento".


Quem não teve respeito por nós foram os proprietários da esplanada que não se dignaram a aparecer, o que nos levou a desistir e a mudar para a esplanada seguinte... onde tivemos a mesma sorte! Das duas uma: ou em Beja também se pratica a "hora da siesta" e esta ocorre entre as 11h e as 12h, ficando os estabelecimentos abertos porque isto é tudo gente de confiança, ou há de facto ainda uma certa falta de tacto na arte de saber receber em alguns estabelecimentos da cidade. Como isto de negar café a quem dele precisa é um agravo que levamos a peito, acabámos mesmo por desistir e prosseguimos a nossa caminhada até ao Castelo.



Entrada para o hospital da Misericórdia, a caminho do castelo


O Castelo de Beja, recordista da Península Ibérica

Na visita ao Castelo tivemos boas e más surpresas. Começando pelas más, a torre de menagem que, segundo dizem é do alto dos seus 40 metros a torre de menagem mais alta da Península Ibérica (ocorre-me um certo sentimento patriótico-Freudiano), estava fechada ao público e envolvida por andaimes e redes de protecção. Ao que parece, um varandim da torre ruiu no ano passado e esta foi alvo de uma intervenção de emergência, aguardando agora obras de reparação e consolidação e não se sabendo ainda quando voltará a abrir ao público.

Para piorar ainda mais o nosso cenário de desilusão, também a cafetaria do castelo estava fechada, isto porque a menina que la trabalha estava de férias. 

Tivemos de nos contentar em admirar os muros da imponente fortaleza que mostram ainda alguns elementos romanos, como o arco de porta ainda de pé no exterior. 

O castelo visto de fora, com a sua torre de menagem em grande evidência, tal como o arco da porta de construção romana.

Felizmente para nós, soubemos que no interior do hospital da Misericórdia, construído no século XV por aquele que haveria de ser o nosso rei D.Manuel, o primeiro de seu nome, havia uma cafetaria em funcionamento. Não hesitámos portanto em entrar no edifício para -finalmente!- podermos beber o café que o vício já exigia havia já algumas horas e que nos foi servido por uma senhora extremamente simpática.

No interior do Hospital da Misericórdia de Beja.


Da Judiaria à Mouraria, acabando no Fórum de Pax Iulia

Reposto o nível esperado de cafeína para aquela hora do dia, seguimos ao longo da muralha da cidade, percorrendo respectivamente as antigas Judiaria e Mouraria, ambas com casas baixas e ruas em traçado sinuoso. Uma outra Beja dentro de Beja que vale a pena visitar.

A meio caminho, deu ainda para admirar a Porta de Avis, uma das várias portas da antiga cerca medieval que tem como particularidade, à semelhança da porta junto ao castelo, o facto de ser de origem romana.

A nota negativa vai para o Jardim da Mouraria, um espaço com ar relativamente recente que se encontra ao abandono, seco e cheio de lixo.

A Judiaria de Beja


O arco romano da Porta de Avis


Um recanto da Mouraria de Beja que convida ao convívio


Uma rua da Mouraria

Antes de deixarmos a cidade, houve ainda tempo para dar um salto até às escavações arqueológicas actualmente a decorrer na rua da Moeda, onde foi encontrado o que resta daquele que será o maior templo romano até hoje encontrado em território português e um dos maiores da Península Ibérica. Esta e outras estruturas faziam parte do Fórum, o centro cívico e religioso da Pax Iulia romana. 

Para este local está projectada a construção do Centro de Arqueologia e Artes de Beja, local que implicará a recuperação e requalificação dos edifícios circundantes e que colocará em evidência os vestígios arqueológicos do local. A coisa promete!


Foi pois com um sentimento de que ficou muito para ver que deixámos Beja, rumo à Costa Vicentina. É também precisamente por esse motivo que inevitavelmente voltaremos à cidade, uma cidade que começa lentamente a valorizar e mostrar aos visitantes um património de excelência e que já merece ser visitada... apesar de ser complicado fazer com que nos sirvam um café.

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