segunda-feira, abril 28, 2014

Assim se contribuiu para a limpeza da Serra da Estrela

Porque o Geocaching não é apenas um passatempo (ver aqui), um grupo de meia centena de praticantes desta actividade juntou-se no último Domingo no ponto mais alto de Portugal Continental, para uma operação de limpeza da zona envolvente da Torre e nem o forte vento e a baixa temperatura foram suficientes para desanimar os participantes.

Tratou-se de um evento C.I.T.O. (Cache In Trash Out), um evento no qual os participantes, muitas vezes sem se conhecerem, marcam encontro num local determinado e, chegados aí, dão o seu contributo para melhorar o local, recolhendo o lixo que por aí se encontrar espalhado. Este tipo de evento insere-se no espírito de consciencialização ambientalista promovido pelo Geocaching. Este evento foi organizado por alguns geocachers da região e teve algum apoio por parte da Câmara Municipal de Seia, que cedeu os sacos destinados à recolha do lixo.

A Torre é um dos pontos mais maltratados da Serra e onde o impacto ambiental do elevado afluxo de turistas mais se faz sentir. A facada mais profunda foi mesmo a própria instalação do "centro comercial" no local, algo que não conheço de mais nenhuma paragem. O resultado é a acumulação de lixo (especialmente plástico e vidro) um pouco por todo o lado, numa demonstração de falta de civismo e também de falta de respeito por este sítio tão emblemático do nosso país.

Depois deste fim-de-semana, graças ao espírito de missão de uns quantos, pelo menos um cantinho da Serra ficou mais limpo e foi para mim um enorme prazer poder participar nesta iniciativa. Venham mais!










sexta-feira, abril 25, 2014

Recortes do 25 de Abril

Alguns recortes da 2ª tiragem do nº38838 do Diário de Notícias, então vendido a 2$50, da Quinta-feira 25 de Abril de 1974. Os diversos texto dão a entender um conhecimento algo confuso da situação, avançando algumas suposições que, sabemos hoje, estavam erradas e -pasme-se!- uma das primeiras fotografias das movimentações dos militares a chegar à redacção do DN chegou de... Londres! Segundo o DN tratava-se de uma "telefoto". 


Cliquem nas fotos para ampliar


A manchete do DN

A primeira página do DN, com uma foto das movimentações militares enviada de Londres!

Recorte da primeira página

Recorte da primeira página


Recorte da primeira página

Desenvolvimento da página 5

Estariam a decorrer negociações para se chegar a um acordo "acerca dos pontos em contestação".

Os ecos da revolução em outros pontos do país.

O apelo ao encerramento do comércio e a notícia de perturbações nas comunicações telefónicas. Para o comércio, seria o feriado do 25 de Abril nº0.

O MFA começava a perceber que a população começava a concentrar-se nas ruas onde decorriam as movimentações militares. 

Entretanto, outras notícias e anúncios eram publicados no DN, que tinha de continuar a sua missão de informação. Curiosamente, uma das notícias era a de uma visita do Presidente da República a Ferreira do Zêzere que, pelo rumo que a História seguiu, nunca viria a acontecer.

Anúncio da visita de Américo Tomás ao concelho de Ferreira do Zêzere

A descontracção do senador E.Kennedy esbarrava no espírito militarista e manipulador dos soviéticos.

De França chegavam desenvolvimentos do caso das aparições da localidade de Castelnau de Guers (e não du-Guers). As "15 velhinhas" que normalmente assistiam à missa local surpreendem-se com a multidão que acorre à pequena localidade, após o padre e uma trintena de paroquianos terem visto aparecer o rosto de Cristo sobre a cortina que tapava as hóstias. Os visitantes são descritos como "térmitas destruidoras".

Em jogo a contar para a extinta Taça das Taças, o Sporting perdeu em casa do Magdeburgo por 1-2.

Filmes e revista em exibição

Uma peça sobre... Eusébio e um decote impudico de Jacqueline Bisset 

sábado, abril 19, 2014

A imagem do fim-de-semana

Campanário e sepulturas da Capela de São Pedro de Vir a Corça. 

Situada em Monsanto, à volta desta capela do século XII ou XIII abundam vestígios de época romana, o que deixa supor a cristianização de um anterior local sagrado pagão. O facto deste templo cristão estar destacado do templo não é incomum mas não deixa de ser ser curiosa a escolha do local onde foi implantado, como se estivesse em permanente equilíbrio precário.

O sino já desapareceu há muito, como se se quisesse preservar o silêncio e a paz que se sentem neste lugar sagrado, cujas raízes são mais profundas que a memória.

As sepulturas e o campanário

O campanário em destaque

E para uma noção da escala...

A lenda de São Pedro de Vir a Corça

O curioso nome do local é explicado por uma lenda. Diz-se que junto ao campanário viveu em tempos um eremita, de nome Amador, que um dia encontrou um recém-nascido abandonado. Como não tinha forma de alimentar o desafortunado bebé, pediu a Deus que o ajudasse e este enviou-lhe um corça para amamentar a criança. O animal continuou a alimentar o recém-nascido várias vezes por dia até atingir uma idade que lhe permitiu finalmente alimentar-se pela mesma dieta de frutos e vegetais do eremita.

quarta-feira, abril 16, 2014

Destas pontes só há duas em Portugal


Situada no concelho do Sabugal, a Ponte de Sequeiros é um dos dois únicos exemplares de pontes fortificadas que subsistem em território português, correspondendo o outro à ponte de Ucanha, Tarouca.

Embora pouco sobre da torre que outrora se erguia na extremidade pousada na margem direita do rio Côa, a ponte não deixa de ser impressionante pela dimensão e pelo seu bom estado de conservação. Na torre é ainda possível ver os encaixes das duas portas, uma delas de guilhotina.




Sobre a data de construção da ponte é que ninguém se parece entender. Na sinalética encontrada em Vale Longo a ponte é dada como romana, em alguns sites é descrita como "medieval de estilo romano", noutros sites e nos painéis interpretativos a ponte é apontada como sendo do século XIII e sendo ponte de fronteira (o Rio Côa era até ao Tratado de Alcanizes a fronteira entre o reino de Portugal e o reino de Leão e Castela), enquanto que a informação disponibilizada no Sistema de Informação para o Património Arquitectónico afirma que a ponte terá afinal sido construída em 1447, embora pareça ali haver alguma confusão geográfica.

Isto para não falar da discussão em torno da localização da própria ponte já que esta é reclamada de igual forma pelos habitantes da antiga freguesia de Vale Longo, hoje "União das freguesias de Seixo do Côa e Vale Longo", e pelos de Badamalos, hoje "União das freguesias de Aldeia da Ribeira, Vilar Maior e Badamalos".



Esta ponte, à época uma das poucas pontes sobre o Côa, era local de pagamento de portagem sendo a sua cobrança assegurada por uma pequena guarnição instalada na torre. As alternativas à ponte era a passagem a vau ou por barca que não eram isentas de risco, sobretudo quando a corrente do Côa era mais forte. As portagens foram ao longo da Idade Média uma fonte privilegiada de receitas tanto para a nobreza como para o clero. O seu valor, geralmente agravado para os não residentes na zona, podia depender do valor das mercadorias e do número de pessoas da comitiva que pretendia atravessar o rio. 

Embora na altura um qualquer visionário que anunciasse que, um dia, as portagens da província da Beira haveriam de ser concessionadas através de umas tais de PPP e, mais ainda, ousasse dizer que a prosperidade das gentes da dita província da Beira seria tal que as portagens haveriam de ser as mais caras do Reino, provavelmente fosse parar à fogueira por estar a dizer coisas do demo, as portagens são prática que já vem de longe.

terça-feira, abril 15, 2014

Um pinheiro de alta tecnologia



Embora seja absolutamente contra a utilização de plantas ou mais comummente flores de plástico em espaços públicos, achei piada a este "pinheiro", apesar de já estar algo descascado. A ideia até acaba por ser interessante pois atenua o impacto paisagístico daquilo que está ali disfarçado.

Trata-se de um grupo de antenas celulares para comunicações móveis, vulgo "antena para telemóveis", e situa-se na localidade fronteiriça de Nave de Haver, no concelho de Almeida. Seria realmente interessante se as operadores se preocupassem em disfarçar aquelas estacas metálicas, sobretudo as situadas em zona rural ou florestal, camuflando-as desta forma e plantando algumas árvores ao seu redor para ajudar ao seu enquadramento.

segunda-feira, abril 14, 2014

Quando o RSI ajuda mas também é factor de exclusão

-"Isto não está nada fácil, sabe?". Foi com estas palavras que uma senhora, que até há alguns dias era uma perfeita desconhecida, interrompeu o meu trabalho no balcão de atendimento de uma empresa cliente em Castelo Branco. Apesar da interrupção ser inconveniente, resolvi não impedir indelicadamente a continuação do monólogo. Afinal, pensei que seria fácil manter-me concentrado no meu trabalho fingindo que a estava a ouvir. Estava enganado.

-"Vim buscar comida ali à cantina social. Infelizmente tenho de o fazer, não tenho outra hipótese porque não tenho dinheiro para comprar comida. O pior é que a comida nem sempre é boa e há dias ficámos todos doentes lá em casa, eu, o meu marido e a minha filha. As outras pessoas que lá vão também se queixam da qualidade da comida mas temos medo de falar porque, se o fizermos, vão-nos chamar de ingratos.Vamos lá ver o que me calha hoje na sorte."

A minha atenção começou a divergir da minha tarefa e fui ficando cada vez mais interessado naquilo que aquela senhora me dizia. Afinal, há coisas às quais é impossível ficar indiferente, sobretudo por aquilo que, a palavras tantas, ela acabou por dizer:

-"O senhor tem alguém na sua vida? Se tiver, namore! Aproveite! Eu e o meu marido deixámos de dar beijos há já algum tempo. As nossas noites são passadas a chorar. Eu tinha uma loja de trabalhos de costura que sobrevivia com dificuldade e acabei por fechá-la. Maldita a hora em que o fiz. O meu marido foi despedido pouco tempo depois porque o Governo mudou as regras (sic) e ficámos sem nada. Sabe o que é não ter nada? Moro numa cave e isso é tudo o que nos separa de sermos sem-abrigos. Não temos nada. Comida, detergentes, gás, não temos nada disso. É uma sensação horrível. Não o desejo a ninguém, nem à pior pessoa do Mundo."

Pergunto-lhe se não recebe nenhum tipo de apoio.

-"Sim. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção. Vai tudo para a renda e ainda assim não é suficiente. Depois falta o resto. No mês passado ainda fiz 30 euros a arranjar umas peças de roupa. Este mês não sei como vai ser. Às vezes venho aqui e esta senhora (recepcionista da clínica) dá-me alguma carne. Estou-lhe grata do fundo do coração."

Nesta altura, senti-me tentado a pegar na carteira para lhe dar algum dinheiro para poder comprar alguma comida. Pareceu adivinhar os meus pensamentos.

-"Sabe de uma coisa? Eu sentir-me-ia muito melhor com 3 euros ganhos a trabalhar do que com 5 euros que o senhor eventualmente me pudesse dar, porque é disso que precisamos, eu e o meu marido. Trabalho. Eu tenho muito jeito para trabalhos de costura e também para restauro. Faço restauro de livros, tapetes, carpetes,.... Imagine que até restauro tapetes de Arraiolos! O pior é que tento divulgar o que faço e não resulta. Tenho um blogue [ver aqui] e já distribuí panfletos. As pessoas até dizem "Você faz tanta coisa? Qualquer dia encomendo-lhe uns trabalhos" mas a campainha nunca toca."

-"Mas também não é só isso. As pessoas que recebem RSI são discriminadas e chegam até a ser tratadas como criminosas. Eu sinto isso.Nem imagina o quanto é duro."

Para terminar a conversa, fala-me de uma ideia que lhe foi sugerida por uma amiga: contactar a produção de um desses programas de televisão que têm ajudado pessoas em situação semelhante. O único obstáculo que a impede de o fazer é a vergonha. Pergunto-lhe porque não o faz. Afinal, o pior que poderá acontecer é receber um "não". Seja como for, estará sempre a bater a duas portas: a da solidariedade e a da promoção do seu trabalho. Ela fica a pensar durante algum tempo e, antes de se ir embora, remata:

-"O senhor é capaz de ter razão. Vou pensar seriamente nisso. Entretanto, se precisar ou conhecer alguém que precise dos meus serviços, agradeço que me contacte. Obrigado por este bocadinho e desculpe lá pelo tempo que lhe roubei. Mas sabe? Faz-me bem desabafar."

Foi assim que eu conheci a Dª Clara. Fiquei a vê-la ir embora e a pensar em tudo o que me tinha dito, aquilo que aqui reproduzi e outras confidências que seria indelicado partilhar. Perguntei-me quantas pessoas estarão neste momento nas mesmas condições, vivendo de uma solidariedade que chega a ser um factor de exclusão e sonhando com o dia em que a campainha finalmente tocará. Servir-lhes-á de conforto, sabendo que perderam tudo ou quase tudo nos últimos anos, ouvir os nossos governantes afiançar que o país está melhor? 

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