segunda-feira, dezembro 22, 2014

Roma, a cidade eterna!


Criança que se preze gostaria de ir à Disneylândia. Eu, nos meus tempos de Escola Primária, queria era ir a Roma, sobretudo a partir do momento em que comecei a ler uns livros de História que contavam o épico (e vão) desaguisado de um pastor serrano chamado Viriato com as temíveis legiões romanas. A visita que finalmente fiz à cidade eterna, ainda mais especial por ter sido sob o pretexto de lua-de-mel, fez-me descobrir uma cidade capaz de provocar crises de algo semelhante a uma hiperglicemia monumental a quem aprecia especialmente o património cultural, mas não só. Roma tem muito mais que se lhe diga!


Chegámos ao aeroporto da Portela algo desconfiados. Afinal, o voo que nos estava destinado era da TAP e esta companhia aérea tinha estado nas últimas semanas ligada a casos sucessivos de atraso de voos. Chegando em cima da hora, uma funcionária stressada levou-nos até ao balcão de check-in alertando-nos para o facto de o voo estar na iminência de fechar. Ainda estaríamos afinal meia hora à espera que a porta de embarque abrisse, para embarcarmos no velhinho Fokker 100 no qual viajaríamos até Roma, sentados entre jogadores da selecção italiana de hóquei em campo.

Em Roma, depressa descobrimos que é muito difícil sentirmos-nos sozinhos naquelas ruas apinhadas, não pelo movimento das pessoas mas antes pela quantidade de indivíduos que nos abordam, na tentativa de vender gadgets de todo o tipo, visitas guiadas, bebidas geladas (era Verão ainda) ou simplesmente para obter dinheiro sem dar nada em troca.

No que toca à circulação, os peões encontram em Roma condutores com um estilo de condução muito arrojado. Atravessar as ruas numa passadeira sem semáforos é um verdadeiro desafio e qualquer peão que se detenha junto à passadeira, na esperança que os condutores parem para lhe ceder a passagem, melhor fará em ir buscar uma cadeira para se sentar, já que arrisca ficar ali muito tempo. O segredo é avançar e olhar os condutores nos olhos e, acima de tudo, nunca hesitar já que isso fará com que os condutores percam todo o respeito pelo peão. Ser peão em Roma é uma constante prova de macheza.

Os transportes públicos no centro de Roma resumem-se essencialmente a autocarro e táxi, já que o metropolitano, constrangido pela riqueza patrimonial do subsolo romano, não pode chegar ao coração da cidade. O principal problema foi conseguir perceber a intrincada malha das linhas de autocarro e, pior ainda, conseguir associar o nome das paragens às ruas. Adquirimos um passe que nos dava acesso grátis ou reduzido aos monumentos e nos permitia também viajar gratuitamente nos autocarros da cidade. O pior foi quando no último dia, já com o passe expirado e quando procurávamos chegar à estação de comboios para prosseguir viagem para Sul, entrámos num autocarro sem máquina dispensadora de bilhetes e o condutor, com o modo de simpatia desligado, nos informou que não vendia bilhetes. À minha pergunta de "Então como fazemos? Podemos ir na mesma?" limitou-se a virar a cara para o lado. Como quem cala consente, lá fizemos a viagem de borla até à estação de Roma Termini.

Quanto à comida, uma das primeiras coisas que aprendi a dizer foi "senza formaggio", que é como quem diz "se faz favor, não incluam os meus pratos nessa mania generalizada de incluir queijo em tudo aquilo que se ingere, que isso é coisa que abomino". Aquilo é gente que, se for preciso e não prestarmos atenção, até no café são capazes de enfiar queijo. Seja como for, lá sobrevivi e acabei até por ter até excelentes surpresas gastronómicas e até fiquei fã de um restaurante situado no Trastevere, uma simpática zona na margem direita do Tibre. Dos gelados nem vale a pena falar. Provámos tudo aquilo que era humanamente possível e os que sobraram não tinham pior aspecto.


Ponte para a Ilha Tiberina, uma pequena ilha do Tibre no centro de Roma.

Piazza de Santa Maria, no Trastevere 



Apesar do queijo, têm sentido de humor estes romanos


Nas nossas deambulações pela capital italiana, sabendo de antemão que seria impossível ver tudo o que há para ver num ano, quanto mais num punhado de dias como era o nosso caso, decidimos optar por alguns locais mais emblemáticos.



A entrada para a Praça de São Pedro, no centro da qual se ergue o obelisco egípcio em granito que outrora estava no centro do Circo de Nero, não muito longe do local actual. Mudou-se para aqui no final do século XVI. 


O Vaticano, já se sabe, é o sublimar da humildade e recato pregados nas margens do Jordão por Jesus Cristo mas ao contrário. Não fomos à Basílica até porque, uma vez que já vimos o filme "Anjos e Demónios" repetidas vezes já conhecemos bem o edifício por dentro e por fora. Visitámos sim o museu do Vaticano, percorrendo as galerias cheias de estátuas de deuses e imperadores da Roma Antiga "coladas" a pedestais que nada têm a ver com elas (muitos dos pedestais são até inscrições funerárias!), estátuas essas que, por vergonha do papa Clemente XIII, tiveram as suas partes pudendas cuidadosa e inclementemente tapadas por folhas de figueira. A passos tantos demos por nós nos antigos aposentos papais cujas paredes estão cobertas pelas pinturas dos grandes mestres e acabámos na Capela Sistina onde a voz nasalada de um segurança se fazia persistentemente ouvir em alto e bom som pelos altifalantes, apelando ao silêncio.


Pátio no complexo de palácios do Vaticano, com a escultura contemporânea "Esfera dentro da esfera".

Bem mais interessante, do ponto de vista arqueológico, acabaria por ser o Museu do Capitólio, situado naquilo que foi durante a antiguidade o arquivo geral de Roma, então capital do Mundo conhecido.

Como não podia deixar de ser, já que a razão de estarmos em Roma estava ligada à Muralha deste imperador, não pudemos deixar de visitar o mausoléu do imperador Adriano, hoje bastante transformado e rebaptizado de Castel Sant'Angelo. Se hoje é impressionante, como seria então na altura da sua construção, com as paredes revestidas a mármore e letras douradas e com a ciclópica estátua que recebia as oferendas e rezas dos visitantes ao imperador defunto?

Rampa helicoidal dentro do Castel Sant'Angelo através da qual se acedia à câmara sepulcral do mausoléu de Adriano. Por aqui passou o cortejo fúnebre do imperador na sua última viagem.


Pelas ruas mais sinuosas e modestas chegámos à Piazza Navona cuja planta reproduz na perfeição a arena do Estádio de Domiciano e cujos edifícios circundantes foram construídos sobre as bancadas deste. Numa das ruas adjacentes, ouvia-se bem alto a música da festa de um casamento judeu que decorria num dos terraços e que parecia bem animada.

Piazza Navona cuja forma denuncia a planta da arena do Estádio de Domiciano.


O Panteão de Roma também mereceu a nossa visita. Trata-se de um magnífico edifício, provavelmente o mais bem conservado do Império Romano (foi construído no reinado de Augusto e reconstruído pelo "nosso" Adriano 100 anos mais tarde) e que, se outrora foi dedicado aos principais deuses do panteão romano, hoje encontra-se tranformado na igreja de Santa Maria e Mártires. Alberga também os túmulos de várias personalidades relevantes, desde artistas do Renascimento até dois reis de Itália, que são diligentemente velados por associações monárquicas italianas, para fúria dos republicanos.


Até ao século XIX, a cúpula do Panteão era a maior cúpula do Mundo. A 40m de altura, o óculo com 9m de diâmetro ilumina o espaço de uma forma muito particular.


Ali perto, a Fonte de Trevi encontrava-se infelizmente em obras mas a visita era permitida através de uma passadeira metálica que não destoava dos muitos andaimes. Para não privar os turistas do romântico gesto de atirar uma moeda para a fonte, a mesma onde o Dan Brown afogou um cardeal pretendente ao trono da Santa Sé, foi disponibilizado de forma provisória um tanque para o efeito. Se os turistas querem atirar moedas, para quê dificultar-lhe a tarefa?


À volta da Fonte de Trevi abundam as lojas e os vendedores de rua, como este vendedor de castanhas.

Partindo do Capitólio, junto ao qual ficámos alojados, percorremos a distância que nos separava do Coliseu, ao longo da rua que separa as ruínas do fórum do mercado de Trajano. O Coliseu ou, mais correctamente, o Anfiteatro Flaviano, foi construído com as receitas provenientes do saque de Jerusalém no ano 70. A propaganda posterior fez deste sítio um local icónico do martírio de cristãos mas, ao que parece, os números foram bastante exagerados.

Vista para o último andar do Coliseu, onde se situava o "camarote imperial". Para se deslocarem ao Coliseu e evitar contactos indesejáveis com a plebe, os imperadores usavam um túnel conhecido como Túnel de Cómodo (o tal que fez a vida negra a Russel Crowe no filme "Gladiador"). A cobertura têxtil do Coliseu era manobrada por marinheiros, habituados que estavam a manipular as velas das suas galeras.


A complexidade dos mecanismos desta arena permitia elevar em pouco tempo, através de alçapões, sistemas de roldanas e elevadores, diversos elementos de cenário, animais, gladiadores. A dada altura, a arena podia até ser transformada em palco de recriação de batalhas navais históricas através da sua inundação. Quanto aos espectadores, que podiam ser entre 50.000 a 80.000 (as opiniões dividem-se), ir aos jogos era um ritual obrigatório. Os lugares eram distribuídos de acordo com a posição social e também não era raro haver situações de pugilato entre adeptos de diferentes gladiadores. Ainda bem que evoluímos bastante desde esses tempos.


À saída, uma simpática senhora chinesa veio inadvertidamente para cima de mim executando um estranho bailado. Fiquei tão impressionado que procurei logo ficar também nas fotos que a família lhe ia tirando. No final, quando se apercebeu da minha presença, retribuiu com um "Obrigado". Uma simpatia.

Pela Via Appia Antiga


O último dia em Roma foi parcialmente dedicado a percorrer parte da Via Appia antiga, aquela que terá sido provavelmente a primeira auto-estrada da História. Esta via construída em 312 a.C. tinha como objectivo facilitar o trânsito entre as cidades de Roma e Cápua, tendo mais tarde sido prolongada até à cidade de Brindisi, na costa adriática. Para além da perfeição da obra (diz-se que a estrada era tão perfeita que as pedras pareciam ter nascido juntas e terá sido a primeira via em que se usou um ligante de cal para selar as juntas), o que torna a obra notável é o seu traçada rectilíneo na primeira centena de quilómetros. Começa com um primeiro troço de 36km após o qual, com um desvio de apenas 2º (!!) começa outro de 62km até à actual cidade de Tarracina, o que faz deste, ainda hoje, o mais longo troço viário em linha recta da Europa!

A Porta San Sebastiano, antiga Porta Appia das muralhas aurelianas (construídas por ordem do imperador Aureliano no século III), atrás das quais se encontra um arco triunfal. As paredes desta porta estão cobertas de graffitis feitos ao longo dos séculos desde a sua construção.


Partindo das Termas de Caracala, saímos do perímetro de Roma pelas portas de São Sebastião, antiga Porta Appia, das muralhas aurelianas. Os primeiros quilómetros, até começar efectivamente o lajeado, não são particularmente interessantes, já que a via é hoje uma estrada estreita sem passeios e bastante movimentada mas, a dada altura, o trânsito é desviado para a Via Appia Nuova e então sim, pode-se caminhar descontraidamente.

Ao longo da via os monumentos funerários sucedem-se, uns mais monumentais, outros mais modestos, tendo alguns sido reaproveitados quer em construções antigas, como fortificações, quer em moradias que ainda hoje são habitadas. O monumento funerário mais imponente é sem dúvida o mausoléu de Cecília Metela.


Um monumento funerário reaproveitado como extensão de uma vivenda contemporânea.

Apesar de se tratar de um valiosíssimo monumento protegido por lei e integrado num parque criado para aumentar o âmbito de protecção, assistimos a muitos atentados ao longo do percurso. Nos muros das várias vivendas (de proprietários "remediados", como diria o primeiro-ministro português) distinguem-se fragmentos de cerâmica e elementos arquitectónicos antigo reaproveitados e -pasme-se!- sobre a via circulam veículos, apesar da expressa proibição.


Sim, há ali um sinal que parece ser de sentido proibido, sublinhado por um boneco representando um polícia. Em Itália, pelos vistos, este sinal deve significar alguma obrigatoriedade de circulação.


Fomos caminhando até a noite cair e percebermos que éramos os únicos a circular por ali. Com a ajuda de um pequeno mapa, descobrimos um pequeno caminho rural através do qual, iluminados pela luz da Lua, fomos parar a um subúrbio onde apanhámos um autocarro de volta a Roma. Ficou a outra metade do percurso da Via Appia por percorrer, infelizmente.


O fim do nosso percurso pela Via Appia: o portão de entrada da Villa dos Quintili, um magnífico palácio do século II que foi de tal forma alvo da cobiça do imperador Cómodo (outra vez!) que os seus proprietários acabaram por ser acidentalmente executados. As ruínas são de tal dimensão que o local chegou a ser chamado de Velha Roma quando a memória da sua origem se perdeu.

No dia seguinte chegou finalmente a hora de nos despedirmos da cidade eterna, prosseguindo a nossa viagem para Sudeste, tendo como primeira etapa Cassino e a sua famosa abadia. O melhor estava ainda para vir.

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