sábado, dezembro 27, 2014

Monte Cassino, o monte que custou mais de 140 vidas por metro

A cidade de Cassino é uma cidade pacata, situada à sombra de um castelo recém-restaurado e de um outro imponente edifício do qual, quando o ruído da cidade o permite, se ouvem as badaladas de um sino. Trata-se da abadia de Monte Cassino, um edifício cujo nome se tornou tristemente célebre pela encarniçada batalha que ali se travou entre as forças especiais alemãs e as tropas aliadas durante a II Guerra Mundial.


A nova cidade de Cassino, construída um pouco a Sudoeste da antiga povoação que, juntamente com o castelo, foi literalmente arrasada durante a II Guerra Mundial.


O plano era viajar até Bari, na costa do Adriático mas decidimos incluir uma etapa na nossa viagem, pernoitando em Cassino, uma pacata cidade no extremo da região da Lázio. A viagem fez-se de comboio e ficámos bastante surpreendidos com a qualidade de serviço. Como não podia deixar de ser, a viagem não poderia ser isenta de sobressaltos e, já quase no final da viagem, percebemos que deveríamos ter validado os nossos bilhetes nas máquinas disponibilizadas para o efeito ainda em Roma. Felizmente, fizemos a viagem em absoluta tranquilidade sem que nenhum revisor tivesse aparecido para nos cumprimentar.

Chegados a Cassino, encontrámos uma cidade que nos pareceu algo desordenada o que acaba até por ser compreensível dado o passado recente da cidade. Após termos vencido a distância a partir da estação, chegámos ao nosso hotel (ver aqui) onde fomos recebidos pela funcionária de hotel mais efusiva e extrovertida que alguma vez havíamos encontrado em semelhante posição. Com um delicioso inglês enfiado à força numa forma italiana, descreveu-nos com um discurso entusiasmado que poderíamos encontrar em Cassino.

Aproveitando o pouco tempo de luz que ainda tínhamos e já que ficava mesmo ali ao lado, decidimos fazer uma rápida caminhada até ao castelo próximo, embrenhando-nos numa estreita estrada asfaltada monte acima, pelo meio da floresta. A dada altura, ouvimos acima de nós evidentes sons de movimento que pareciam acompanhar-nos e, no momento em que a estrada descrevia uma curva em cotovelo, fomos surpreendidos pela aparição de um javali.


O primeiro javali que avistámos e que desconhecia que as regras de confrontação com um ser humano ditam que se ponha a milhas o quanto antes. Posso dizer hoje que, em Setembro de 2014, derrotei um javali no "jogo do sério".

Quando finalmente decidiu fugir, foi seguido quase de imediato por outros dois, acabando por desaparecer na floresta. Entretanto começava a escurecer e vimos-nos forçados a desistir da nossa ida ao castelo, regressando à cidade que pouco tinha para nos oferecer. O mais emocionante da noite na cidade acabou por ser a nossa tentativa de reconstruir a bicicleta de um ciclista que, movido a álcool, se estatelou à nossa frente, fazendo com que várias peças da sua montada ficassem espalhadas na calçada.

O dia seguinte seria bem mais interessante, com a visita logo pela manhã à abadia de Monte Cassino.


A Abadia de Monte Cassino, o monumento-fénix


A partir de uma praça de Cassino onde existe uma igreja que parece uma unidade fabril, avista-se a abadia de Monte Cassino lá no alto. 

Quem conhece a História da II Guerra Mundial, terá com toda a certeza ouvido falar da abadia de Monte Cassino e de como esta abadia, fundada por São Bento no século VI no local onde existia um templo dedicado a Apolo, foi palco de uma das mais duras batalhas desse conflito.

A invasão aliada de Itália começou em 1943, menos de um ano antes do desembarque na Normandia, facto que o rei italiano aproveitou para fazer lavagem de cara do seu país no conflito, mandando prender Mussolini e assinando a paz com os Aliados, Quem não achou piada a isto foi Hitler que deu ordem para que as suas tropas ocupassem o território italiano. Como Mussolini foi entretanto libertado por comandos alemães e fundou um novo estado italiano no Norte, passou a haver tropas italianas ao lado dos alemães e também ao lado dos Aliados. Uma bela confusão, como devem imaginar.

À medida que os Aliados iam avançando para Norte, a resistência ia sendo cada vez mais tenaz, já que os alemães iam construindo linhas defensivas umas atrás das outras nas zonas montanhosas do centro de Itália. Uma delas, a Linha Gustav, tinha um ponto nevrálgico na região de Cassino.

Como os monges beneditinos de Monte Cassino não queriam envolver a sua abadia no conflito, negociaram com os alemães e, segundo consta, estes concordaram em não ocupar Monte Cassino. Melhor ainda, ofereceram-se para transportar os tesouros culturais da abadia para a segurança do Vaticano. Dizem no entanto as más línguas que o número de camiões que saiu da abadia, carregados com os preciosos livros, quadros e outras obras de arte, foi significativamente maior que o número de camiões que efectivamente chegou ao Vaticano. Há até quem diga que 15 caixas serviram de presente de aniversário ao infame Göering. 



A memória da destruição no museu da abadia


Imobilizados diante da Linha Gustav, os Aliados começaram a acreditar que, se não havia artilharia, haveria pelo menos um posto de observação nazi na abadia. Pelo sim pelo não, foram largadas sobre o edifício beneditino mais de 1.150 toneladas de bombas, reduzindo a abadia a um monte de escombros que rapidamente -então sim!- foi ocupado pelos para-quedistas alemães. Só passados 3 meses, à custa de milhares de vidas, o monte seria finalmente conquistado.

O cemitério polaco, num monte próximo. Aos soldados do exército da Polónia coube o feito de serem os primeiros a chegar ao topo do Monte Cassino, pondo assim fim a 4 meses de combate. Considerando que o monte tem 520m de altitude e que a batalha custou a vida a mais 74.000 soldados (Aliados e alemães) antes do topo ser atingido, temos portanto um custo por metro de mais de 140 vidas.

Após a guerra, a abadia seria reconstruída, sendo os custos suportados na totalidade pelo estado italiano. O edifício actual é pois praticamente idêntico ao que foi destruído durante a guerra, vendo-se apenas aqui e ali um ou outro pormenor inacabado.

A nave central da reconstruída igreja da abadia em cujo tecto ainda estão por pintar as cenas que o decoravam antes da II Guerra Mundial


A Abadia hoje

Sobre a porta da abadia (na qual não entram os turistas) está gravada de forma bem visível a palavra "Paz".

A Abadia funciona ainda hoje como tal mas também como museu e local de peregrinação, já que aí se encontram as relíquias de São Bento e Santa Escolástica, religiosamente guardadas (o termo é aqui perfeitamente aplicado) numa pequena arca de pedra, sob o altar-mor da igreja. Outra opinião têm os monges da abadia de Fleury, em França, que garantem estarem ali e não em Cassino as relíquias de São Bento. Contudo, conhecemos bem a capacidade que as relíquias de santos têm de se multiplicarem como se gozassem da capacidade de mitose. De outra forma, ao contrário do que hoje acontece, com todos os pedaços da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado que estão espalhados pelo Mundo católico, não seria possível construir um navio. Também da virgem Maria existem aqui relíquias, na forma de um pedaço do seu véu e de uma pequena pedra que terá vindo do seu túmulo. Coisas da fé.

O museu tem muito mais do que apenas objectos ligados à religião. Tem também uma bela colecção de arqueologia com peças não só provenientes de Cassino (antiga cidade romana de Casinum) e do Monte, mas adquiridas noutras paragens. 

No final do percurso, os visitantes passam por uma loja de recordações e ainda de produtos supostamente fabricados no local. Foi aí que adquirimos um licor dito "típico dos monges de Monte Cassino" que fez sensação no jantar em que foi servido no nosso regresso a Portugal. Já que duvido que alguém se volte a atrever a bebê-lo, talvez dê para desentupir canos.



A vinha da abadia. Espero que o vinho seja melhor que o "licor típico dos monges de Monte Cassino".


Terminada a visita, esperámos pelo autocarro que nos iria levar de regresso à cidade mas mal sabíamos a emoção que iria ser a descida até Cassino. Circulando a uma velocidade vertiginosa, buzinando a cada curva em que entrava em contra-mão, aquele condutor parecia possuído pelo Demo. Em menos de um fósforo, estávamos de novo na cidade onde apanhámos o comboio rumo a Bari, a nossa última etapa italiana.

Os bilhetes por validar da viagem Roma-Cassino, acabaram por ser oferecidos à nossa funcionária de hotel favorita que, bem à sua maneira, nos agradeceu efusivamente.

A seguir: no túmulo do Pai Natal

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