quarta-feira, dezembro 31, 2014

Bari e o túmulo do Pai Natal

Apesar de termos chegado já de noite, acabámos por ficar agradavelmente surpreendidos pelo ambiente e pelas ruas reluzentes, estreitas e sinuosas do centro histórico. Foi uma experiência nada condizente com os avisos e recomendações de segurança que encontrámos em vários guias que falam desta cidade. Como se isto não bastasse, ainda tivemos direito a visitar o túmulo do Pai Natal, literalmente o centro de produção de um negócio muito pouco convencional. Sejam bem-vindos a Bari!



O castelo Normando-Suábio de Bari, A cidade tem uma história bem atribulada, tendo sido dominada por romanos, ostrogodos, bizantinos, lombardos, normandos, suábios (hoje parte da Alemanha), aragoneses, silicianos, e por aí fora. No que toca andar de mão em mão, a cidade e o seu castelo dão um bailinho às pombinhas da Catrina.



Despedimos-nos de Cassino e da sua abadia rumo a Bari. A primeira parte da viagem foi feita em comboio regional, no qual testemunhámos a frenética discussão do revisor com dois passageiros prevaricadores. Nesta discussão num italiano com sotaque insondável, bem à moda da região napolitana, pudemos testemunhar parte do vasto manancial de gestos que os cidadãos da "Bota europeia" usam para se fazerem entender. Dizem os entendidos que é possível contabilizar 250 gestos diferentes numa discussão entre italianos eloquentes. Nós podemos dizer que vimos um bom número deles.

A partir de Caserta, uma espécie de Entroncamento no Norte de Nápoles, prosseguimos a viagem noutro comboio, o Frecciargento, uma espécie de intercidades que, para além de ser mais confortável e ter um bem cuidado vagão de cafetaria, tinha também ecrãs que exibiam informação sobre o percurso, mostrando a localização instantânea do comboio num mapa, informação sobre a próxima estação (informação meteorológica e ainda sobre horários dos próximos comboios a sair dessa estação.), para além de outras informações.

Já em Bari (com um atraso de uma hora) uma caminhada de alguns minutos levou-nos até ao centro histórico onde se situava o B&B no qual iríamos passar a noite. O quarto situava-se no R/C da casa, com acesso directo para a rua, sendo muito bem cuidado e tendo uma porta interior "normal" e uma porta exterior espessa em aço reforçado, com fechadura de segurança, que nos deixou algures entre o seguro e o claustrofóbico. 


A Velha Bari



Aspecto nocturno das ruas da Bari Velha. Uma rede labiríntica de ruas que desembocam em pequenas pracetas de forma irregular.



Entrada bastante convidativa no centro histórico pela Via Benedetto Petrone. 



Uma peculiaridade de Bari reside no facto de um pouco por todo o lado se encontrarem altares que são alvo de grande devoção, quase como se fossem os santos protectores do lugar.


Bari está dividida em duas zonas completamente diferentes. Por um lado temos a enorme zona residencial construída segundo uma monótona planta ortogonal no séc XIX (quando Napoleão mandava na cidade) e, por outro lado, temos a medieval Bari Vecchia que é simplesmente encantadora. As casas e o pavimento são feitos do mesmo calcário e a sinuosidade das ruas, as passagens em galerias e o facto de a iluminação deste verdadeiro labirinto não ser demasiado forte confere-lhe um encanto muito próprio. 

Ainda por cima nem sequer fomos assaltados, o que é agradável. Não deixámos no entanto de viver a sensação de estarmos a mais em determinados locais, como aquelas pracetas onde as conversas animadas cessavam subitamente e toda a gente ficava a olhar fixamente para nós. A zona mais movimentada da Bari Vecchia é feita de duas praças, Ferrarese e Mercantile, onde se concentram bares e restaurantes.



O pelourinho de Bari, na Piazza Mercantile, aqui conhecido como Coluna da Justiça ou Coluna da Infâmia. A tradição local diz que os caloteiros era aqui acorrentados e obrigados a ficarem sentados em cima do leão, expostos à vergonha e aos géneros alimentares fora do prazo de validade.

Embora as praças e parte das ruas sejam zona pedestre, convém estarmos sempre atentos porque, a qualquer momento, pode surgir uma bicicleta, uma vespa ou motorizada em alta velocidade. 

Nunca sabemos o que esperar e convém fazer um amplo uso dos sentidos, como o que fizemos naquele episódio em que procurámos instintivamente a protecção de uma escadaria, perante a aproximação do ronco ameaçador de um motor que parecia próprio de uma moto de alta cilindrada mas que, afinal, não passava de uma micro-motorizada circulando a 20km/h, em esforço extremo por transportar duas crianças com menos de 10 anos, respectivamente piloto e passageiro.


Piazza del Ferrarese, onde está exposta uma das entradas romanas da cidade. 


A basílica e o túmulo do Pai Natal!


A basílica de São Nicolau, construída a partir de 1086, durante o período em que os normandos, vindos do Noroeste de França, dominaram o sul de Itália, Sicília e parte do Norte de África.



A Basílica de São Nicolau é dedicada ao santo que está na origem da figura do Pai Natal. Construído em 1086, este templo românico guarda os restos mortais de São Nicolau ou pelo menos a maior parte dos restos. É que, se em geral as relíquias de santos têm o dom da multiplicação, as relíquias de São Nicolau foram protagonistas do fenómeno da divisão.

Em poucas palavras, Nicolau era bispo de Myra, hoje Demre, na costa Sul da Turquia, cidade onde foi sepultado. Reputado como santo milagreiro, tanto em vida como após a morte, as relíquias do santo fizeram da cidade um popular centro de peregrinação.

Infelizmente para os fiéis e os que deles lucravam, os turcos começaram a ameaçar a cidade, tendo a sua posse mudado várias vezes de mãos entre estes, que eram muçulmanos, e os bizantinos, que eram cristãos. A questão da segurança dos restos mortais do santo começou a ser discutida e foi neste contexto que um grupo de marinheiros de Bari conseguiu chegar ao túmulo, de forma bastante subreptícia, e piamente subtraiu todos os ossos a que conseguiu deitar as mãos, regressando imediatamente e em ritmo acelerado a Bari.

Isto desagradou profundamente a Veneza, a outra cidade que cobiçava as relíquias do santo (devido ao seu valor religioso e não pelo facto de poder ser uma boa fonte de rendimentos, claro!), e foi por isso que os venezianos não descansaram enquanto não passaram por Myra, para recolherem o resto dos fragmentos que tinham ficado no túmulo

Estudos científicos recentes comprovaram esta história, tendo ficado provado que as relíquias de Veneza e as de Bari pertenceram à mesma pessoa, um homem falecido aos 60 anos com cerca de 1,68m de altura e que tinha a característica distintiva de ter o nariz partido (ver aqui).

Voltando às relíquias de Bari, após a sua deposição no túmulo, constatou-se com alegria que delas era espontaneamente produzido um líquido, algo que já acontecia no túmulo de Myra. De então para cá, este líquido chamado Maná passou a ser vendido aos peregrinos em pequenos frascos, podendo ainda hoje ser adquiridos na própria basílica. 

Dizem as más línguas, próprias de quem não acredita no Pai Natal, que os 50ml de Maná, solenemente extraídos todos os anos a 9 de Maio, podem ser explicados pelo fenómeno físico da capilaridade, até porque a fórmula química deste fluido milagroso é H2O.



Ícone ortodoxo de São Nicolau com ofertas e pedidos por escrito aos seus pés. O valor total das ofertas varia conforme a taxa de câmbio.

Sendo um santo com um currículo impressionante, afinal São Nicolau é patrono das crianças, tanoeiros, peregrinos, notários, advogados, juízes, marinheiros, pescadores, mercadores, radialistas, falsamente acusados, ladrões arrependidos, produtores de cerveja, farmacêuticos arqueiros e penhoristas, e é também venerado nos vários ramos do cristianismo, houve necessidade de permitir a devida veneração ortodoxa na basílica. Por esse motivo, sob o altar-mor, a cripta onde se encontra o santo foi transformada numa capela ortodoxa que, pelo que pudemos ver, é bastante concorrida.



A capela-cripta ortodoxa de São Nicolau, sob o altar-mor da basílica católica.


A praia do Pão e do Tomate


Pelos que vimos no porto de Bari, há pescadores mais sofisticados que outros.


Cumprida a visita cultural, decidimos experimentar a água do Adriático e fomos até à praia mais próxima, popularmente conhecida por praia do Pão e Tomate. Trata-se de uma pequena praia perto do centro da cidade à qual afluem por tradição as famílias de Bari para passar as suas tardes, embora não necessariamente para banhos dado que até há relativamente pouco tempo estes eram ocasionalmente interditados devido a contaminações da água. Coisa do passado, segundo as autoridades da cidade e se elas o dizem, é porque deve ser verdade. O curioso nome da praia deriva da merenda típica de qualquer família italiana que se preze e que consiste em pão com tomate.

Embora sem pão e sem tomate, aproveitámos para dar um rápido mergulho e a água estava até bem agradável. Outro facto agradável é que também aqui não fomos assaltados, ao contrário dos avisos nesse sentido por parte de alguns guias.



O embarque

Com o fim do dia, chegou também o fim da nossa estadia em Itália. Por isso, recuperámos a nossa bagagem no B&B e seguimos rumo ao porto para apanhar o ferry que nos iria transportar até ao nosso próximo destino, no outro lado do Adriático, ponto de partida para um périplo que nos levaria a percorrer 3 países diferentes.



A última visão de Bari.


A seguir: o país que deixou o Banco Central Europeu com uma certa azia e a cidade-mártir que hoje é Património da Humanidade.

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