quarta-feira, maio 07, 2014

O mágico monte de São Martinho

No último Sábado tive finalmente a oportunidade de visitar o Monte de São Martinho, junto a Castelo Branco, aquele que é um dos vértices do "triângulo arqueológico" da capital de distrito e de onde vieram algumas das peças mais importantes do Museu Francisco Tavares Proença Júnior. Uma dessas peças, a estela-menir de São Martinho, acompanhou mesmo o grupo na caminhada. Foi apenas uma das várias surpresas da jornada. 

A capela da Senhora Santa Ana, o ponto de partida.

O passeio promovido pela Sociedade dos Amigos do Museu FTPJ começou junto à Capela da Senhora Santa Ana, uma bela capela situada sobre uma estação arqueológica romana, à semelhança daquilo que acontece a muitos templos cristãos que encontramos em locais isolados. A caminhada foi conduzida por Pedro Salvado, Francisco Henriques e Joaquim Baptista, este último um velho conhecido da blogosfera (ver aqui) que finalmente tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Conhecedores como poucos desta região e da sua arqueologia, foram descrevendo aos participantes a história deste triângulo cujos vértices assentam no santuário da Senhora de Mércoles, no castelo templário da cidade e no monte de São Martinho. Trata-se de uma história que começou a sair da obscuridade da lenda quando o jovem Francisco Tavares Proença Júnior, a cuja família pertenciam as terras entre Santa Ana e São Martinho, aqui realizou uma série de escavações arqueológicas na transição do século XIX para o século XX.

Paragem para mais um capítulo da história da região


O antigo arraial agrícola da família Tavares Proença, datado de 1891.

O último esforço antes da chegada ao Monte de São Martinho


Os mistérios do monte de São Martinho



Este monte que se destaca na paisagem é um local onde o sagrado sobreviveu e se foi transformando ao longo de milénios. O fundador do Museu FTPJ foi o primeiro a investigar este local, tendo aqui identificado a suposta muralha de um castro, para além de ter descoberto sete altares romanos, dois menires e uma estela-menir, esta última o resultado do reaproveitamento de um menir (pré-histórico) para, alguns milénios depois, criar uma estela de exaltação da figura de um guerreiro numa cena de caça. Estruturas romanas, uma moeda islâmica do ano 770 e uma capela que já existia no século XIV ajudam a dar uma ideia da persistência da ocupação humana do local.

A peculiar capela de São Martinho, com a cúpula na cabeceira.  


A capela de São Martinho apresenta uma arquitectura muito peculiar, destacando-se a cúpula da cabeceira. Comparando-a com outros exemplares do Sul do país e tendo em conta a prova da presença islâmica no local, a ideia de que poderá tratar-se do reaproveitamento de um morábito, um local de oração do Islão, faz todo o sentido.

Este local sempre teve um elevado valor sagrado ao longo dos milénios e, já cristianizado, o seu orago tornou-se muito popular, sendo reputado pelos seus poderes curativos. No século XIX relatava-se ainda uma tradição muito curiosa: quando alguém padecia de algum mal, vinha em peregrinação até à capela de São Martinho trazendo consigo um molho de alhos e um pão de farinha branca para oferecer ao santo. Consagrada a oferenda, o peregrino deveria depois voltar a levá-la consigo, oferecendo-a à primeira pessoa que encontrasse pelo caminho, restando-lhe depois esperar pela cura dos seus males.

Pormenor de uma pintura sob o altar vazio. O motivo dos três círculos repete-se na calçada diante do templo, tratando-se de uma representação da Trindade.



A vista a partir do marco geodésico, datado do século XIX, é deslumbrante.



Passagem pelo local onde uma campanha de escavações pôs a descoberto estruturas de época romana.


Uma perspectiva diferente de Castelo Branco e do castelo templário.



A Estela-menir de São Martinho

A surpresa maior do passeio foi o transporte até ao monte de São Martinho de uma réplica da famosa estela-menir, descoberta como referi por Francisco Tavares Proença Júnior em 1903, algures entre o topo do monte e o arraial agrícola da sua família. Embora não tão pesada quanto a original, foi preciso ainda um esforço considerável para a colocar na sua posição. Teria sido muito mais fácil se alguém da comitiva tivesse caído no caldeirão da poção mágica durante a infância, à semelhança do Obélix.

Trata-se, como referi atrás, de um menir construído no Neolítico, algures por volta de 3.800 a.C., tendo sido reaproveitado no final da Idade do Bronze, algures por volta de 1.000 a.C., para fazer dele uma estela de guerreiro. O significado e função destas estelas são ainda tema de debate, dividindo-se as opiniões entre marcos funerários dedicados a nobres guerreiros (no local de sepultura ou como homenagem póstuma colocada local diferente), marcos de limite territorial de tribos ou povoados ou até de marcos de rotas de transumância. 

O que distingue esta peça de todas as outras é a peculiaridade da cena de caça que nela está inscrita, algo que a distingue de todas as outras peças do género encontradas até hoje. Nela, um guerreiro devidamente armado e equipado, dispara o seu arco para o alto, na direcção de vários animais entre os quais se identificam cervos e aves. 



A estela-menir. É possível ver a figura de um guerreiro, devidamente armado, disparando o seu arco para o alto, na direcção de vários animais. A forma fálica do monólito é por demais evidente, tendo sido evidenciada até a forma da glande no seu topo.


Com o advento do cristianismo, as antigas religiões assumidamente politeístas foram alvo de intensa perseguição, tendo os seus locais de culto e dias religiosos sido cristianizados. Ora, apesar do facto de a estela-menir ser já bastante anterior à romanização desta região, constata-se que não escapou à cristianização, tendo-lhe sido gravada uma pequena cruz no seu topo.

Segundo Pedro Salvado e Francisco Henriques, é bem possível que este tipo de peças tivesse continuado a ter um valor sagrado durante a própria romanização, tendo sido modificados, partidos e derrubados por altura da cristianização. A cruz gravada na estela-menir pode ser um indício de que, mesmo após tanto tempo, aquando da chegada do cristianismo as pessoas teriam ainda o hábito de tocar no topo da peça, fosse para trazer sorte ou invocar fertilidade. A Igreja terá pois querido com isto tornar a peça "impotente" já que desta forma as pessoas passaram a tocar no símbolo cristão. A peça acabaria mais tarde por ser derrubada, à semelhança de muitas outras no Sul do país.
  

A inevitável foto de grupo.


Esta iniciativa, inédita à luz daquilo que sei, foi sem dúvida uma excelente ideia. É certo que este tipo de peças fica salvaguardado quando colocado na segurança de um museu mas há uma componente de interpretação na paisagem que se perde. O seu simbolismo dissolve-se. Se é importante manter os originais a salvo de roubo ou vandalismo, porque não devolver à paisagem réplicas como esta, valorizando assim tanto o local como a peça em si e, mais importante, permitindo que os visitantes percebam a íntima relação entre os dois?

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