sexta-feira, janeiro 17, 2014

O Mundial de 66 como inspiração dos prisioneiros na Coreia do Norte

Em 1968, o navio-espião USS Pueblo da marinha dos EUA foi capturado pela marinha norte-coreana. A tripulação foi feita prisioneira e levada para Pyongyang, sendo amplamente usada pelo regime de Kim il Sung em filmes e fotografias de propaganda. Os prisioneiros iriam no entanto conseguir frustrar a propaganda através de uma fonte de inspiração inesperada: um filme do Campeonato do Mundo de futebol de 1966.


O USS Pueblo servindo actualmente como navio-museu em Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coreia do Norte


Em Janeiro de 1968, a marinha americana enviou o navio USS Pueblo em missão de espionagem. Disfarçado de navio de investigação oceanográfica, o objectivo do navio era fazer o levantamento da costa Norte-Coreana e interceptar transmissões. Os norte-coreanos acabaram contudo por suspeitar do navio e, apesar deste se encontrar supostamente em águas internacionais, abordaram violentamente a embarcação, capturando-a e aprisionando a tripulação. No processo um dos marinheiros do Pueblo morreu e outros 5 ficaram gravemente feridos.

Levados para Pyongyang, os membros da tripulação foram interrogados e depois utilizados para efeitos de propaganda, em fotografias e filmes que a Coreia do Norte difundia para mostrar a derrota dos agressores imperialistas.

A tripulação do Pueblo tentou encontrar uma forma de sabotar a propaganda norte-coreana e a inspiração chegou ao assistirem a um filme que recordava a chegada da selecção nacional de futebol daquele país a Londres cerca de um ano e meio antes, para aí participar no campeonato do Mundo de 1966 (do qual viriam a ser eliminados por Portugal, no "tal" jogo de Eusébio). O filme mostrava o autocarro que transportava os norte-coreanos a circular pelas ruas de Londres, sendo saudado por uma multidão com bandeiras da Coreia do Norte até que, a certa altura e em grande plano, surgiu nas imagens um cidadão inglês exibindo ostensivamente o dedo médio na direcção do autocarro.

Percebendo que os seus captores não conheciam o significado daquele gesto nada protocolar, caso contrário teria sido cortado do filme, os prisioneiros passaram a exibir o dedo médio em todos os registos de imagem de que eram alvo, de forma a passar a ideia de que as descrições que eram feitas da sua estadia na Coreia do Norte eram falsas. Quando foram questionados acerca do gesto, responderam que se tratava de um gesto típico havaiano para desejar boa sorte. Consta que, tendo achado piada, até alguns dos guardas acabaram por desejar boa sorte uns aos outros.


Dedo em riste por Angelo Strano (3º na fila de baixo) e Dale Rigby (último na fila de cima)

O truque acabou no entanto por ser traído pela revista Time, que numa reportagem denunciou que os marinheiros do Pueblo estavam na verdade a ser maltratados, pondo em evidência e explicando o uso recorrente da exibição do dedo médio.

A notícia acabou por chegar a Pyongyang e, obviamente, os norte-coreanos ficaram furiosos por terem sido enganados daquela forma. Por causa disso, tanto a tripulação como o seu tradutor norte-coreano sofreram na pele as represálias durante aquilo a que viriam a chamar de hell week, sendo continuamente espancados durante 10 dias.

Todos os marinheiros acabariam por finalmente regressar a casa após 11 meses de cativeiro mas só depois de os EUA terem oficialmente apresentado um pedido de desculpa pela alegada violação das águas territoriais norte-coreanas e pelas suas actividades de espionagem.




A ler:
E que tal umas férias na Coreia do Norte?
Acerca da exibição do dedo médio: Um arcebispo defunto pouco católico

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