terça-feira, dezembro 31, 2013

Excelente ano novo para todos!


Praia Norte, Viana do Castelo. 2013

Agora que 2013 já faz as suas despedidas, há que alimentar a esperança que o novo ano seja melhor que o anterior. Cabe a cada um de nós lutar por isso.

UM EXCELENTE ANO NOVO PARA TODOS!

Dos grifos à lenda do Rei Vamba

A Rota das Invasões, o percurso de Pequena Rota nº1 (PR1) de Vila Velha de Ródão, é um trilho com vários motivos de interesse que já há algum tempo tínhamos vontade de percorrer. Dado que na última Sexta-feira as condições climatéricas haviam sido adversas, decidimos aproveitar o penúltimo dia do ano para pôr as mochilas às costas e fechar 2013 com uma bela caminhada.

O trilho não é muito extenso, trata-se de um circuito com 8km, com uma ou outra subida (e descida) algo acentuada. Iniciámos o percurso ao contrário do aconselhado, ou seja, no sentido dos ponteiros do relógio, começando junto à Casa de Artes e Cultura do Tejo.


O início do trilho foi bastante fácil, tendo a grande vantagem de nos oferecer uma vista frontal das magníficas Portas do Ródão, uma passagem que o Tejo rasgou num maciço de quartzite e que terão sido outrora ainda mais impressionantes (ver aqui). Aqui e ali, a erosão desgastou o trilho pelo que convém ter algum cuidado.

À vista do geomonumento das Portas do Ródão e, mais acima e à direita, da torre de menagem do "Castelo do Rei Vamba (ou Wamba)".

Mais à frente, junto a uma ribeira, o trilho começa a subir. A falta de sinalização visível numa bifurcação levou-nos a ter de prosseguir por intuição mas, se o caminho que escolhemos não era pelos vistos o correcto e se a subida era aqui e ali extremamente acentuada e com vegetação a dificultar a caminhada, não é menos certo que isso nos proporcionou uma belíssima experiência de proximidade com os grifos que por ali voavam em grande número. Convém também dizer que esta é a maior colónia de grifos de Portugal, pelo menos a que fica exclusivamente em território nacional.

Os grifos a sobrevoar a parte Norte das Portas do Ródão.

O entusiasmo da subida ao encontro dos grifos é por demais evidente no rosto dos caminhantes, embora alguns tenham deixado pulmão e meio pelo caminho.

A dada altura chegámos finalmente ao nível dos grifos que voavam sobre as Portas. A sensação de ter aquelas aves majestosas a voar ali, tanto acima como abaixo de nós, é de uma liberdade total que faz querer ficar horas e horas a admirar aqueles círculos silenciosos desenhados no céu. Enquanto admirava o voo dos grifos, veio-me à memória esta música (ver aqui).




Deixando os grifos para trás chegámos finalmente ao "Castelo do Rei Vamba", o rei visigodo que a lenda liga a este local.

A lenda do Rei Vamba

Embora tenha ouvido outras versões, no local a lenda que se conta é que a mulher do rei Vamba se apaixonou por um rei mouro, fugindo um dia para os braços deste. Ora, sem explicação para o desaparecimento da sua esposa, Vamba disfarçou-se de mendigo e foi procurá-la em território inimigo, do outro lado do rio Tejo, tendo finalmente acabado por encontrá-la. Esta, traiçoeiramente, fingiu ser prisioneira do rei mouro e atraiu Vamba para uma armadilha, tendo sido capturado pelos "infiéis".

Na iminência de ser executado, expressou como último pedido, que o deixassem tocar a sua "corna", a trompa feita com um chifre que transportava. Do outro lado do rio, os cavaleiros de Vamba ouviram o chamamento do seu rei e precipitaram-se em seu socorro, tendo libertado o rei das mãos dos mouros, trazendo-o de volta para a segurança do Castelo das Portas do Ródão, assim como a sua mulher, agora como prisioneira.

Acusada de traição, foi condenada à morte, tendo sido atirada encosta abaixo mas não sem antes ter proferido uma terrível maldição:

"Adeus Ródão, adeus Ródão
Cercada de muita murta
E terra de muita puta.
Não terás mulheres honradas
Nem cavalos regalados
Nem padres Coroados! "

Diz-se que onde passou o seu fatal percurso, nunca mais cresceu nada.


No entanto, não há ligação factual entre Vamba e a fortificação, que também nem terá tido funções de castelo. Terá pelo contrário sido aquilo que se pode designar de Atalaia, ou torre de vigia, sendo cercada por uma pequena muralha circular e tendo outrora um fosso a toda a volta. Podendo ter origem anterior, a torre actual é no entanto de fundação templária (século XII), existindo sobre a entrada original da torre (situada a meia altura) um símbolo da Ordem bem visível.

Esta torre integrava-se na política de controlo de fronteiras dos nossos primeiros reis, no caso particular da Linha do Tejo, que durante largo tempo foi a fronteira do Reino de Portugal. Além do Tejo, residia o inimigo infiel que era necessário controlar. No entanto, esta também foi durante séculos uma via de entrada privilegiada no reino, rumo à capital, que era necessário controlar e a torre terá permanecido em funções provavelmente até ao século XIX, articulada com outras fortificações por ali existentes.

Da torre, avista-se uma extensa paisagem no outro lado do Tejo mas há um aspecto que, logo na margem esquerda, chama a atenção. Trata-se do Conhal do Arneiro, o vestígio remanescente da exploração de ouro pelos romanos, que nivelaram um monte que ali existia para extrair o precioso mineral, deixando a paisagem cheia de montes de pedra solta, as "conheiras".

Conhal do Arneiro, na margem esquerda do Tejo

Vista alargada do Conhal do Arneiro. Conseguem imaginar a elevação que ali existia antes da chegada dos romanos?


Para lá das Portas do Ródão, Tejo prossegue serpenteando para Sudoeste. Junto a ele avista-se a linha ferroviária da Beira Baixa, que tão mal tratada tem sido a partir da capital, que não se avista daqui.

As Baterias

De regresso ao Cabeço da Achada, começando a descida de regresso a Vila Velha de Ródão a partir do marco geodésico, o percurso passa pelas Baterias, antigas posições de artilharia do século XVIII, que aqui foram construídas para controlar esta zona estratégica de vital importância.

O percurso passa por três baterias: a da Torre Velha, a das "Batarias" e a da Achada, embora existam várias outras ao longo da Serra das Talhadas, controlando pontos de passagem na mesma.

Bateria da Torre Velha, no alto do Cabeço da Achada. A visibilidade está actualmente muito limitada pela vegetação.

Bateria das "Batarias", com muros construídos em pedra seca, isto é, sem argamassa ou qualquer outro tipo de ligante. 

Bateria da Achada. Trata-se da bateria mais bem conservada e que foi recentemente alvo de investigações que descobriram -imagine-se!- vestígios pré-históricos no local. Esta bateria controlava o porto do Tejo, onde a travessia era feita em barcas.

O trilho terminou pouco depois da Bateria da Achada, onde deveríamos ter iniciado o mesmo. Foi só então, no painel de informação que supostamente marca o início trilho, que nos deparámos com este aviso:


Resta pois manifestar a esperança que os trabalho de manutenção abranjam também a revisão da sinalização que, em determinados pontos, está em mau estado ou pouco visível. É sem dúvida um percurso que vale a pena.

terça-feira, dezembro 24, 2013

Sigam o percurso do Pai Natal no Google

O Santa Tracker é uma aplicação da Google que permite seguir o percurso do Pai Natal no Mundo, fornecendo informação acerca do início e do fim da etapa em que se encontra, localizar a sua posição no Google Maps e acompanhar ao vivo a viagem no Google Earth.

É ainda possível espreitar a aldeia do Pai Natal, para ver os seus simpáticos ajudantes em plena azáfama de despacho de presentes. Quem quiser manter a pequenada ocupada durante a noite da consoada, tem aqui uma boa opção.


Boas festas!


O Blog do Katano vem por este meio endereçar aos seus estimados leitores, visitantes acidentais, seguidores e outros não tão apreciadores quanto isso, os sinceros votos de boas festas, esperando que ninguém seja obrigado a "Troikar" a consoada.

A mensagem natalícia fica por aqui, uma vez que, até mesmo no Natal, austeridade é austeridade.

sábado, dezembro 14, 2013

A imagem do fim-de-semana precisa de legenda

Apesar de uma ou outra ideia para legendar esta imagem, registada junto à aldeia de Martim Branco, decidi que desta vez seriam os leitores a sugerir a legenda. Sendo assim, que legenda atribuiriam a esta imagem? Podem comentar via Facebook ou aqui no Blog do Katano.

Legenda:______________________________________

Sucateiro prevaricador escreve-se com Ç (actualizado)

Segundo o Jornal de Notícias (edição de Sexta-feira dia 13 de Dezembro de 2013), um profissional de compra  e venda de sucata que incorra em actos ilícitos designa-se por SUÇATEIRO. Assim mesmo, com "Ç". 

Fonte: Banca Sapo.

Adenda (11:30 14-12-2013)
Após análise mais atenta por um painel de especialistas com mais qualificações que o Miguel Relvas, concluiu-se (por ligeira maioria) que a dita gralha é mais propriamente o resultado de uma edição electrónica infeliz, mais concretamente um "leading" pouco ajustado. No entanto, foi apontado por unanimidade um atentado à ortografia bem mais grave que é a escrita de Factura sem o "c". 

segunda-feira, dezembro 09, 2013

"Cart ruts", as misteriosas marcas na paisagem de Malta

No passado mês de Junho tive a oportunidade de visitar aquele que será, muito provavelmente, um dos mais intrigantes enigmas arqueológicos da bacia do Mediterrâneo, gerando ainda hoje um intenso debate sobre quem foram os seus autores e qual seria a sua finalidade. Estou a falar dos "cart ruts", as misteriosas linhas rasgadas na superfície rochosa do arquipélago de Malta.


O último dia da nossa estadia em Malta começou bem cedo e, ainda antes do pequeno-almoço, peguei na máquina fotográfica e subi pelas intrincadas ruas de Kalkara, a localidade piscatória onde estávamos alojados, decidido a não partir sem admirar uma das ocorrências dos "cart ruts", as misteriosas marcas de que tanto havíamos ouvido falar.

Tendo consultado um livro dedicado a elas e tendo ainda feito alguma pesquisa no Google Maps, fiquei a saber da existência de um conjunto dessas marcas que não muito longe do hotel. Àquela hora, via-se ainda pouco movimento nas ruas enquanto as portas dos estabelecimentos comerciais iam abrindo aos poucos. Alguns minutos depois, cheguei finalmente ao muro que delimitava a propriedade onde os "cart ruts" se encontrariam.

O muro era alto e uma porta trancada fechava a única passagem visível. Enquanto ponderava sobre se devia ou não invadir o terreno, de uma casa em frente saiu um homem que ia iniciar a sua jornada laboral. Abordei-o e, apresentando-me e explicando-lhe o porquê de estar ali, pedi-lhe que me confirmasse se realmente existiam "cart ruts" atrás daquele muro e, se sim, como poderia eu fazer para os fotografar.

Num inglês com característico sotaque italiano, tipicamente maltês, confirmou que efectivamente existiam ali as ditas marcas mas explicou-me também que o terreno era privado mas que ele conhecia o dono do terreno e que ele costumava andar por ali durante o dia. Dito isto, aproximou-se do muro gritando "Laurie! Laurie!". Do outro lado não veio resposta. Depois de alguma insistência, e de um aceso diálogo em maltês com um casal que por ali passou, do qual só consegui perceber "portoghese" enquanto apontava para mim, pediu-me que aguardasse um pouco e trepou o muro, desaparecendo do outro lado. Pouco depois, a porta abriu-se, saíndo dela o Mário na companhia de um casal de sexagenários, Laurie e a sua esposa.


Dos estaleiros navais à falta de chuva

Lawrence, reformado após 46 anos de trabalho administrativo nos outrora frenéticos estaleiros navais do Grande Porto, posa junto aos "cart ruts". 

Feitas as apresentações, assim como as despedidas, fiquei a sós com o meu cicerone que se mostrou extremamente satisfeito pelo meu interesse no seu tesouro histórico. Convidou-me a acompanhá-lo até às marcas, por um percurso que se fez por um terreno relativamente plano mas predominantemente rochoso, com algumas árvores, onde as esporádicas bolsas de terra eram aproveitadas para cultivo.

Laurie, diminutivo de Lawrence, foi-me explicando que passava os seus dias naquele terreno, onde aproveitara todas as zonas cultiváveis para plantação, sobretudo de batatas. O maior problema era a irrigação, dado que estávamos naquela que era normalmente a época das chuvas em Malta e até então muito pouco chovera. A preocupação era evidente. O único poço da propriedade, escondido sob uma alfarrobeira, apresentava um nível de água muito baixo e as depressões no afloramento rochoso, que Laurie limpara para recolher água da chuva, tinham apenas restos de água lamacenta.

Foi com a confissão destas preocupações que chegámos aos "cart ruts".

O enigma dos "cart ruts"

A origem e a razão de ser destas marcas são actualmente motivo de acesso debate, até porque, logo à partida é difícil relacioná-las com qualquer outro elemento arqueológico de Malta. Há quem atribua a sua autoria aos construtores dos grande templos que começaram a ser erigidos há 6.000 anos atrás mas outros defendem uma data mais recente, atribuíndo a sua autoria aos Fenícios, no século VII a.C.. No entanto, há túmulos fenícios foram construídos em pleno traçado de alguns destes trilhos, o que leva a pensar que não serão contemporâneos. A ajudar à discussão, há "cart ruts" que contornam estruturas de origem romana ou... será que as estruturas romanas é que contornam os "cart ruts"?



Uma característica bifurcação. Segundo Laurie, um dos trilhos levaria para a Baía de Rinela, enquanto outro tomaria a direcção da costa mais a Norte.

Quando à finalidade das marcas, é já comumente aceite que se tratará de trilhos de carros de transporte. Mas que tipo de carros? Seriam rodados ou de arrasto? Teriam tracção animal ou humana? O que transportavam? São questões que permanecem em aberto relativamente a estas marcas, em média espaçadas por 1,4m e chegando a atingir em determinadas zonas 60cm de profundidade.

Uma característica muito peculiar é a profusão de marcas que se encontram pelas ilhas, formando verdadeiras malhas com bifurcações e intersecções que lembram as linhas de caminho-de-ferro. Um dos locais onde isso é mais evidente foi até baptizado de "Clapham Junction", em alusão à estação ferroviária londrina que é uma das mais movimentadas da Europa.


Ver mapa maior
Sítio de Misrah Ghar il-Kbir, conhecido popularmente por Clapham Junction. Cliquem no link acima para abrir o mapa numa janela maior.

As marcas eram na época da sua utilização sem dúvida bem visíveis na paisagem, sendo provavelmente as autoestradas destas ilhas. A sua formação deu-se pelo uso repetido dos mesmos percursos, algo que foi desgastando o solo que se encontrava sobre o afloramento rochoso, desgastando este em seguida.

Essa é aliás a opinião partilhada também por  Laurie -"Não se deixe enganar pelo aspecto dos cart ruts. Antigamente a pedra estava coberta de terra e era sobre ela que as pessoas puxavam os carros que fizeram as marcas." e apontando para uma depressão na rocha onde as marcas parecem terminar: -"Está a a ver aqui? Isto não foi escavado, estava era cheio de terra que eu retirei para aproveitar a água da chuva. Tive de pedir autorização para o fazer às autoridades porque eles são muito rigorosos em relação a isto."


As marcas junto a uma depressão de onde a terra foi retirada para aproveitar a água da chuva. 

A preocupação com a preservação das marcas vem aliás de longe. -"Há aqui mais marcas que estão cobertas pela terra. Uma vez perguntei ao meu pai se ele queria que eu limpasse a terra, para deixar os cart ruts todos à vista, mas ele disse que era melhor não o fazer porque pelo menos assim ficavam protegidos. Hoje em dia é isso que as autoridades nos pedem, que não os destapemos para não desaparecerem por causa da erosão."

Já em direcção à saída acrescentou -"Às vezes vêm cá pessoas, como você, a pedir para verem os cart ruts. Eu gosto que vejam. É bom que as pessoas se interessem por isto, para conhecerem a nossa História.". Na despedida, Laurie chamou-me para junto do limoeiro, onde colheu dois limões para me oferecer. -"Quer levar mais? Infelizmente só tenho limões. Se tivesse vindo em Agosto eu oferecia-lhe uns frutos deste cacto.", referindo-se aos frutos que conhecemos como figos da Índia, "Também poderia levar alfarrobas mas de momento só tenho mesmo limões".

Despedimo-nos com um caloroso aperto de mãos e desejando mutuamente felicidades. Regressei ao hotel levando na bolsa dois limões mas, mais importante que isso, um sorriso proporcionado pela inestimável simpatia  e hospitalidade com que fora recebido.

sábado, dezembro 07, 2013

Nem os mais corajosos aqui entram!


Em Caria, nem todos os avisos são tão acolhedores como que aqui publiquei há uns tempos (ver aqui). Outros há, como o retratado neste instantâneo, que desaconselham de forma explícita a entrada, embora com uma abordagem muito peculiar do uso da ortografia. Será para aumentar o efeito intimidatório ou será apenas mais um caso de dúvida explícita na aplicação do novo acordo ortográfico?

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Parece que desta vez Nelson Mandela morreu mesmo



Depois de um primeiro ameaço há uns meses atrás, que levou à publicação do obituário em órgãos de comunicação social, a luz de Nelson Mandela apagou-se ontem de vez. Não fiquei mais triste ontem do que fiquei quando ele se retirou da vida pública em 2004. Aí sim, fechou-se a era de Mandela, uma das figuras mais inspiradoras da minha relativa curta existência, de tal forma que, se me lembro perfeitamente onde e com quem estava no momento em que soube do embate dos aviões nas torres gémeas e do momento em que soube da queda do muro de Berlim, também isso acontece com o momento em que vi o casal Mandela caminhar de mão dada rumo à liberdade, à frente de uma multidão

É evidente que não havendo santos, Mandela também não o seria, teve no entanto o fantástico condão de ser conciliador como ninguém quando a hora chegou. Deixou de lado qualquer ressentimento que pudesse ter por ter passado 26 anos da sua vida em cativeiro - que coragem foi preciso ter!-, e com isso limpou uma das nódoas mais vergonhosas do século XX, que por sinal foi apoiada até para além do limite do razoável pelos EUA e Reino Unido, com Portugal a aparecer também nessa história, como a pequena rémora nas costas dos dois grandes "tubarões".

Por duas vezes Portugal alinhou declaradamente com o Apartheid. A primeira em 1987, quando votou contra a aprovação de uma moção nas Nações Unidas pedindo a incondicional libertação de Mandela e a segunda em 1989, quando votou contra a aprovação de medidas em prol das crianças vítimas da mesma política de segregação racial. Nada que tenha impedido o Sr Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro, de vir manifestar o seu profundo pesar pela perda de quem  cujo "exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade." considerando ainda que o prémio Nobel e a eleição para presidente da África do Sul foi um  "simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo" (sic). Prefiro pensar que não haverá aqui hipocrisia e que Nelson Mandela conseguiu até mudar as convicções daquele que disse um dia que "raramente se enganava e nunca tinha dúvidas".

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Em Espanha, nem o Governo fugiu aos cortes

Começaram pela letra R.

Placa de sinalização rodoviária, Av. Cristobal Colón em Badajoz, 29-11-2013

De Badajoz ao santuário do grande deus Endovélico

Aproveitando um dia de folga, fomos até Badajoz, cidade espanhola situada nas margens do rio Guadiana sob a vigilância atenta de Elvas. Embora no geral pouco saibamos acerca de Badajoz, para além de, como diz a canção, estar à vista de Elvas e também de ter uma maternidade onde as portuguesas da zona raiana do Alto Alentejo têm de ir dar à luz, o que é certo é que esta cidade mudou a nossa história, ou não tivesse sido aqui que Afonso Henriques, o 1º rei de Portugal, tivesse sido forçado a terminar a sua carreira militar.

Para lá da Ponte de Palmas (séc XVI) sobre o Guadiana, rio que atravessa a cidade antes de receber as águas do rio Caia e de marcar a fronteira luso-espanhola, avista-se ao longe a cidade de Elvas. É caso para dizer, "Badajoz, Badajoz, oh Elvas à vista!". 

Badajoz foi em tempos capital de um dos muitos reinos islâmicos da Península Ibérica e palco de intensos períodos de guerra não só com os reinos cristãos vizinhos, como também com outros reinos islâmicos. A Alcáçova, o castelo de Badajoz, é a maior fortificação construída em taipa (terra batida) da Península Ibérica, e data do século XII, sucedendo a uma primeira fortificação do século IX construída por Ibn Marwan, o líder rebelde que fundou também Marvão. As sucessivas reparações e ampliações, acabaram entretanto por incluir outros materiais nas muralhas.

Badajoz entrou na nossa História quando, em 1169, Geraldo Geraldes "o sem pavor", que era uma espécie de canhão desgovernado da cristandade, decidiu tomar a cidade. Tendo conseguido tomar a muralha exterior, não conseguiu no entanto vencer a guarnição islâmica que se refugiou na Alcáçova. Vai daí, Geraldes pediu ajuda a Afonso Henriques para quebrar a última resistência dos infiéis, ao que o rei respondeu afirmativamente, comandando pessoalmente as suas tropas.

Porta do Capitel, com o típico arco de ferradura. A torre à direita é feita em taipa, com decoração a imitar silhares de pedra.

Quem não gostou da perspectiva de ver mais uma praça, da região que lhe caberia a si, cair em mãos portuguesas, foi Fernando II de Leão. Sendo assim, o rei leonês, que até era genro de Afonso Henriques, atacou os portugueses sitiantes, que não tiveram outro remédio senão retirar. Infelizmente para o rei português, ao passar a galope por uma das portas, bateu violentamente com uma perna num ferrolho e caiu ao chão. Com uma fractura (provavelmente exposta) não foi capaz de retomar a fuga e foi capturado, só voltando a ser libertado em troco de um resgate, da devolução de várias praças, entre elas Cáceres e Trujillo, e a promessa da renúncia a outras aventuras semelhantes. A partir daí, nunca mais Afonso Henriques foi capaz de montar a cavalo (há até quem diga que passou a deslocar-se numa carreta de madeira) e a regência foi passada para o seu filho, o futuro D.Sancho I. Diz a tradição que muitas vezes o 1º rei de Portugal terá recorrido às águas termais de São Pedro do Sul para aliviar as dores que passou a sentir.

Este episódio entrou na nossa História com o nome de "Desastre de Badajoz". Pelo menos foi essa a designação com que me foi contado na escola primária.


Aspecto das muralhas Oesta em taipa.

Vista sobre a Plaza Alta a partir da Alcáçova.

Entre vários edifícios de construção recente existentes na Alcáçova, desde a Biblioteca da Extremadura à Faculdade de Biblioteconomia de Badajoz, encontra-se um mais arruinado e de acesso um pouco mais difícil, a Torre de Calatrava, onde se encontra ainda aquilo que foi a sala de autópsias do antigo hospital militar. Já o primeiro piso está ocupado, segundo parece por uma sem-abrigo de origem portuguesa..


De regresso a Portugal, para prestar homenagem ao grande deus Endovélico

Cumprida a visita a Badajoz e a velha máxima de "Em Espanha, compra caramelos", regressámos ao nosso lado da fronteira para ir visitar um local que já estava há muito na nossa lista: o santuário de Endovélico, perto do Alandroal.

Chegar ao local revelou-se bem complicado. Tivemos numa primeira fase de ignorar os sinais que proibiam o trânsito pela N373 e, numa segunda fase, os avisos de propriedade privada e de aviso de perigo por haver gado à solta, já na entrada da propriedade onde se situa o sítio arqueológico. Pedimos mentalmente protecção ao grande deus lusitano e palmilhámos os últimos metros que nos separavam do sítio arqueológico.

Mais à frente demos de caras com o guardião do local, um macho bovino de apreciáveis dimensões, parado junto ao caminho e que nos fixava atentamente. Pareceu bastante indeciso quanto a deixar-nos passar mas, após os nossos pedidos insistentes, lá se afastou. No regresso já não seria assim.

O monte onde se encontram os vestígios do santuário e, mais abaixo à direita, o guardião do local.


Foi neste monte, tanto no topo como na encosta Este, que os romanos terão construído um templo dedicado ao deus Endovélico, uma divindade indígena tida como deus da medicina e da segurança e cujo culto se difundiu pelo próprio Império. Aqui foram encontradas no século XIX mais de 800 inscrições latinas e, mais recentemente em 2002, encontraram-se várias estátuas e inscrições nas valas de enchimento dos alicerces da desaparecida Ermida de São Miguel da Mota que ali se ergueu em tempos mais recentes, seguindo a tradição cristã os cultos a divindades pagãs pelo culto às figuras do seu próprio panteão.
Este templo terá sido um importante local de peregrinação da região romana da Lusitânia e incontáveis peregrinos, tanto de origem indigena como romana, aqui vieram cumprir os seus votos ao grande deus Endovélico. O local, tanto pela monumentalidade como pela paisagem que dele se avista, deve ter causado uma forte impressão a todos eles. Atrevo-me a dizer, por experiência própria, que ainda causa.

Fotografia do momento da descoberta das estátuas nas escavações de 2002. Foto: Portugal Romano


Vestígios de muros, junto ao marco geodésico no qual se encontra um texto que evoca o santuário de Endovélico.

As surpresas ainda estavam longe de ter terminado. No caminho de regresso, voltámos a encontrar o boi, que se aproximara ainda mais de nós e desta vez ocupava o próprio caminho. Para complicar as coisas, não foi possível convencê-lo novamente a deixar-nos passar e, por isso e por respeito ao animal, que provavelmente teve alguns dos seus antepassados sacrificados a Endovélico, optámos por encontrar um caminho alternativo.

O guardião do santuário de Endovélico, firme e imóvel no caminho de acesso.

De volta ao carro e à estrada, desta vez encontrando um desvio por terra batida para contornar o ponto em que a estrada N373 estava mesmo fechada, voltámos a Alandroal onde parámos para uma bela merenda, não sem antes dar um saltinho ao castelo da vila, recentemente alvo de obras de requalificação, que valorizaram realmente o espaço.

A partir daqui foi sempre viajar rumo ao Norte, apenas fazendo breves paragens em Vila Viçosa e Estremoz, local onde até as pedras da calçada são em mármore.


O interior do Castelo do Alandroal, com a igreja matriz.

Antigo perímetro amuralhado de Vila Viçosa, visitado pouco depois de termos bebido cafés que nos foram vendidos a 70 cêntimos cada, por um senhor que tivemos dificuldade em perceber por estar a comer uma sandes com mais conduto que pão e por o sotaque alentejano ser difícil de perceber quando usado com a boca mais cheia que a de um hamster com mais olhos que barriga.

Paço dos Duques de Bragança em Vila Viçosa.

Antiga estação de comboios de "Villa Viçoza", actualmente transformada em Museu do Mármore.

Centro histórico de Estremoz, correspondente ao antigo castelo. Tirando a parte caiada, o resto é mármore. Confesso que nunca tinha visto tanto mármore junto mas sendo Estremoz terra de renome na produção desta pedra (consta que até Saddam Hussein tinha uma enorme mesa feita com mármore de Estremoz) não será de estranhar.

Fotos das escavações e da cabeça de Endovélico: Portugal Romano

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