quinta-feira, outubro 31, 2013

Blatter vs Ronaldo e as prioridades dos portugueses



A polémica gerada pelas declarações de Joseph Blatter sobre Cristiano Ronaldo tem dominado a opinião pública portuguesa esta semana, substituindo até -imagine-se!- o desCarrilhamento do casamento de Bárbara Guimarães como tema de conversa nos espaços públicos privilegiados de tertúlia, desde o café da esquina ao salão da cabeleireira mais próximo.

Sinceramente, não percebo o porquê de tamanha indignação. É certo que, tendo o cargo que tem, Blatter deveria ter sido mais comedido na sua intervenção e não ter demonstrado preferência por um jogador em detrimento de outro. Contudo, não acho que tenha sido uma intervenção merecedora de tamanha onda de indignação e, aqui entre nós que ninguém nos lê, não só concordo com algumas das coisas que ele disse, como até achei piada à situação. Quem não gostaria de ter Messi como filho? Eu gostava e até estou a pensar em adoptá-lo, em prol de uma velhice tranquila e remediada. Se não conseguir, posso sempre tentar o Ronaldo, vá, para que não me acusem de traidor da Pátria. 




Voltando à polémica, no calor da indignação ninguém se apercebeu do descabido que foi o conteúdo da resposta de Ronaldo, ao dizer que aquelas declarações tinham sido uma mostra da consideração que a FIFA tem por si, pelo seu clube e pelo seu país. Eu pergunto: onde é que está implícita a referência ao Real Madrid e a Portugal, a não ser no ego do próprio Ronaldo? Pessoalmente, como português que sou, não me senti minimamente atingido. Joseph Blatter limitou-se a fazer a sua apreciação pessoal em relação a dois praticantes do jogo da bola. Ponto final.

O que é certo é que toda a gente, consciente ou inconscientemente, decidiu cavalgar a onda da indignação, através de reacções em forma de vídeos, textos, petições e espaços nas redes sociais exigindo a cabeça de Blatter. A celeuma tornou-se até matéria de Estado e não me admirava nada que, após o repúdio manifestado pelo Governo através do ministro da presidência Marques Guedes, o próximo passo venha a ser um implacável e contundente pedido de desculpas à FIFA através de Rui Machete.

Tenho de facto enormes dificuldades em compreender as prioridades dos meus concidadãos. Os angolanos dizem que não passamos de uns invejosos, que as nossas elites são corruptas e incompetentes e qual é o resultado? Como portugueses que se prezem e salvo um ou outro disparo acidental para o ar, não só ficamos quietinhos e calados como, ainda por cima, o nosso Governo pede-lhes desculpa. Agora quando se trata do CR7, alto e pára o baile! É o toque a rebate, é o pegar em forquilhas e archotes para salvar a Pátria e contra a FIFA marchar, marchar!


Adenda

Depois de ler há instantes a notícia do anúncio do Governo de que, pelo facto de o campeonato nacional ser "um evento de interesse público", teremos no próximo ano o regresso da transmissão televisiva de jogos de futebol em sinal aberto, o meu conspirómetro deu estranhamente sinal de alerta e associou a isto a intervenção de Marques Guedes. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, pois não?


quarta-feira, outubro 30, 2013

Os Portugueses que foram a Malta II - Valletta, a singular capital de Malta

Valletta - Google Maps.


Valletta, a capital maltesa, é uma cidade que foi construída de raíz, a partir de 1566, para cimentar em definitivo o estabelecimento da Ordem de São João (os antigos Cavaleiros Hospitalários) no arquipélago. É uma cidade singular e, tendo quase 450 anos, o limite da cidade permanece praticamente inalterado desde a sua fundação. Mas nem só os 7.000 habitantes se escondem atrás das muralhas. Ao caminhar pelas ruas de Valletta, descobrimos várias histórias e factos curiosos como por exemplo o laço profundo que une as raízes desta cidade a Portugal. Houve ainda tempo para momentos de convívio com um animado grupo de pessoas de várias nacionalidades com o Geocaching como actividade comum. 

Valletta. A heterogeneidade da altura das construções faz a cidade parecer caótica quando na verdade as ruas seguem uma planta ortogonal, como acontece com a Baixa Pombalina de Lisboa.


Uma cidade construída com o apoio de Portugal

Para compreender Valletta (em maltês pronuncia-se "Valéta") é preciso em primeiro lugar conhecer o que levou à sua construção. Resumidamente, depois de ter testemunhado a passagem de fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos, árabes, normandos, angevinos, suábios, aragoneses e espanhóis, e antes da chegada da França napoleónica e ainda da Commonwealth britânica, o arquipélago de Malta foi cedido à Ordem dos Cavaleiros de São João, a antiga Ordem dos Hospitalários (que nos deixaram por exemplo, aqui bem perto, o Castelo de Belver) em troca do pagamento simbólico anual de um falcão à coroa espanhola.

A Ordem estabeleceu o seu quartel general na cidade portuária de Birgu (ver artigo anterior) em  1530 e pouco tempo teve de sossego. Depois de várias ameaças, em 1565 chegou à ilha um exército turco de 40.000 homens, disposta a erradicar este espinho cristão no centro do Mediterrâneo, então defendido por 8.000 homens. O Grande Cerco, como é conhecido, durou 4 meses e os turcos acabaram por retirar. A situação dos vencedores não ficou contudo muito risonha pois toda a zona do grande porto não passava de uma amálgama de ruínas, incluíndo Birgu.

A Ordem decidiu construir uma nova cidade-sede, numa península desabitada diante de Birgu onde apenas existia o Forte de Sant'Elmo, que durante o cerco tinha sido tomado pelos turcos, e que se encontrava reduzido a um amontoado de pedras. Lançado o apelo à Cristandade, depressa começaram a chegar donativos para as obras necessárias, inclusive de Portugal. D.Sebastião, que na altura já sonhava com a grande empreitada de construção de um império cristão no Norte de África (que haveria de chocar de frente com a realidade em Alcácer-Quibir), enviou a soma de 30.000 cruzados

A nova capital foi baptizada em homenagem ao herói Grande Cerco, o Grão-Mestre da Ordem, Jean de La Vallette.

O reconstruído e melhorado Forte de Sant'Elmo, na extremidade da península de Valletta.


Uma subida a pique com 58 metros!

Usufruindo dos fundos de coesão da União Europeia, Malta requalificou inúmeros locais históricos, reabilitando-os e dotando-os de novas infraestruturas. Para além das omnipresentes muralhas e da persistente tonalidade do calcário, nesta altura também as gruas e os andaimes são uma constante da paisagem.  

Junto ao cais, é possível ver vários navios de cruzeiro alinhados à volta dos quais circulavam os minúsculos barcos-táxi, tanto os mais modernos, de cor amarelo, como os mais tradicionais "Dgħajsa", que como as restantes embarcações pesqueiras típicas, são decorados com olhos, um hábito herdado dos fenícios, segundo consta.

O Dgħajsa no qual atravessámos o Grande Porto, junto a um dos paquetes ancorados no cais de Valletta.


Junto ao cais, a altura das casas é ultrapassada pela dos paquetes que, temporariamente, ganham o estatuto de edifícios mais altos de Valletta.

Para quem chega pelo cais, o acesso mais fácil e rápido à cidade é através do impressionante elevador construído no fosso das fortificações. Curiosidade: para aceder ao elevador é preciso adquirir um bilhete de 1€ que refere "Ida e volta". No entanto, quem abordar o elevador a partir do topo descobre que afinal não tem de pagar nada para descer. Afinal no bilhete deveria constar "Ida e volta (se quiser)". A viagem de estreia, sobretudo no sentido descendente, causa algum "frisson", dada a súbita aceleração inicial mas a vista compensa bem.

O elevador permite o acesso directo aos Upper Barrakka Gardens, uma zona ajardinada e polvilhada de memoriais, situada na parte mais alta das muralhas e com vista privilegiada para o Grande Porto. 

Visão nocturna do impressionante elevador que liga a cidade de Valletta à zona do cais. Uma estrutura de betão e alumínio com 58 metros de altura, com duas cabines com capacidade para 21 pessoas cada.


Dos jardins de Barrakka, avista-se o Forte de Sant'Ângelo na extremidade da península de Birgu, cidade rebaptizada de Vittoriosa após a resistência ao Grande Cerco. O forte é hoje propriedade da Soberana Ordem Militar de São João, descendente indirecta dos antigos governantes de Malta. É o único território do arquipélago sobre o qual o governo maltês não tem jurisdição.


Num patamar inferior, encontra-se a Bateria de Saudação de onde, um pouco à semelhança do que acontece em Edimburgo (recordar aqui) todos os dias ao meio-dia é disparada uma salva de canhão.


As ruas de Malta, que seguem um traçado ortogonal, são muito peculiares. As principais, que seguem no sentido longitudinal da península, parecem intermináveis ao passo que as perpendiculares usam e abusam dos degraus, sobretudo nas zonas mais periféricas.

Antes de nos embrenharmos a sério nas ruas, vale a pena passar pela zona mais nobre de Valletta, onde é possível encontrar os vários edifícios governamentais e a grande co-catedral de São João, o patrono da Ordem.

A longa Rua de São Paulo ou, como se diz em Malta, Triq San Pawl.

A Co-Catedral de São João nasceu com a cidade, tendo funcionado como igreja conventual da Ordem de São João. É um enorme edifício em estilo barroco cujo interior está luxuosamente decorado e contém uma impressionante colecção de pinturas de Caravaggio. No seu interior jazem cerca de 400 cavaleiros e outros membros da Ordem.

A fachada principal da Co-Catedral domina a bela Praça de São João ou, como se diz em maltês, Misrah San Gwann.

A nave central da Catedral, ricamente decorada. Tem tanto dourado que quase justifica o uso de óculos escuros, se bem que a senhora que se encontra à entrada, distribuíndo lenços e saiotes para as senhoras mais destapadas e ainda recomendando que os turistas mais distraídos tirem o chapéu ou boné, não iria certamente aprovar o dito acessório.


O chão da catedral está repleto de sepulturas magnificamente decoradas com mármores de várias cores. 


Saíndo da Catedral, os edifícios estatais sucedem-se. O maior é o antigo Palácio do Grão Mestre, actual residência do Presidente da República e sede do Parlamento maltês.

Balcão corrido do Palácio do Grão Mestre.

Pormenor de uma das esquinas do Palácio do Grão Mestre.


Valletta: ruas, becos e balcões. Muitos balcões!

Disse uma vez Lord Byron que Malta "é uma ilha de gritos, sinos e cheiros". Ao passear pelas ruas de Valletta fica-se com a certeza de que essa descrição, feita no século XIX, continua actual, embora talvez com maior ruído de fundo da presença de tantos turistas do que então. Os malteses são geralmente abertos e descomplexados nas suas conversas, muitas vezes feitas de janela para janela, até de um lado ao outro da rua, e se há coisa que é digna de se ver e ouvir, pela gestualidade e sonoridade, isso será sem dúvida uma discussão entre malteses. É claro que não se percebe nada da conversa, afinal o maltês é muito semelhante a árabe falado com entoação italiana e um ou outro apontamento de inglês.


Saíndo das ruas principais, entra-se noutro Mundo, muito mais típico e genuíno, rico em pormenores. Neste caso uma senhora, num terceiro andar provavelmente sem elevador, recolhe uma encomenda que lhe foi deixada por dois jovens.


Um estacionamento improvável num beco.

Em termos arquitectónicos não há nada mais típico em Malta que o inconfundível balcão maltês ou, como se diz por lá, "Il-Gallarija Maltija". Diz-se que o primeiro exemplar terá sido instalado no Palácio do Grão Mestre, popularizando-se a partir daí o seu uso mas ainda há dúvidas sobre a sua origem, sendo possivelmente o resultado da influência dos inúmeros escravos de origem turca que por aqui viveram. Certo é que estes balcões definem a paisagem urbana de Malta de tal forma que existem subsídios estatais destinados a apoiar os particulares que decidam restaurá-los.


Os balcões de madeira e vidro podem ser turcos ou não mas nas portas parece nitidamente haver influência britânica.


Vira-se a esquina e -surpresa!- descobrem-se mais balcões.


Um edifício relativamente recente cheio de balcões.

Passando para o outro cais, no lado oposto da cidade, o panorama é bastante diferente. Do outro lado do porto, avista-se um aglomerado de prédios mais "modernos" da localidade de Sliema, logo atrás de uma pequena ilha fortificada que é também ela (mais) uma evocação de Portugal. No próximo artigo direi porquê. Aos pés das muralhas de Valletta, descobre-se um pequeno cais de ferries, uma zona de recreio e uma piscina de pólo aquático.

Entretanto, com o chegar da noite, chegou também a hora de regressar ao cais do Grande Porto. Esperava-nos lá um animado grupo de desconhecidos com o qual nos iríamos encontrar graças ao GPS.


As muralhas do lado Noroeste de Valletta, com a catedral anglicana e a igreja das Carmelitas em destaque. Junto ao cais dos ferries que ligam a cidade ao outro lado deste porto, o porto dito de Marsamxett, avista-se a piscina de polo aquático do Valletta United.



No regresso ao centro cidade, agora pela entrada principal, fica bem visível a dimensão das muralhas (actualmente em obras). Os dois cubículos sanitários ajudam a fazer a escala.


O nosso primeiro encontro internacional de Geocachers 

O Geocaching (se não sabem o que é isto, cliquem aqui) não é só acerca de procurar "tesouros" escondidos, acontecendo também muitas vezes encontros de geocachers. A organização é simples e assemelha-se em certos aspectos a uma flash mob. Qualquer praticante pode organizar um evento. Basta definir o dia, a hora e as coordenadas geográficas do mesmo e publicá-las para conhecimento dos outros praticantes.


Neste caso, uma vez que tomámos conhecimento da ocorrência de um encontro durante a nossa estadia em Malta, decidimos ir até lá. As circunstâncias ditaram que o encontro fosse peculiar já que o encontro decorreu no cais dos navios de cruzeiro, nos quais muitos dos participantes viajavam. Como há um gradeamento a separar o cais da rua, muitos dos participantes acabaram por ficar do outro lado desse gradeamento, o que não obstou a um belo momento de convívio e uma animada conversa (a possível vá, dadas algumas limitações que os participantes alemães mais velhos em termos de inglês). 


Uma troika à maneira, com representação da Dinamarca, Malta e Portugal e um lancil de passeio a definir escalas.

Alemães nos dois lados da barricada.

Foi uma bela hora de conversa, com troca de experiência, grandes risadas e, claro está, troca de objectos e assinatura do livro do evento. Curiosamente, não havia nenhum checo no encontro. Segundo um hilariante participante alemão, os checos são um povo fanático por geocaching e quando um bebé nasce, traz já no currículo pelo menos 10.000 caches encontradas.


A seguir: Portugal, uma presença constante e estimada em Malta


domingo, outubro 27, 2013

A imagem do fim-de-semana: Vamos a eles?


Assim vai ser esta tarde. São servidos? ;)

sexta-feira, outubro 25, 2013

Os Portugueses que foram a Malta I - Passeio à luz das velas

O primeiro contacto com a realidade maltesa foi bastante esclarecedor e disse logo tudo acerca da têmpera daquele povo, capaz de passar do afável  à ira em menos de um fósforo (daqueles pequenos), mas já me estou a adiantar. Vamos lá contar isto desde o início.

A viagem até Malta impôs uma primeira etapa de comboio até Madrid, dado que não existem voos directos low-cost de Portugal até este destino. 5h de ressonos depois, afinal o comboio apanha-se na Guarda para lá da 1h30 da manhã, chegámos à capital espanhola pelo raiar do dia, tendo tido tempo para um rápido passeio pelas calles madrilenas que viviam o fervor da festa nacional da Senhora do Pilar. 

Praça das Portas do Sol, Madrid, decorada a rigor para a festa nacional de Nossa Senhora do Pilar. 

Chegada a hora da partida, dirigimo-nos ao aeroporto de Barajas para aí apanharmos o voo com destino a Malta. Obviamente não nos preocupámos com as notícias recentes de alguns ataques de pânico que teriam acometido os pilotos da Ryanair. Aliás, segundo pudemos observar, o piloto do nosso voo era todo ele tranquilidade.


Bem-vindos a Malta!

A chegada a Malta trouxe inevitavelmente consigo um choque térmico, ao contactarmos com uma temperatura que, apesar da hora, rondava ainda os 30º e uma apreciável humidade atmosférica. O arquipélago de Malta tem uma área idêntica à do concelho de Sintra (316km2) e uma população superior a 400.000 habitantes, o que faz deste país o mais densamente povoado da União Europeia. Não havendo outro transporte público para além de autocarro e táxi, optámos por apanhar o primeiro para chegar a Kalkara,  a localidade piscatória onde iríamos ficar durante a nossa estadia. 

Depois de um trajecto de alguns minutos, ao longo do qual deu para perceber que as construções em Malta são monocromáticas, todas elas construídas com calcário ou da cor deste, apeámo-nos para apanhar o 2º e último autocarro. Ficámos surpreendidos pela quantidade de gente que esperava pelo mesmo autocarro que nós mas logo um simpático casal de cinquentenários, que meteu conversa connosco nos esclareceu acerca do motivo daquele ajuntamento. 




Havia nessa noite em Birgu, pertíssimo de Kalkara, uma festa anual peculiar: Birgu à Luz das Velas. Explicaram-nos que todas as ruas da cidade eram iluminadas apenas com velas, havendo depois várias actividades um pouco por toda a parte. Enquanto ouvíamos as explicações, o autocarro finalmente aproximou-se, vindo já bastante cheio. 

Acto contínuo, toda a gente se concentrou junto à porta e uma rapariga que entretanto tinha chegado, ousou entrar no autocarro antes do nosso casal de interlocutores. Eu quase podia jurar que estes aumentaram consideravelmente em tamanho e musculatura para além de terem ganho um certo tom esverdeado. Bom, certo é que entraram logo no autocarro em perseguição da rapariga, e tivemos oportunidade de assistir a uma boa e acalorada discussão em maltês, abrilhantada por uma sucessão de agarrões e sacudidelas. 

A luta por um lugar no autocarro compensou para apenas meia dúzia de pessoas já que o condutor gritou "Está cheio!" e mandou sair ainda alguns dos que tinham também arriscado entrar.

A solução, por indicação de uma simpática jovem maltesa, passou por apanhar um autocarro que não chegava a Birgu, fazendo depois os restantes 2km a pé. Assim fizemos, chegando finalmente já perto das 20h ao nosso alojamento onde fomos simpaticamente acolhidos pelo Aldo, o nosso anfitrião que logo nos animou dando-nos as boas-vindas e acrescentando que nos tinha guardado um quarto no último andar com uma bela vista sobre a marina. Deixando as bagagens no quarto, saímos pouco depois, como mariposas atraídas pelas velas de Birgu, que ficava ali logo do outro lado do porto.


Birgu, a cidade vitoriosa bem protegida por imponentes fortificações, vista do nosso quarto.


Birgu, a Cidade Vitoriosa à luz das Velas

Após contornarmos o porto, entrámos em Birgu por uma pequena porta nas muralhas, chegando a uma área pouco ou nada frequentada mas toda ela decorada por velas. Sem saber o caminho a seguir, a opção mais lógica passou por caminhar na direcção de onde parecia vir maior ruído e não tardou muito para que chegássemos ao centro e nos deparássemos com um verdadeiro mar de gente, entre espectáculos audiovisuais e animação musical.


Passada a pequena porta das muralhas, estamos em Birgu!

Alinhadas ao longo de ruas apinhadas de gente, várias "barraquinhas" vendiam doces e petiscos de várias formas e feitios. Os estômagos vazios puxaram-nos em direcção àquela panóplia de cores e cheiros e não tardou muito para que trincássemos uns deliciosos pastéis de tâmaras, apenas o aperitivo para o jantar que se seguiria, à média luz no claustro de um convento de dominicanos.


Cores, formas, cheiros e sabores... os únicos com direito a iluminação eléctrica. Aquele miúdo lá ao fundo que nos vendeu dois belos pastéis de tâmaras a 50 cêntimos a unidade, ficou-me no coração.


Bolinhos, uns mais típicos que outros, vendidos ao peso. Em Malta não há ASAE mas nem por isso os habitantes deixam de ser felizes.

Uma das ruas de acesso ao centro, iluminada pelas velas. 

No âmbito da festa das velas, foi possível visitar os dois principais espaços museológicos de Birgu, comprando um bilhete único por apenas 4 euros. O primeiro, também como pretexto para fugir à confusão da rua, foi o Palácio do Inquisidor.

Este edifício seiscentista, foi a residência oficial dos 62 sucessivos Inquisidores-mor de Malta que, de 1574 a 1798, a partir desta imponente construção, protegeram os fiéis católicos malteses dos desvarios heréticos das religiões alternativas e do pensamento próprio.

O palácio, alvo de sucessivas obras por parte dos seus ocupantes, possuía todas as infraestruturas e comodidades de que um Inquisidor-mor precisava para ser feliz: alojamentos, salas de reunião e de jantar, cozinhas bem apetrechadas, um belo pátio interior, uma sala de audiências, celas prisionais e uma sala para interrogatórios mais incisivos.

A sala de audiências do Tribunal do Santo Ofício.

A sala de interrogatórios que permitia que muitos dos réus daqui saíssem com uma flexibilidade de membros inédita.

Nas celas, o tempo passava de forma demasiado lenta para os prisioneiros. A necessidade de distracção levou ao surgimento de verdadeiras obras de arte nas paredes das celas, como esta flor, sobre um grafito de escrita árabe.

De volta à rua, fomos à procura do 2º museu, o Museu Marítimo. Caminhando pelas ruas, não pudemos de achar interessantíssimo o nível de envolvimento da população na festa, tendo em conta que a maior parte das janelas e varandas das casas estavam também decoradas com velas. Mas a adesão não se fica por aí. Há quem chegue até a decorar com velas o interior das próprias casas, abrindo as portas e janelas para que os transeuntes o possam apreciar.

Garrafas de refrigerantes diversos reaproveitadas contribuem para dar uma nota mais colorida às decorações.

O interior de uma casa particular decorado a rigor. Foi uma de muitas que pudemos ver.


A Misrah ir-Rebha, que é como quem diz, a Praça da Vitória, estava completamente cheia de gente que assistia a um concerto que aí decorria. A sensação de estamos a ouvir uma interpretação em maltês, foi semelhante a assistir ao Festival Eurovisão da Canção ao vivo. "Malta, 12 points!".

Para chegar ao Museu Marítimo, foi preciso passar pela marina que se situa do lado oposto à que temos diante do nosso hotel (Birgu situa-se numa pequena península). Aí foi possível testemunhar o vai-vem dos barcos-taxi que transportavam pessoas de e para Isla ou Valletta.

O Museu Marítimo testemunha de forma notável a importância estratégica de Malta no Mediterrâneo desde a Antiguidade até à 2ª Guerra Mundial, dando especial destaque à forma como a Ordem dos Cavaleiros de São João de Malta se tornou uma potência naval e a ponta de lança da cristandade contra o Islão. 


La pièce de résistance do Museu da Marinha: a maior peça de âncora romana encontrada até hoje. 4 toneladas de puro chumbo.

Para completar o passeio, ainda houve tempo para ir à extremidade da península de Birgu para admirar o imponente Forte de São Ângelo, Forti Sant'Anġlu para os locais, passando por uma parte da marina que parecia ter sido reservada para o clube dos amigos de Abramovich, tal era a quantidade e dimensão de iates de luxo que ali estavam amarados.

O Forte de São Ângelo, na extremidade de Birgu.

A seguir: Marsaxlokk, La Valletta e os amigos ganhos graças ao GPS


segunda-feira, outubro 21, 2013

Os portugueses que foram a Malta*

Regressados que estamos da ilha de Malta, os próximos artigos serão dedicados ao relato de tudo aquilo a que por lá assistimos e experimentámos, começando na nossa avaliação do infame refresco nacional local e na apreciação  do nível de intrujice da classe dos taxistas.

Fiquem atentos!



* Título inspirado num sketch que é um verdadeiro clássico: "The Italian Man Who Went to Malta". Vale a pena recordar:

terça-feira, outubro 08, 2013

Pontes, maratonas e manifestações (ou marchas, vá)


Perante isto:

"O Sistema de Segurança Interna deu um parecer técnico desfavorável à realização, a 19 de Outubro, por parte da CGTP, de uma marcha de protesto cujo itinerário inclui a Ponte 25 de Abril, invocando diversos riscos de segurança. " in Público (7-10-2013)

Eu pergunto:

Porque é que uma manifestação, ou marcha, portanto um ajuntamento onde todos participam em prol de um objectivo comum, oferece maiores riscos de segurança que uma prova onde milhares competem uns contra os outros?


segunda-feira, outubro 07, 2013

Reconciliação com a Serra da Gardunha

Há mais de 10 anos atrás, encontrei em Ibiza um homem singular. Poeta e artesão, José Luciano Ruiz tinha uma impressionante história de vida e um espírito que não se deixava prender pelas amarras da normalidade. Quando o encontrei, vivia numa casa rudimentar sobre um promontório, onde fazia trabalhos de olaria para venda. Essa não era no entanto a principal razão pela qual escolhera morar ali. 

Com o decorrer da conversa, confessou que escolhera aquele local para poder admirar o colossal rochedo, que se erguia no mar no meio da enseada em frente. Vivia, dizia ele, apaixonado por aquela rocha. Ainda assim lamentava-se "É uma rocha egoísta. Não te dá nada. Tira-te tudo. Alimenta-se do assombro das gentes". 

Quando caminho pela Gardunha, vêm-me sempre à memória as palavras de José Ruiz, tal como aconteceu ontem. Num percurso a solo que me levou a percorrer a cumeada do maciço central da Gardunha, desde a casa do guarda de Alcongosta até ao Alto da Gardunha, regressando por Castelo Velho e Castelo Novo, reconciliei-me com esta belíssima Serra. Estivemos separados por demasiado tempo!



Bicharada não falta na Gardunha mas este Louva-a-Deus foi a única criatura que se prestou à fotografia. A cobra e as perdizes revelaram-se demasiado tímidas.


A Penha com uma excelente moldura.


O Castelo Velho lá ao fundo, com vista para a barragem de Santa Águeda (Marateca)


Blocos, blocos e mais blocos I.


Blocos, blocos e mais blocos II. Com tantas formas excêntricas, há alturas em que parece que estamos metidos num gigantesco teste de Rorschach.


A beleza também nos pormenores.


Uma rocha que parece ter saído da imaginação de Verner Panton.


No Castelo Velho, ainda se vêem vestígios de uma outrora imponente muralha que completava as defesas naturais. O nome do povo que a construiu perdeu-se no tempo.


Sinalização...

O cérebro de granito, imagem emblemática do Geopark da Gardunha.

Ao chegar a Castelo Novo, a placa que ostenta o nome da outrora vila é uma relíquia por vários motivos. Trata-se de um excelente exemplar das placas de informação rodoviária dos tempos da "velha senhora", feita em cimento e mármore e recorda também os tempos do 25 de Abril. "Estamos com o MFA".


O Pelourinho de Castelo Novo, onde ainda são visíveis os pontos de onde pendiam as correntes que prendiam os criminosos que ali eram expostos à vergonha.



Paragem para reabastecimento na fonte de D.João V.



A Penha e o anfiteatro natural de Castelo Novo



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