terça-feira, julho 30, 2013

Arte urbana (daquela a sério!)

Pausa na tourada para falarmos de arte. Neste caso de duas obras de arte que decoram uma rua menor, quase um beco, encontrado completamente ao acaso numa deambulação em Glasgow, durante o mês passado. Quase de imediato, dei por mim a pensar na quantidade de telas que se encontram espalhadas pelo meu Fundão, disfarçadas de paredes feias.



domingo, julho 28, 2013

Tourada SangriAgosto - E-mail enviado ao presidente da ACICF

Ao ter conhecimento que a Associação Comercial e Industrial do Concelho do Fundão assumia sozinha a organização da tourada e a sua inclusão no programa do festival SangriAgosto, embora tenha ouvido noutras fontes que se tratou de uma proposta de um particular, assumindo portanto uma atitude unilateral, à revelia dos restantes parceiros da organização do festival SangriAgosto, questionei abertamente esta situação na página Facebook da instituição. De forma reiterada, limitaram-se a ignorar as minhas questões, atitude que não se coaduna com a transparência e frontalidade com que uma instituição desta importância devia pautar a sua linha de acção.

Sendo assim, enviei um e-mail dirigido a Rogério Hilário, presidente da ACICF que aqui reproduzo:

Exmo Sr Presidente da ACICF, Dr Rogério Hilário

Já várias vezes coloquei as mesmas questões na página Facebook da ACICF mas a resposta tem sido apenas o ignorar das minhas interpelações, atitude que não se coaduna com o comportamento esperado por uma instituição que age de boa fé e à luz da transparência. Sendo assim, decidi entrar em contacto consigo por esta via, para finalmente procurar obter as respostas que pretendo.

Enquanto cidadão do Fundão fiquei estarrecido ao ser confrontado com a realização de uma tourada da responsabilidade da ACICF e, pior ainda, integrada no festival SangriAgosto, um festival do qual eu tinha até agora a melhor das impressões, tendo inclusive tido a oportunidade de o exprimir publicamente no ano passado. O SangriAgosto 2012 foi sem dúvida um sucesso e por esse facto, felicito-o. Já a "originalidade" da inclusão de uma tourada no SangriAgosto deste ano é uma completa inversão da imagem do SangriAgosto, alterando por completo a conotação do próprio nome do festival.

É para mim profundamente decepcionante assistir à entrada do nome da cidade do Fundão na negra lista das cidades onde ainda se pratica este espectáculo bárbaro e sangrento, espectáculo esse que não se coaduna em nada com a imagem de uma cidade virada para o futuro que o Fundão tem procurado construir. 

Por outro lado, o argumento comum de justificação das touradas, de que se trata de uma tradição, não colhe no Fundão. A tourada é completamente estranha à matriz das tradições desta cidade.

A tourada ainda não começou, Senhor Presidente, mas a primeira e mais profunda estocada já foi dada, ferindo de morte o festival SangriAgosto (infeliz coincidência de nome!) e denegrindo no processo o Festival Cale, que acontece em simultâneo. A responsabilidade disso recai sobre si, Senhor Presidente, enquanto organizador da tourada.

Sabe certamente o Senhor Presidente que as touradas têm vindo a ser proibidas em regiões de tradições tauromáquicas pela consciencialização que se tem tomado da barbárie que lhes está inerente. A evolução de mentalidades permitiu aí a percepção que uma tourada não é mais do que um aglomerado de sessões contínuas de tortura de animais para simples diversão. Que valores morais pode uma tourada transmitir? Que é legítimo torturar animais para nossa própria diversão?

Só num país como o nosso é que se penalizam os maus tratos a animais e, ao mesmo tempo, se permite a continuação das touradas mas, em pleno século XXI, a mais de 2.000 anos de distância da génese das touradas nas bem tradicionais arenas romanas, era de esperar que o bom-senso das figuras públicas, que como o Senhor Presidente ocupam cargos de responsabilidade, permitisse compensar as lacunas e contradições da lei. Puro e utópico engano. 

É por isso, e mais uma vez, ao abrigo da minha qualidade de cidadão do Fundão, que sente e ama a sua cidade, que lhe pergunto a si directamente e à luz daquilo que entendo ser a missão da ACICF:

O que tem a ver uma tourada com a dinamização do centro antigo do Fundão?

De que forma vai beneficiar o comércio tradicional do Fundão? 

Em que estratégia de promoção do nome do Fundão se insere esta iniciativa? 

Porque avançaram para a realização da tourada quando já sabiam à partida que esta iria ser fracturante e provocar divisões no seio da população do Fundão, contrariando por completo o papel agregador do SangriAgosto?

Fico pois a aguardar as suas respostas Senhor Presidente, pois entendo que enquanto fundanense tenho direito a elas. Eu e todos os cidadãos que não concordam com esta tourada.

E já agora, porque ainda vai a tempo, espero que ponha a mão na consciência e tome as necessárias diligências no sentido de corrigir aquilo que foi sem dúvida uma tremenda precipitação da sua parte.

Despeço-me com cordiais cumprimentos

David Caetano

Se quiserem também expressar o vosso repúdio por esta iniciativa, poderão usar os seguintes contactos da ACICF:

Morada:
Associação Comercial e Industrial do Concelho do Fundão
Rua Dr. Teodoro Mesquita, 37
6230-355 Fundão

Telefones: 275 773 380 e 275 752 167

Fax: 275 773 664

E-mail da ACICF é acicf@acicf.pt

Petição contra a realização de touradas no Fundão

A petição on-line contra a realização de touradas no Fundão já conta, na altura em que escrevo estas linhas, com mais de 1080 assinaturas. São mais de 1080 pessoas que dão a cara, que não concordam com a realização deste triste espectáculo e com a associação do nome da cidade do Fundão a ele.

É preciso continuar a divulgá-la através de todos os meios possíveis para que, amanhã, quando esta for entregue ao Presidente da Câmara Municipal do Fundão, o número de signatários seja impossível de ignorar.

O link da petição é este: 

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=sangriagosto . 

Ao assinarem, o sistema irá automaticamente enviar um e-mail contendo o link de confirmação no qual deverão clicar. Só assim a assinatura será válida.

Vamos a isso!

Entretanto, e com a devida vénia, partilho aqui um comentário deixado pelo Sr Jerónimo Augusto, um apoiante desta causa, na página da petição:

"É com profunda mágoa que recebo esta notícia. Há quarenta e dois anos que o Fundão é para mim um local obrigatório por razões turísticas e culturais. Não posso deixar de evocar, por exemplo, a bela festa dos Chocalhos, os Encontros de Pastores, a Festa da Cereja, entre outras, verdadeiras jornadas culturais, que fazem do Fundão uma cidade de valores, voltada para o futuro, e por isso por mim aconselhada aos amigos e conhecidos, aos quais ofereço CD´s dos eventos atrás evocados, para que se desloquem até ao Fundão e Alpedrinha, no sentido de viverem aquelas salutares jornadas, verdadeiros exemplos de modernidade e visão de futuro. Chocar-me-ia, profundamente, ver a cidade do Fundão, a retroceder nos seus objectivos de progresso, ao organizar um espectáculo sanguinário, retrógrado e inferior ( uma tourada ), o que seria retroceder à Roma de (37), com Lucius Domitius Nero Claudius, em cuja arena (Coliseu ) se realizavam aqueles espectáculos de triste memória .Porém, estou certo que o Presidente da Câmara Municipal do Fundão, Dr. Paulo Alexandre Bernardo Fernandes, não vai ( pelo que de si conheço ), deixar que a sua cidade seja manchada pelo sangue de animais inocentes que são, cobarde e gratuitamente, sacrificados por mera diversão que em nada contribui para o bom nome e prestígio de uma cidade como o Fundão. Aproveito para apresentar ao Senhor Dr. Paulo Fernandes, os meus melhores cumprimentos."

quarta-feira, julho 24, 2013

São estas "pequenas" coisas que dão sentido ao que eu faço

Ao fechar o dia de ontem, deparei-me com uma mensagem enviada através do Facebook por um antigo aluno, com o qual já não falava há algum tempo. Conhecemo-nos no ano em que dei a disciplina de Sistemas de Informação na Ensiguarda, a escola profissional da Guarda, e desde cedo demonstrou que se tratava de um excelente aluno e de uma excelente pessoa. Esta mensagem, dedicada à minha ínfima contribuição para o seu percurso académico, é bem representativa da sua dimensão enquanto ser humano:

"Deixo aqui uma mensagem, Sou oficialmente licenciado em engenharia informática.  Tenho boa memoria... ainda me lembro das primeiras linhas de código que criei, foi com ajuda do professor, incentivando e dizendo dicas pelo (antigo) msn. 


Passaram 7 anos, sim já 7 anos... aprendi imensas coisas, evoluí, mas sem dúvida que o professor teve um papel muito importante em todo este processo. As vezes o primeiro passo é que é mais difícil... o professor foi realmente um bom professor que tive. 


P.S.: deixo aqui este desabafo, que se fosse professor também gostava que um aluno me dissesse tais coisas, passado tanto tempo. "


Apesar de, no preciso momento em que terminava de ler a mensagem, ter ficado com a sensação que havia um sacana de um gnomo escondido no escritório (quase de certeza no armário dos dossiers) a cortar cebolas, senti-me de alma cheia. São estas pequenas coisas que dão todo o sentido ao que eu faço! 


segunda-feira, julho 22, 2013

Tourada no Fundão. Vai haver Sangue em Agosto


Já tinha ouvido boatos mas, não encontrando nada que os sustentasse, acabei por esquecê-los. A realização de uma tourada no Fundão era uma ideia descabida e estranha às tradições da cidade. Um evento desses não era compatível com a ideia de uma cidade que se quer modernizar, em equipamentos mas sobretudo em ideias, que quer mostrar ao exterior o seu desejo de evoluir e romper com conceitos obsoletos e estagnantes. Só podia ter sido um mal entendido.

Foi por isso que hoje, ao pegar pela primeira vez num folheto de divulgação do festival SangriAgosto 2013, fiquei estarrecido ao ler nele que os boatos afinal se confirmavam. O festival deste ano conta no seu programa com a "1ª Grande Corrida de Toiros", colocando o nome da cidade do Fundão no rol das localidades que promovem o degradante espectáculo de tortura para diversão dos espectadores (e para encher os bolsos de vários barões que só em 2011 obtiveram perto de 10M€ em subsídios estatais).

Aqui, no entanto, não há sustentação para o motivo fictício invariavelmente invocado de se estar a procurar manter a tradição, uma vez que o Fundão não tem tradição tauromáquica, sobrando aquilo que realmente move quem organiza as touradas: fazer dinheiro.

Hoje, pela primeira vez na vida, tenho vergonha em dizer que sou do Fundão, a  cidade que não se vergou à Inquisição mas cujas instituições acolhem agora, de braços abertos, esta prática retrógrada e sangrenta. Tenho de perguntar: como se enquadra no sistema de valores morais pelo qual se regem aqueles que aplaudem cada ferro cravado com êxito, a ideia de que é legítimo torturar animais por diversão e ainda vale a pena pagar para assistir a isso?

Como ética e moralmente não posso compactuar com eventos que promovam touradas, decidi este ano boicotar qualquer iniciativa ligada ao SangriAgosto (tascas, espectáculos musicais, etc..) e convido todos aqueles que não concordam com a realização desta tourada no Fundão a fazerem o mesmo. 

Nunca a sangria fez, como este ano, tamanho jus ao nome que tem e, sendo assim, causar-me-ia certamente severas perturbações gástricas.

ACTUALIZAÇÃO DE 25 DE JULHO:

Obtive junto de fonte oficial da Câmara Municipal do Fundão alguns esclarecimentos (importantes) sobre a realização desta aberração tauromáquica no Fundão que passo a sintetizar:

  • A organização do SangriAgosto é da exclusiva responsabilidade da Junta de Freguesia do Fundão e da Associação Comercial e Industrial do Concelho do Fundão.
  • A CMF é sim responsável pela organização do Festival Cale, o festival de artes de rua que ocorre em simultâneo com o SangriAgosto no fim-de-semana de 2, 3 e 4 de Agosto, sendo no entanto um evento distinto deste último.
  • Ao que foi possível apurar, esta tourada é da responsabilidade de um promotor público, não havendo quaisquer dinheiros públicos envolvidos na sua realização.
  • Até ao momento ainda não deu entrada na CMF qualquer pedido ou informação oficial sobre a realização desta tourada.

À luz disto (digo eu agora) é caso para perguntar:


No que estavam a pensar a Junta de Freguesia Fundão (Dar Fundão) e a ACICF quando deram o seu aval à realização de um evento sabendo à partida que este iria ser fracturante e provocar divisões no seio da população do Fundão, permitindo a sua inclusão no cartaz do SangriAgosto, evento que devia ser de agregação da população? A tourada pode ser promovida por um privado mas ao incluí-la no cartaz e ao dar-lhe o nome "SangriAgosto" é a cumplicidade com a sua realização que estão a assumir.


É lamentável senhor presidente da JF e senhor presidente da ACICF que por essa falta de visão tenham ferido duplamente de morte o SangriAgosto, quer pela fractura que provocaram na população, quer pela subversão do nome "Sangria" que, inevitavelmente, terá a partir de agora outra conotação.


Já agora, o que tem a ver uma tourada com a dinamização do centro antigo do Fundão? De que forma vai beneficiar o comércio tradicional do Fundão? Em que estratégia de promoção do nome do Fundão se insere esta iniciativa? 


São de facto questões às quais todos gostaríamos de ter respostas.



quarta-feira, julho 17, 2013

E porque o "nosso" Rui Costa ganhou ontem a etapa da Volta a França

A brilhante vitória de Rui Costa, na etapa de ontem da Volta a França, teve grande eco nos meios de comunicação social. Até quem não liga particularmente ao ciclismo exultou com esta vitória, que acabou por ser interpretada como um lampejo de optimismo na depressão geral nacional dos últimos tempos, fazendo de cada cidadão comum português também ele um vencedor da 16ª etapa da Volta a França.

Qual seria no entanto a sensação real de vencer uma etapa da Volta a França? Foi essa experiência que o infame humorista Rémi Gaillard proporcionou a vários ciclistas de Domingo que, ao fazerem uma curva, se viram subitamente metidos num ambiente digno da prova rainha do ciclismo internacional. Vale a pena ver.



Se isto vos acontecesse, como reagiriam?

quinta-feira, julho 11, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Conclusão!

Mapa do percurso
(Clicar para ampliar)


Dia 6 - De Carlisle a Bowness-on-Solway (20,5km + 1,5km para formalidades)
[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Último dia! Ao começarmos a caminhada foi difícil evitar um certo sentimento de saudade antecipada perante a iminência do fim daquilo que tinha sido uma fantástica aventura. Antes disso, tomámos o nosso último "english breakfast" na sala de bar do hotel, servidos por uma senhora simpática que começava todas as suas interpelações com "my dears". Deixando as mochilas numa arrecadação do hotel, levámos connosco apenas o essencial para o que faltava do trilho. Bowness-on-Solway, a aldeia situada onde outrora terminava a Muralha de Adriano, era "já ali".


O hotel Vallum House, situado na linha do aqui desaparecido Vallum da Muralha de Adriano, um hotel confortável, com boa comida e gente simpática.

A primeira tarefa era regressar ao Trilho que havíamos deixado ao entrar em Carlisle. Consultado o mapa, deduzimos que seguindo a estrada que passava frente ao hotel para Oeste, haveria certamente uma ligação, o que acabou por se confirmar após pouco mais de 500m de caminhada. Entre Carlisle e Bowness-on-Solway, o Trilho segue de grosso modo o curso do rio Eden, percorrendo inicialmente prados e quintas para terminar num larguíssimo estuário na foz do mesmo rio, depois de atravessar uma zona de pântanos. Pelo meio o Trilho passa por várias aldeias sendo as mais importantes Burgh-by-Sands, Drumbrugh, Port Carlisle e, obviamente, Bowness. Ao contrário do dia anterior, nesta etapa o Trilho segue sempre a linha da Muralha.


A ligação ao trilho, a partir de uma via mista ciclo-pedestre, muito bem assinalada. 




Uma imagem já familiar da passagem do Trilho por um prado verde e amarelo. Apesar de passar por zonas extremamente bonitas com a filosofia e equipamentos habituais, este troço do Trilho pareceu mais descuidado e a precisar de manutenção em algumas zonas.



Uma passagem simpática dentro de um bosque, não muito longe da aldeia de Grinsdale.

Ao chegarmos à 2ª aldeia do trilho, a povoação de Kirkandrews-Upon-Eden, um aviso ali afixado informou-nos que devido a um deslizamento de terras, teríamos de fazer um desvio. Acabámos pois por ter de fazer um percurso de alguns minutos junto à berma de uma estrada que, felizmente, era pouco movimentada.

Em Beaumont, uma aldeia pequena na margem do Eden, a Igreja de Santa Maria é o edifício que mais se destaca. Não muito longe dele, encontrámos mais uma "honesty box", esta com a particularidade de ter o conteúdo envolvido em bolsas de gelo e ser, segundo o que estava escrito no seu exterior, gerida por um miúdo de 8 anos chamado Drew. Que bem que soube um sumo fresquinho, nesta altura em que o calor do Sol ainda se fazia sentir! 

A Igreja de Santa Maria, em Beaumont, foi construída pelos Normandos no final do século XIII, no local exacto de uma torre de vigia da Muralha de Adriano. Nos casamentos aqui realizados, é costume trancar-se a porta com um cordel que o noivo tem de cortar pois, isso garante boa sorte para o casal. Muito mais garantias de sorte oferece a outra tradição de as crianças esticarem uma corda de um lado ao outro da estrada, deixando apenas passar os carros dos convidados do casamento que lhes derem dinheiro. 



Mais uma "caixa de honestidade" cujo conteúdo fresquinho veio bem a calhar. Obrigado Drew!


Uma belíssima passagem do trilho que até deu para praticar geocaching. Adivinhem lá onde está a caixinha...!

Entretanto encontrámos novamente as senhoras que tínhamos visto pela primeira vez no início da 2ª etapa, no Robin Hood Inn (lembram-se?), agora reduzidas a apenas duas. Entretanto, como já se criara alguma familiaridade devido aos encontros frequentes, os sorrisos e os diálogos já aconteciam com relativa naturalidade.


Burgh-by-Sands, uma povoação que todos os fãs do filme Braveheart deviam conhecer


A indicação das distâncias na sinalização rodoviária britânica foi sem dúvida feita por uma criança que era viciada em jogar às escondidas. Lembram-se de como se fazia a contagem? 


Pouco depois de Beaumont e seguindo a linha do Vallum, chegámos a aldeia de Burgh-by-Sands. A primeira coisa a dizer sobre esta povoação é que o seu nome se deve pronunciar "Bruff"-by-Sands. Historicamente é uma povoação relavante, começando pelo facto de estar localizada no traçado da Muralha de Adriano (actualmente sob a estrada), o seu centro se situar sobre o local onde outrora se erguia o forte romano de Aballava, cuja guarnição era de origem magrebina.

Foi também junto a esta aldeia que morreu o rei Eduardo I, o "Hammer of the Scots" (martelo do escoceses) ou "Longshanks" (pernas longas) que no filme "Braveheart" é retratado como um rei tirânico, opressor dos escoceses. O outro lado da história é bem diferente e Eduardo I é visto pelos ingleses como um dos seus maiores monarcas de sempre (ao contrário do seu filho que, de tão impopular que era, acabou assassinado com recurso à inserção de um ferro em brasa pelas partes pudendas da rectaguarda). (Foto de Eduardo I obtida em Mariner Museum)

Foi no decurso de mais uma expedição contra os escoceses que Eduardo I morreu, após contrair desinteria. No local onde isso aconteceu, num pântano a cerca de 3km a Norte da aldeia, ergue-se um memorial e na própria aldeia uma estátua eterniza a sua memória. Segundo a tradição, Eduardo pediu no seu leito de morte que fervessem o seu cadáver para separar a carne dos ossos, de modo a que estes fossem levados como relíquia à frente do seu exército nas campanhas contra os escoceses. Não lhe fizeram a vontade, talvez por terem chegado à conclusão que um cofre com ossadas não acrescentava grandes vantagens tácticas em batalha.


Estátua de Eduardo I em Burgh by Sands.


Os pântanos do estuário do Eden

Praticamente a partir de Burgh by Sands, começa uma enorme recta com cerca de 5km, que atravessa uma zona pantanosa do estuário do rio Eden. Em Longburgh existe um aviso com horários de marés para que os caminheiros possam estar informados das alturas do dia em que a estrada fica submersa devido à subida das águas do estuário.


5 quilómetros dos grandes para Oeste e sempre a direito!



Usando a elevação da antiga linha de caminho-de-ferro, que ajudou também a controlar as águas das marés que amiúde submergem a estrada, foi possível fazer a grande recta em terra batida. O pior foi o vento, que sopra predominantemente de Oeste para Este e que, neste dia, estava particularmente intenso. Foi também curioso ver a quantidade de caminheiros que circulavam neste corredor, tanto no mesmo sentido que nós como no sentido oposto.



Uma coisa é certa, pode acontecer muita coisa a quem passeia pelos pântanos do estuário do Eden mas perder-se não é certamente uma delas.



O caminheiro que passeia pelos pântanos do estuário do Eden também não corre o risco de se afogar nos prados por onde abundam os bovinos. 


Drumburgh 

A grande recta dos pântanos liga a aldeia de Burgh by Sands à de Drumbrugh (que se deve ler como algo parecido com "Drumbró"). Também esta povoação se situa sobre um antigo forte romano da Muralha de Adriano, neste caso o forte de Concavata, que albergou uma guarnição de 500 soldados. Infelizmente, o único vestígio da existência deste forte é a curva apertada que a rua principal da povoação faz na saída para Oeste, seguindo o percurso do antigo fosso do forte e denunciando a forma deste.

De romano propriamente dito, apenas avistámos a forma muito ténue do Vallum à entrada da povoação e um altar romano, junto a uma porta do rés-do-chão do edifício conhecido como Castelo de Drumbrugh. Esta construção é na verdade uma casa fortificada, com origem numa torre de vigia, construída para resistir às incursões dos temíveis salteadores de fronteira, bandos que puseram durante séculos a zona de fronteira entre a Inglaterra e a Escócia a ferro e fogo mas que tinha um código de conduta bem estabelecido.

O Castelo de Drumburgh, uma casa fortificada no local de uma antiga torre de vigia do século XIV, cujo aspecto actual deriva de obras feitas nos séculos XVI e XVII, usando pedras da Muralha de Adriano. A porta do rés-do-chão (junto à qual se encontra um altar romano) e a escadaria são adições recentes. Em caso de ataque, os moradores retirariam uma escada de madeira amovível, trancando-se no primeiro piso para aí resistirem (e insultarem quanto baste) os atacantes.


Os "Border Reivers", os salteadores da fronteira

Entre o século XIV e o século XVII, a vida foi difícil para quem vivia na fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, devido aos constantes conflitos entre os dois países. Os exércitos que por aqui passavam, saqueavam e destruíam a esmo, deixando os moradores em situação de miséria. 

Para sobreviverem, muitos optaram por praticar actos de banditismo, atacando e saqueando as propriedades do outro lado da fronteira. Nasciam assim os "Border reivers" e não tardou muito para que esta prática fosse cada vez mais vista como uma profissão e não um crime, sendo praticada por nobres, governantes locais e deixando até de ser exclusivamente de antagonismo para com o reino vizinho, para passar também a ser praticada entre compatriotas.

O caos atingiu tais proporções que chegaram a ser instituídas leis, não para acabar com os saques, mas para os regulamentar! Assim, se alguém fosse vítima dos saqueadores, poderia optar por uma de duas soluções a que tinha direito: apresentar queixa às autoridades e esperar pelo resultado ou então, como acontecia na esmagadora maioria dos casos, organizar também um bando de salteadores e perseguir aqueles que o tinham atacado para recuperar os seus bens. Isto tinha de ser feito no prazo de 24h pois, decorrido esse prazo, o grupo original de atacantes garantia o direito definitivo de posse sobre o saque. Todo aquele que se deparasse com um destes grupos de contra-ataque tinha obrigação de se juntar a ele, sob pena de ser acusado de cumplicidade com os atacantes originais. 

Esta prática só chegaria ao fim com a união das coroas escocesa e britânica sob Jaime VI (I de Inglaterra), rei que legislou com mão de ferro sobre esta matéria ao mesmo tempo que expropriou as famílias de salteadores que por aqui viviam. Já agora, a título de curiosidade, foi este rei que Guy Fawkes tentou assassinar na chamada Conspiração da Pólvora, celebrizada pelo recente filme "V for Vendetta".


Laal bite, o "barracão da honestidade"

Tendo decidido fazer uma paragem em Drumbrugh, seguimos a sinalética que prometia uma cafetaria ao virar da esquina. Qual não foi a nossa surpresa quando, ao entrarmos numa pequena construção, que mais parecia um barracão, verificámos que era afinal uma instalação self-service não vigiada, aplicando aqui à escala de um barracão o conceito já conhecido da caixa da honestidade. Tratava-se do Laal bite que no dialecto local significa "pequeno sítio (de pesca)".

Dentro desta cafetaria, com snacks, gelados, máquina de café e casa de banho, encontrámos um casal de ciclistas que nos explicou como funcionava a máquina do café. É óbvio que simpatizámos logo com eles! Na conversa que se seguiu, ficámos a saber que estavam reformados e que se divertiam agora viajando de bicicleta. Já tinham percorrido boa parte da Grã-Bretanha em diversas ocasiões, e tinham chegado inclusive a percorrer a França de Norte a Sul, entre Calais e Montpellier. Também já tinham viajado de Burgos, em Espanha, e La Rochelle. Ficou o desafio para um dia virem a Portugal.


Outro encontro fortuito no Trilho, desta vez com um casal de reformados que se diverte a percorrer longas distâncias em bicicleta. Quando nos contavam as suas aventuras, a ex-professora olhou para o seu marido e perguntou retoricamente "Somos um bocado malucos, não somos?".


Os últimos quilómetros

Deixando Drumbrugh para trás, seguimos por um caminho de terra batida até perto de Port Carlisle, outrora pensado para ser o porto de mar da cidade de Carlisle, projecto que, com o advento do caminho de ferro, acabou por ser abandonado, embora ainda sejam visíveis algumas construções portuárias. Do outro lado do estuário, avista-se já a Escócia!

O que impressiona mesmo, quando o Trilho regressa à margem do estuário do rio Eden, seguindo outra vez o percurso de uma antiga linha férrea, é a extensão do estuário propriamente dito, uma área classificada como Área de Excepcional Beleza Natural que é também um santuário de vida selvagem, sobretudo aves.



O estuário do rio Eden, um areal a perder de vista quando a maré está baixa. Junto a este local uma placa pregada numa árvore refere que "Gracey May dormiu aqui". Não fazendo a mínima ideia de quem era esta pessoa, ficámos agradados em saber que teve a ocasião de pôr o sono em dia num local tão aprazível.



Resto do paredão e do canal do porto de Port Carlisle, projectados para estimular a economia da região. O projecto morreu por causa do caminho-de-ferro e este morreu devido ao declínio económico da região. Há alturas em que acho que as dinâmicas da economia e a lógica são duas coisas mutuamente exclusivas.


A chegada a Bowness-on-Solway

2km depois de Port Carlisle, avistámos finalmente a aldeia de Bowness-on-Solway, povoação onde o trilho chega ao fim (ou começa, para quem o fizer no sentido Oeste-Este). Quase poderíamos jurar que a placa toponímica à entrada da localidade tem excelentes propriedades analgésicas, isto porque bastou a simples visão da mesma para subitamente fazer desaparecer as dores musculares e de tendinites que tínhamos coleccionado pelo caminho.



A famosa placa com efeito analgésico. Ideal para dores musculares e inflamações!


Também Bowness se encontra sobre um antigo forte romano, o forte de Maia. Este era o 2º maior forte da linha da Muralha (o maior era o forte de Uxelodonum, na actual Stanwix, na margem direita do Eden, junto ao forte de Luguvalium), tendo sido construído sobre o antigo 80º fortim de milha. Actualmente nada resta deste forte que terá possivelmente albergado perto de 1.000 soldados auxiliares. A Muralha terminava aqui mas as fortificações prolongavam-se para Sul, junto à costa, na forma de torres de vigia e fortins de milha isolados. 

Há alguns episódios curiosos na História das relações de Bowness com os vizinhos escoceses, dos quais partilho aqui dois. 


O roubo dos sinos

Pela sua localização Bowness também foi vítima de raides de saqueadores da fronteira. Em 1626, um grupo de "Border Reivers" vindos da Escócia atacou a aldeia e, entre outros bens, roubou os sinos da igreja de Bowness. Quis o destino que, durante a travessia de regresso à Escócia, os sinos caíssem às águas do estuário do Eden, perdendo-se para sempre.

Em retaliação, os habitantes de Bowness que atacaram a vizinha povoação escocesa de Annan, roubando naturalmente os sinos da igreja local que depois foram instalados na torre da igreja de Bowness. Desde então, numa tradição que hoje se mantém, sempre que um novo vigário assume funções na paróquia de Annan, envia à paróquia de Bowness um pedido formal de devolução dos sinos.


O viaduto mortal

Em 1869, a construção da linha de caminho-de-ferro entre Bowness a Annan levou a que fosse erguida uma ponte sobre o estuário do Eden. A linha acabaria por ser desactivada em 1921 e a ponte foi mesmo demolida 13 anos mais tarde. A sua demolição deveu-se ao facto de muitos dos vizinhos escoceses que, ao Domingo, dia em que o consumo de álcool lhes estava vedado, vinham tirar (ou meter?) o fígado de misérias ao lado inglês e depois regressavam bastante embriagados, terem ido fazer companhia aos sinos nas águas do estuário.




O fim do trilho!

Mal entrámos em Bowness, a sinalética indicando o fim do Trilho gerou um certo nervoso miudinho. Uma curva à direita, para um caminho estreito entre o casario, depois uma curva à esquerda, e ali estava finalmente o pequeno abrigo de madeira, à vista do Mar da Irlanda, com o emblemático letreiro de boas-vindas em latim! 



Quase, quase lá! 130 jardas para o fim do trilho!


E finalmente, 6 dias e 160km depois (desvios incluídos), tínhamos completado o trilho da Muralha de Adriano! 



A triunfante foto da praxe, antes de nos sentarmos por longos minutos num banco a apreciar a vista.


O Solway Firth, ou baía de Solway, que abre para o Mar da Irlanda. 


Após longos minutos nos quais também saboreámos a sensação de "dever cumprido", cumprimos a formalidade de colocar o último carimbo nos nossos Passaportes, na caixa que se encontrava no abrigo. Era tempo de nos dirigirmos a outro local emblemático de Bowness, o Kings Arms, para aí adquirirmos os nossos certificados. Trata-se de um pub, que também oferece alojamento em regime Bed and Breakfast, situado no exacto centro do desaparecido forte de Maia.

O último carimbo do Passaporte ou o selar da conclusão do Trilho da Muralha de Adriano, para depois obter o respectivo certificado. Estes Passaportes fazem parte do esforço de conservação da Muralha de Adriano, estando apenas disponíveis no Verão para desencorajar as pessoas a viajar no Inverno, altura em que o solo que cobre os vestígios arqueológicos está mais fragilizado. 


O Kings Arms é um pub extremamente acolhedor. Em conversa com o dono, também ele chamado David, ficámos a saber que éramos os primeiros portugueses de que ele se lembrava de atender e que ele próprio já trabalhara numa fábrica com outros dois. Ofereceu-se para nos tirar esta foto, enquanto o senhor que nela aparece também, foi simpático em emprestar o copo à Ana para ajudar a enriquecer a pose de forma desinteressada, apesar de podermos achar que há ali uma certa expressão de expectativa.


Instalados no Kings Arms e ao sabor de uma bela "pint" de cerveja (o dono fez uma cara de reprovação sentida quando lhe pedi um copo pequeno), obtivémos os nossos certificados e aproveitámos para nos refazer das emoções recentes, recuperando as memórias daquilo que tinha sido uma memorável caminhada. Pouco depois chegavam também as nossas já bem conhecidas amigas caminheiras do Robin Hood Inn, com quem finalmente tivemos uma conversa decente e com quem partilhámos as novidades de última hora.

A chuva a fechar a despedida de Bowness-on-Solway.


Fomos depois dar um curto passeio pela aldeia antes de apanharmos o autocarro de regresso a Carlisle (e antes de descobrirmos que já se andava a falar de nós em Bowness), a partir de onde viajaríamos em comboio para Glasgow, iniciando um périplo de uma semana pela Escócia. Seriam 7 dias divertidos e, como não podia deixar de ser, com um episódio inacreditável pelo meio. Isso será uma história para contar depois.


Já agora...

Havia uma boa razão para estarem a falar de nós em Bowness-on-Solway e que acho que me esqueci de mencionar lá atrás. Enquanto apreciávamos a paisagem do Solway Firth, sentados no banco junto ao abrigo de madeira do fim do Trilho, pedi a Ana em casamento e ela aceitou




O ano 2014 ainda está demasiado longe mas já promete ser memorável. Acredito que tenhamos sido dos poucos caminheiros, que aqui concluíram o Trilho da Muralha de Adriano, para quem o letreiro na fachada oposta do abrigo também terá tido algum significado. Eu gosto de pensar que foi um augúrio para a nova caminhada que aí iniciámos. Não concordam?



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quarta-feira, julho 10, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 5


Nota introdutória: 
Cumpre-se hoje o 1875º aniversário da morte do imperador Adriano, ocorrida a 10 de Julho de 138 na sua villa de Baiae perto da actual cidade de Nápoles. (foto: Wikipédia)


Mapa do percurso
(Clicar para ampliar)


Dia 5 - De Walton a Carlisle (22km incluíndo a voltinha obrigatória pelo centro de Carlisle)
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A inspiradora vista matinal. Lá bem ao fundo, avista-se o início dos montes Peninos.

Acordámos bem cedo com a luz a entrar pelas janelas (mais uma vez sem cortinas ou persianas) e aprontámo-nos para a penúltima etapa da nossa caminhada, que nos levaria à cidade de Carlisle, a 2ª maior cidade do Trilho e outrora o centro nevrálgico das operações militares de toda a Muralha de Adriano . 

Antes de sair, reparei que na sala de estar das camaratas existia uma interessante colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial, desde capacetes a pequenas publicações, juntamente com outros itens de cariz mais etnográfico. Esta colecção deixou-me curioso e seria o mote para uma pequena conversa com os donos da casa após o pequeno-almoço. Sobre a lareira encontrei duas publicações que mais não eram que manuais com regras de comportamento para soldados, um para soldados britânicos em solo francês e outro para soldados americanos em solo britânico.


A sala de estar do barracão das camaratas, decorada com uma colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial. Sobre a lareira encontravam-se duas publicações que tive a ocasião de folhear.


Um manual de regras de comportamento para soldados estado-unidenses estacionados no Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial. Um verdadeiro tesourinho cheio de regras que são um regalo de leitura!

Bastou uma pequena leitura em diagonal pelo manual para soldados americanos estacionados em solo britânico para perceber o tom de superioridade e condescendência do Tio Sam em relação aos seus aliados. Eis algumas passagens que achei por bem partilhar convosco:
Os britânicos são reservados e não antipáticos. (...) Numa pequena e populosa ilha onde vivem 45 milhões de habitantes, cada homem aprende a guardar cuidadosamente a sua privacidade e é igualmente cuidadoso quando se trata de não invadir a privacidade alheia. Por isso, se os britânicos se sentarem num autocarro ou num comboio sem meter conversa consigo, isso não significa que estão a agir de forma altiva ou antipática. Provavelmente estão a prestar-lhe mais atenção do que pensa. (...)
Não procure dizer aos britânicos que a América ganhou a última guerra nem faça piadas acerca da dívida de guerra ou das derrotas britânicas nesta guerra.
NUNCA critique o Rei ou a Rainha. Não critique a comida, cerveja ou cigarros. Lembre-se que eles [os britânicos] estão em guerra desde 1939.

O pequeno-almoço (mais uma vez um belo english breakfast com tudo a que tínhamos direito) foi servido na enorme mesa de uma sala decorada com objectos do século XIX cujas paredes estavam cobertas de quadros e fotografias da família dos donos da casa. Sentados à mesa estavam os nossos companheiros de camarata, para além de outros caminheiros que tinham optado por acampar no relvado frente à casa. Tivemos de esperar um pouco até sermos servidos já que tinha havido um erro de contas relacionado com o número de pessoas que tinham pedido pequeno-almoço mas valeu bem a pena esperar por aquele bem recheado prato acabado de confeccionar.

A residência dos donos da quinta é uma bela construção vitoriana que dá uma ideia da antiguidade deste local.

Após o pequeno-almoço, enquanto acertávamos contas, fiquei a saber que Richard Sutcliffe, dono da quinta, é um fervoroso coleccionador de objectos relacionados com a 2ª Guerra Mundial, embora não tenha participado no conflito. Um dos seus 3 irmãos, contudo, não teve a mesma sorte e acabou mesmo por ser morto em combate. Fiquei também a saber de uma história curiosa: embora esta região tenha passado ao lado dos efeitos directos da 2ª Guerra Mundial, em contraste com o Sul de Inglaterra e sobretudo Londres, num dia fatídico também por aqui houve vítimas. Um bombardeiro que tentava regressar à base acabou por se despenhar sobre o canil que pertencia ao avô de Richard, matando todos os cães que aí se encontravam.

Richard e Margaret Sutcliffe, os nossos anfitriões na quinta Sandysike.


A caminho de Carlisle

Já sabíamos de antemão que pouco veríamos da Muralha de Adriano nesta etapa. Para além de visões esporádicas do fosso e do Vallum a Muralha estaria mais presente na toponímia do que na paisagem, havendo até uma altura a partir da qual o Trilho se afasta do traçado da própria Muralha (facto bem visível no mapa). Seria portanto um percurso para apreciar principalmente a beleza natural e, se possível, visitar alguma coisa na chegada a Carlisle.

Continuando nos moldes em que tinha terminado a etapa do dia anterior, vimo-nos a caminhar por quintas, passando até pelo meio de algumas. Claro, voltámos a apanhar chuva mas desta vez nada mais que uns chuviscos esporádicos no início do trilho. Seria aliás o mote para uma graçola por parte de um membro de um grupo de caminheiros, com quem nos cruzámos mais à frente vindo em sentido contrário que, depois de informado que tínhamos apanhado chuva lá atrás, nos agradeceu: -"Obrigado por terem tratado disso por nós.". - "De nada. Disponham sempre!". É impossível ficar indiferente ao humor desta gente.


À saída da quinta Sandysike, passamos novamente pelo portão por onde chegámos no dia anterior, vindos do bosque. Junto a ele encontra-se uma caixa com os dizeres "Espreite para dentro :)" e, dentro dela, um bilhete a pedir donativos para a Igreja de Walton, assim como várias moedas que os caminheiros foram deixando ao passarem por aqui.


A paisagem permite alguns "bonecos" como este. Prados verdes cheios de borbotos.

Por falar em ovinos, eis um exemplar temerário que parece estar a tentar perceber por que carga de água lhe estão a invadir o território, provando ao mesmo tempo que, como dizem os nossos "irmãos" brasileiros, tamanho não é documento.

Um ponto do trilho que pode constituir um desafio para os caminheiros que, por uma questão de precaução, acumularam mais gorduras antes de iniciar a caminhada. A chegada a Newtown é feita por uma estreita passagem entre a cerca de madeira e o barracão/muro que se vêem nas fotos.


Chegada ao sítio de "Oldwal". Eis a persistência da Muralha na toponímia.



Agraciados por um decreto do Imperador Adriano!

O último vislumbre da Muralha acontece em Bleatarn, local onde se caminha sobre ela, embora esteja sob o solo, sendo também visível o fosso e o Vallum este de forma muito ténue mais a Sul. O mais interessante deste local acaba por ser o resultado visível da acção de construção da Muralha cuja matéria prima foi obtida no próprio local, sendo visíveis ainda as marcas da pedreira de onde os romanos extraíram a pedra, assim como da rampa que serviu para o transporte da mesma. Intrigantes são também uns sulcos em ziguezague diante do fosso, não se sabendo no entanto qual seria o seu propósito.

O sulco, o monte onde a Muralha ainda se esconde sob o nível do solo e a cova onde outrora funcionou a pedreira para a construção da fronteira fortificada do Império. Há quem seja da opinião que, aquando do abandono da pedreira, esta terá sido inundada para aí se fazer um viveiro de peixes para alimentar a guarnição da Muralha. Teorias.

No final desta passagem pela Muralha, ao chegarmos ao sítio conhecido como Stall-in-the-Wall, fomos confrontados pela primeira vez com o conceito de "honesty box", literalmente a caixa de honestidade. Trata-se basicamente de uma caixa cheia de barras de cereais, chocolates, sumos e águas, mantida por um habitante local anónimo, da qual podemos tirar o que quisermos, deixando dentro de um pequeno tupperware o pagamento correspondente, de acordo com o preçário ali afixado. No dia seguinte teríamos o prazer de encontrar uma extrapolação radical deste conceito, num momento que proporcionou (mais) um encontro agradável. Mas disso falarei no próximo artigo.

A Caixa de Honestidade do Stall-on-the-Wall, "por decreto do Imperador Adriano", segundo o que está escrito num papel no exterior! Mais alguém acha que uma coisa destas teria uma vida muito curta aqui pelo nosso rectângulo à beira-mar plantado?

A chegada a Carlisle

Continuando o nosso caminho, chegámos a Crosby-on-Eden, povoação situada junto à estrada que hoje substitui a antiga "Stanegate" (recordar aqui). A chegada a esta aldeia coincide com a chegada ao rio Eden, cujo curso serviu de orientação para a construção do extremo Oeste da Muralha e que seria também o curso que seguiríamos até ao final do Trilho no dia seguinte. Ao sairmos da povoação recomeçou a chuva mas, felizmente, foi de pouca dura. Quanto ao percurso, durante cerca de uma hora foi pouco interessante, fazendo-se primeiro por caminhos de terra batida junto a quintas, sendo que uma delas foi um verdadeiro desafio de resistência para o nosso olfacto e para a nossa agilidade de pés na prática do "Evitar-o-líquido-escuro-mal-cheiroso-que-cobre-o-caminho".  

Ultrapassado a simpática zona residencial de Linstock, o piso passou a ser exclusivamente em alcatrão até Rickersby, já nos subúrbios de Carlisle.


O rio Eden perto de Crosby-on-Eden, visto sob uma chuvada de boas-vindas. O Trilho terminaria na foz deste rio no dia seguinte e com um episódio sensacional!

Ao chegarmos a Rickerby, local onde se situa uma espécie de palácio/hotel/moradia, avista-se uma torre octogonal no meio de um prado. Trata-se de uma "Folly tower", ou seja, um torre vitoriana puramente decorativa, construída no século XIX, pelo então mayor de Carlisle (e também magistrado e banqueiro). Esta excentricidade combina com a excentricidade do nome deste mesmo homem: George Head Head (assim mesmo).

Após atravessarmos o parque vitoriano de Rickersby, onde percebemos que já estamos perto de uma grande cidade quando as pessoas com quem nos cruzávamos já não nos cumprimentavam, chegámos novamente à margem direita do rio Eden e à ponte de ferro pedestre que permite a sua travessia rumo a Carlisle. O trilho levou-nos a percorrer uma zona verde, junto a escolas e um campo de golfe, acompanhando as sinuosidades do rio até finalmente avistarmos o Sands Centre, um complexo de desportos e eventos bastante concorrido.

O trilho na aproximação a Carlisle. Um regalo para os olhos e o pesadelo para qualquer indivíduo alérgico a pólens.



Uma vez que era aqui que tínhamos de carimbar o nosso Passaporte, fizemos uma paragem para comer e beber alguma coisa, até porque nos últimos quilómetros o Sol voltara a aparecer em força. Apesar de não termos visto ainda construções por causa da cintura verde que rodeia o centro da cidade, o ruído dos automóveis denunciava a sua proximidade. Era também a partir de aqui que tínhamos previsto fazer um desvio para visitarmos o castelo de Carlisle e o centro histórico da cidade. 

E assim chegámos a Carlisle, logo após o Sands Centre! Só faltou mesmo a banda e uma mesa com croquetes e sumos de fruta porque o tapete, neste caso verde e de alta qualidade, estava bem estendido à nossa frente


O Castelo de Carlisle, o castelo recordista de cercos.

A primeira paragem foi o castelo de Carlisle, uma impressionante fortaleza em arenito avermelhado. Deixando as mochilas na recepção (que alívio para as cruzes!), demos uma volta pelas muralhas e pela torre de menagem cujas salas foram todas musealizadas.

O castelo de Carlisle ocupa parte do espaço onde outrora se situava Luguvalium, o forte romano de turfa e madeira que aqui foi construído no ano de 72 e junto ao qual surgiu aquilo que viria a ser a cidade de Carlisle. O primeiro castelo foi construído pelos ingleses em 1072, depois de expulsarem os escoceses da região, e depressa se tornou a principal fortificação do Noroeste do reino de Inglaterra e centro de disputas constantes com o vizinho reino da Escócia.  Os escoceses voltaram e reconquistaram o castelo no século XII, liderados por uma das grandes figuras históricas com "David" no nome, neste caso o Rei David I que acabaria por falecer neste castelo alguns anos mais tarde. Até à união entre os dois reinos, em 1603, o castelo voltaria a mudar de mãos várias vezes. Os constantes cercos fazem deste castelo o recordista de cercos do Reino Unido.

Durante as revoltas Jacobitas o castelo voltaria a ser palco de combates, quando os Highlanders tomaram o castelo e, por sua vez, acabaram por ser derrotados e executados de forma pouco agradável pelo Governo, através de métodos variados como enforcamento, afogamento, esquartejamento entre outros.


O castelo de Carlisle e a torre de menagem, datada do século XII. Cada piso conta uma história sobre o castelo.

A entrada da cidadela, sobre um bastião em meia lua construído para aumentar a defensabilidade do fosso.

Subida para o piso superior da porta de entrada, antiga morada do governador do castelo.

Um dos canhões do castelo, por coincidência apontado para a Escócia.


Na base da torre de menagem encontram-se as masmorras onde os Highlanders derrotados foram postos a ferros, sem comida, água ou acesso a instalações sanitárias. Os que sobreviveram hidrataram-se lambendo a humidade de algumas pedras da parede em frente, sendo hoje conhecidas como "Licking stones" (Pedras de Lamber)

Ser guarda no castelo em períodos pacíficos era uma actividade que proporcionava algum aborrecimento, daí que alguns guardas tenham aproveitado para rabiscar as paredes, deixando aí gravadas figuras como estas.

Neste pequeno oratório, entalado entre uma cozinha e uma sala grande da torre de menagem, deu o seu último suspiro o rei David I da Escócia (uma das grandes figuras históricas com "David" no nome).

Pelas ruas de Carlisle

Uma vez que saímos do castelo já em cima das 18h, já não foi possível visitar o museu situado mesmo em frente, para grande pena nossa. Tivemos pois de nos cingir a dar uma pequena volta pelo centro histórico da cidade, antes de prosseguirmos para Oeste, rumo ao hotel onde iríamos passar a noite. O arenito vermelho é uma presença constante nas ruas, desde os passeios aos próprios edifícios, dando um tom muito particular à cidade.

O passeio junto ao museu de Carlisle, o Tullie House Museum & Art Gallery, evoca a Muralha de Adriano e os seus fortes, tanto os que faziam parte dela como os da rectaguarda.

A Castle Street, que liga o Castelo à praça principal do centro histórico de Carlisle, o Market Cross.

A Catedral de Carlisle, construída a partir do século XII.

À chegada ao hotel, o Vallum House já na saída Oeste da cidade, tivemos direito a um delicioso jantar numa sala a rebentar pelas costuras. O atendimento foi muito simpático e essa simpatia estendeu-se à permissão que nos foi dada para, no dia seguinte, podermos deixar no hotel as nossas mochilas após o check-out. Iríamos assim poder cumprir a nossa última etapa sem o peso da bagagem, uma etapa que terminaria com um episódio simplesmente memorável!

A seguir: o fim do Trilho da Muralha de Adriano e o episódio que fez de nós o tema de conversa entre os habitantes de Bowness.

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