sexta-feira, março 29, 2013

Viana do Castelo em tons de Páscoa

A chuva finalmente parou, permitindo-me dar uma volta pelas ruas de Viana do Castelo. Foi uma simpática trégua meteorológica, sobretudo se tiver em conta o verdadeiro dilúvio que ontem complicou -e de que maneira!- a viagem. Ao passar pelo Porto, logo a seguir à ponte da Arrábida, podia até jurar que fomos ultrapassados por um dos submarinos Trident da marinha Portuguesa, mas como saiu logo a seguir para Campo Alegre, não pude confirmar qual deles era.

Por Viana, as ruas estão preenchidas pela azáfama de preparação da Páscoa, vendo-se a cor violeta um pouco por todo o lado. Deste passeio, que contou com uma pausa estratégica na lendária Confeitaria Natário, aqui ficam algumas imagens.

Num dos cantos da magnífica Praça da República, o edifício da Misericórdia e o antigo edifício dos Paços do Concelho, no qual está actualmente patente uma interessante exposição dedicada a António Manuel Couto Viana, servem de portal para a emblemática Rua da Bandeira.


Uma perspectiva diferente da Praça da República, a partir das varandas dos antigos Paços do Concelho.

A Ponte Eiffel, pela hora do lusco-fusco.


quinta-feira, março 28, 2013

Sócrates, o regresso de D.Sebastião (mas ao contrário)

Não assisti à entrevista que na noite passada mobilizou as atenções do país. Não o fiz simplesmente porque nada do que o ex-Primeiro-Ministro pudesse ter dito ou deixado de dizer me interessava. Ouvi tudo o que tinha de ouvir do cidadão José Sócrates durante o tempo em que governou Portugal, período para o qual até contribuí ao votar nele. Agora dêem-me licença que vou fazer uma pausa na escrita para ir ali fustigar-me a mim próprio com esta vareta. (...)

De Sócrates ouvi a declaração "oficial" de início da recessão ser feita quando já todos tinham percebido que o país estava em crise, tal como depois disso ouvi várias declarações anunciando o fim oficial da crise, quando todos percebiam que ela ainda estava apenas no início. Pelo meio ouvi Sócrates dizer que era anti-patriótico falar-se sequer da crise, tentando ao mesmo tempo influenciar a comunicação social para pintar um quadro de ilusória estabilidade.


Quando a economia esteve para ser revitalizada pelo Computador Magalhães, produzido pela JP Sá Couto por contrato por ajuste directo, numa altura em que a empresa teria elevadas dívidas ao fisco. A NATO tomou então parte na conspiração para fragilizar José Sócrates ao apoiar os insurgentes líbios na deposição de Kadafi.


Assisti ao anúncio de Parcerias Público-Privadas, como as que gerem agora as ex-SCUT, estabelecidas em condições que agora se afiguram como actos de gestão danosa, embora não tão danosa como o foram para a imagem do primeiro-ministro (a imagem possível de um cidadão formado ao Domingo) as sucessivas associações do seu nome a negócios menos claros. Finalmente assisti à crescente obstinação do primeiro-ministro em não abrir a porta à ajuda externa até que, de PEC em PEC, cada um deles mais austero que o anterior, e na iminência de falência, o país foi obrigado a aceitar incondicionalmente os termos impostos pelo FMI.

Enfim...! Poderia aqui passar o resto do dia a descrever tudo aquilo que ouvi da parte do nosso ex-primeiro-ministro. Basta dizer que foi suficiente, não me apetece ouvir mais nada. Confesso que quando soube que Sócrates fora contratado pela Octapharma, por bons serviços prestados, pensei que isso significasse o direito à extensão da sua ausência da vida pública portuguesa, ausência essa que fora iniciada com a fuga estratégica para o exílio dourado de Paris. Engano meu. Aí o temos novamente para se endeusar e declarar vítima de conspirações.

Fui um dos signatários da petição contra a sua entrada como comentador na RTP e achei piada aos que brandiram o estandarte mal pintado do direito à liberdade de expressão. Violação desse direito teria sido se Sócrates tivesse pedido para falar e o tivessem silenciado, como se de uma Manuela Moura Guedes se tratasse. Não foi o caso. Sócrates não pediu para falar mas foi pelo contrário convidado a colaborar com a RTP. Ora, enquanto contribuinte que sustenta a RTP com os seus impostos e taxa audiovisual, é meu o direito de contestar as escolhas e a oferta que a televisão pública faz. Não aceito, ponto final. O Socretinismo é digno de canais privados exóticos como a TVI e não de canais cuja missão seja a de serviço público.


E os "outros"? São melhores que Sócrates?

O que eu disse atrás não significa que ache Sócrates o pior da nossa classe política. É difícil atribuir esse título num campeonato no qual jogam figuras do calibre de Sócrates, Augusto Santos Silva, Miguel Relvas, Pedro Passos Coelho, Jorge Coelho, entre outros. Neste campeonato o único derrotado é invariavelmente o cidadão comum, relegado ao estatuto de mero dado estatístico, que se deixa iludir com promessas irrealistas de políticos que se vão revezando em altos cargos e se integram em teias de clientelismos e amiguismos cujas ramificações são difíceis de perceber mas que nascem de organizações cuja sigla começa por J. 

Em Portugal a classe política segue grosso modo a mesma cartilha. Promete em campanha eleitoral os antípodas daquilo que pratica mal chega ao poder e todos os políticos se assumem como donos de uma admirável infalibilidade. Quando as medidas resultam depressa enaltecem o seu mérito mas se pelo contrário algo falha, a culpa será sempre dos que os antecederam. Por esta lógica, a culpa do cenário em que hoje nos encontrámos será portanto em última análise daquele hominídeo, indeciso entre o bipedismo e o quadrupedismo que, por meio de grunhidos e demonstrações expressivas de pujança física, conseguiu o cargo não oficial de líder do seu grupo.


* traduzido do Australopitequês


Um simultâneo Persuacção / Blog do Katano

domingo, março 24, 2013

Uma bela imagem para fechar o fim-de-semana

Serra da Maúnça vista a partir da aldeia do Souto da Casa. 

Boa semana para todos!

Uma ideia simples, inteligente e inovadora!

Ao revirar o meu arquivo fotográfico, (re)encontrei esta fotografia tirada no Sudoeste de França em 2011, mais concretamente na cidade de Pamiers (recordar aqui). Na altura acabei por não a publicar mas, como o seu contexto ainda é actual (se calhar até mais do que então), faço-o agora.



O aparato retratado na foto, que me surpreendeu pelo seu ineditismo, é nem mais nem menos que uma máquina distribuidora de leite fresco, imaginada e instalada em 2010 por Roland Chapot, um produtor local que teve esta ideia inovadora para, face à queda do preço do leite, procurar uma forma alternativa de escoar a sua produção.

Assim, todas as manhãs a máquina é abastecida com leite fresco, vindo directamente da quinta de Chapot, sendo depois distribuído como numa usual máquina de vending. Os clientes inserem na máquina a quantia de dinheiro necessária (ou cartão pré-pago) e uma garrafa de vidro é automaticamente enchida e entregue.

Numa altura em que se batalha pela regeneração do nosso sector primário e as diferentes regiões procuram escoar os seus produtos endémicos, porque não olhar para soluções deste género? As boas ideias podem e devem ser seguidas.

Um menir descoberto no Fundão?



A confirmar-se a sua autenticidade, esta será sem dúvida uma excelente notícia, não só para o conhecimento da história do Concelho do Fundão como também para o conhecimento do povoamento de há milénios atrás na Cova da Beira. Numa das suas habituais saídas de campo, o olhar atento de João Barroca, funcionário da Câmara Municipal do Fundão, recaiu sobre uma rocha com um formato peculiar, que se encontrava semi-enterrada em posição vertical na berma de uma estrada rural. 

Tratando-se de uma pessoa com um interesse muito particular pela História, como aliás é bem sabido por todos aqueles que o conhecem, de imediato achou que se poderia tratar de um menir, tendo -e muito bem!- de imediato feito chegar a informação acerca do seu achado ao Museu Arqueológico do Fundão.


João Barroca ao lado do possível menir


Cabe agora aos especialistas na matéria pronunciarem-se sobre o assunto pois, se por um lado a sua forma sugere que haverá grandes possibilidades de se tratar efectivamente de um menir, haverá ainda algumas questões a clarificar, até porque a rocha tem indícios de manipulação recente. Essa é pelo menos a opinião de Manuel Calado, arqueólogo com grande interesse pela área do megalitismo e com inúmeras obras já publicadas sobre esse tema.




Para que serviam os menires?

O seu nome deriva da associação dos termos bretões men (pedra) e hir (longa) embora também sejam chamados de perafitas em Portugal. Quanto à sua função, essa é uma questão que suscita ainda grande debate, isto apesar de estes pilares rochosos poderem ser encontrados em grande número na Europa Ocidental, estando ainda celebrizados na nossa cultura em várias formas. Quem não conhece o gaulês Obélix, inseparável amigo de Astérix, que transportava sempre consigo um menir? 

Estes marcos, erguidos no final da Pré-História (a partir do 6º milénio antes de Cristo)  destacar-se-iam sem dúvida na paisagem, servindo talvez o culto da fertilidade, para marcar território ou até para demarcar locais de culto, sendo que nestes últimos casos os menires surgem frequentemente em grupo, como acontece no Alentejo, por exemplo. Há também quem defenda tratarem-se de simples manifestações artísticas. 

No concelho do Fundão, mais concretamente no local conhecido como Corgas, junto à aldeia de Donas, foi descoberto em 2008 um menir reaproveitado para estela em época muito posterior, mais concretamente na Idade do Bronze, já no 3º milénio a.C. (ver relatório aqui) Esta impressionante peça encontra-se actualmente no Museu Arqueológico do Fundão, em frente à não menos admirável estela do Telhado, encontrada no ano passado. 


Vista para a aldeia do Telhado, a partir do sítio do Souto do Senhor

Também  no ano passado e na freguesia do Telhado, mais concretamente no local chamado de Souto do Senhor, foi identificado aquilo que, segundo a equipa do Museu Arqueológico do Fundão, corresponderá a um povoado pré-histórico.

Imagem "Obelix" - The Asterix Project

terça-feira, março 12, 2013

segunda-feira, março 11, 2013

O coração de D. Pedro IV

Há algum tempo atrás, quando falei aqui da estranha relação que os ingleses têm com os restos mortais dos seus reis (recordar aqui), referi que o coração do famoso Ricardo "Coração de Leão" se encontrava na catedral de Rouen, por desejo expresso do monarca, não sendo caso único na longa e tumultuosa história da realeza britânica.

Ora, no nosso rectângulo à beira-mar plantado temos também um caso semelhante. Trata-se de D.Pedro IV que, em testamento, pediu que o seu coração fosse doado à cidade do Porto, cidade que foi fundamental para o sucesso dos Liberais na Guerra Civil de 1828-34. Assim, enquanto o seu corpo se encontra no Monumento à Independência do Brasil, junto ao famoso rio Ipiranga, o seu coração encontra-se num mausoléu na Igreja da Lapa no Porto. As chaves do sarcófago encontram-se no gabinete do presidente da Câmara do Porto, sendo apenas daí retirada nas ocasiões em que se pretende ter acesso à cardíaca relíquia, seja para investigação ou para a exibir a dignitários brasileiros.

Aqui fica um bastante explícito vídeo da abertura do sarcófago da relíquia, disponível no site da Câmara Municipal do Porto:




Quem quiser saber mais pode ler a reportagem de hoje do Público clicando aqui.

Imagem: Wikipédia

quarta-feira, março 06, 2013

Crónica de uma manhã surreal

Quando acordei estremunhado na última manhã de Sábado, estava convencido que aquela iria ser uma manhã sem grandes aborrecimentos. O carro tinha sido devidamente reparado, para garantir que iria trocar um boletim cor-de-rosa por um verde no centro de Inspecções, após o que iria dar um rápido salto ao cabeleireiro para um corte de boas-vindas à Primavera. O que poderia correr mal? Tudo!

O percurso até ao carro foi feito a passo lento, o suficiente para permitir à cafeína ter um efeito considerado satisfatório no organismo. Junto ao carro, alguns pedaços de plástico estavam espalhados pelo passeio, facto que me levou a formular um pensamento de censura para com o desleixo de alguns habitantes na via pública.

Foi já dentro do carro que, após o rodar da chave e alguma insistência terem conseguido pôr o motor a trabalhar, ao olhar para o espelho retrovisor do lado direito, percebi que o espelho... não estava lá! Claro que essa ausência veio finalmente trazer-me uma perspectiva totalmente diferente sobre a natureza dos pedaços de plástico que eu avistara junto ao carro.

Aparentemente, pelo que vim a saber depois, alguns cidadãos haviam decidido sair de casa na noite de Sexta-feira, para aliviar o stress intenso das preocupações da semana e, por uma questão de precaução, haviam também decidido deixar os neurónios em casa, não fosse o diabo tecê-las e perderem-nos na confusão da noite do Fundão. Foi portanto com a frescura de espírito de uma ameba lobotomizada por jardineiro amblíope que se encontra ainda sob o efeito da anestesia, que decidiram que, não só o meu carro, mas todos os veículos que se encontravam nas imediações, não precisavam de espelho retrovisor. Gabo a paciência e o esforço deste valoroso grupo de cidadãos.

Foi portanto sem grandes esperanças, que fui até ao centro de inspecções e perguntei ao primeiro funcionário que encontrei se valia a pena sequer meter o carro na fila. A resposta negativa não me surpreendeu e fiz-me de novo à estrada, desta vez rumo ao posto da GNR. Foi aí que confirmei que várias pessoas haviam já apresentado queixa nessa manhã e que o melhor que eu teria a fazer seria anexar um orçamento ou uma factura à queixa, razão pela qual decidi não a fazer de imediato.

Quando me preparava para sair, os meus olhos passaram pelo placard atrás do soldado da GNR com quem falava e, para minha abismal surpresa, reconheci a fotografia que preenchia um aviso de pessoa desaparecida que aí se encontrava afixado! Tratava-se de uma ex-aluna minha do 1º semestre deste ano lectivo. Da conversa fiquei a saber que tinha sido a escola a comunicar o desaparecimento da aluna, de cujo paradeiro ninguém sabia havia já alguns dias. Após ter fornecido as informações de que dispunha, que pouco ajudarão ao caso, saí do posto ainda a tentar encaixar esta última triste novidade que, à data deste artigo, continua actual.

Vá lá que nem tudo foi mau nessa manhã. Pelo menos não perdi nenhuma orelha no cabeleireiro. 





segunda-feira, março 04, 2013

A tradição do Ramo de Santo António

O Ramo de Santo António é uma tradição que se cumpre em regra no chamado "Domingo Gordo", o último Domingo antes do Carnaval. Nesse dia, os "mordomos", percorrem as ruas das povoações, transportando uma vara ou mastro, indo de porta em porta para "pedir o ramo". Cada lar dá o seu contributo para o ramo, em regra chouriças, mas também há quem dê pão, broa ou apenas dinheiro. 

A data não é escolhida ao acaso pois era geralmente entre Dezembro e Janeiro que as famílias faziam a "matação" do porco, estando por isso os fumeiros domésticos bem recheados. Actualmente, a suinicultura doméstica chegou ao fim mas a a recolha do ramo não terminou.




No final do percurso, que pode ser demorado em função da hospitalidade dos habitantes, a população junta-se para leiloar as peças recolhidas. A verba obtida reverte depois para a comissão fabriqueira local que, tradicionalmente a deveria aplicar na festa de Santo António a ter lugar no Verão, daí a referência a Santo António.

No último fim-de-semana, juntei-me à comitiva que, na aldeia de Vale d'Urso e com uma interpretação flexível do calendário, saiu para a rua para pedir o ramo. Em processo de desertificação, a aldeia diminuiu no seu número de habitantes mas não na sua generosidade e hospitalidade. No final, praticou-se uma alteração positiva da tradição: substituiu-se o leilão pela entrega voluntária de 5 euros por parte de cada um e, logo de seguida, organizou-se uma bela patuscada, bem regada diga-se, para ser também ela dividida por todos os que quisessem participar. Esta fechou com chave de ouro, na forma de uma deliciosa canja de tordo!

Partilho aqui algumas fotografias para deleite dos olhos e da imaginação gustativa!














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