quarta-feira, fevereiro 13, 2013

As aventuras dos reis de Inglaterra... após a morte!

De Inglaterra chegou recentemente a notícia de que as ossadas, descobertas em Agosto último sob um parque de estacionamento em Leicester, pertenciam comprovadamente ao malogrado rei Ricardo III. Morto na batalha de Bosworth em 1485,  de forma bastante violenta segundo indicam as feridas no crânio, o rei foi sepultado de forma discreta num templo franciscano em Leicester, a igreja de Greyfriars, templo que mais tarde seria arrasado no processo que levou a coroa inglesa a romper com o Vaticano. 

Acreditou-se inicialmente que as ossadas do rei teriam sido atiradas ao rio Soar mas a improbabilidade deste facto levou um grupo de investigadores a identificar e escavar o local onde se teria erguido a igreja, agora um parque de estacionamento, acabando por localizar as ossadas de Ricardo III.


À esquerda, a caveira desenterrada nas escavações. À direita, a reconstituição da face do rei, baseada na caveira.

A atribulada história post-mortem deste monarca não é caso isolado, muito pelo contrário. A monarquia inglesa é fértil neste tipo de episódios de atribulações post-mortem, alguns deles com contornos verdadeiramente macabros.


Reis que nem depois de mortos tinham descanso. Uma tradição inglesa de longa data

O caso de Ricardo III é bem representativo das peripécias que muitos reis ingleses viveram (ou deverei dizer morreram? Agora fiquei na dúvida) após a morte. De facto, a expressão "eterno descanso" não é uma regra na longa história da monarquia inglesa. Na obra "Kings, queens, bones and bastards" (The History Press, 2008), na qual David Hilliam descreve a vida dos reis e rainhas da Velha Albion, são referidos vários casos que a seguir partilho convosco:


Ricardo Coração de Leão (falecido em 1199)

Por desejo próprio, foi sepultado em França (naquilo que era então território inglês). O seu corpo encontra-se na Abadia de Fontevrault enquanto o seu coração está depositado na catedral de Rouen. Este caso não é tão especial assim, nem caso único na monarquia inglesa, mas estamos só a aquecer.


João Sem Terra (1216)

Foi enterrado na catedral de Worcester. Em 1797, o túmulo foi aberto para se examinar o seu conteúdo. Lá dentro, os restos mortais do rei encontravam-se envolvidos num hábito de monge. Após terem sido examinados, foram novamente colocados dentro do túmulo. Tudo... excepto um osso do polegar que foi roubado por um dos envolvidos no processo. A consciência acabaria por pesar no ladrão que devolveu a real falange à precedência. 

Uma vez que abrir novamente o túmulo, para colocar lá o osso, pareceu trabalho excessivo, a solução confortável passou por colocá-lo em exposição numa caixa em ouro. Esta exposição foi demasiado tentadora e o osso foi novamente roubado, encontrando-se desaparecido até hoje.


Eduardo I, Pernas Longas (1307)

Retratado no filme Braveheart como um tirano sanguinário cujo principal passatempo era chacinar tudo o que usasse um kilt, Eduardo I pediu ao seu filho (que seria mais tarde sodomizado com um espeto em brasa), já no leito de morte, que o seu corpo fosse fervido para que os seus ossos fossem assim separados da carne. 

Era seu desejo que eles fossem depois transportados, como relíquia, à frente dos exércitos ingleses na luta contra os escoceses. Aparentemente, não lhe fizeram a vontade e o seu corpo está sepultado na Abadia de Westminster.


Ricardo II (1400)


Para acabar com os rumores, ao melhor estilo do nosso sebastianismo, de que o rei se encontrava vivo e que viria em breve recuperar o trono, o seu sucessor-usurpador, Henrique IV ordenou que o seu corpo fosse exposto durante algum tempo, antes de ser sepultado no Priorado de Langley. 14 anos depois, Henrique V decidiu que o malogrado defunto merecia mais e mandou que fosse transferido para a Abadia de Westminster. 

Ora, já no século XVIII, o desgaste do túmulo levou ao surgimento de pequenos buracos na parte inferior, através dos quais um estudante mais atrevido conseguiu surripiar a mandíbula real. Um amigo mais invejoso decidiu apropriar-se do osso, após uma valente luta, e este ficaria em posse da sua família por mais de 130 anos, em exposição numa escrivaninha, até ser devolvido em 1906.



Henrique V (1422)

Este rei, muito parecido na vida real com o actor Kenneth Branagh, morreu nos arredores de Paris. Uma vez que a duração da viagem até Londres não favorecia a conservação do seu corpo, este foi fervido em água para separar os ossos que, então sim, foram depois trazidos para Londres, para serem sepultados na Abadia de Westminster. A água onde o cadáver foi fervido foi vertida num cemitério francês.



Henrique VIII (1547)

O rei mulherengo, que tinha um jeito muito particular de resolver desavenças domésticas, sendo capaz de fazer qualquer mulher perder a cabeça, encontra-se sepultado na Capela de São Jorge, em Windsor. 

Em 1813, um trabalhador envolvido nas obras de construção de uma nova cripta, roubou uma das falanges do rei, tendo depois feito dela o cabo de uma faca. O osso ainda não foi recuperado.


Carlos I (1649)


Deposto para dar origem ao curto período em que a Monarquia foi abolida para dar lugar à Commonwealth, foi decapitado e a cabeça foi colocada em exposição pública, após o que foi novamente cosida ao corpo para o enterro. Sepultado na Capela de São Jorge, em Windsor, o seu túmulo perdeu-se até ser redescoberto em 1813. 

Para se ter a certeza de que no seu interior se encontrava efectivamente o corpo de Carlos I, encarregou-se o Físico Real Henrique Halford de examinar os restos mortais. Por um qualquer impulso mórbido, Sir Halford apropriou-se da vértebra que apresentava o corte do machado, levando-a para casa onde, envolvendo-a em ouro, fez dela... um saleiro. Quem não gostou da conversa foi a austera rainha Vitória, cuja falta de sentido de humor era proverbial, ordenando a sua devolução em 1888. A vértebra encontra-se numa pequena caixa, sobre o túmulo de Carlos I.



Oliver Cromwell (1658)

"Carrasco" de Carlos I, não foi rei mas sim Lorde Protector, mas nem por isso deixa de ter uma história post-mortem que merece ser contada pois, também ele, não teve descanso depois de morto. Com a reinstauração da Monarquia em 1660, o seu corpo foi desenterrado e decapitado, tendo a cabeça ficado em exposição num espeto em Westminster Hall durante 25 anos. 

Uma ventania mais forte acabou por derrubar a macabra relíquia e um soldado mais afoito apanhou-a e guardou-a sob a sua capa, escondendo-a na chaminé em sua casa. Só partilhou o segredo com a sua esposa já no seu leito de morte e esta não quis manter a relíquia. A cabeça foi então sucessivamente vendida e revendida até que em 1992 foi finalmente oferecida ao colégio em Cambridge onde Cromwell estudara na sua juventude.


Fotografias:
Caveira e rosto de Ricardo III - The Star, National Geographic, Ricardo I - Angus Donald, João "sem Terra" - One Evil, Eduardo I - Wikipédia, Ricardo II - Universidade do Wisconsin, Henrique V - Wikipédia, Henrique VIII - Wikipédia, Carlos I - Spartacus Educational, Oliver Cromwell - Wikipédia

terça-feira, fevereiro 12, 2013

A Gardunha tem mais encanto... vestida de branco!


Após o nevão da última noite, o maciço central da Serra da Gardunha acordou hoje coroado de branco. A tentação acabou por ser mais forte e, apesar de já haver pouca luz, não resisti a fazer uma pausa no trabalho para dar um pulinho até perto da Penha. O resultado deste quase inesperado raide fotográfico é este que partilho aqui com vocês.

Vista do posto de vigia a partir do sítio "das Antenas".

Já quase no posto de vigia, os pinheiros vestem-se de branco.

Até a vegetação rasteira caprichou na vestimenta.

Idem aspas.

A meio caminho entre o posto de vigia e a Penha. Conseguem ver o gigante a olhar para o céu?

Um pinheiro solitário enfrenta o vento.


O Castro da Senhora da Penha coberto de neve! Infelizmente, a hora e as condições climatéricas que se agravavam não recomendaram a subida.

O Castro da Senhora da Penha, ou simplesmente a Penha, visto de perto.

Árvores I

Árvores II. Diferentes formas e posições, quase como bailarinas.

Aos pés da Penha, a aldeia histórica de Castelo Novo.

No regresso, o posto de vigia visto de outro ângulo.

Mais uma árvore solitária junto ao posto de vigia.



Do posto de vigia, o Fundão surge "entalado" entre a neve e as nuvens. Ao fundo, a Estrela deixa perceber apenas as franjas do seu manto branco. O vento que soprava furiosamente e as temperaturas abaixo de zero não permitiram registar muito mais.

Já perto da casa do guarda de Alcongosta, o espectáculo da Cova da Beira iluminada pelas luzes do Fundão e, lá ao fundo, da Covilhã.


sábado, fevereiro 09, 2013

Há por aí algum explicador de PES 2013?

A primeira coisa que salta à vista neste anúncio, afixado num painel do Instituto Politécnico da Guarda, é que o dono do número de telefone (que optámos diplomaticamente por camuflar) nele escrito tem amigos com  apurado sentido de humor.

Deduz-se também que seja alguém que não revela tanta destreza nos comandos do jogo de computador Pro Evolution Soccer 2013 quanto os seus amigos que, com este anúncio, fizeram questão de assinalar uma sessão de jogo que terá redundado numa sova épica.


segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal!

Decididos a mostrar um pouco daquilo que a nossa Beira Baixa tem de melhor a uma visita vinda do Minho que acolhemos por estes dias, aproveitámos a tarde ensolarada de Domingo para ir até Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal! A subida não foi fácil mas, como sempre, valeu bem a pena. Monsanto tem aliás esse condão. Pode-se visitar inúmeras vezes (já perdi a conta às minhas visitas a este local) que não perde a magia.

(Cliquem nas fotos para ampliar)

Esta aldeia, integrante da rede de Aldeias Históricas de Portugal, situa-se no flanco de um inselbergue, um monte que se ergue, feito ilha, numa extensa planície. Monsanto é o resultado do perfeito casamento entre os fraguedos graníticos e a as construções humanas, tanto que, se algumas das suas casas não fossem caiadas de branco, a aldeia bem poderia passar desapercebida aos olhos do viajante mais distraído. 



Esta povoação tem uma história longa, mais antiga até que Portugal, remontando possivelmente aos tempos dos nossos antepassados que os romanos baptizaram de lusitanos. Foi contudo na Idade Média, com a conquista deste território pelos cristãos, que Monsanto se começaria a definir como a povoação que hoje conhecemos. 

Monsanto desenhado por Duarte Darmas no século XVI.


Tendo o território sido doado aos templários, estes logo trataram de construir um castelo no cimo do Mons Sanctus, o Monte Santo, tendo à sua volta construído uma muralha. A importância deste local era tal que recebeu sucessivamente carta de foral de Afonso Henriques e depois do seu filho D.Sancho I e bisneto D. Sancho II. Mais tarde, já no século XVI, seria a vez de D. Manuel lhe atribuir um foral novo. Portanto, desde bem cedo, Monsanto foi sede de Concelho, subsistindo alguns vestígios desse facto. A povoação situava-se inicialmente lá no alto, à sombra da protecção do castelo.


O epíteto de aldeia mais portuguesa de Portugal deve-se a um concurso levado a cabo pelo Estado Novo no final dos anos 1930, concurso esse que se destinava a premiar a aldeia que mantivesse no seu estado mais puro a sua identidade portuguesa. Pelas próprias palavras do Secretariado da Propaganda Nacional, o concurso enquadrava-se numa estratégia de "combater por todos os meios ao seu alcance a penetração no nosso país de quaisquer ideias perturbadoras e dissolventes da unidade e interesse nacional". O prémio foi entregue a 4 de Fevereiro de 1939, faz hoje precisamente 74 anos, e consistiu num galo de prata, cuja réplica se encontra hoje no topo da chamada Torre de Lucano, uma torre sineira do século XV que domina a aldeia.

A entrega do galo de prata a 4 de Fevereiro de 1939 a representantes do povo de Monsanto pelo Presidente da República, Óscar Carmona, e pelo Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar. Foto Rádio Clube de Monsanto


Igreja de São Salvador, datada do século XVI.

Tendo sido sede de Concelho até 1853, Monsanto ostenta ainda sinais dessa autonomia administrativa. O exemplo mais emblemático é o pelourinho, invulgar pela sua simplicidade. É preciso notar no entanto que se trata muito provavelmente de uma reconstrução ocorrida em 1936. A peça terminal foi acrescentada posteriormente, após ter sido encontrada encastrada numa casa em 1937. Tendo um valor simbólico tão grande, merecia ser mais valorizado e não atirado para o canto de um largo onde os automóveis lhe fazem concorrência.

O pelourinho de Monsanto.

 Um grande nome das letras surge associado a Monsanto: Fernando Namora. O médico escritor exerceu aqui a sua actividade entre 1944 e 1946, período que serviu de inspiração para a sua bem conhecida obra "Retalhos da vida de um médico". A casa onde morou e a casa onde teve o seu consultório estão assinaladas, existindo junto desta última um conjunto de dois bancos de pedra corridos ainda hoje conhecidos como "bancos da paciência" destinados precisamente aos pacientes que aguardavam a sua vez.

 Casa onde esteve instalado o consultório de Fernando Namora

A subida até ao castelo, o ex-libris de Monsanto, pode ser um desafio para o menos preparados mas vale bem a pena.




Nem só as habitações se misturam com as rochas. Também os espaços reservados aos animais aproveitam os blocos da encosta na sua construção, desde galinheiros a pocilgas, como é o caso da foto abaixo. 





O ex-libris de Monsanto é definitivamente o castelo, bem camuflado no topo do monte que, já por si, é uma fortaleza natural. Compreende-se bem o porquê de a fortaleza se ter mantido inexpugnável em sucessivos cercos aos quais, com maior ou menor dificuldade foi resistindo. A destruição maior foi causada ironicamente por causas naturais. Algures durante o ano de 1815, um relâmpago atingiu o castelo, que era então usado como armazém de pólvora e de munições, provocando uma explosão que o destruiu parcialmente. 

Como não podia deixar de ser, o castelo está ligado a uma lenda que exalta a irredutibilidade e engenho do povo de Monsanto. Conta a lenda que a povoação foi cercada durante 7 anos, por um inimigo cuja identidade se perdeu no tempo. Esgotando progressivamente os seus mantimentos, viram-se os sitiados com apenas um vitelo e um alqueire de trigo. Debatendo sobre o que se deveria fazer, uma idosa sugeriu uma ideia astuciosa para transformar o desespero dos sitiados no desânimo dos sitiantes. Assim, alimentaram o vitelo com o trigo e, tendo este terminado a refeição, atiraram o pobre animal do alto das muralhas para as posições do inimigo. O animal caiu sobre as rochas e despedaçou-se, espalhando o trigo à sua volta. Vendo que os habitantes de Monsanto, após 7 anos de cerco e sabe-se lá por que providências misteriosas, ainda se davam ao luxo de lhes atirar com animais tão bem nutridos, desanimaram e levantaram o cerco. 

Assim, todos os anos, a 3 de Maio, na festa da Santa Cruz, os monsantinos sobem ao castelo em procissão, transportando potes brancos cheios de flores, que depois lançam das muralhas. Simbolizam estes potes o malogrado vitelo que salvou Monsanto.




Já sei que vão dizer "Olha! Uma seteira!". Errado! Trata-se de uma troneira, ou troeira, em forma crucetada, estrutura que surgiu para colocação das primeiras peças de artilharia, os trons. Os rasgos em forma de cruz, por cima da posição circular da peça, destinavam-se a observação por parte do artilheiro.


É por vezes difícil distinguir a fronteira entre a fortaleza feita pelo homem e a fortaleza natural...




Do alto da parte mais alta do recinto do castelo, onde outrora se ergueu a torre de menagem, a visão é arrebatadora:


Penha Garcia na encosta da crista quartzítica que alberga um impressionante depósito de fósseis (ver aqui) que podem ser visitados em rotas pedestres bem sinalizadas. Penha Garcia tem muitas outras particularidades que merecem uma visita mas... não estas que em 2009 a SIC apontou e que levou a que fosse aqui publicado um artigo.

A capela de São Pedro de Vir-A-Corça avista-se no meio de rochas e arvoredo lá bem ao fundo. Tão ou mais velha que Portugal, esta capela é também ela protagonista de algumas lendas que por aqui se contam.



 Deixando o castelo e regressando um pouco nos nossos próprios passos, avista-se ali ao lado a arruinada Capela de São Miguel, no local onde outrora se encontrava a antiga povoação de Monsanto e da qual esta capela é a única construção que ainda se mantém de pé. À sua volta descobrem-se inúmeras sepulturas escavadas na rochas, as marcas derradeiras que os antigos monsantinos deixaram na paisagem.  


(Foto tirada em 2005)



Com o Sol a despedir-se no horizonte, atrás da Gardunha, foi tempo de voltar a descer e de ver a aldeia com outra luz. Aqui ficam algumas amostras:






Já no caminho de regresso ao Fundão, um último olhar em direcção a Monsanto:


Vale bem a pena visitar a aldeia mais portuguesa de Portugal. Não concordam?

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