sexta-feira, setembro 20, 2013

Postais da Caledónia - Greyfriars Bobby, uma fantástica história fabricada

Estátua e fonte dedicadas a Greyfriars Bobby, inauguradas em 1873


Em Edimburgo, numa avenida perpendicular à Royal Mile, existe uma pequena fonte encimada pela estátua de um cão e, atrás desta fonte, encontra um pub com uma estátua idêntica sobre a porta principal. Este pub tem o nome de Greyfriars Bobby, o mesmo nome que se pode ler na primeira lápide do enorme cemitério situado nas suas traseiras. 

Este Greyfriars Bobby é precisamente o cão representado pelas estátuas e é também o protagonista de uma das mais enternecedoras histórias de Edimburgo, atraindo diariamente a este local inúmeros turistas. Infelizmente, esta história terá sido construída precisamente para cativar os turistas, não correspondendo à verdade dos factos.


A história de Greyfriars Bobby

Conta-se em Edinburgo que, em pleno século XIX, um notável polícia chamado John Gray adoptou um Skye Terrier com 6 meses de idade para servir de cão de guarda e companhia e depressa se tornaram inseparáveis. Um dos seus locais favoritos era o café da senhora William Ramsey, situada na praça de Greyfriars.

Infelizmente, em finais de 1857, John Gray contraiu tuberculose, acabando por falecer em Fevereiro do ano seguinte. Foi sepultado no cemitério de Greyfriars, assim chamado por ter sido um local ocupado pelos monges franciscanos ("frades cinzentos") entre 1447 e 1558. 

O cemitério de Greyfriars, um local tão lúgubre quanto fascinante. São frequentes os relatos de fenómenos paranormais, sendo o mais conhecido o do Poltergeist de Mackenzie. Pelas estatísticas "oficiais", entre 1990 e 2006, 350 pessoas foram atacadas e 170 desmaiaram no local. Uma das mais populares atracções deste local é precisamente a visita nocturna ao Mausoléu Mackenzie e está tudo dito.


Na manhã seguinte, o curador do cemitério, um tal de James Brown, deu de caras com o pequeno Bobby deitado sobre a campa do dono. Como não era permitida a entrada de cães no cemitério, escorraçou-o apenas para o voltar a encontrar no mesmo local na manhã seguinte. Ao terceiro dia, apiedou-se do cão e deu-lhe alguma comida. 

O Bobby acabou por se tornar o único habitante vivo permanente do cemitério, nunca se afastando da campa do dono excepto para ir comer ao café da Sra Ramsey, onde os clientes tinham criado o hábito de lhe dar de comer. Assim, sempre que se ouvia o canhão da 1h da tarde, o Bobby corria para o café, onde comia, e voltava ao cemitério. Esta rotina só terminaria em 1872, com a sua própria morte.


A história verdadeira é substancialmente diferente

Segundo um historiador da Universidade de Cardiff, chamado Jan Bondeson, esta história foi fabricada para atrair turistas com as suas gorjetas. Alarmado pelas diferenças entre os quadros que se pintaram do pequeno cão, enquanto este ainda era vivo, e pela longevidade de 18 anos que a história sugere, concluiu que houve mais que um cão envolvido nesta história.

O primeiro cão terá sido um rafeiro que foi abandonado na zona do cemitério, tendo sido adoptado pelo curador do mesmo, o tal James Brown. O curador, que todos os dias ia comer ao café da Sra Ramsey acompanhado pelo seu cão, começou a contar a história que hoje se conhece (certamente embelezada ao longo dos anos) aos forasteiros que por lá apareciam. Em seguida, acompanhava-os ao cemitério, a troco de uma gorjeta, mostrando-lhes a campa onde o cão teimava em deitar-se.

A história acabou por ser alvo da atenção da imprensa e, como é lógico, o número de turistas interessados em conhecer o pequeno Bobby disparou, para felicidade dos bolsos de Brown. Infelizmente, o cão acabou por morrer e, para não perder a sua fonte de rendimento, o curador do cemitério adoptou outro cão, este sim o Skye Terrier representado nas estátuas. A estátua da fonte foi mesmo elaborada em 1870, usando como modelo o cão, na altura ainda em vida. 

A história acabou por se tornar uma referência incontornável de Edimburgo e ainda hoje, muitos são aqueles que se desviam da Royal Mile para ir ao cemitério de Greyfriars para conhecer os locais onde supostamente decorreu esta fantástica história. Junto ao memorial dedicado ao Skye Terrier, deixam flores e... pauzinhos, algo com que qualquer cão gostaria de brincar, pois está claro. 


Memorial dedicado a Greyfriars Bobby, na entrada do cemitério Greyfriars, onde se pode ler:
"Greyfriars Bobby / Morreu a 14 de Janeiro de 1872 / com 16 anos de idade. / Que a sua lealdade e devoção possam ser uma lição para todos nós." e ainda "Eregido pela Dog Aid Society / of Scotland e descerrado por Sua Alteza Real / o Duque de Gloucester CCVO / a 13 de Maio de 1981"

Foto do pub e da estátua: Terrierman's Daily Dose

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