quarta-feira, julho 10, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 5


Nota introdutória: 
Cumpre-se hoje o 1875º aniversário da morte do imperador Adriano, ocorrida a 10 de Julho de 138 na sua villa de Baiae perto da actual cidade de Nápoles. (foto: Wikipédia)


Mapa do percurso
(Clicar para ampliar)


Dia 5 - De Walton a Carlisle (22km incluíndo a voltinha obrigatória pelo centro de Carlisle)
 [Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]


A inspiradora vista matinal. Lá bem ao fundo, avista-se o início dos montes Peninos.

Acordámos bem cedo com a luz a entrar pelas janelas (mais uma vez sem cortinas ou persianas) e aprontámo-nos para a penúltima etapa da nossa caminhada, que nos levaria à cidade de Carlisle, a 2ª maior cidade do Trilho e outrora o centro nevrálgico das operações militares de toda a Muralha de Adriano . 

Antes de sair, reparei que na sala de estar das camaratas existia uma interessante colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial, desde capacetes a pequenas publicações, juntamente com outros itens de cariz mais etnográfico. Esta colecção deixou-me curioso e seria o mote para uma pequena conversa com os donos da casa após o pequeno-almoço. Sobre a lareira encontrei duas publicações que mais não eram que manuais com regras de comportamento para soldados, um para soldados britânicos em solo francês e outro para soldados americanos em solo britânico.


A sala de estar do barracão das camaratas, decorada com uma colecção de objectos da 2ª Guerra Mundial. Sobre a lareira encontravam-se duas publicações que tive a ocasião de folhear.


Um manual de regras de comportamento para soldados estado-unidenses estacionados no Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial. Um verdadeiro tesourinho cheio de regras que são um regalo de leitura!

Bastou uma pequena leitura em diagonal pelo manual para soldados americanos estacionados em solo britânico para perceber o tom de superioridade e condescendência do Tio Sam em relação aos seus aliados. Eis algumas passagens que achei por bem partilhar convosco:
Os britânicos são reservados e não antipáticos. (...) Numa pequena e populosa ilha onde vivem 45 milhões de habitantes, cada homem aprende a guardar cuidadosamente a sua privacidade e é igualmente cuidadoso quando se trata de não invadir a privacidade alheia. Por isso, se os britânicos se sentarem num autocarro ou num comboio sem meter conversa consigo, isso não significa que estão a agir de forma altiva ou antipática. Provavelmente estão a prestar-lhe mais atenção do que pensa. (...)
Não procure dizer aos britânicos que a América ganhou a última guerra nem faça piadas acerca da dívida de guerra ou das derrotas britânicas nesta guerra.
NUNCA critique o Rei ou a Rainha. Não critique a comida, cerveja ou cigarros. Lembre-se que eles [os britânicos] estão em guerra desde 1939.

O pequeno-almoço (mais uma vez um belo english breakfast com tudo a que tínhamos direito) foi servido na enorme mesa de uma sala decorada com objectos do século XIX cujas paredes estavam cobertas de quadros e fotografias da família dos donos da casa. Sentados à mesa estavam os nossos companheiros de camarata, para além de outros caminheiros que tinham optado por acampar no relvado frente à casa. Tivemos de esperar um pouco até sermos servidos já que tinha havido um erro de contas relacionado com o número de pessoas que tinham pedido pequeno-almoço mas valeu bem a pena esperar por aquele bem recheado prato acabado de confeccionar.

A residência dos donos da quinta é uma bela construção vitoriana que dá uma ideia da antiguidade deste local.

Após o pequeno-almoço, enquanto acertávamos contas, fiquei a saber que Richard Sutcliffe, dono da quinta, é um fervoroso coleccionador de objectos relacionados com a 2ª Guerra Mundial, embora não tenha participado no conflito. Um dos seus 3 irmãos, contudo, não teve a mesma sorte e acabou mesmo por ser morto em combate. Fiquei também a saber de uma história curiosa: embora esta região tenha passado ao lado dos efeitos directos da 2ª Guerra Mundial, em contraste com o Sul de Inglaterra e sobretudo Londres, num dia fatídico também por aqui houve vítimas. Um bombardeiro que tentava regressar à base acabou por se despenhar sobre o canil que pertencia ao avô de Richard, matando todos os cães que aí se encontravam.

Richard e Margaret Sutcliffe, os nossos anfitriões na quinta Sandysike.


A caminho de Carlisle

Já sabíamos de antemão que pouco veríamos da Muralha de Adriano nesta etapa. Para além de visões esporádicas do fosso e do Vallum a Muralha estaria mais presente na toponímia do que na paisagem, havendo até uma altura a partir da qual o Trilho se afasta do traçado da própria Muralha (facto bem visível no mapa). Seria portanto um percurso para apreciar principalmente a beleza natural e, se possível, visitar alguma coisa na chegada a Carlisle.

Continuando nos moldes em que tinha terminado a etapa do dia anterior, vimo-nos a caminhar por quintas, passando até pelo meio de algumas. Claro, voltámos a apanhar chuva mas desta vez nada mais que uns chuviscos esporádicos no início do trilho. Seria aliás o mote para uma graçola por parte de um membro de um grupo de caminheiros, com quem nos cruzámos mais à frente vindo em sentido contrário que, depois de informado que tínhamos apanhado chuva lá atrás, nos agradeceu: -"Obrigado por terem tratado disso por nós.". - "De nada. Disponham sempre!". É impossível ficar indiferente ao humor desta gente.


À saída da quinta Sandysike, passamos novamente pelo portão por onde chegámos no dia anterior, vindos do bosque. Junto a ele encontra-se uma caixa com os dizeres "Espreite para dentro :)" e, dentro dela, um bilhete a pedir donativos para a Igreja de Walton, assim como várias moedas que os caminheiros foram deixando ao passarem por aqui.


A paisagem permite alguns "bonecos" como este. Prados verdes cheios de borbotos.

Por falar em ovinos, eis um exemplar temerário que parece estar a tentar perceber por que carga de água lhe estão a invadir o território, provando ao mesmo tempo que, como dizem os nossos "irmãos" brasileiros, tamanho não é documento.

Um ponto do trilho que pode constituir um desafio para os caminheiros que, por uma questão de precaução, acumularam mais gorduras antes de iniciar a caminhada. A chegada a Newtown é feita por uma estreita passagem entre a cerca de madeira e o barracão/muro que se vêem nas fotos.


Chegada ao sítio de "Oldwal". Eis a persistência da Muralha na toponímia.



Agraciados por um decreto do Imperador Adriano!

O último vislumbre da Muralha acontece em Bleatarn, local onde se caminha sobre ela, embora esteja sob o solo, sendo também visível o fosso e o Vallum este de forma muito ténue mais a Sul. O mais interessante deste local acaba por ser o resultado visível da acção de construção da Muralha cuja matéria prima foi obtida no próprio local, sendo visíveis ainda as marcas da pedreira de onde os romanos extraíram a pedra, assim como da rampa que serviu para o transporte da mesma. Intrigantes são também uns sulcos em ziguezague diante do fosso, não se sabendo no entanto qual seria o seu propósito.

O sulco, o monte onde a Muralha ainda se esconde sob o nível do solo e a cova onde outrora funcionou a pedreira para a construção da fronteira fortificada do Império. Há quem seja da opinião que, aquando do abandono da pedreira, esta terá sido inundada para aí se fazer um viveiro de peixes para alimentar a guarnição da Muralha. Teorias.

No final desta passagem pela Muralha, ao chegarmos ao sítio conhecido como Stall-in-the-Wall, fomos confrontados pela primeira vez com o conceito de "honesty box", literalmente a caixa de honestidade. Trata-se basicamente de uma caixa cheia de barras de cereais, chocolates, sumos e águas, mantida por um habitante local anónimo, da qual podemos tirar o que quisermos, deixando dentro de um pequeno tupperware o pagamento correspondente, de acordo com o preçário ali afixado. No dia seguinte teríamos o prazer de encontrar uma extrapolação radical deste conceito, num momento que proporcionou (mais) um encontro agradável. Mas disso falarei no próximo artigo.

A Caixa de Honestidade do Stall-on-the-Wall, "por decreto do Imperador Adriano", segundo o que está escrito num papel no exterior! Mais alguém acha que uma coisa destas teria uma vida muito curta aqui pelo nosso rectângulo à beira-mar plantado?

A chegada a Carlisle

Continuando o nosso caminho, chegámos a Crosby-on-Eden, povoação situada junto à estrada que hoje substitui a antiga "Stanegate" (recordar aqui). A chegada a esta aldeia coincide com a chegada ao rio Eden, cujo curso serviu de orientação para a construção do extremo Oeste da Muralha e que seria também o curso que seguiríamos até ao final do Trilho no dia seguinte. Ao sairmos da povoação recomeçou a chuva mas, felizmente, foi de pouca dura. Quanto ao percurso, durante cerca de uma hora foi pouco interessante, fazendo-se primeiro por caminhos de terra batida junto a quintas, sendo que uma delas foi um verdadeiro desafio de resistência para o nosso olfacto e para a nossa agilidade de pés na prática do "Evitar-o-líquido-escuro-mal-cheiroso-que-cobre-o-caminho".  

Ultrapassado a simpática zona residencial de Linstock, o piso passou a ser exclusivamente em alcatrão até Rickersby, já nos subúrbios de Carlisle.


O rio Eden perto de Crosby-on-Eden, visto sob uma chuvada de boas-vindas. O Trilho terminaria na foz deste rio no dia seguinte e com um episódio sensacional!

Ao chegarmos a Rickerby, local onde se situa uma espécie de palácio/hotel/moradia, avista-se uma torre octogonal no meio de um prado. Trata-se de uma "Folly tower", ou seja, um torre vitoriana puramente decorativa, construída no século XIX, pelo então mayor de Carlisle (e também magistrado e banqueiro). Esta excentricidade combina com a excentricidade do nome deste mesmo homem: George Head Head (assim mesmo).

Após atravessarmos o parque vitoriano de Rickersby, onde percebemos que já estamos perto de uma grande cidade quando as pessoas com quem nos cruzávamos já não nos cumprimentavam, chegámos novamente à margem direita do rio Eden e à ponte de ferro pedestre que permite a sua travessia rumo a Carlisle. O trilho levou-nos a percorrer uma zona verde, junto a escolas e um campo de golfe, acompanhando as sinuosidades do rio até finalmente avistarmos o Sands Centre, um complexo de desportos e eventos bastante concorrido.

O trilho na aproximação a Carlisle. Um regalo para os olhos e o pesadelo para qualquer indivíduo alérgico a pólens.



Uma vez que era aqui que tínhamos de carimbar o nosso Passaporte, fizemos uma paragem para comer e beber alguma coisa, até porque nos últimos quilómetros o Sol voltara a aparecer em força. Apesar de não termos visto ainda construções por causa da cintura verde que rodeia o centro da cidade, o ruído dos automóveis denunciava a sua proximidade. Era também a partir de aqui que tínhamos previsto fazer um desvio para visitarmos o castelo de Carlisle e o centro histórico da cidade. 

E assim chegámos a Carlisle, logo após o Sands Centre! Só faltou mesmo a banda e uma mesa com croquetes e sumos de fruta porque o tapete, neste caso verde e de alta qualidade, estava bem estendido à nossa frente


O Castelo de Carlisle, o castelo recordista de cercos.

A primeira paragem foi o castelo de Carlisle, uma impressionante fortaleza em arenito avermelhado. Deixando as mochilas na recepção (que alívio para as cruzes!), demos uma volta pelas muralhas e pela torre de menagem cujas salas foram todas musealizadas.

O castelo de Carlisle ocupa parte do espaço onde outrora se situava Luguvalium, o forte romano de turfa e madeira que aqui foi construído no ano de 72 e junto ao qual surgiu aquilo que viria a ser a cidade de Carlisle. O primeiro castelo foi construído pelos ingleses em 1072, depois de expulsarem os escoceses da região, e depressa se tornou a principal fortificação do Noroeste do reino de Inglaterra e centro de disputas constantes com o vizinho reino da Escócia.  Os escoceses voltaram e reconquistaram o castelo no século XII, liderados por uma das grandes figuras históricas com "David" no nome, neste caso o Rei David I que acabaria por falecer neste castelo alguns anos mais tarde. Até à união entre os dois reinos, em 1603, o castelo voltaria a mudar de mãos várias vezes. Os constantes cercos fazem deste castelo o recordista de cercos do Reino Unido.

Durante as revoltas Jacobitas o castelo voltaria a ser palco de combates, quando os Highlanders tomaram o castelo e, por sua vez, acabaram por ser derrotados e executados de forma pouco agradável pelo Governo, através de métodos variados como enforcamento, afogamento, esquartejamento entre outros.


O castelo de Carlisle e a torre de menagem, datada do século XII. Cada piso conta uma história sobre o castelo.

A entrada da cidadela, sobre um bastião em meia lua construído para aumentar a defensabilidade do fosso.

Subida para o piso superior da porta de entrada, antiga morada do governador do castelo.

Um dos canhões do castelo, por coincidência apontado para a Escócia.


Na base da torre de menagem encontram-se as masmorras onde os Highlanders derrotados foram postos a ferros, sem comida, água ou acesso a instalações sanitárias. Os que sobreviveram hidrataram-se lambendo a humidade de algumas pedras da parede em frente, sendo hoje conhecidas como "Licking stones" (Pedras de Lamber)

Ser guarda no castelo em períodos pacíficos era uma actividade que proporcionava algum aborrecimento, daí que alguns guardas tenham aproveitado para rabiscar as paredes, deixando aí gravadas figuras como estas.

Neste pequeno oratório, entalado entre uma cozinha e uma sala grande da torre de menagem, deu o seu último suspiro o rei David I da Escócia (uma das grandes figuras históricas com "David" no nome).

Pelas ruas de Carlisle

Uma vez que saímos do castelo já em cima das 18h, já não foi possível visitar o museu situado mesmo em frente, para grande pena nossa. Tivemos pois de nos cingir a dar uma pequena volta pelo centro histórico da cidade, antes de prosseguirmos para Oeste, rumo ao hotel onde iríamos passar a noite. O arenito vermelho é uma presença constante nas ruas, desde os passeios aos próprios edifícios, dando um tom muito particular à cidade.

O passeio junto ao museu de Carlisle, o Tullie House Museum & Art Gallery, evoca a Muralha de Adriano e os seus fortes, tanto os que faziam parte dela como os da rectaguarda.

A Castle Street, que liga o Castelo à praça principal do centro histórico de Carlisle, o Market Cross.

A Catedral de Carlisle, construída a partir do século XII.

À chegada ao hotel, o Vallum House já na saída Oeste da cidade, tivemos direito a um delicioso jantar numa sala a rebentar pelas costuras. O atendimento foi muito simpático e essa simpatia estendeu-se à permissão que nos foi dada para, no dia seguinte, podermos deixar no hotel as nossas mochilas após o check-out. Iríamos assim poder cumprir a nossa última etapa sem o peso da bagagem, uma etapa que terminaria com um episódio simplesmente memorável!

A seguir: o fim do Trilho da Muralha de Adriano e o episódio que fez de nós o tema de conversa entre os habitantes de Bowness.

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