terça-feira, maio 07, 2013

Pelos trilhos dos Pirinéus II

Ao segundo dia de caminhada, o percurso foi significativamente reduzido, tendo em conta que desta vez íamos acompanhados por dois camaradas mais jovens, consistindo desta vez num circuito de cerca de 9km com passagem por duas aldeias em encosta e por um interessante castelo em ruínas, num monte que ainda esconde alguns segredos.

A primeira parte do percurso foi feita junto ao rio Vicdessos até à vila próxima de Auzat (já referida anteriormente devido à importância que a produção de alumínio aqui teve). Esta povoação, situada na confluência de 2 vales, é encantadora até pelo cuidado que houve em harmonizar a sua arquitectura com os cursos de água que a atravessam.

Ribeiro de Sailex atravessando a vila de Auzat

Em Auzat, tal como acontece praticamente em todas (senão mesmo todas) as localidades de França, com maior ou menor monumentalidade, também em Auzat se ergue um monumento que recorda os filhos desta terra que deram a vida pela França na I Guerra Mundial, tendo depois sido acrescentados os nomes dos desaparecidos na II Guerra Mundial e nos conflitos do Magrebe. A quantidade de apelidos idênticos nesta estela (há até um apelido que se repete 12 vezes!) faz-nos pensar no terrível drama que deve ter sido o 1º conflito mundial para as comunidades locais.

Monumento aos "filhos de Auzat" mortos pela Pátria, vestido de gala por uma cerejeira brava.

Este percurso tem o condão de oferecer cenários que regalam a vista. É ou não é uma paisagem fantástica?

Para lá de Auzat, o trilho é encantador, delimitado por muretes e atravessando um enorme prado. O cuidado na preservação dos trilhos e das suas marcações é aliás uma constante por estas bandas, valorizando ainda mais a experiência do percurso. Após o prado, o trilho entrou na floresta e começou a subida de 500m que nos haveria de levar a Goulier, com uma paragem a meio.



O trilho antes da entrada na floresta...


...e o início da subida.

Finalmente, o "ataque final" ao castelo de Montreal de Sos! Note-se a determinação dos valentes caminheiros.

Após algum tempo de subida, a floresta abriu subitamente permitindo avistar o monte onde outrora se erguia o castelo de Montreal de Sos, um dos mais importantes castelos da região, hoje em ruínas. A história deste castelo é bastante interessante. Erigido no século XII pelos condes de Foix, destinava-se não apenas a controlar esta zona estratégica de confluência de vales mas sobretudo a produção de ferro, metal em que esta zona era rica. Com o passar dos séculos, a sua localização remota no condado e o medo que fosse tomado pelos inimigos dos condes de Foix levaram a que fosse desmantelado no século XV, tendo a pedra sido empregue pelos aldeões de Olbier, aldeia que se situa na base do esporão do castelo, na construção das suas casas.

A aldeia de Olbier na base do esporão de Montreal de Sos, muitas destas casas foram construídas com as pedras do antigo castelo



As ruínas do castelo de Montreal de Sos, destacando-se à esquerda o que resta da torre do "Campanal", deixando presumir que a torre terá em tempos sido usada como torre sineira



O monte sobre o qual se situa o castelo tem algumas grutas nas quais se encontram algumas pinturas que suscitam muita discussão, já que alguns vêem nelas representações do próprio Graal. Estas grutas foram também usadas como locais de enterramento e, o percurso para aceder ao castelo passa até por algumas delas.

O sítio tem vindo a ser alvo de escavações arqueológicas desde o ano 2000, com resultados surpreendentes. O achado mais relevante da última campanha foi mesmo uma sepultura com restos mortais que permitiram a recolha de ADN que agora está a ser comparado com o dos habitantes mais idosos da aldeia de Olbier, com vista a detectar possíveis descendentes dos habitantes do castelo. Será que alguém ainda se vai lembrar de reclamar o castelo para si?



Feita uma pausa para almoçar e apreciar a paisagem, retomámos a subida, desta vez em direcção à aldeia de Goulier, situada na base da estação de esqui com o mesmo nome, nas faldas do Pic d'Endron. Os prados que se encontram imediatamente antes da aldeia eram demasiado tentadores e por isso resolvemos fazer uma pausa para apreciar a paisagem e o Sol quentinho que se fazia sentir.


Uma caminheira aproveita para jiboiar, ajudando a completar o cenário.


Vista do Pic d'Endron (2472m)

A aldeia de Goulier é relativamente grande, certamente tirando dividendos da proximidade das pistas de esqui. Um idoso que se encontrava sentado, também ele aproveitando o Sol, tranquilizou-nos em relação à segurança da água da fonte que dominava a praceta. Despedimo-nos e seguimos pela rua principal, para começar a descida de regresso a Vicdessos. Aparentemente, nem tudo é pacífico em Goulier, como o prova este aviso na entrada de um pequeno quintal zelosamente cercado: "Atenção, zona armadilhada!".


Pelo sim, pelo não, mantivemos a distância. Este quintal parecia mais protegido que o primeiro-ministro português em dia de visita a uma universidade.


Os telhados tradicionais também são uma presença constante em Goulier. Imaginem a paciência necessária para talhar a lousa em peças redondas como estas!


A Câmara e a igreja de Goulier, dominam a maior praça da aldeia

Na saída de Goulier, encontra-se um abrigo de pastor recuperado. Trata-se de um orri, uma habitação sazonal que era empregue pelos pastores nas épocas estivais da transumância. Muitas vezes eram construídas verdadeiras aldeias de orris, havendo construções para habitação dos pastores e respectiva família, outras com cerca para o gado e outros animais domésticos como as galinhas, outras ainda destinadas a servir de armazém. Estas aldeias ficavam desertas no Inverno. 

Um orri, uma construção muito típica desta região, recuperado para ornamentar o acesso principal de Goulier.


O percurso de regresso, em descida acentuada, permitiu-nos olhar de forma diferente para a aldeia de Olbier e para as ruínas do castelo de Montreal de Sos onde havíamos estado cerca de 1h30 antes. Com um pouco de esforço, é possível imaginar uma muralha de pedra, entre o bege e o cinza, flanqueada por duas torres, a do Campanal e a de Menagem, coroando o monte.



Olbier e Montreal de Sos



Finalmente, regressámos a Vicdessos onde uma deliciosa recompensa nos aguardava na padaria da aldeia. Afinal, havia que compensar as calorias perdidas!


A ponte sobre o Vicdessos, à entrada da povoação com o mesmo nome. Ponto final na jornada.


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